quinta-feira, 31 de março de 2011

Tese - Na Reta Final (reformulado)...

Estou entrando na reta final de escrita da tese! Com isso, as atividades no blog estão um pouco de lado, em segundo ou terceiro plano... A solução tem sido publicar coisas relacionadas ao que ando lendo ou escrevendo. Na última semana, revisei Anti-Édipo e Mil Platôs de Deleuze e Guattari, motivo pelo qual publiquei alguns trechos sobre as noções de devir e rizoma e um rabisco inspirado nessa leitura (Ciência Régia e a Casa do Imperador). Nada de muito importante, apenas alguns trechos e imagens... Suspiros paralelos ao que estou pensando/escrevendo. No início da semana, foi a vez de revisar Gregory Bateson e sua noção de "organismo + meio ambiente", assim como sua crítica à divisão entre mente (suj.) / mundo (obj.)... Na quarta-feira, retornei às minhas anotações sobre o "Ser e o Tempo", de Martin Heidegger e escrevi alguns apontamentos e esboços iniciais. Hoje devo começar a ler "Ontologia Histórica", de Ian Hacking. É interessante como esse autor se apropriou da obra de Foucault, aplicando sua abordagem arqueológica no estudo das ciências ocidentais.  Depois vai ficar faltando duas ou três coletâneas de artigos, que devo acabar até o início da próxima semana, para então me dedicar à escrita dos dois últimos capítulos e da introdução. Os temas de fundo são: propriedade intelectual, direitos autorais, conhecimentos tradicionais e repartição de benefícios... Os eixos transversais: ontologia, tradução, práticas de conhecimento, espaço liso/estriado, territorialização/desterritorialização, habitus (para além de Bourdieu), redes sociotécnicas e outros conceitos correlatos.

Essas leituras e o trabalho de campo no Amazonas afetaram e transformaram a minha forma de ver o mundo. Tudo, desde então, ganhou outra dimensão. Cada vez me convenço mais de que a escrita da tese também envolve um processo de auto-conhecimento muito forte. Tenho refletido muito sobre a vida e sobre a existência no mundo. Sobre novos e velhos amigos... Sobre questões mal ou bem resolvidas.. Sobre novos e velhos sentimentos. A escrita tem me levado a um mergulho reflexivo impressionante, inquietante e ao mesmo tempo extremamente produtivo. Reviver as imagens-lembranças do campo, das relações que estabeleci no Amazonas, das trilhas e dos conhecimentos... Mergulhar em todos esses mundos possíveis, navegar por seus caminhos, conhecer suas pequenas vielas e seus atalhos, tentar diferenciar uma piscadela de um piscar de olhos, tudo isso me transformou completamente.

O exercício ruminante de tentar tornar as idéias mais claras e mais precisas tem sido bom, mas exaustivo. Ter que retornar muitas vezes para as mesmas linhas, estabelecer conexões e refazer os mesmos caminhos a partir de trajetórias diferentes, traçar contornos, cortar ou adicionar trechos... É impressionante como a escrita provoca uma mistura alucinante de todos esses níveis da existência: de tudo que está em mim e lá fora ao mesmo. O resultado disso? Um corpo de afetos estratificado no papel,  perdendo-se no jogo das letras e dos pensamentos para se encontrar sob a forma desse "outro" que ainda está por ser revelado ou descoberto.

Existe uma parte de mim que tem vontade de continuar por outros meios. Nenhuma novidade, com o tempo, também vamos apreendendo a nos conhecer melhor. Tenho a forte impressão que sempre vivi essa inquietação: uma busca incessante por linhas de fuga rumo ao oriente, talvez para redescobrir aqueles velhos caminhos que ainda vivem em mim como uma espécie de enunciação rebelde, uma disposição-miragem rumo a um devir-futuro. A distância de um "cair-no-mundo" que me coloca em contato com um "Eu" que vive lá fora, com as coisas e pessoas que  comovem e me fazem viver: seja o sorriso das crianças ou o grito desesperado dos desolados...              

Percorrer a reta final não tem sido nada fácil. Minha rotina tem sido a mesma todos os dias da semana: acordar por volta das 07hrs, sentar no escritório e ficar lá até por volta das 21/22hrs, só fazendo um pequeno intervalo para almoçar. Até aí, nada de mais. Milhões de brasileiros vivem jornadas exaustivas. Longe de mim querer me fazer de vítima. De qualquer forma, a imobilidade também provoca danos e o corpo reclama. Mal posso esperar a oportunidade de voltar a fazer algum exercício: nadar, caminhar, jogar basquete ou qualquer coisa do tipo. Também seria ótimo ficar sem fazer nada, apenas pensando. Gostaria de ter mais tempo para aprofundar algumas idéias que grudaram em mim. Mas esse outro "tempo-cronograma" - que me persegue na forma do aviso "o tempo está passando" ou de mais um "prazo final" que se aproxima - não me permite. Pelo menos não sem ter que fazer jornada dupla, trabalhar nos feriados e finais de semana...

Vivo hoje as boas experiências que vivi nos últimos três anos de campo. Mas isso me distancia de outras tantas coisas legais que estão acontecendo no mundo e com as quais eu gostaria de me envolver mais.  De fato, ficar sentado o dia inteiro não tem sido nada fácil. Distante da família e dos amigos, a auto-disciplina tem sido o meu principal apoio nessa jornada. Como dizia meu caro avô, "as conquistas na vida são regadas de muito sacrifício e dedicação"... Lembrei do meu antigo professor de epistemologia (na graduação), José Carlos dos Anjos, que dizia sempre: "eu não acredito em genialidade. Tudo é fruto de muito trabalho... Somos todos operários das ciências sociais!". Nunca uma afirmação esteve tão correta.  Longe de qualquer pretensão aristocrata, gosto de ver o meu ofício como uma prática artesanal que exige muita dedicação. A minha sorte é que tenho contado com a compreensão e o carinho da minha companheira Cristina, que agora também dá início a uma nova jornada como professora, após ter vivenciado o mesmo processo. Também não posso deixar de mencionar os amigos e os familiares que estão ao meu lado, mesmo quando distantes. Enfim, vamos levando...

Mas logo tudo isso vai recomeçar de outra forma... Tenho planos de cultivar uma horta,  ter mais contato com a terra, cuidar de plantas, viajar, conhecer novas paisagens, escutar música, percorrer novas trilhas, ir ao teatro, ler poesia, contos e literatura... Fazer novos amigos, dar início a novos projetos...

Enfim, agora falta pouco, de um total de 9 capítulos, 7 já estão prontos. Além da escrita da parte final da tese, ainda será necessário fazer a última revisão, incorporando as sugestões que surgiram a partir da discussão do material com a orientadora. Por isso, peço paciência aos leitores do blog, pois só poderei publicar reflexões paralelas ao que estou fazendo agora. Mas assim que terminar essa batalha, vou me dedicar um pouco mais a este projeto.

