Mostrando postagens com marcador Povos Indígenas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Povos Indígenas. Mostrar todas as postagens

sábado, 1 de junho de 2013

Assassinato de índio terena no Mato Grosso do Sul

O assassinato do índio terena Oziel Gabriel por forças policiais, em Mato Grosso do Sul, expressa claramente a omissão e o despreparo do governo federal diante dos conflitos fundiários na região centro-oeste. Oziel foi morto por ocasião da reintegração de posse da fazenda Buriti, ação que contou com o apoio da polícia federal. Essa fazenda está em situação de litígio judicial por ocupar um território da etnia terena, conforme aponta um denso laudo antropológico produzido por Jorge Eremites de Oliveira e Levi Marques Pereira, ambos professores da Faculdade Federal da Grande Dourados. Além de apresentarem um levantamento arqueológico e antropológico extremamente denso, fornecendo indícios inquestionáveis da presença dos terenas na região do conflito desde meados do século XIX  - reconhecendo, desta forma, a legitimidade constitucional das suas demandas por terra - o documento também traz informações sobre o histórico das forças de repressão no estado do Mato Grosso do Sul e a sua vinculação direta com o poder público local.

O atual governador, André Puccinelli (PMDB), é fortemente vinculado com a elite rural do estado. Além de ser acusado de coordenar um audacioso plano de pagamento de propina para parlamentares e corrupção ativa e passiva, o governador ficou famoso por conclamar, em maio de 2010, todos os setores "ricos" do MS a "serem mais nacionalistas e se unirem na luta contra os sem terra e os povos originais". Se, por um lado, Puccinelli tem se utilizado de contatos em Brasília para garantir a defesa dos interesses dos fazendeiros, o governo Dilma precisa do atual governador e sua base do PMDB para manter a "governabilidade" do país e viabilizar a sua reeleição em 2014.

[Vale lembrar que o ex-governador, José Miranda dos Santos (também conhecido como "Zéca do PT"), é filho de Orsirio Santos, comandante de uma antiga "Captura"  que, em tese, foi formada para perseguir bandoleiros, mas que também perseguiu e matou índios naquela região, conforme aponta o estudo "Coronéis e Bandidos em Mato Grosso (1889-1943)", de Valmir Correia (1995), mencionado no laudo antropológico dos professores da UFGD. Ao que parece, nessa região, o ofício selvagem e bárbaro de "matador de índios" é transmitido de pai para filho, numa espécie de 'legado familiar maldito'. Mas não é só de manter a "tradição familiar" que o ex-governador é acusado. Constam na justiça vários processos de improbidade administrativa, um amplo histórico de denúncias de crimes contra o poder público, como desvio de recursos, corrupção ativa e passiva, compra de votos de parlamentares e favorecimento dos seus interesses econômicos, assim como de familiares e parentes.]

As alianças políticas que sustentam o atual governo incluem a chamada "ala ruralista", que possui tentáculos em diversos partidos políticos da "base aliada". Esta face sinistra e obscura do Governo Dilma tem produzido uma das maiores contradições da história política brasileira: o fato de um governo que se diz de esquerda estar diretamente vinculado às forças de repressão que dominam a política regional no interior do país. Em situações de conflito aberto, são as vozes da antiga UDR que reemergem com força no cenário político nacional. Vale mencionar que isso se deve, em grande parte, à aliança governista com o PMDB e seus aliados, muitos deles representantes do que há de pior na política brasileira.

Mas essas redes partidárias e governamentais também revelam que o  desenvolvimentismo da era PAC está estruturado em bases extremamente conservadoras, alimentado-se do que existe de mais arcaico no cenário político brasileiro. Inclusive, os dados macroeconômicos recentemente revelados reafirmam que o 'progresso', no Brasil, continua sendo conduzido pela aristocracia latifundiária e, em grande parte, à favor dos seus interesses econômicos, agora traduzidos sob a alcunha do "agronegócio", responsável pelo pouco de crescimento que terá o PIB brasileiro em 2013. Uma economia que se quer desenvolver em bases próprias e autônomas não pode ser conduzida pelos setores mais conservadores do país, sob o risco de ser reduzida pelas forças da história a um "desenvolvimentismo neoconservador".

Não quero, com isso, ser injusto com o atual governo, que tem, em outros aspectos, conduzido ações importantes. No entanto, não podemos deixar de visualizar uma agenda política extremamente conservadora no campo dos direitos indígenas e demasiadamente insensível às questões sociais e étnicas. Reuniões e ações emergenciais convocadas sob o saber amargo da polêmica e do conflito aberto revelam a total ausência de um planejamento e de uma ação preventiva nos principais focos de conflito socioambiental no Brasil. Conforme aponta estudo realizado pela FUNAI, existem hoje mais de 50 pontos de conflito fundiário envolvendo índios e ruralistas. Apesar da realização desse mapeamento inicial, o governo federal não possui um planejamento efetivo para enfrentar o problema, muito menos uma ação coordenada. Por outro lado, a recente exclusão do controverso caso "Belo Monte" da agenda política da secretaria de direitos humanos da presidência da república revela também um despreparo técnico no tratamento de temas mais emergentes associados aos direitos humanos e ambientais coletivos.

Infelizmente, não se trata da primeira tragédia envolvendo lideranças indígenas. Outros conflitos estão ocorrendo todos os dias em outras regiões do país. No mesmo estado, em Dourados, índios da etnia Guarani-Kaiowá enfrentam diariamente os abusos e as violências cometidas por agentes do agronegócio, que contam com o total apoio policial e judicial da elite política local e seus representantes governamentais.

No Pará, na região de Altamira, índios de diversas etnias - entre eles os Kayapó e os Munduruku - ocuparam o canteiro de obra da Usina Hidroelétrica Belo Monte. Eles exigem que o governo federal respeite os seus direitos de 'livre consentimento' em caso de obras com impacto direto em suas vidas, conforme prevê a OIT 169, assinada pelo governo brasileiro.

