quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Retrospectiva Antroposimetrica: rumo a 2012!

Mais um ano se vai e outro está por nascer. A vida é repleta de ciclos, de recomeços e novas partidas. Estamos sempre em movimento, buscando um caminho, uma trilha, um desvio, um retorno, uma curva ou parada circunstancial. Apreendemos com  as pessoas, situações e novos eventos que presenciamos. Enfrentamos novas e velhas dificuldades. Revivemos antigas infelicidades, mas também descobrimos novos sentimentos e alegrias. Conquistamos alguns projetos e abandonamos outros. Perdemos alguns amigos, que se foram (sempre muito cedo), mas vivenciamos o nascimento de outras vidas, outras sementes promissoras. Experimentamos alegrias, mas também grandes tristezas. A vida é uma montanha russa onde o trajeto muda a cada trecho percorrido, nada é igual, apesar dos sentimentos e das sensações se reproduzirem sob novas paisagens. Reclamos dessa instabilidade, é verdade,  mas se não fosse tão eletrizante, tão repleta de curvas sinuosas, descidas e subidas emocionantes, seria tão sem graça que não valeria apena viver. Estar vivo é participar ativamente do ciclo de transformação.

Próxima parada: 2012!

O final do ano também é aquele momento que paramos para pensar um pouco sobre o ano que passou e aquele que está por vir. Para nós, da comunidade 'antroposimetrica', foi um ano movimentado. Talvez seja o momento mais adequado para relembrarmos alguns fatos que marcaram o nosso mundo em 2011 e que foram tema de destaque no blog e em outras redes virtuais.

Assistimos com tristeza o assassinato de lideranças indígenas e ribeirinhas em todo Brasil, um forte ataque as nossas instituições democráticas. A passividade e, muitas vezes, a conivência das autoridades policiais e judiciárias com a bandidagem promovida pelos empresários do agronegócio e da pecuária contra lideranças políticas conta, infelizmente, com o apoio político (e ideológico) de setores dos governos estaduais e federais e de autoridades policiais e judiciárias, o que resulta, na maior parte das vezes, na total impunidade dos culpados. Infelizmente, ainda temos muito o que avançar nesse sentido. Os criminosos precisam ser punidos com rigor e justiça e as lideranças políticas sob ameaça de morte precisam contar com o apoio do Estado, que deve garantir a sua plena segurança e livre exercício da liberdade de expressão política. A consolidação da democracia no Brasil depende fundamentalmente do amadurecimento de nossas instituições políticas e, para isso, é necessário punir os contraventores sem qualquer exceção. O Estado Brasileiro não pode ser conivente com a criminalidade e deve agir com força e idoneidade.

Mas o desrespeito maior vem sendo promovido pelo governo federal e sua ideologia desenvolvimentista. Estamos diante de um retorno a era dos governos militares, com seu autoritarismo de mando e sua ideologia tecnicista, velada por uma 'democracia' centralizadora. Por ironia do destino, parte dos antigos combatentes da ditadura militar reproduzem a mesma mentalidade de caserna de seus inimigos: pelo visto, os rizomas da sociedade passada se transformaram com o tempo em nossas atuais árvores hierárquicas. A ideologia do "PAC" - com seu impacto devastador sobre o meio ambiente e as populações indígenas e tradicionais da Amazônia e de outras regiões do Brasil - conta com o apoio das nossas elites políticas e partidárias (com poucas e boas exceções).

O caso da Usina Hidroelétrica de Belo Monte é o exemplo mais paradigmático do contexto político que enfrentamos atualmente. Ao custo caro da destruição totalitária do meio ambiente e do ataque incondicional aos direitos constitucionais das populações diretamente afetadas por essa e outras obras semelhantes, o governo promove o velho projeto do "progresso a qualquer custo", sem nenhum planejamento estratégico à médio e longo prazo, mobilizado apenas por interesses imediatos de ordem financeira. Nesse processo antropofágico, as vidas de pessoas de 'carne e osso' são transformadas em números, estatísticas e diagramas. Apesar da população brasileira ter dado claras demonstrações da necessidade de se discutir a nossa matriz energética, o governo federal não demonstra qualquer intenção em 'democratizar' o nosso plano energético nacional, mantendo fechada todas as portas para o diálogo produtivo com a sociedade civil, reproduzindo o mesmo esquema 'tecnicista' dos governos militares. Infelizmente, a perspectiva nesse setor é a pior possível, tendo em vista o projeto governamental de construir dezenas de hidroelétricas na Amazônia nos próximos dez anos. Quem mais tem a perder com isso são as populações diretamente afetadas por essas obras, que assistem a destruição do meio ambiente do qual depende a sua sobrevivência.