De qualquer forma, vale apena mencionar que, neste mês, o blog bateu o recorde de acessos: foram mais de 3500 visitas! Leitores de várias cidades do Brasil e de países como Estados Unidos, Portugal, Irlanda, Angola, Venezuela, Argentina, Holanda e França têm acompanhado as postagens com certa frequência. A nossa comunidade também está crescendo. Já são 47 membros... Tendo em vista que se trata de um blog de antropologia, está ótimo. Pra mim, isso significa que idéias e temas políticos que estão em disputa passaram a circular por essas redes  e foram apropriadas, transformadas, criticadas ou até mesmo desprezadas... Essas idéias nunca foram minhas, no sentido de uma coisa que me pertence ou algo como uma "idéia original", pois são frutos de múltiplos, pequenos e dispersos exercício de imersão no mundo, nada mais. E isso é o bastante quando não se tem nenhuma pretensão de popularidade... Talvez a proposta seja a de formar uma rede virtual em torno de questões relacionadas à antropologia, aos povos indígenas, ao meio ambiente, às práticas científicas e à antropologia simétrica. Nesse sentido, estamos caminhando na direção certa. "Antroposimétrica" está conectado com uma dezena de outros blogs, trocando idéias e colaborando para que a dádiva-conhecimento circule em redes cada vez mais amplas. Afinal, só o coletivo descentralizado faz a diferença de fato! Vamos em frente...

terça-feira, 29 de março de 2011

"Science Never proves Anything" - G. Bateson

"Science sometimes improves hypotheses and sometimes disproves them. But proof would be another matter and perhaps never occurs except in the realms of totally abstract tautology. We can sometimes say that if such and such abstract suppositions or postulates are given, then such and such must follow absolutely. But the truth about what can be perceived or arrived at by induction from perception is something else again. (...) Prediction can never be absolutely valid and therefore science can never prove some generalization or even test a single descriptive statement and in that way arrive at final truth. (...) It follows that what we, as scientists, can perceive is always limited by threshold. That is, what is subliminal will not be grist for our mill. Knowledge at any given moment will be a function of the thresholds of our available means of perception. The invention of the microscope or the telescope or of means of measuring time to the fraction of a nanosecond or weighing quantities of matter to millionths of a gram - all such improved devices of perception will disclose what was utterly unpredictable from the levels of perception that we could achieve before that discovery. Not only can we not predict into the next instant of the future, but, more profoundly, we cannot predict into the next dimension of the microscopic, the astronomically distant, or the geologically ancient. As a method of perception - and that is all science can claim to be - science, like all other methods of perception, is limited in its ability to collect the outward and visible signs of whatever may be truth. Science probes; it does not prove".


Gregory Bateson - Mind and Nature: a necessary unity  

sábado, 26 de março de 2011

A Ciência Régia e a Casa do Imperador

"Não somente a utilidade e o prazer, mas também toda espécie de instinto, tomaram parte na luta pela 'verdade'; o embate intelectual se tornou uma ocupação, um fascínio, uma vocação, uma dignidade: - o conhecimento e a aspiração ao verdadeiro tomaram lugar finalmente como uma necessidade. A partir de então não somente a fé e a convicção, mas também o exame, a negação, a desconfiança, a contradição se tornaram uma força; todos os 'maus' instintos foram subordinados ao conhecimento e postos a seu serviço, foi dado a eles o brilho do permitido, do venerado, do útil e, finalmente, o aspecto e a inocência do bem".

Nietzsche - A Gaia Ciência      

Nunca a ciência assumiu um tom tão autoritário como na casa do imperador:  território do submisso que apreende a submeter, desautorizar, castrar, destruir, desfazer; só para num segundo momento converter, tomar posse, mudar duas ou três palavras e transformar a idéia marginalizada em um pensamento nobre. A ciência régia - com suas confrarias e sociedades secretas, com seus pequenos-grandes fascismos do dia a dia, com suas fortificações e alfândegas - está presa na reprodução do pensamento do Rei. O Castelo é o local privilegiado do colonialismo interno, expresso na grandeza de seus edifícios e na beleza de seus jardins. Nos corredores medievais as estruturas do saber são concretas, "exatas", forças "estabelecidas", grupos consagrados, com forma definida e imutável: reprodução da idéia do Uno em detrimento das multiplicidades.

Toda pessoa que já ingressou no exército do Rei  acabou desaparecendo sob o labirinto de suas pequenas repartições de Estado, com suas hierarquias fixas e seus pequenos surtos de maldade e destruição. A cifra que orienta a ciência régia é a regra da apropriação do pensamento nativo e sua transformação em um artigo de luxo: para o Rei e seus cavaleiros, todo devir-animal é transformado em conceito racional ou escola intelectual.  Afinal, é na nobreza que todas as perspectivas são apropriadas para o benefício pessoal dos pequenos homens, esses que Nietzsche chama de "homens-ovelhas".

A partir deste momento, os pensadores da aristocracia vão sempre se perguntar antes de pensar: como será a forma do pensamento régio? O que o imperador diria numa situação como esta? Será que estou autorizado a falar? Mas se aceito falar e sair do silêncio, como dizer o que penso? Qual formato devo dar aos meus pensamentos?

O resultado do pensar submisso e colonizado não poderia ser outro: silêncio desprezível, ausência de articulação, enfim, um anti-pensamento refletido em forma de apatia totalitária.

Do outro lado (ou interno ao lado) está a máquina nômade que se espalha por todos os pontos ao mesmo tempo: os pequenos conhecimentos do dia a dia, diluídos em fluxos constantes. Esses pequenos saberes dispersos e cotidianos nunca chegam a constituir instituições como Castelos ou Torres, nem mesmo a se perder nos caminhos infinitos da burocracia moderna. Esses saberes escapam à formalidade das letras não por serem menos "objetivos", ou por não serem "letrados" ou "metódicos" o suficiente, mas devido a sua essência nômade, sua rebeldia contra qualquer forma de edificação ou consagração.  Essas ciências nômades estão dispersas como fluxos inconstantes, saberes múltiplos: espaço liso: linha de fuga.  Com isso, abre-se caminho para o exercício de habitação no mundo, para o engajamento ordinário nas pequenas coisas, nos pequenos atos: essas práticas dispersas e suspiros poéticos que não fazem forma e não formatam. Devir-pensamento e não pensamento concreto.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Devir-Jovem, Devir-Amor - Deleuze e Guattari

"Saber envelhecer não é permanecer jovem, é extrair de sua idade as partículas, as velocidades e lentidões, os fluxos que constituem a juventude desta idade. Saber amar não é permanecer homem ou mulher, é extrair de seu sexo as partículas, as velocidades e lentidões, os fluxos, os n sexos que constituem a moça desta sexualidade. É a própria idade que é um devir-criança, como a Sexualidade, qualquer sexualidade, um devir-mulher, isto é, uma moça".

G. Deleuze e F. Guattari - Mil Platôs (Vol.4) 

quinta-feira, 24 de março de 2011

Seminário e Lançamento de Livro - Paul E. Little

Para quem estiver por Brasília na próxima semana e tiver interesse em temas como ambientalismo, interculturalidade, ciência e conhecimentos tradicionais, vale apena conferir a passagem do antropólogo Paul Elliot Little por aqui. Veja a programação abaixo.


Seminário do DAN - 28/03/2011, as 16hrs
"Indagações antropológicas sobre o tecnoambientalismo" - Paul E. Little


Lançamento do Livro  - "Conhecimentos Tradicionais para o século XXI: etnografias da intercientificidade"
O livro trás análises atuais de vários casos emblemáticos dos embates e diálogos entre a ciência moderna e os sistemas de conhecimento tradicional do Brasil e do Equador. Os autores dos sete capítulos são: Homero Martins; Leonardo Schiocchet; Thiago Ávila; Iara Attuch; Julieta Matos Freschi; Desider Gomez e Paul Little.