Os fortes vínculos político-partidários do Governo Dilma com a elite política do estado do Mato Grosso do Sul - a mesma elite latifundiária que financia e promove violentas ações genocidas contra diversas etnias indígenas e camponeses sem terra que vivem na região - impede que o governo federal, por intermédio da PF, atue como uma força do poder público destinada à resguardar o 'estado de direito' proclamado na Constituição de 1988. Afinal, a nossa carta constitucional prevê, entre os seus princípios estruturais, o dever do governo em garantir e defender os interesses das minorias civis contra toda e qualquer forma de abuso e violência que possa ser cometida por setores com maior poder econômico e político. Toda a nossa legislação trabalhista está baseada no princípio de que "tratar os diferentes de forma diferenciada" é o único instrumento de garantia da igualdade de direitos prevista na constituição. O mesmo pressuposto jurídico ganhou materialidade em diversos artigos da CF de 1988, como é o caso dos artigos 216 e 231, entre outros; na instituição do Ministério Público como órgão destinado a proteger os direitos da sociedade civil contra toda e qualquer forma de abuso de poderes estatais e civis; e na recém editada lei de cotas raciais e sociais na universidade pública. Esses preceitos existem porque  a igualdade em um estado de direito é uma garantia constitucional e não histórica. Trata-se de algo que, para se efetivar na prática, depende em grande parte da ação do poder público, e não de sua omissão ou 'neutralidade'.

Uma breve análise dos dispositivos jurídicos atualmente vigentes - sem falar nos tratados e acordos internacionais assinados pelo governo brasileiro - não deixa dúvida de que caberia ao governo federal, através das instituições competentes, garantir que o processo político e judicial transcorra sem prejudicar ou acarretar em qualquer forma de perseguição ou violência cometida contra grupos diretamente envolvidos no conflito, principalmente, os índios, devido à sua vulnerabilidade frente ao ataque anônimo das forças locais de repressão.

Caberia ao governo federal buscar a assessoria de 'especialistas' que acompanham o conflito na região, pois a CF prevê um tratamento "diferenciado" aos índios, devido aos seus direitos específicos associados ao reconhecimento da sua identidade étnica e cultural diferenciada.  Essa ação policial deveria ser coordenada por uma equipe que incluísse membros do Ministério Público Federal, representantes de entidades civis organizadas, membros da Comissão de Direitos Humanos, jornalistas, organizações internacionais de direitos humanos, organizações indígenas locais e regionais, técnicos e funcionários da FUNAI, além de especialistas em etnologia indicados pela Associação Brasileira de Antropologia.

Nada disso, no entanto, foi feito. Mais preocupada em anunciar a retórica e o profetismo do desenvolvimentismo, o governo Dilma reproduz a mesma mentalidade política autoritária dos militares, que hoje sabemos - através dos trabalhos desenvolvidos pela Comissão da Verdade - perseguiram e violentaram a integridade cultural e física dos povos indígenas brasileiros.

Esse total despreparo e insensibilidade do Governo Dilma e seus mandatários diante dos conflitos fundiários e étnicos que estão ocorrendo em diversas regiões do Brasil - conflitos originados, em grande parte, na política desenvolvimentista da era PAC e nos subsídios governamentais concedidos aos agentes que atuam nas frentes de expansão da sociedade nacional - demonstram uma carência do governo federal no planejamento das ações governamentais associadas ao "desenvolvimento", o que tem resultado em sérios danos aos povos indígenas e à sociedade brasileira como um todo. É um absurdo que o atual governo federal compartilhe com os ruralistas e seus representantes políticos uma mentalidade bárbara, selvagem e primitiva, que poderia ser resumida na insistência desses setores em tratar a questão fundiária e indígena como "uma questão de polícia", e não de 'política'. Após destruir os vestígios do passado com suas máquinas agrícolas, os ruralistas buscam destruir também os vestígios humanos e sociais de um processo de dominação colonial de longa data, hoje sintetizado de forma expressiva em suas ações políticas contemporâneas de perseguição e violência contra os povos indígenas brasileiros.

Para quem tiver interesse em se informar mais sobre a situação dos índios Terena na fazenda Buriti, recomendo a leitura do laudo mencionado aqui, que foi publicado em livro e pode ser acessado na íntegra no site:

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Tropas Federais Vs. Povo Munduruku


No sudoeste do Pará, os índios Munduruku  e ribeirinhos da região lutam contra a construção da hidroelétrica  Tapajós. Essa obra terá um impacto sobre o meio ambiente regional, colocando em risco recursos naturais essenciais para a reprodução do modo de vida dessas populações. Além de representar um risco factual para índios e ribeirinhos, a construção dessa hidroelétrica - projeto associado diretamente aos objetivos de 'desenvolvimento antropofágico' do governo federal - também vai colocar 'embaixo d'água' um patrimônio arqueológico de valor inestimável.

Esse processo de destruição é informado por estudos de 'impacto' que calculam uma série de estimativas sobre a magnitude dos danos causados ao meio ambiente local, que depois serão indenizados pelo Governo. Os pareceres técnicos são, portanto, um elemento fundamental para a liberação da obra. Trata-se de dispositivos jurídicos criados para 'viabilizar' institucionalmente ações que resultam em danos ambientais e sociais. Essa 'economia do dano' está associada a um pressuposto fundamental: a inevitabilidade do 'progresso' e do 'desenvolvimento'. A estimativa do impacto e os estudos que a caracterizam são etapas necessárias para legitimar juridicamente um processo mais amplo e complexo, com efeito desastroso na vida dos povos que vivem na região, mas cujos fundamentos  e objetivos não são colocados em discussão com a sociedade brasileira.

A política energética do governo - e toda a rede formada em torno da sua viabilização, o que inclui o cartel de empreiteiras e seus representantes políticos no congresso nacional - não é discutida ou problematizada. O pressuposto que está por trás disso é que o 'desenvolvimento' (tal como pensado pelo Governo Dilma) é inevitável, cabendo apenas 'calcular' o 'preço do progresso', conforme título de reportagem da rede globo (ver outro post sobre esse tema).  

Recentemente, em março de 2013, o governo federal enviou uma 'força nacional' para a região, composta por veículos de guerra e soldados, colocando em ação uma verdadeira operação de guerra para garantir a continuidade dos estudos dos técnicos do IBAMA.


Por outro lado, os índios e demais grupos locais diretamente afetados pela obra não foram consultados pelo governo, o que representa uma clara violação dos princípios de 'consentimento informado' enunciados na Convenção nº 169 da OIT, assinada pelo Brasil. Essa truculência e insensibilidade do governo federal expressa claramente o lado 'obscuro' do desenvolvimentismo da era FHC/Lula/Dilma e o seu efeito na vida das populações locais.

terça-feira, 22 de maio de 2012

A Máquina Social 'Primitiva' - Deleuze e Guattari

Segundo Deleuze e Guattari, a máquina social primitiva está voltada para a codificação dos fluxos - de mulheres e de crianças, de rebanhos, de sementes e toda espécie de objetos - o que implica em uma série de operações (188). Toda sociedade é um socius de inscrição onde o essencial é marcar e ser marcado. "Só há circulação quando a inscrição a exige ou permite" (189).