Data: 28/03/2011 (segunda-feira)
Local: Rayuela Livraria e Bistrô
Horário: 18:30
Endereço: SCLS 412, Bl. B, Loja 03, Asa Sul, Brasília
    

quarta-feira, 23 de março de 2011

Manuela C. da Cunha e Mauro de Almeida na UFMG


Para quem estiver em Belo Horizonte (MG), vale apena conferir o ciclo de debates e palestras com os antropólogos Manuela Carneiro da Cunha e Mauro W. B. de Almeida sobre cultura, conhecimentos tradicionais e científicos. Segue abaixo a programação.   
Programação:
22/03/2011  Terça-feira 14:00hs – auditório Sônia Viegas - FAFICH
Palestra: Direitos intelectuais sobre conhecimentos tradicionais: cultura com aspas, cultura sem aspas.

23/03/2011  Quarta-feira 14:00hs  - Sala da Congregação - FAFICH
Oficina 1: “Manuela Carneiro da Cunha: leituras e debates”
Destinado a alunos da graduação e da pós, a oficina consistirá na discussão de sua obra e de textos de comentadores.
24/03/2011 Quinta-feira 14:00hs - Sala de Teleconferências FAE
Workshop: “Cultura” com aspas
Debate com Manuela Carneiro da Cunha especialmente solicitado por alunos indígenas do curso de Formação Intercultural de Educação Indígena, FIEI, aberto ao público em geral
 25/03/2011 Sexta-feira 14:00hs – Auditório Sonia Viegas FAFICH
Workshop: Identidade, Etnicidade e Conservação Ambiental
Debate aberto ao público com Manuela Carneiro da Cunha e Mauro de Almeida sobre a contribuição dos autores para o entendimento e a condução política da temática socioambiental.

28/03/2011 Segunda-feira 14:00hs – Auditório Prof. Bicalho - FAFICH
Workshop: Relações e dissensões entre saberes tradicionais e cientifico
Debate aberto ao público com Manuela Carneiro da Cunha e Mauro de Almeida sobre as convergências e  os desacordos entre o conhecimento cientifico e saberes tradicionais.
 29/03/2011 Terça-feira 14:00hs – Auditório Reitoria
Grande conferência“Por que conhecimento tradicional?”
Importância e diversidade do conhecimento tradicional. Quais suas formas de evidencia, de validação, de circulação? Quais as relações que deveria ter com o conhecimento científico?

30/03/2011 Quarta-feira 14:00hs – Auditório Prof. Bicalho - FAFICH
Oficina 2: Manuela Carneiro da Cunha: leituras e debates
Destinado a alunos da graduação e da pós, a oficina consistirá na discussão de sua obra e de textos de comentadores.
31/03/2011 Quinta-feira 14:00hs – Auditório Prof. Bicalho - FAFICH
Workshop: Olhares Indígenas
Sessão aberta destinada à conversação com Manuela Carneiro da Cunha sobre produção teórica para a Etnologia brasileira.
01/04/2011 Sexta-feira 14:00hs – Sala da Congregação FAFICH
Roda viva: Conversando com Manuela Carneiro da Cunha
Sessão aberta ao público destinada à conversação com Manuela Carneiro da Cunha sobre sua carreira acadêmica.

Devir em Deleuze e Guattari - Mil Platôs

"Devir é, a partir das formas que se tem, do sujeito que se é, dos órgãos que se possui ou das funções que se preenche, extrair partículas, entre as quais instauramos relações de movimento e repouso, de velocidade e lentidão, as mais próximas daquilo que estamos em vias de tornarmos, e através das quais nos tornamos. É nesse sentido que o devir é o processo do desejo. Esse princípio de proximidade ou de aproximação é inteiramente particular, e não reintroduz analogia alguma. Ele indica o mais rigorosamente possível uma zona de vizinhança ou de co-presença de uma partícula quando entra nessa zona".

"Não são fantasmas ou devaneios subjetivos: não se trata de imitar o cavalo, de se 'fazer' de cavalo, de identificar-se com ele, nem mesmo de experimentar sentimentos de piedade ou simpatia. Não se trata tampouco de analogia objetiva entre os agenciamentos. Trata-se de saber se o pequeno Hans pode dar aos seus próprios elementos, relações de movimento e  repouso, afectos que o fazem devir cavalo, independentemente das formas e dos sujeitos. (...) E não é um sentimento de piedade, precisa ele, menos ainda uma identificação; é uma composição de velocidades e de afectos entre indivíduos inteiramente diferentes, simbiose, e que faz com que o rato se torne um pensamento no homem, um pensamento febril, ao mesmo tempo que o homem se torna rato, rato que range os dentes e agoniza. (...) É preciso que eu consiga dar às partes do meu corpo relações de velocidade e lentidão que o façam tornar-se cachorro num agenciamento original que não procede por semelhança ou analogia".

Gilles Deleuze e Félix Guattari - Mil Platôs (Vol. 4)       

terça-feira, 22 de março de 2011

Imagens para pensar rizomas - 2ª Parte





Os autores mencionam certas características aproximativas do rizoma: "1º e 2º - Princípios de conexão e heterogeneidade: qualquer ponto do rizoma pode ser conectado a qualquer outro e deve sê-lo (...); 3º - Princípio de multiplicidade: é somente quando o múltiplo é efetivamente tratado como substantivo, multiplicidade, que ele não tem mais nenhuma relação com o uno como sujeito ou como objeto, como realidade natural ou espiritual, como imagem e mundo. (...) Uma multiplicidade não tem nem sujeito nem objeto, mas somente determinações, grandezas, dimensões que não podem crescer sem que mude de natureza (...); 4º - Princípio de ruptura a-significante . Um rizoma pode ser rompido, quebrado em um lugar qualquer, e também retoma segundo uma ou outra de suas linhas e segundo outras linhas. É impossível exterminar as formigas por que elas formam um rizoma animal do qual a maior parte pode ser destruída sem que ele deixe de se construir. Todo rizoma compreende linhas de segmentaridade segundo às quais ele é estratificado, territorializado, organizado, significado, atribuído, etc.; mas compreende linhas de desterritorialização pelas quais ele foge sem parar. Há ruptura no rizoma cada vez que linhas segmentares explodem numa linha de fuga, mas a linha de fuga faz parte do rizoma (...). 5º e 6º - Princípio de Cartografia e Decalcomania: um rizoma não pode ser justificado por nenhum modelo estrutural ou gerativo. Ele é estranho a qualquer idéia de eixo genético ou de estrutura profunda. (...) Diferente é o rizoma, mapa e não decalque. Fazer o mapa, não o decalque. (...) Se o mapa se opõe ao decalque é por estar inteiramente voltado para uma experimentação ancorada no real. (...) O mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente. (...) Um mapa é uma questão de performance, enquanto que o decalque remete sempre a uma presumida 'competência'".

Deleuze e Guattari - Mil Platôs (Vol. 1)             

segunda-feira, 21 de março de 2011

Uma breve história da Líbia

História Antiga

Antigo assentamento de povos como os fenícios, romanos e turcos, a Líbia recebeu seu nome dos colonos gregos, no séc. II a.C. Durante boa parte da sua história, a Líbia foi povoada por árabes e nômades berberes. Uma parte significativa do seu território é ocupada pelo deserto do Saara. Com isso, estabeleceram-se cidades e oásis apenas mais ao norte do país. Fenícios e Gregos chegaram à região no séc. VII a.C. e estabeleceram pequenos povoados: respectivamente, Tripolitânia e Cirenaica. No século I a.C., o Império Romano se estabeleceu na região, deixando grandes monumentos visíveis até hoje. A Líbia permaneceu como colônia romana até ser conquistada pelos vândalos, por volta de 455 d.C., tendo sido retomada mais tarde pelo Império Bizantino e pelos Árabes por volta do séc. VII d.C. Esses últimos expandiram a área cultivável e habitável para o interior do país, formando novos povoados ao sul. Em 1551, Solimão I incorporou a região ao Império Otomano, estabelecendo a capital em Trípoli, mas a autoridade turca se resumia ao controle de algumas cidades localizadas mais ao norte. No interior, no entanto, a região continuava inteiramente governada por tribos nômades.  