As "máquinas sociais pré-capitalistas" codificam os fluxos de desejo (185). Elas têm os homens como peças. "A máquina social primitiva codifica os fluxos, investe os órgãos, marca os corpos, que são da terra. A essência do socius registrador, inscritor, enquanto atribui a si próprio as forças produtivas e distribui os agentes de produção, consiste nisso: tatuar, recortar, escarificar, mutilar, cercar, iniciar" (191). Ver mais sobre a inscrita corporal nas páginas 249-250.

"A máquina territorial é a primeira forma de socius, a máquina de inscrição primitiva, 'megamáquina' que cobre um campo social" (187).

"A noção de territorialidade só é ambígua aparentemente", quando entendida como princípio de residência ou de repartição geográfica: "é evidente que a máquina social primitiva não é territorial" (pelo menos não nesse sentido) (194). Ver, por exemplo, o parentesco como forma de territorialidade que envolve uma independência entre a distribuição das pessoas e a sua relação com o território (200). Outros exemplos fornecidos pelos autores são as diferentes instâncias de "representação territorial" nas sociedades indígenas.

A "máquina segmentária" é citada como um exemplo de máquina territorial primitiva (202-3). "A máquina territorial segmentária esconjura a fusão pela cisão, e impede a concentração de poder mantendo os órgãos de chefia numa relação de impotência para o grupo" (203-4). Ver também sobre as famílias nas sociedades primitivas nas páginas 221 e 231.

Sociedades primitivas não são 'sem história', mas possuem outra forma de historicidade (201).

Terra: "unidade primitiva, selvagem, do desejo e da produção é a terra. (...) Ela é a superfície sobre a  qual se inscreve todo processo de produção, sobre a qual são registrados os objetos, os meios e as forças de trabalho, sobre a qual se distribuem os agentes e os produtos" (187).  

O Anti-Édipo, Capítulo III (Selvagens, Bárbaros e Civilizados), Deleuze e Guattari
Anotações Livres    

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Rede de Saberes em Mato Grosso do Sul

Índios do Mato Grosso do Sul e outros estados brasileiros estão reunidos em Campo Grande (MS), entre os dias 15 e 17 de agosto, para discutir a sua inserção na Universidade e a relação de saberes científicos e tradicionais. O IV Seminário Povos Indígenas e Sustentabilidade está sendo realizado na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), no âmbito do projeto "Rede de Saberes", que envolve uma parceria entre a UCDB, a Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul, a Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul de Aquidauana. Esse projeto - coordenado pelo Profº Antonio Brand - tem como objetivo principal o apoio à permanência de indígenas no ensino superior, estimulando a iniciação científica dos alunos, promovendo eventos de extensão e oferecendo uma série de auxílios adicionais.

A iniciativa é de extrema importância para o fortalecimento da luta dos povos indígenas de Mato Grosso do Sul e arredores, que enfrentam atualmente uma conjuntura política extremamente violenta na região. A discussão da partição e permanência de alunos indígenas nas universidade públicas e privadas é uma demanda política dos povos indígenas. Além de discutir questões de ordem prática associadas à vida na universidade, o seminário e o projeto da rede visa a concepção e execução de estratégias concretas voltadas para a promoção do diálogo entre as ciências e os saberes indígenas e tradicionais no ensino universitário.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Vencedores do Prêmio Culturas Indígenas - Edição 2010

Saiu o resultado da terceira edição do Prêmio "Culturas Indígenas" (edição 2010). A escolha dos vencedores foi realizada por uma Comissão composta por 16 pessoas, das quais 8 eram indígenas. Cada projeto selecionado receberá o valor de R$ 24 mil, que serão repassados para as aldeias e comunidades. Esses recursos são oriundos da Petrobrás, através da Lei de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet). Essa foi a segunda edição do prêmio criado pelo MinC, em 2006, por iniciativa do GT para as Culturas Indígenas, com o objetivo de valorizar, incentivar e dar visibilidade às iniciativas culturais dos povos indígenas. O concurso contou com 15 categorias, incluindo, por exemplo "rituais e festas tradicionais", "músicas, cantos e danças", "jogos e brincadeiras", artesanato, entre outras. Veja abaixo uma relação de algumas das iniciativas vencedoras:

Casa de Reza Guarani - PR
"Teko Nhemombaraeté" - Fortalecimento da Cultura Guarani - RS
Revitalizando os saberes Kaigang - RS
Mandioca, a Mãe de Nossas Forças (Xucuru Kariri) - MG
"Avaxi Nhemongai" - Batismo do Milho Mbyá Guarani - SP
"Kipaé Pitivókoke" (Dança da Ema na Cidade) (Terena) - MS
"JakairaNemongarai" - Batismo da Deusa da Fartura (Guarani Kaiowá) - MS
Fortalecimento do Povo Myky (Myky) - MT
"Kêkjkô Kamby": para criar nossa produtora "Kupytxi Rowo" (Kïsêdjê) - MT
Mulheres Artesãs Indígenas Potiguara - PB
Plantas e Ervas Medicinais na Cultura Tradicional dos Tupinambá - BA
Museu Comunitário Indígena Pipipã - PE
"Idjajkôre" (Canto da Festa Kwyrkangô) (Kayapó) - PA
Projeto de Confecção de Colares de Tucumã e Inajá do Povo Munduruku - PA
Pesquisa Aplicada as Tradições Culturais dos Índios do Acre (Kaxinawa, Manchineri e Katukina) - AC
"Jogos e Brincadeiras" como mtivação e fortalecimento para o ensino da língua Macuxi - RR
1º Festival de Músicas Indígenas Tradicionais e Adaptadas dos Povos Indígenas do Rio Negro - AM
Celebação dos Ritos das Festas Tuyuka - AM
"Wadenikaa Aakhepa" - Recuperando as técnicas tradicionais de Cerâmica Baniwa - AM
Educação e Manejo no Médio Ro Tiquié (Tukano) - AM

Uma relação completa dos projetos vencedores pode ser encontrada no link abaixo:

 http://www.cultura.gov.br/site/wp-content/uploads/2008/08/premio-xicao-xucuru-vencedores-15-08-082.pdf

sábado, 18 de dezembro de 2010

Implantação da Casa de Cultura Ikpeng

Os índios Ikpeng, que vivem no Parque Indígena do Xingu, inauguraram recentemente a "Casa de Cultura Ikpeng", um espaço que servirá como centro de registro e pesquisa da sua cultura. Foi criado um banco de dados digital "Ukpamtowonpïn" (Origem do Mundo), que reunirá um acervo de imagens, textos e vídeos retratando diversos aspectos da sua vida cerimonial. Também serão realizadas oficinas de formação audiovisual e iniciação digital. O espaço será administrado pelos Ikpeng e é um bom exemplo do que podem se tornar os "pontos de cultura indígena" que estão sendo implantados pelo Governo em diversas regiões do país. O edital lançado recentemente pelo Ministéio da Cultura envolve a instalação de "centros" equipados com uma infra-estrutura audiovisual (computadores, internet, filmadoras, máquinas fotográficas e etc.) e a realização de uma série de atividades de formação, como oficinas em técnicas audiovisuais e direitos autorais de imagem. A intenção é que esses locais se transformem em um centro de "revitalização cultural" e um meio de comunicação dos índios com o mundo do branco. Com isso, abre-se um novo campo de "inovação" para os índios, que estão cada vez mais se apropriando e agenciando a tecnologia e os conhecimentos do branco.       