História Colonial

Em 1911, com a desculpa de defender os seus colonos estabelecidos na Tripolitânia, a Itália declarou guerra ao Império Otomano e invadiu o país, dando início a guerra Ítalo-Turca. A seita puritana islâmica dos sanusis liderou a resistência e impediu a penetração dos italianos no interior do país. A Turquia acabou renunciando aos seus “direitos” políticos sobre a Líbia no Tratado de Lausanne (1912) e, em 1914, o país já estava inteiramente ocupado por Italianos. Na 1ª Guerra Mundial, os Líbios recuperaram boa parte do seu território, que foi retomado novamente pela Itália após o término da guerra. Em 1939, a Líbia foi incorporada ao Reino da Itália. O colonialismo italiano na região é conhecido como um dos piores da história da África, com repressão desumana de manifestações políticas contrárias ao governo italiano por parte das diversas tribos berberes. Na 2ª Guerra Mundial, a Líbia foi palco de combates decisivos entre os ingleses e a “Afrikakorps” do general alemão Rommel. Após o término das hostilidades, a Líbia foi temporariamente ocupada por França e Inglaterra.

A Independência Política da Líbia

Em 1952, a Assembléia das Nações Unidas reconheceu a independência da Líbia, que passou a ser governada por um líder religioso dos sanusis, Idris I, que foi nomeado rei (1952-1969). Após a sua admissão na Liga Árabe, em 1953, o jovem país firmou acordos para a implantação de bases militares norte-americanas em toda a região. Durante esse período, apesar da aparente independência política, a presença de tropas norte-americanas e inglesas tornou-se cada vez mais intensa, influenciando os rumos históricos da recém independente nação. Com a descoberta de petróleo, em 1959, o governo Líbio determinou a retirada das tropas estrangeiras do país, o que provocou graves conflitos políticos com a Inglaterra, os Estados Unidos e o Egito.

A Revolução Muçulmana e a República Árabe Popular e Socialista

Em 1969, um grupo de oficiais radicais islâmicos derrubou a monarquia e instalou uma república de orientação socialista. O Conselho da Revolução era presidido pelo coronel Muammar al-Khadafi. O novo regime decretou a nacionalização do petróleo, dos bancos e de empresas residentes na região, ocasionando grandes protestos internacionais. Nos anos seguintes, Khadafi buscou desencadear uma revolução cultural, econômica e política no país, o que acabou resultando em conflitos com os Estados Unidos, a Inglaterra e países árabes moderados (Egito, Sudão e etc.). Sob o comando político da União Socialista Árabe, Khadafi aproveitou-se da sua riqueza petrolífera para constituir um exército bem armado e interferir na política de seus vizinhos, como o Sudão e o Chade. Após a guerra de Yom Kippur, a Líbia convenceu seus parceiros árabes a não exportar mais petróleo para os Estados Unidos devido ao seu apoio à Israel. A aproximação do país com a União Soviética, em plena guerra fria, acirrou ainda mais o conflito com o governo norte-americano, que acabou impondo um forte embargo econômico ao país com a justificativa de seu suposto envolvimento em atentados terroristas. Em 1986, o presidente norte-americano Ronald Reagan ordenou um forte bombardeio ao país, que acabou ocasionando a morte de milhares de civis, incluindo uma filha adotiva do coronel Khadafi. Mais recentemente, Estados Unidos, Inglaterra e França impuseram novo embargo comercial ao país, pois seus governantes se negaram a extraditar supostos culpados de ataques terroristas que ocorreram na Escócia, em 1988, causando a morte de centenas de pessoas.

No final da década de 1990, o regime Líbio buscou uma aproximação com o ocidente, se distanciando cada vez mais do Irã e da Palestina. Em 1995, a Líbia expulsou 30 mil palestinos que trabalhavam no país e dois anos mais tarde passou a ter problemas com grupos religiosos de orientação islâmica.

Revolução Política Contra o atual Regime de Khadafi

Em fevereiro de 2011, ocorreram várias manifestações políticas contra o governo de Khadafi. Essas manifestações foram duramente reprimidas, ocasionando a morte de dezenas de civis. O governo cortou o acesso de seus cidadãos à internet e as linhas telefônicas foram parcialmente cortadas. A Imprensa Internacional foi expulsa do país e o principal aeroporto foi fechado. Relatos de testemunhas que falaram por telefone com a BBC de Londres, contam que atiradores estavam abrindo fogo indiscriminadamente nos manifestantes, supostamente, com a intenção de “limpar as ruas”. A repressão militar aos “rebeldes” também se intensificou nas últimas semanas, com ataques constantes às forças militares e civis contrárias ao regime de Khadafi.

Na semana passada, a ONU aprovou uma resolução de implantação de uma zona de exclusão aérea na região, autorizando ações militares visando à proteção dos “rebeldes”. Nos dias seguintes, França, Inglaterra, Itália, Canadá e Estados Unidos mobilizaram suas forças militares e atacaram o exército governista. Apesar dessa ação militar ter como objetivo único proteger os civis que estão sendo duramente atacados pelo  exército de Khadafi, já apareceram denúncias sobre os excessos cometidos pelas forças internacionais, que teriam resultado na morte de civis.

Como existem interesses históricos no petróleo da Líbia, a opinião pública internacional deve ficar atenta as ações militares na região, impedindo exageros que resultam em mortes de civis. É preciso também garantir que o povo da Líbia tenha condições e autonomia para decidir o seu próprio futuro.                   

sábado, 19 de março de 2011

Conflito Trabalhista em Jirau: um alerta do que poderá ocorrer em Belo Monte

Nos dias 17 e 18 deste mês, operários que estavam trabalhando na construção da hidroelétrica de Jirau iniciaram seus protestos contra as péssimas condições de trabalho oferecidas pela empresa. O MAB, em nota, afirmou que os 15 mil trabalhadores estão vivendo condições extremas de exploração, com salários baixos e jornadas exaustivas. Sem contar com atendimento de saúde, os funcionários também são vítimas de epidemias. A situação foi denunciada no Conselho de Defesa da Pessoa Humana, órgão subordinado à Secretária de Direitos Humanos da Presidência da República.  

Ontem, o governador de Rondônia demandou o apoio de 600 homens da Força Nacional para conter os protestos trabalhistas. Indignados com as situações desumanas às quais estão submetidos, os operários queimaram ônibus e destruíram as instalações da empresa. Essas ações resultaram em confrontos com a polícia. Sem ter para onde ir, os trabalhadores dormiram na rua e em praças da cidade. A situação na região ainda é de extrema gravidade.

As péssimas condições de trabalho oferecidas aos operários pela empresa são um prenúncio do que poderá acontecer no canteiro de obras de Belo Monte. Jirau é a maior obra do PAC em andamento atualmente e foi apresentada para a sociedade como uma iniciativa que geraria renda e emprego, além, é claro, de energia elétrica. Como podemos ver, a realidade é bem diferente do ideal. Essas empresas só querem lucrar encima da questão energética, sem qualquer preocupação real em gerar renda ou oferecer condições dignas para seus trabalhadores. O evento é um exemplo claro de que esse tipo de obra só beneficia o grande capital, gerando diversos impactos sociais e ambientais na região.