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Povos Indígenas & Internet

Povos indígenas de diversas etnias estiveram reunidos na USP para discutir os usos indígenas da internet. O evento foi organizado pelo Núcleo de História Indígena e do Indigenismo em parceria com o Laboratório de Imagem e Som em Antropologia da USP e contou com o apoio da Rede de Cooperação Alternativa (RCA). Segue abaixo a ata da reunião com um resumo dos temas que foram discutidos e alguns encaminhamentos tirados ao final do encontro.

Ata do I Simpósio Indígena sobre Usos de Internet nas Comunidades Indígenas do Brasil


As lideranças e indígenas, reunidas no I Simpósio Indígena sobre Usos de Internet nas Comunidades Indígenas do Brasil durante os dias 22 a 26 de Novembro de 2010, na sala da antiga biblioteca do Prédio de História e Geografia da FFLCH na USP (Universidade de São Paulo) em São Paulo-SP, após amplos debates chegaram às conclusões que seguem sobre o uso da Internet nas Comunidades Indígenas:

As dificuldades existentes:

- Dificuldade de Conexão: a antena Gesac que hoje se encontram nas Aldeias Indígenas não tem suprido a necessidade de conexão nas aldeias, tendo inclusive falhado constantemente em algumas Comunidades. São poucos os pontos de conexão nas aldeias Indígenas. A velocidade disponibilizada não permite downloads, upload; Muitas Aldeias onde foi prometida a instalação de conexão ainda não foi instalada.
- Falta de equipamentos: os equipamentos que chegam às aldeias são muitas vezes velhos sem funcionar, os programas não são de fácil uso, equipamentos e software ultrapassados; é preciso tornar mais simples (desburocratizar) o processo aquisição de Kits de Infocentros.
- Falta de manutenção: é necessário a formação de uma equipe indígena para manutenção dos computadores nas Comunidades Indigenas;
- falta de formação de equipe técnica nos pontos de acesso (equipe de multiplicadores): é necessário formação de indígenas multiplicadores do uso das máquinas.
- falta de comunicação entre os indígenas que usam a internet

Encaminhamentos:

Diante de tudo que foi levantado e discutido pelos parentes presentes, ficou acordado a criação de uma Rede das Redes, um espaço que aglutinaria todas as redes, sites e blogs indígenas hoje existentes, para melhorar o diálogo entre os povos indígenas, fortalecer a cultura e ser um espaço de cobrança de nossos direitos.

Ficou claro que é urgente que mais aldeias sejam conectadas uma vez que é uma necessidade para uma maior comunicação com o mundo externo às aldeias e entre nós mesmos. A internet nas aldeias é uma ferramenta para buscar melhorias para as Comunidades Indígenas, daí a URGÊNCIA em solucionar os vários problemas que existem nas Aldeias como a conexão (muito lenta isso quando funciona), a falta de Computadores (muitos estão ultrapassados e sucateados) e demais questões acima citadas.

É necessário que tenham mais encontros como estes pois é de suma importância discutir o tema da Internet nas aldeias, melhorias das condições do uso desta internet e o fortalecimento das Rede das Redes que chamados Rede Digital Cultura Indígena.

Por fim ficou a cargo da Rede Índios on Line e Web Brasil Indígena nas pessoas de Graciela Guarani, Alex Pankararu, Potyra Tê Tupinambá e Anapuáka Tupinambá Hãhãhãe dar o suporte para os povos que ainda não tenham seus sites e blogs e também na criação do espaço virtual das Rede Digital Cultura Indígena.

São Paulo, 26 de novembro de 2010

Alex Pankararu [Pankararu]
Almir Narayamoga Suruí [Suruí]
Anapuáká Muniz Tupinambá Hã-hã-hãe [Tupinambá Hã-hã-hãe]
Ataíde Vilharve [Guarani Mbya]
Chicoepab Suruí [Suruí]
Daniel Baniwa [Baniwa]
Devanildo Ramires [Guarani Kayowá]
Edivan dos Santos Guajajara [Guajajara]
Elivelton de Souza [Guarani Kayowá]
Elizeu Nascimento Pedrosa [Piratapuia]
Graciela Guarani [Guarani Kayowá]
Járdilla Simões Jerônimo [Tapeba]
Jean Hundu Arara Jaminawa [Jaminawa]
Jonesvan Xakriabá [Xakriabá]
Josinei Aniká dos Santos [Karipuna]
Karané Txicão [Ikpeng]
Kumaré Txicão [Ikpeng]
Lucas Benite Xunu-Miri [Guarani Mbya]
Maurício Yekuana [Yekuana]
Nélida Rete Venega [Guarani Mbya]
Paulo Gomes Guajajara [Guajajara]
Potyra Tê Tupinambá [Tupinambá]
Raimundo Benjamim Baniwa [Baniwa]
Takumã Kuikuro [Kuikuro]

Fonte: RCA: http://rcabrasil.blogspot.com/

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Desaparecimento de indígena mobiliza a comunidade de Y Hovy em Guaira, Paraná

Desde o dia18 de agosto de 2010, o indígena Guarani João Martins, morador do Tekoha Y Hovy, município de Guaira, se encontra desaparecido. Nas palavras do cacique Ilson Soares “estamos muito preocupados, pois, ele jamais abandonaria a comunidade desta forma, já entramos em contato com várias aldeias da região e até do Mato Grosso do Sul e ninguém sabe o seu paradeiro, já estamos conformados com o pior”.
A comunidade de Y Hovy se encontra em uma área ocupada, ainda não regularizada, de 17 alqueires que pertencem – parte ao um proprietário local – parte a prefeitura municipal de Guaira. A comunidade de Y Hovy, que conta com 12 famílias, tomou posse da área em 07 de novembro do 2009, e desde então vem resistindo e reclamando a terra como tradicional. A FUNAI já afirmou que irá tomar providências para a identificação da terra, mas, ainda nada foi feito. Nas palavras de Ilson, esta situação “vem se tornando cada vez mais difícil, pois, não sabemos se o desaparecimento de João Martins pode estar relacionado à questão da terra ou não, a verdade é que sempre recebemos ameaças de um e de outro, então, a gente não sabe o que pode acontecer”.


Logo após o desaparecimento as aldeias da região foram até Y Hovy e fizeram uma grande busca com o auxílio da polícia federal e civil, e encontraram o colar de João Martins quebrado perto de sua casa e sinais de sangue, porém, nenhum corpo. O desaparecimento está registrado junto à polícia civil, porém, as buscas terminaram, a polícia afirma que agora devem esperar o surgimento de “um fato novo” para continuar as investigações. A comunidade está convencida que João Martins foi assassinado, segundo Ilson “não sabemos o que aconteceu, mas, ele deixou o feijão cozinhando no fogo, o feijão secou, queimou, o fogo apagou e ele não voltou a casa”.

Ainda conforme a comunidade, João não tinha problemas de saúde que pudesse lhe causar nenhum mal repentino. A polícia afirma que ainda não tem nenhuma linha de investigação e também nenhum suspeito. Para a comunidade, a desparecimento de João Martins pode estar relacionado à luta pela terra, “por aqui todos estamos com medo, estamos organizando nossos txondaros para fazerem vigília a noite e rezando bastante para que ñanderu nos ajude a achar o corpo do nosso parente, mas, aconteça o que acontecer, não iremos sair desta terra”.

Fonte: Redes Virtuais (Aepim) Blog - http://acordaterra.wordpress.com/
Paulo Porto – OPAN

Processo Seletivo para Alunos Indígenas - UFMG

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) faz saber aos candidatos indígenas interessados que, no período de 27 de setembro a 8 de outubro de 2010, estarão abertas, exclusivamente pela Internet, as inscrições ao Processo Seletivo 2011 FUNAI/ UFMG, para ingresso em 2011 nos seguintes cursos: Agronomia (Campus Montes Claros); Ciências Biológicas; Medicina; Enfermagem; Ciências Sociais e Odontologia. São disponibilizadas 02 vagas para cada curso, perfazendo um total de 12 vagas.


As provas serão realizadas no dia 21 de novembro de 2010, na UFMG, em Belo Horizonte.

No primeiro processo seletivo, realizado em 2009, tivemos 253 candidatos inscritos on-line, de 19 diferentes etnias de vários estados do Brasil, mas nem todos enviaram a documentação em tempo.

É importante consultar o Portal do Processo Seletivo UFMG/FUNAI 2011, disponível no site da COPEVE/UFMG (Comissão Permanente de Vestibular):

http://www.ufmg.br/copeve/site/index.php#-1

Além do site da própria COPEVE, o candidato poderá solicitar esclarecimentos para Comissão de Acesso e Permanência de Alunos Indígenas da UFMG através do e-mail: vestibularindigenaUFMG@gmail.com

Comissão de Acesso e Permanência de Alunos Indígenas da UFMG

Fonte: Redes Virtuais (GEACT)

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Belo Monte: um etérno "déjà vu"?

Foi publicado recentemente uma matéria no jornal New York Times sobre a construção do complexo hidroelétrico Belo Monte. A notícia tem início com a história de Raimunda Gomes da Silva, que se deslocou para Altamira devido à construção de outra obra semelhante. Essa senhora, segundo a matéria, vive agora um constante "déjà vu".

Na verdade, assim como ela, todos nós vivemos esse etérno "déjà vu". Quantas famílias já não foram deslocadas de suas casas, do lugar onde criaram os seus filhos e foram criados pelos seus pais, onde apreenderam os valores da vida? É claro que a submissão ao "interesse nacional" (que neste caso pode ser traduzido por "interesse das empresas", tendo em vista que a óbra representa um fracasso da engenharia humana), nunca teve um impacto tão direto e cruel na vida dos habitantes das grandes metrópoles, que podem continuar descansando em suas salas de estar, vendo o mundo a partir do vidro incolor de suas janelas. Nossa vida continua sem maiores abalos. Não perdemos e não ganhamos, pelos menos não imediatamente.

O problema é que essa "conta" será cobrada no futuro para nós e no presente para as pessoas diretamente afetadas pela construção de Belo Monte. Talvez seja por isso que o habitante "classe média" das grandes metrópoles não consiga se comover com a situação dos índios e ribeirinhos que terão suas vidas alteradas e dilaceradas pela imposição da ganância e do descaso dos grandes empresários e seus interesses econômicos. Será a vida deles que nunca mais será a mesma. O peixe do dia a dia... O rio que deixa sua marca na paisagem, onde outrora e hoje ainda vivem os antepassados, terá seu fluxo alterado para sempre, inundando não somente a terra, mas a memória dos seus habitantes. A vida deles é que está em jogo. A nossa já foi perdida há muito tempo... Já não sabemos o significado de viver no mundo desde que trocamos as grandes paisagens da natureza pelo ambiete artificial dos shopping centers... Estar no mundo, imersão-revelação dos que vivem conectados com seu meu ambiente é para nós uma memória antiga... Trocamos há muito tempo atrás a vida na natureza pela existência virtual dos grandes complexos urbanos, com sua violência visual, auditiva... E agora queremos transformar a vida de Raimunda da mesma forma que outrora a vida dos nossos antepassados foi transformada pela força da "economia". Essa "economia de humanidade" que transformou a natureza em um "objeto". Objeto que busca escapar da prisão e, desta forma, se torna uma ameaça a vida virtual?

A história se repete novamente. Não apreendemos com os exemplos passados, com as vidas e as paisagens alteradas, dilaceradas, corrompidas, interrompidas para sempre. Não apreendemos nada por que não vivemos! E é só por isso que assistimos ao autoritarismo de um Governo que acredita que o futuro da humanidade são as fábricas e o sonho capitalista. Estaremos diante de um marxismo pós-moderno?

Dona Raimunda sabe que a vida é feita de deslocamento. Quantas vezes antes os seus antepassados não tiveram que migrar devido à violência imposta pelos governos? Mas será que a terra irá se desdobrar para sempre no infinito dos tempos? Será que nós, habitantes das grandes cidades, teremos também a mesma capacidade de se deslocar no tempo e no espaço e recomeçar tudo de novo, do zero? Será que algum dia vamos conseguir nos libertar deste agora quase etérno escafandro virtual ao qual fomos submetidos? Talvez esse questionamento seja a chave que interliga a vida de Dona Raimunda com a nossa... Pena que estejámos tão desconectados para perceber os sinais do tempo...                                   