Mais uma vez, a questão não foi noticiada na grande mídia, mais preocupada em saturar seus telespectadores com diversas versões da mesma notícia. Com isso, perdemos a oportunidade de debater seriamente a nossa política energética e suas conseqüências sociais e ambientais. Jirau está aí como um alerta do que poderá acontecer em Belo Monte, só não vê quem não quer.
       

sexta-feira, 18 de março de 2011

O Estado e a sabedoria das formigas

Tanto o Estado como os partidos políticos são espaços (ou campos) heterogêneos de luta política e negociação. Precisamos formar opinião no dia a dia, nas pequenas causas diárias que nos causam certa dor e sofrimento, que nos sensibilizam... O exercício de mudar o mundo não reside no Estado ou nos partidos políticos, apesar de também passar por eles. Será que algum dia ainda vamos reviver o bom espírito de 1968? A vida está nas ruas... Para mudar o Estado, antes precisamos formar opinião pública. Para mudar os partidos, antes precisamos entender que a sua definição histórica está sempre em constante processo de disputa. Nada é tão durável que não possa ser questionado no dia a dia, a partir de pequenas ações dispersas. Os eventos recentes no oriente podem nos trazer a boa lembrança de Maio de 1968... Quando as estruturas foram parar nas ruas...    


Essa é a sabedoria das formigas, esses seres tão engenhosos e disciplinados em multiplicar rizomas. Quando isoladas, as formigas são insignificantes, mas reunidas em um coletivo organizado tornam-se poderosos exércitos sociais que o Estado não consegue capturar.

A ONU aprovou zona de esclusão aérea na Líbia

A resolução apresentada pela França, Estados Unidos, Libano e Inglaterra determinando a implementação de uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia foi aprovada, ontem, pelo Conselho de Segurança da ONU. Também foram aprovadas todas as medidas necessárias para defender os civis, incluindo o abate dos aviões de Kadafi. Com isso, os grupos organizados que lutavam contra as forças governistas ganham uma nova chance para se defender, após dias sobre bombardeio contínuo das forças militares do ditador. Uma pequena vitória para o povo da Líbia!     

quinta-feira, 17 de março de 2011

Pare o Kadafi - Avaaz

Caros amigos,


Cidadãos líbios comuns estão pedindo que o mundo não os abandone. A comunidade Avaaz está profundamente comprometida com a não-violência, mas a imposição de uma zona de exclusão aérea para manter os aviões de guerra do Kadafi no chão é um caso específico onde uma ação militar liderada pela ONU é realmente necessária. Um questionário enviado para a nossa comunidade mostra que 86% das pessoas apóiam a zona de exclusão aérea. Agora, no momento em que o voto da ONU se aproxima, chegou a hora de aumentar ainda mais a nossa pressão. 

Nós torcemos quando o povo da Líbia saiu às ruas e agora não podemos, e não devemos, ignorar o seu pedido de ajuda neste momento tão difícil. Mesmo se você já participou, clique abaixo para enviar uma mensagem para o Conselho de Segurança da ONU: 

http://www.avaaz.org/po/libya_no_fly_zone_3/?vl 

A ONU está dividida, mas a situação está mudando rapidamente. A China, Rússia e Alemanha são contra enquanto a Liga Árabe, a Confederação Islâmica, o Reino Unido e a França são a favor. Os EUA e Índia estão em cima do muro. Este não é o velho debate Ocidente versus Oriente, nem, como alguns suspeitam, uma conspiração de interesses petrolíferos. O Conselho Nacional de Transição da Líbia, que a França reconheceu como o governo legítimo está desesperadamente pedindo uma zona de exclusão aérea e apóio internacional. Porém a cada dia que passa, o perigo aumenta de que qualquer ajuda chegará tarde demais. 

Uma zona de exclusão aérea sozinha não é a solução final, ela deverá ser apoiada por sanções direcionadas e congelamento das contas do regime, a interrupção da transmissão das declarações do Kadafi incitando a violência, e mais países reconhecendo diplomaticamente o Conselho Nacional de Transição da Líbia. Mesmo tudo isso poderá não ser suficiente. Porém aqueles que opõe uma ação forte devem se perguntar se, com dezenas de milhares de vidas em jogo, eles estão dispostos a defender a passividade. 

A lei internacional e o Conselho de Segurança da ONU deixaram claro que, quando crimes contra a humanidade são cometidos, a comunidade internacional tem a responsabilidade de proteger os povos destes crimes, mesmo que o agressor seja o seu próprio governo. Mesmo que ainda não conhecemos a total magnitude dos crimes do Kadafi, nós não podemos virar as costas neste momento. Clique para enviar uma mensagem urgente para os delegados do Conselho de Segurança da ONU: 

http://www.avaaz.org/po/libya_no_fly_zone_3/?vl 

Na melhor das hipóteses, o Kadafi irá reagir à resolução da ONU sobre a zona de exclusão aérea, parando os ataques aéreos. Porém se ele não parar, a imposição da zona de exclusão aérea terá que ser feita com ataques diretos aos caças que ele tentar usar e possivelmente ataques aéreos aos sistemas de mísseis antiaéreos. Há também a possibilidade de uma zona de exclusão aérea levar a um envolvimento militar mais profundo na Líbia. 

Enquanto o mundo (e a Avaaz) criticaram fortemente a guerra do George W. Bush no Iraque, e defendemos soluções pacíficas para conflitos em muitos lugares, este não é o Iraque. Se não agirmos logo, a Líbia poderá se tornar Darfur, com graves crimes contra a humanidade cometidos contra comunidades inteiras. O regime do Kadafi tem um longo histórico de tortura, massacrando o seu próprio povo e financiando o terrorismo internacional. Mas o povo líbio está unido contra as tropas do Kadafi -- mesmo a sua própria tribo e cidade natal se distanciou das suas ações. 

A situação da Líbia, e a reação internacional a ela, é complexa, com muitos atores e agendas, assim como o futuro de uma Líbia pós-Kadafi ainda é incerto. Esta complexidade deve guiar o cuidado que temos em nossas ações porém, pelas vidas de dezenas de milhares de líbios, nós não podemos ficar parados. Vamos tomar a melhor decisão que podemos e agir, agora. 

Com esperança, 

Stephanie, Ricken, Ben, Alice, Benjamin, Rewan e toda a equipe Avaaz 

quarta-feira, 16 de março de 2011

Imagens para ajudar a pensar rizomas







"Resumamos os principais caracteres de um rizoma: diferentemente das árvores e de suas raízes, o rizoma conecta um ponto qualquer com outro ponto qualquer e cada um dos seus traços não remete necessariamente a traços da mesma natureza; ele põe em jogo regime de signos muito diferentes, inclusive estados de não-signos. O rizoma não se deixa conduzir nem ao uno nem ao múltiplo. Ele não é o Uno que se torna dois, nem mesmo que se tornaria diretamente três, quatro ou cinco etc. Ele não é um múltiplo que deriva do Uno, nem ao qual o Uno se acrescentaria (n+1). Ele não é feito de unidades, mas de dimensões, ou antes de direções movediças. Ele não tem começo nem fim, mas sempre um meio pelo qual ele cresce e transborda. Ele constitui multiplicidades lineares a n dimensões, sem sujeito nem objeto, exibíveis num plano de consistência e do qual o Uno é sempre subtraído (n-1). Uma tal multiplicidade não varia suas dimensões sem mudar de natureza ela mesma e se metamorfosear. Oposto a uma estrutura, que se define por um conjunto de pontos e posições, por correlações binárias entre estes pontos e relações biunívocas entra estas posições, o rizoma é feito somente de linhas: linhas de segmentaridade, de estratificação, como dimensões, mas também linhas de fuga ou de desterritorialização como dimensão máxima segundo a qual, em seguindo-a, a multiplicidade se metamorfoseia, mudando de natureza".