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Site com Banco de Dados sobre projetos hidroelétrcos na Amazônia

Novo site traz informações sobre mais de 140 projetos hidroelétricos em construção ou em funcionamento na Amazônia.

O banco de dados on line do site "Dams in Amazon" traz informações sobre a dimensão dos projetos, as empresas envolvidas e os impactos no meio ambiente e nas populações indígenas e tradicionais.

Trata-se de mais uma contribuição no monitoramento dos impactos ambientais e sociais de obras como Belo Monte. Vale apena conferir no link abaixo!

Link: http://www.dams-info.org/en
 

Sobre a atual política indigenista do Governo Lula...

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, um dos membros da equipe da candidata à presidência Marina Silva (PV), criticou  a falta de articulação do governo Lula em relação à questão indígena no País.

"Certamente, o maior inimigo dos índios durante a gestão do governo Lula, não foi o governo Lula. Trata-se talvez da necessidade do governo compor, por razões da estrutura do governo, com forças que são inimigas mortais dos povos indígenas, como vimos no caso da Raposa Serra do Sol", afirmou em referência ao conflito entre indígenas e rizicultores em uma reserva em Roraima.


Viveiros de Castro também atacou a representação da Fundação Nacional do Índio (Funai) e criticou àqueles que a colocam na posição de "árbitro" da questão indigenista.

"É preciso entender que a Funai, o órgão responsável pela implementação da política indigenista, tem por obrigação defender os índios, não é um juiz, não é um árbitro. É um defensor da causa indígena (...) as pessoas entendem que a Funai deve pronunciar veredictos, quando, na verdade, a função dela é representar. Os índios devem cada vez mais constituir suas formas de representação dentro do Estado, junto do Estado. Mas um ponto fundamental é reforçar o dever constitucional do Estado brasileiro perante aos índios brasileiros".

O antropólogo ainda afirmou que o dever constitucional com os índios estaria cumprido se a sua representação fosse reforçada no Estado.

"A minha proposta é, como horizonte geral, o de dar tanto às populações indígenas quanto às populações tradicionais plena visibilidade política formal. Não sei como isso pode ser feito, mas temos dezenas de países perto de nós, como é o caso da Colômbia, que sugerem que há formas diferenciadas de relação das populações tradicionais com o Estado que vão um pouco mais adiante do que foi a enorme conquista da constituição de 88".

Questionado sobre se colocar um indígena para presidir a Funai resolveria o problema, ele pareceu cético.

 "Não sei o que pensa a senadora, ou a equipe de campanha, mas não acho que seja uma solução mágica, não sei se é a melhor solução. Penso que talvez o interessante é que você tenha muitos presidentes indígenas de outras instâncias, outros corpos, entes políticos, administrativos, mas não na Funai. Acho até que pode ser contraproducente, em vista do processo de filtragem passiva que essas escolhas muitas vezes produzem".

Durante seu discurso, pronunciado na apresentação das novas diretrizes do plano de governo de Marina, Viveiros de Castro se concentrou em pontos como energias renováveis e modos de produção. "Uma política verdadeira precisa que as pessoas pensem. O papel é levantar o que poderosos tentam esconder (...) o Brasil precisa aprender a dar exemplos e não seguir, até por que não há mais exemplos para seguir", afirmou o antropólogo.

Amostra de Documentários - Povos Indígenas do Sul do Brasil

A Prefeitura de Porto Alegre está promovendo uma amostra de documentários sobre povos indígenas do sul do Brasil (Kaigang e Mbya-Guarani). O evento vai ocorrer nesta 3ª feira, dia 31 de agosto, na sala de cinema P. F. Gastal, no Centro Cultural Usina do Gasômetro.

Programação do evento:

“A mata é que mostra nossa comida / Kaingang / 30m”

“Os seres da mata e sua vida como pessoas / Mbyá-Guarani / 27m”
Projeto Documentário da Cultura Material dos Coletivos Indígenas na Bacia Hidrográfica do Lago Guaíba

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Conservação, Vida Social e Desenvolvimento entre os Povos Indígenas Kayapó do Sudeste da Amazônia - Parte II

Parte II (Continuação)
Neste espaço, não pretendo tecer ou aprofundar questões antropológicas sobre os Kayapós da A’Ukre. Gostaria apenas de apresentar breves observações sobre essa última experiência que tive entre os índios Mebêngôkre – os homens do buraco/lugar d’água – conforme eles se autodenominam.


Dados históricos e etnológicos apontam para a existência originária de três grandes grupos desta etnia: os Irã-‘ãmranh-re (“os que passeiam nas planícies”); os Goroti Kumrenhtx (“os homens do verdadeiro grande grupo”); e os Porekry (“os homens dos pequenos bambus”). Esses três grandes grupos habitavam desde tempos imemoriais a região do rio Tocantins, numa região de transição mais acentuada entre o cerrado e a floresta tropical, aproveitando os recursos diferenciados destes dois biomas. O seu modo de vida, no entanto, foi fortemente afetado pelos primeiros contatos com os “brancos” colonizadores, ainda no início do século XIX. Devido à violência desse primeiro contato, os Kayapó migraram para o oeste, adentrando o interior do país. Após um breve período de paz, devido à expansão da fronteira de colonização, esses índios enfrentaram novamente a situação de contato. Nesse momento, houve uma cisão interna: uma parte era favorável ao estabelecimento de relações com os brancos e a outra parte não. Essa cisão acabou ocasionando uma série de subdivisões internas e a conseqüente fragmentação desses três grandes grupos originários. Os subgrupos que decidiram estabelecer relações com o branco foram, em grande medida, exterminados. Já os sobreviventes continuaram a sua migração em direção ao oeste e, após se estabelecerem em seu novo território, passaram a atacar todos que se aproximassem deles. Já mais recentemente, nas décadas de 1950/60, o Governo Brasileiro enviou equipes para “pacificar” os Kayapós, que, desde então, entraram em contato definitivo com a sociedade nacional.

Durante as décadas de 1980/90, os Kayapó ficaram conhecidos na mídia brasileira e internacional devido à sua mobilização em prol dos seus direitos políticos e territoriais. Foi nessa época que lideranças como Ropni (Raoni) e Bepkoroti (Paulinho Payakã) ficaram famosos no mundo inteiro, aparecendo ao lado de artistas, personalidades e chefes de estado. O evento mais importante desta fase mais recente da história do contato com a sociedade nacional foi o grande encontro indígena de Altamira, realizado em fevereiro de 1989 em parceria com outros 24 povos indígenas, ambientalistas e antropólogos. Inclusive, é importante mencionar o apoio de Janet Chernela, Barbara Zimmerman, Terence Turner e Darell Posey durante essas mobilizações políticas. Apesar dessa “parceria” ter servido para dar maior visibilidade às demandas políticas dos Kayapó, a imagem idealizada de muitos ambientalistas acabou gerando alguns conflitos de entendimento dos interesses indígenas e não-indígenas envolvidos nessa associação. Por outro lado, a visibilidade alcançada pelos Kayapó no cenário internacional resultou num vasto conhecimento etnológico e etnobiológico sobre o grupo, o que, em certa medida, também ajudou a fortalecer os seus direitos territoriais e intelectuais.

A própria aldeia da A’Ukre foi afetada por essa visibilidade política ao se tornar um dos “cenários” de uma inusitada parceria com a Body Shop, empresa multinacional do setor de higiene pessoal sediada na Inglaterra. Os contornos dessa parceria foram delineados ainda no encontro de Altamira, em 1989, quando Payakã – um dos principais líderes políticos desta aldeia – convidou representantes desta instituição para buscarem alternativas ambientalmente sustentáveis e que pudessem atender as demandas econômicas do seu povo. Foi assim que surgiu o projeto de exploração do óleo extraído da castanha e usado pela empresa na fabricação de seus produtos de higiene (condicionadores de cabelos). Desde o início desse empreendimento, a parceria foi permeada por inúmeros conflitos entre a mentalidade capitalista (o significado do empréstimo e da poupança) e as formas comunitárias de agenciamento indígena do empreendimento. Esses conflitos se intensificaram ainda mais com a “regulamentação” das atividades de acesso ao “patrimônio genético” e aos “conhecimentos tradicionais associados”, inviabilizando por completo a continuação do projeto. Hoje em dia, conforme pude observar, o único sinal dessa parceria na aldeia A’Ukre é a presença, em estado de completo abandono, da infra-estrutura utilizada no armazenamento, extração e transporte do óleo de castanha.

Os Mebêngôkre da A’Ukre também são conhecidos pela sua associação, durante boa parte da década de 1980, com garimpeiros atraídos pelo ouro existente em suas terras. Apesar da dificuldade enfrentada pelos índios para controlar o fluxo de ouro e as conseqüências sociais, políticas e culturais originadas da presença de forasteiros em suas terras, os kayapós obtiveram relativo sucesso ao controlar e administrar esse fluxo através da cobrança de uma taxa de 10% sobre todo o ouro extraído pelos garimpeiros. O dinheiro adquirido com a cobrança da taxa foi investido no patrulhamento do seu território com o auxílio de aviões e a conta bancária dos caciques de Goritire cresceu sensivelmente durante esse período. Mas o eldorado kayapó acabou em meados da década de 1990, quando foi substituído pela presença dos madeireiros, que adentraram o território kayapó para extrair a valiosa madeira de mogno. Não há dúvida que essas duas formas de associação com atores da sociedade nacional afetaram sensivelmente o modo de vida kayapó, mas, por outro lado, precisamos reconhecer a capacidade de autodeterminação histórica desse povo, que mesmo diante de situações de desigualdade de força e poder, buscou controlar a situação de contato através da manutenção da sua vida cerimonial. A abertura para a relação com os “brancos” também nunca foi consenso entre os chefes kayapós. O filme de Terry Turner, “The Kayapó”, que tivemos a oportunidade de assistir na aldeia junto com a comunidade da A’Ukre, retrata esse momento e as divergências entre chefes favoráveis e contrários a relação com os garimpeiros.

Outra iniciativa importante foi o estabelecimento, em 1992, de uma base científica localizada 15 km a montante da aldeia, a “Reserva e Estação de Pesquisa do Pinkaiti”, resultado de uma parceria entre os chefes políticos locais e a ONG Conservação Internacional. A idéia inicial desse projeto era buscar, com apoio de pesquisadores, alternativas de conservação de uma população de mogno em uma área de cerca de 8 mil hectares de terra. Essa iniciativa conservacionista foi pensada em contraponto as iniciativas comerciais levadas a diante pelos próprios Kayapós, que por muito tempo mantiveram relações econômicas com os madeireiros. Desde então, foram vários os pesquisadores que foram desenvolver seus trabalhos de pesquisa na Reserva, o que acabou gerando alternativas de renda para a comunidade da A’Ukre: o pagamento, por parte dos cientistas, de taxas de ingresso e permanência na comunidade; e o emprego remunerado de auxiliares e assistentes indígenas nas pesquisas (ver mais sobre essa iniciativa no Programa do Curso, anexado neste blog na página ao lado). Inclusive, A’Ukre seria um contexto excelente para a realização de uma pesquisa na área de etnologia e antropologia da ciência, devido à existência de uma relação histórica entre cientistas e comunidade.

Acima de qualquer julgamento sobre o mérito de tais “parcerias” com cientistas e empresas (assunto complexo que não merece ser tratado aqui), o fato é que os Kayapó têm demonstrado sua capacidade histórica de, mesmo quando em situações limitadas, optar e escolher formas diferentes de lidar com a diferença.

Continua em breve...

sábado, 7 de agosto de 2010

Conservação, Vida Social e Desenvolvimento entre os Povos Indígenas Kayapó do Sudeste da Amazônia

Parte I

Entre os dias 17 e 31 de julho de 2010, viajei para o sudeste do Pará para participar como instrutor de um curso de campo sobre a interface entre povos indígenas e conservação ambiental. A iniciativa é resultado de uma parceria entre a Universidade de Maryland, a Universidade de Brasília, a Associação Floresta Protegida (AFP) e a Fundação Nacional do Índio (FUNAI). A minha primeira experiência com o curso ocorreu em 2008, quando participei como estudante da UNB. Já neste ano, a minha inserção se deu na condição de “colaborador” da AFP, ONG que representa 9 aldeias Kayapó localizadas na TI Kayapó. Para saber informações mais detalhadas sobre o histórico e os objetivos do curso, ver na página deste blog (que tem o mesmo título desta postagem).