Gilles Deleuze e Félix  Guattari -  Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia 

terça-feira, 15 de março de 2011

Revisão do conceito de energia "limpa"

O conceito de "energia limpa" é um desdobramento da noção correlata de "energia renovável" e surgiu em meados do século XX, em contraposição as formas de geração de energia "não renováveis". Trata-se, no entanto, de dois conceitos com significados diferentes, como veremos aqui.

A produção de energia elétrica a partir de fontes como petróleo, carvão e gás natural é considerada não renovável, pois a exploração desses recursos não permite a sua renovação em prazo útil. Essas formas de geração de energia são consideradas "sujas", pois liberam grandes quantidades de dióxido de carbono na atmosfera, resultando em grandes danos ao meio ambiente. Esse é o caso da energia nuclear, também considerada de caráter não renovável. Recentemente, os vazamentos de radiação das usinas nucleares japonesas devido ao terremoto levou a um debate sobre a viabilidade e o risco associado a esse tipo de empreendimento. A comunidade européia, por exemplo, cancelou temporariamente a liberação de investimentos para a construção de novas usinas. Com isso, as fontes de energia renovável surgem como a principal alternativa. É nesse momento que se torna necessário diferenciar e refletir sobre o caráter "limpo" de cada uma das fontes renováveis e os risco indiretos causados pela sua exploração.

Existem diferentes tipos de energia renovável que vem de recursos naturais como sol, ventos, chuvas, águas e calor. A geração de energia renovável é considerada mais "limpa" em relação às energias não renováveis. No entanto, o caráter "limpo", os riscos sociais e ambientais associados e os custos de construção e manutenção dos aparatos tecnológicos necessários para tal exploração são bastante diferentes.

A energia hidráulica, por exemplo, geralmente associada à construção das hidroelétricas, também envolve a exploração da energia gerada pelo movimento das ondas do mar. Mas a exploração da energia liberada pelo movimento dos rios exige uma intervenção no meio ambiente e no meio social muito mais radical, pois envolve a construção de barragens e grandes obras que exigem a mobilização de milhares de trabalhadores para os locais onde as hidroelétricas são construídas e grandes modificações no meio ambiente. Existem diversos exemplos históricos dos impactos desse tipo de empreendimento. A hidroelétrica de Balbina, construída pelo ex-presidente Figueiredo, é um bom exemplo do impacto ambiental desse tipo de obra, principalmente, quando os estudos para a sua implantação não são realizados com a devida seriedade. Já a hidroelétrica Passo do Real (RS), construída na década de 1970, é um bom exemplo dos impactos sociais e políticos associados a esse tipo de empreendimento. Afinal, a construção dessa hidroelétrica foi responsável pelo deslocamento de milhares de trabalhadores rurais, que acabaram se tornando os primeiros sem-terra da história do nosso país, dando origem a movimentos sociais como o MST e o MAB. Esses movimentos foram forjados pela ação do próprio Estado Brasileiro, a partir do impacto social e político ocasionado pelo deslocamento populacional. Esses dois exemplos são uma boa demonstração de que nem toda energia renovável é limpa, se considerarmos que essa noção faz referência aos riscos ambientais (mas também sociais) associados a esse tipo de empreendimento.

Por outro lado, existem outras fontes de energia renovável cujo caráter "limpo" é maior, como a energia aólica, solar e maremotriz. Essas fontes de energia são altamente renováveis e os impactos ambientais e sociais são muito menores. Além do mais, os custos envolvidos neste tipo de empreendimento são bem menores, principalmente, quando já existe a tecnologia disponível. Por outro lado, costuma-se argumentar que a energia gerada por essas fontes é menor do que a energia gerada pelas hidroelétricas. Mas, de fato, isso depende da dimensão e dos investimentos em novas tecnologias.

O Brasil conta com um grande território, onde poderíamos construir uma ampla rede de aparelhos aólicos como os vistos na foto acima. A energia solar também oferece um grande potencial, principalmente, em regiões como o nordeste (foto ao lado). A exploração da energia elétrica gerada pelo movimento das marés também oferece um grande potencial em um país com um amplo litoral. Mas, para que essas alternativas se tornem realmente viáveis, o governo precisa rever o conceito de "energia limpa" e sua política energética, baseada quase que inteiramente na construção de grandes hidroelétricas como Belo Monte. Temos que debater se os impactos sociais, ambientais e políticos gerados por essas obras não é maior do que os benefícios. Mas, para isso, é preciso instaurar um ambiente realmente democrático, onde esse debate se torne efetivamente viável. O interesse econômico existente por trás dessas obras não pode ser colocado acima do interesse coletivo da nossa sociedade. Os grupos de interesse que estão por trás desse tipo de iniciativa não podem ser colocados acima dos interesses das populações locais diretamente atingidas. Infelizmente, não é a essa a realidade que enfrentamos no Brasil.            

sábado, 12 de março de 2011

Cartola: o grande sambista e poeta brasileiro

Ontem assisti ao documentário sobre a vida e obra do grande compositor brasileiro Cartola. A sua trajetória de vida é impressionante. Nasceu no início do século XX, no Rio de Janeiro.Tendo gravado seu primeiro disco aos 70 anos, viveu boa parte da sua existência praticamente na miséria. Suas letras são de uma poesia inestimável e a sua trajetória de vida é um exemplo de perseverança. Conhecido sambista de alma boêmia, foi um dos fundadores da escola de samba Mangueira. Apesar dos seus sambas terem se tornado conhecidos na década de 1930, pela voz de Araci de Almeida, Silvio Caldas e Mário Reis, trabalhou por muito tempo como servente de obras. Na década seguinte, Cartola desapareceu completamente do cenário musical. Foi encontrado, em 1956, pelo jornalista Sérgio Porto, trabalhando como lavador de carros em Ipanema. Incentivado pelos amigos, voltou a compor e cantar.

No início da década de 1970, abriu um restaurante com sua esposa, Dona Zica, conhecido como "Zicartola", onde se reuniam jovens da zona sul carioca e grandes sambistas da época. O espaço acabou sendo fechado alguns anos depois, mas ficou conhecido na história por servir como um importante espaço de mediação entre a favela e o asfalto. Do seu vasto repertório musical, a música mais conhecida e que lhe deu maior sucesso foi "Rosas não falam" (ver vídeo abaixo), além de outras como "Alvorada" e "Acontece". Viva Cartola, viva a poesia, viva o bom samba brasileiro!

  

quinta-feira, 10 de março de 2011

Antropologia e Etnografia em Contextos Urbanos

Vale apena conferir o ciclo de palestras "Antropologia e Etnografia em Contextos Urbanos".