A minha jornada teve início no dia 17, em Brasília, quando embarquei num vôo em direção à cidade de Marabá, localizada na região sudeste do Pará, na companhia dos dois estudantes da UNB que participaram do curso e Maria Beatriz Ribeiro, instrutora da área de ecologia. Ao chegar nessa cidade, cuja povoação teve início ao final do século XIX, notei que a grande nuvem de poeira que paira sobre a região é mais um dos sinais do ritmo frenético de crescimento que esta cidade tem enfrentado nos últimos 15 anos, além das máquinas e canteiros de obras que se espalham por toda parte.

Ao desembarcar no aeroporto, encontramos o grupo de estudantes norte-americanos e a outra instrutora do módulo da aldeia A’Ukre, a antropóloga Laura Zanotti. Ao entrar no ônibus, a expressão do grupo apontava para o extremo cansaço após 9 horas de deslocamento entre Belém e Marabá. Dali seguimos viagem até Tucumã, pequena cidade localizada mais ao sul, onde encontramos o quarto instrutor do curso, o ecólogo Adriano Jerozolimskie, que também exerce a função de coordenador da AFP. O percurso até lá foi um pouco conturbado devido à péssima qualidade das estradas. Lembro que, em 2008, quando estive na região pela primeira vez, o mesmo trecho rodoviário estava em melhores condições, o que indica a má qualidade do asfalto usado na pavimentação da estrada, que até pouco tempo atrás era de terra batida.

Ficamos em Tucumã somente até a manha do dia 19, quando partimos em quatro pequenos aviões em direção à aldeia A’Ukre, localizada na TI Kayapó. Durante esse breve período, aproveitamos para nos conhecermos melhor, fazer a última compra de mantimentos e finalizar a organização do cronograma de atividades que seriam realizadas tanto na aldeia como na base científica do Pinkaiti. A maior parte dos nossos mantimentos tinha sido enviada via barco alguns dias antes e estava a nossa espera na aldeia.

A viagem até a A’Ukre foi uma experiência incrível. Sobrevoamos a TI Kayapó até chegarmos à aldeia. O vôo foi maravilhoso. Como esse tipo de aeronave voa em menor altitude e o céu estava claro, foi possível observar a zona de transição entre o Cerrado e a Floresta Tropical, uma das regiões mais lindas da Amazônia. Na medida em que nos aproximamos da aldeia, o tapete verde abaixo de nós foi assumindo proporção exuberante, revelando que estávamos entrando na terra indígena dos Kayapó, uma gigantesca “ilha verde” que resiste ao avanço do chamado arco do desmatamento.

A chegada na A’Ukre foi repleta de alegria. Ao descer do avião, recebi as boas vindas de Begoti (Tiago), jovem liderança Kayapó (em torno de 40 anos) que conheci em 2008, durante a viagem que fizemos pelo rio Xingu, ocasião em que visitamos outras duas aldeias Kayapó (Kokraimoro e Pukararânkre). Tanto ele como os demais indígenas que estavam nos aguardando na pista de avião da aldeia pareciam felizes ao nos ver ali.

Neste primeiro dia na aldeia, almoçamos e aproveitamos o restante da tarde para tomar banho no rio Fresco, um dos inúmeros afluentes do rio Xingu. No final do dia, nos reunimos na Casa dos Guerreiros, localizada ao centro da aldeia, com os dois caciques da A’Ukre e seus respectivos grupos políticos. Após as devidas apresentações, Adriano falou sobre o carregamento de miçangas adquirido – por vontade e decisão direta da comunidade – com a taxa comunitária paga por cada estudante norte-americano (U$ 400,00): nada mais, nada menos do que 150 kg de miçangas que seriam usadas logo após a nossa saída da aldeia numa cerimônia de nomeação, um dos momentos mais importantes da vida ritual Kayapó. Também discutimos com a comunidade quais os instrutores indígenas que participariam do curso neste ano, além de esclarecimentos sobre a sua remuneração.

Ainda quando estávamos em Tucumã, decidimos dividir os estudantes (8 norte-americanos e 2 brasileiros) em dois grupos: o primeiro grupo ficaria na aldeia, enquanto o outro permaneceria na base científica de Pinkaiti, com previsão de troca no dia 24, sendo que o retorno do “grupo b” estava previsto para o dia 28, com previsão de retorno para Tucumã na manha do dia 30. Eu e Laura Zanotti ficamos responsáveis por conduzir as atividades na aldeia, enquanto Adriano e Fabiana (ambos responsáveis pelo tópico de conservação ambiental) ficaram locados na base científica.

Nos dias seguintes, ambos os grupos vivenciaram o mesmo ciclo de atividades na aldeia: oficina de etnografia e anotações de campo; visita às roças para apreender sobre o trabalho e a variedade de espécies agrícolas cultivada pelos Kayapó; pintura corporal; conversa com os caciques sobre a política aldeã; caminhadas na aldeia para apreender a distribuição do espaço sociopolítico e sua organização comunitária; trilhas na companhia dos instrutores indígenas; discussão sobre os serviços de educação e saúde na aldeia; direitos de imagem; a problemática da regulamentação jurídico-governamental do “acesso” aos “conhecimentos tradicionais associados” ao “patrimônio genético”; consentimento informado, repartição de benefícios e direitos indígenas. Todas essas atividades foram seguidas de seminários de discussão e leitura realizados à noite. Já durante a permanência na base científica, cada um dos grupos fez diversas trilhas no meio da mata para identificação dos diferentes tipos de paisagem; visitou uma cachoeira; fez trilhas e saiu para pescar com os instrutores indígenas e não-indígenas; realizou seminários sobre temas relacionados à conservação ambiental na região; e assistiu documentários sobre povos indígenas. Durante o período que os estudantes permaneceram em Pinkaiti, eles tiveram a companhia constante de 8 instrutores indígenas e retornaram para a aldeia com um pequeno vocabulário em língua Kayapó, que depois tentaram colocar em prática durante o seu período na aldeia. Além das atividades previstas no cronograma oficial do curso, costumávamos receber visitas constantes dos kayapós de manha, de tarde e a noite, além dos estudantes terem participado de momentos mais informais da vida comunitária: banhos de rio no final da tarde, jogos de futebol, festa e pesca. Já no segundo dia de permanência na aldeia, todos os estudantes tiveram os seus corpos pintados com jenipapo, dando início a um processo de imersão na vida comunitária que teve como momento chave o recebimento de “nomes fictícios” na língua indígena.

Esse cronograma de atividades foi elaborado com o objetivo de oferecer aos estudantes uma vivência in situ de aspectos importantes da vida social da comunidade e ao mesmo tempo ter contato com a abordagem antropológica e biológica do tema geral do curso: a relação entre povos indígenas e conservação ambiental.

Continua em breve...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...