Data: 15, 16 e 17 de março de 2011 (das 14h as 19 h)
I Ciclo: ANTROPOLOGIA E ETNOGRAFIA EM CONTEXTOS URBANOS
Porto Alegre, RS, Brasil
LOCAL: Auditório ILEA (Instituto Latino Americano Estudos Avançados), UFRGS (Campus do Vale), Endereço: Av. Bento Gonçalves, 9500, Porto Alegre, RS, Brasil, Telefones: 33086638, 33087158, 33086647, 92663001, Entrada Franca / Atestados R$ 10,00

Programação

15 de março 2011 – terça feira 14h30 – Inscrições
15h30m - Documentário Narradores urbanos: Ruth Cardoso (São Paulo, Projeto Antropologia urbana e etnografia nas cidades brasileiras) BIEV, 2010, 13 min
Intervalo
16 h – Conferência Alba Zaluar (UERJ) – Pesquisa no perigo: experiências antropológicas no contexto urbano
17 h - Intervalo
17h30m – Documentário Narradores urbanos: Ruben G. Oliven (Porto Alegre, Projeto Antropologia urbana e etnografia nas cidades brasileiras) BIEV, 2007, 25m.
18 h – Conferência Ruben Oliven (UFRGS) - Da Aldeia Global à Metrópole Local: Antropologia no Contexto Urbano


16 de março 2011 – quarta feira
14h30m - Mestre Borel: a ancestralidade negra em Porto Alegre. BIEV, 2010, 55m
15h30 – Documentário Narradores urbanos: José G.C. Magnani ((São Paulo, Projeto Antropologia urbana e etnografia nas cidades brasileiras) BIEV, 2008, 20m.
16 h – Conferência José G. C. Magnani (USP) - 
17 h - Intervalo
17h30m – Documentário Narradores urbanos: Eunice Durham (São Paulo, Projeto Antropologia urbana e etnografia nas cidades brasileiras) BIEV, 2009, 17m.
18 h – Conferência Eunice Durham (USP) - 


17 de março 2011 – quinta feira
14h30m – O Bará do Mercado Público. BIEV, 2008, 55 m.
15h30 – Arqueologias urbanas. Memórias do mundo. BIEV, 1996, 60m.
16 h – Conferência Antonio A. Arantes (Unicamp) - 
17 h - Intervalo
17h30m – Documentário Narradores urbanos: : Gilberto Velho (Rio de Janeiro, Projeto Antropologia urbana e etnografia nas cidades brasileiras). BIEV, 2006, 18 m.
18 h – Conferência Gilberto Velho (Museu Nacional, UFRJ) – Antropologia Urbana e Interdisciplinaridade
19h - Encerramento

quarta-feira, 9 de março de 2011

Chamado Massivo pela Zona de Exclusão Aérea no Libano - Avaaz

Caros amigos,
 Enquanto os aviões do Kadafi bombardeiam o seu próprio povo, o Conselho de Segurança irá decidir em 48 horas se eles irão impor a zona de exclusão aérea para impedir os aviões de guerra do governo de voar. 
Juntos nós enviamos 450.000 emails para o Conselho de Segurança da ONU, colocando pressão no Presidente do Conselho e ajudando a conquistar sanções sobre o regime e justiça para o povo da Líbia. Agora, para impedir um massacre, nós precisamos de um chamado massivo pela zona de exclusão aérea.

Se o Kadafi não puder usar seus aviões, ele irá perder uma arma chave em uma guerra em que os civis são os que mais sofrem. Enquanto os seus helicópteros e aviões estiverem no ar, o número de mortes irá aumentar. Nós só temos 48 horas – vamos conseguir 1 milhão de mensagens para parar os ataques mortais do Kadafi antes que seja tarde:

http://www.avaaz.org/po/libya_no_fly_zone_1/?vl

A oposição pediu a ajuda da comunidade internacional para “proteger o povo da Líbia dos crimes contra a humanidade que estão sendo cometidos contra eles”. O Ministro das Relações Internacionais do Reino Unido diz que há “relatos confiáveis do uso de helicópteros de guerra contra civis pelas forças do governo”.

Enquanto isso, a liderança da OTAN diz que qualquer tentativa de impor a zona de exclusão aérea precisaria primeiro de uma resolução da ONU. Em muitas crises como esta, um ou outro país da ONU vetou um posicionamento forte -- mas na Líbia uma situação nova emergiu. As sanções do Conselho de Segurança são reais. Embaixadores da ONU dizem que representantes “concordam significativamente" que o Kafafi precisa sair. O que nós precisamos é de mais um empurrão da sociedade civil global.

A resolução não seria a solução final -- a imposição da zona de exclusão aérea poderá ser perigosa e complexa. Porém somente a ameaça da imposição poderá mostrar para o Kadafi que o seu tempo expirou. Os nossos governos precisam saber que nós estamos ao lado do povo da Líbia e que não aceitamos demoras. Envie uma mensagem agora e depois encaminhe este email para amigos e familiares:

http://www.avaaz.org/po/libya_no_fly_zone_1/?vl

Os movimentos pacíficos pela democracia no mundo árabe inspiraram o mundo. Porém, o Kadafi escolheu o pior caminho – a repressão violenta para esmagar as manifestações corajosas e pacíficas. Neste momento nós podemos ver dois futuros para a Líbia: a violência prolongada de um ditador contra o seu povo, ou, medidas internacionais que apóiam as aspirações do povo da Líbia.

Nestes dias cruciais, nós precisamos reconhecer que as nossas ações, como cidadãos globais, irão afetar o destino dos nossos irmãos e irmãs na Líbia. Nós devemos nos unir em solidariedade às pessoas que já se foram e aquelas que estão lutando para sobreviver.

Com esperança,

Ben, Luis, Graziela, Benjamin, Ricken, Stephanie, Rewan e toda a equipe Avaaz

Novidades sobre Belo Monte

No dia 03 de março, na véspera do carnaval, a procuradoria geral da união derrubou a liminar que impedia o início do canteiro de obras de Belo Monte. O presidente do TRF-1ª Região, Desembargador Federal Olindo Menezes, acatou o pedido de suspensão de liminar protocolado pela AGU no início da semana. O parecer jurídico do desembargador reconhece a necessidade do IBAMA fiscalizar a realização das condicionantes pelo consórcio de empresas responsáveis pela construção da hidroelétrica. Segundo o magistrado, o IBAMA estaria "cobrando" a implantação das condicionantes, o que não representa uma afirmativa de que elas seriam colocadas em prática antes do início das obras. Mais uma atitude de desrespeito à democracia e ao povo brasileiro!

É lamentável que uma presidenta que se diz defensora dos direitos humanos coloque os interesses econômicos de grandes empresas do setor hidroelétrico acima dos interesses de índios e ribeirinhos que vivem na região onde a obra será construída. Mesmo diante da necessidade de reajustes no orçamento da união, o governo continua dando prioridade a uma obra que só vai gerar benefício para meia dúzia de empresários paulistas, causando danos ambientais e sociais no médio e longo prazo. Essa ação jurídica também é uma clara demonstração de que o atual governo não está disposto a dialogar com os movimentos sociais, uma clara atitude anti-democrática e autoritária.     

terça-feira, 8 de março de 2011

A Luta Libertária das Mulheres e o dia 8 de março

No dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos localizada na cidade de Nova York, nos Estados Unidos, fizeram uma grande greve reivindicando uma redução da jornada de trabalho de 16 horas para 10 horas e uma equiparação salarial com os seus colegas homens. A manifestação foi brutalmente reprimida pelas forças policiais, que trancaram as mulheres dentro da fábrica e colocaram fogo, ocasionando a sua morte por carbonização. Mais tarde, em 1910, em uma conferência na Dinamarca, essa data foi escolhida como um símbolo da luta feminista no mundo inteiro, passando a ser celebrada como homenagem à dedicação e à coragem das operárias norte-americanas.

Após a atuação das mulheres em duas guerras mundiais, quando tiveram que assumir um papel até então desempenhado pelos homens na economia de suas nações, trabalhando nas fábricas e exercendo funções até então consideradas “masculinas”, o movimento feminista ganhou maior visibilidade política no mundo inteiro. Após as lutas desempenhadas durante todo o século XX, os direitos civis e políticos das mulheres foram reconhecidos por boa parte das sociedades ocidentais contemporâneas. Hoje em dia, as mulheres possuem mais autonomia do que as suas antepassadas e podem gozar de uma relativa liberdade civil e política, podendo atuar em praticamente todas as áreas. No Brasil, a revisão do código civil e a criação de leis rigorosas para combater as situações de violência doméstica, como é o caso da Lei Maria da Penha e da criação das delegacias especializadas, criou uma base jurídica importante para a consolidação dos direitos das mulheres. Por outro lado, mudanças culturais também foram importantes, como o ingresso das mulheres no mercado de trabalho nacional e internacional. 


A eleição da primeira presidenta do Brasil, em 2010, foi um marco no imaginário nacional e o início de um novo ciclo libertário para todas as brasileiras. O mesmo ocorreu em outros países da América Latina, que também escolheram uma mulher para ocupar o cargo mais importante da vida política nacional. Também é cada vez maior o número de mulheres ocupando posições de comando no mundo empresarial ou assumindo funções importantes no mundo da ciência e das artes. As grandes conquistas das nossas esportistas não deixam dúvida da sua capacidade de superar grandes obstáculos e conquistar uma posição de destaque nas grandes competições mundiais.   

Mas, infelizmente, ainda resta muito a fazer. Nos países ocidentais, as mulheres ainda ganham menos do que os homens para exercer a mesma atividade econômica, sofrem preconceito de gênero dentro e fora de casa e ainda possuem uma participação na política partidária bem abaixo do ideal. Infelizmente, a violência doméstica é um fenômeno que atinge todas as classes sociais. Ao mesmo tempo, as mulheres ainda são tratadas como “mercadorias” ou “objetos” de consumo dos homens, principalmente, nas campanhas publicitárias, no mundo da moda, no cinema e na televisão. As jovens sofrem a imposição de um padrão de beleza desumano e estão submetidas à necessidade de reprodução de uma estética exógena e de características européias e norte-americanas. Os comerciais de cerveja estão aí para revelar com expressividade a violência simbólica da “mulher-mercadoria”, reduzida a um mero objeto da consciência e do desejo masculino, sem vontade própria ou sentido independente. A continuidade no tempo de práticas históricas de submissão disseminadas na sociedade e reproduzidas pelas novas gerações é uma prova do quanto ainda temos que avançar para que as mulheres do mundo inteiro possam viver uma vida realmente digna. A violência mais direta e subversiva do tráfico de mulheres tem sido um difícil obstáculo para os instrumentos de inteligência do estado, devido a sua disseminação e organização rizomática em todas as fronteiras do país. Não podemos deixar de notar a associação existente entre as mulheres que são escravizadas ou violentadas e a indústria pornográfica que reproduz a imagem da mulher como simples objeto do desejo (de consumo) dos homens.

De qualquer forma, as conquistas das últimas décadas são incontestáveis e as feministas estão cada vez mais fortes e atuantes no mundo inteiro.

Eu, como um humilde companheiro de luta e simpatizante feminista, desejo que este dia seja o início de um grande ciclo de novas conquistas para as mulheres do mundo inteiro!

segunda-feira, 7 de março de 2011

Desigualdade Racial, Violência e Direitos Humanos

No Brasil, o carnaval é também a data que comemoramos a igualdade e a solidariedade, colocando abaixo as barreiras sociais que nos separam. O ideal seria que esse espírito de compreensão mútua também estivesse presente durante todo o ano, como parte do nosso cotidiano. Assim, nada melhor do que refletirmos sobre alguns dados divulgados no “Mapa da Violência”, um reflexo do fenômeno da desigualdade racial na forma como brancos e negros vivenciam o problema da segurança pública.

Os dados dessa pesquisa são bastante expressivos. Afinal, das 50 mil vítimas da violência, em 2002, foram assassinados 46% mais negros do que brancos. Em 2008, esse índice aumentou ainda mais e chegou à casa dos 100%. Esse número é maior ainda em algumas regiões do Brasil: na Paraíba, por exemplo, morrem mais de 1000% mais negros do que brancos. Outros dados divulgados nessa pesquisa não deixam a menor dúvida: no Brasil, os negros sofrem mais diretamente os efeitos perversos da violência criminal. E olha que estamos nos referindo aos efeitos diretos da criminalidade, sem falar nos indiretos. Afinal, quem vive em áreas marcadas pelo tráfico também precisa conviver diariamente com uma cidadania dilacerada, tendo seu direito de ir e vir severamente prejudicado. Os moradores dos bairros mais pobres de grandes metrópoles como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e São Paulo, entre outras, precisam se adaptar a uma paisagem de guerra civil. Todos nós sabemos que além dos jovens diretamente afetados pela vida no tráfico e pelo efeito perverso das drogas, ainda temos que contabilizar as famílias cuja qualidade de vida é ameaçada diariamente.

Os índices que revelam a persistência da desigualdade racial refletem um fenômeno cultural amplamente disseminado em nossa sociedade. Conforme declaração da atual ministra da Igualdade Racial, em reportagem da revista “Carta Capital”, a socióloga Luiza Bairros: “A imagem utilizada para compor o criminoso é calcada na pessoa negra, mais especificamente no homem negro. O negro foi caracterizado como perigoso em estudos de criminologia e o lugar onde ele mora é visto como suspeito. É automaticamente enquadrado nas três possibilidades de construção da suspeição: lugar, características físicas e atitude. Ou seja, como o racismo institucional existe, acaba moldando o comportamento de boa parte da corporação”.

Tanto brancos como negros são iguais. Não existe, por parte dos jovens negros, nenhuma predisposição natural para a criminalidade. Essa diferença evidenciada nas estatísticas revela uma desigualdade racial histórica, que reforça ainda mais a desigualdade econômica entre brancos e negros. A situação é a mesma em outros setores, como no mundo do trabalho e da educação. Trata-se, portanto, de um fenômeno político e cultural produzido pela nossa sociedade, que nuca conseguiu superar, de fato, as nossas raízes escravocratas.

Depois ainda existem antropólogos, no Brasil, que defendem o mito da igualdade racial e da miscigenação, combatendo as políticas de reparação, como as cotas universitárias. Segundo eles, ao dar atenção à desigualdade histórica e real, estaríamos prejudicando o efeito ideológico do mito das três raças, supostamente, um poderoso instrumento de coesão social. De fato, a ideologia da igualdade racial também serviu para camuflar práticas cotidianas de racismo amplamente disseminadas em todos os setores da nossa sociedade, mas escondidas sobre a sombra de um mito e de um ideário.     

As estatísticas, de fato, não deixam a menor dúvida: os negros sofrem mais com a criminalidade, são mais pobres e possuem menos condições de trabalho, remuneração e acesso à educação.  Fortalecer os movimentos reivindicatórios, portanto, é uma forma de dar ênfase a este problema, criando mecanismos efetivos para reverter os índices da desigualdade, dando condições para a população negra brasileira conquistar de fato a sua cidadania. As cotas são políticas de reparação histórica, um instrumento governamental cujo objetivo é reverter tendências que refletem características estruturais e estruturantes da nossa sociedade. No futuro, no entanto, quando negros e brancos viverem em um contexto social de igualdade política, esses instrumentos já não serão mais necessários. Enquanto os dados revelarem a persistência da desigualdade racial no campo da saúde, trabalho, educação, cultura e direitos humanos, o governo e a sociedade terão que implantar mecanismos reais para combater esse fenômeno.

Espero que o espírito igualitário e humanista do carnaval se mantenha durante todo o ano e que possamos, em um futuro próximo, viver em uma sociedade mais igualitária. Afinal tenho certeza que a eliminação histórica e real do racismo nos tornará uma sociedade melhor, mais justa e humanista.                                     
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