Infelizmente, diante de tal situação, a maior parte dos habitantes das grandes metrópoles da faixa litorânea mantem uma atitude insensível em relação ao destino dos índios e ribeirinhos. Mentiras são publicadas na internet e vídeos comprados pelas construtores de Belo Monte (que vão lucrar bilhões com a hidroelétrica) são colocados a circular. Mais preocupados em garantir a 'liberdade' dos campus universitários ou suas bolsas de estudo, parte de nossos universitários continua passiva diante da destruição e do descaso governamental. Pior do que isso, sem conhecer a realidade das populações afetadas, sem nunca ter colocado o pé na Amazônia ou em qualquer outro lugar fora do eixo sul-sudeste, esses estudantes foram transformados, da noite para o dia, em agentes da antropofagia interna. Sob slogans ultrapassados e desatualizados que relembram o estilo da ideologia da "Segurança Nacional", alguns estudantes precisam urgentemente rever seus conceitos e pesquisar um pouco melhor antes de sair por aí fazendo falsas denúncias. Motivados pelos fantasmas do 'nacionalismo tupiniquim', do 'risco do apagão'  e de teorias da conspiração, essas manifestações demonstram o quanto ainda precisamos avançar em termos de educação democrática e cívica.

Mas o problema também perpassa nossas instituições governamentais, aja visto, por exemplo, o 'cerco' que vem sendo feito às ONGs. Devido às denunciais de irregularidades no setor, as 'boas' instituições estão sendo prejudicadas em editais públicos em diferentes setores do governo federal. Um exemplo disso é a atitude do Ministério da Cultura em 'inviabilizar' tecnicamente os projetos de implantação dos pontos de cultura indígena, prejudicando diretamente dezenas de povos indígenas. Outro exemplo negativo é a morosidade da Secretaria de Direitos Humanos e do Ministério da Justiça em agir de forma contundente na captura dos culpados pelos assassinatos a lideranças indígenas no Mato Grosso do Sul e em outras regiões do país. Soma-se a isso a difícil situação enfrentada pelos índios do Santuário dos Pajés, em Brasília, que lutam pelo reconhecimento de seus direitos fundiários, enfrentando a corrupção governamental em torno do valioso mercado imobiliário da capital federal. Uma situação semelhante é vivenciado por outros grupos indígenas 'urbanos', que lutam pelo reconhecimento de seus direitos políticos e territoriais.

Nas grandes metrópoles como o Rio de Janeiro, São Paulo, Manaus, Recife, Porto Alegre etc., enfrentamos a corrupção em todos os níveis de governo (executivo, judiciário e legislativo). A prisão do chefe do tráfico na capital carioca revelou um tenebroso esquema de corrupção policial, demonstrando claramente que a "indústria do tráfico" conta com o apoio de uma rede que perpassa diversos setores governamentais. Mais de 50% do dinheiro arrecadado era repassado aos policiais e governantes corruptos, que forneciam em troca a segurança das operações. Por outro lado, as forças de 'pacificação' também não estão livres da corrupção e dos excessos. Da mesma forma, assistimos inúmeras noticiais denunciando a corrupção em diferentes setores governamentais: desvio de verbas, superfaturamento de obras, roubo e outras tantas irregularidades. Além da corrupção ativa e passiva, também acompanhamos o descaso com a verba pública e o aumento desproporcional dos gastos com os salários dos nossos representantes políticos. O circo formado pela mídia em torno das 'denúncias' também não ajuda a superar a situação, pois ao trabalhar sob a lógica do 'sensacionalismo", os grandes meios de comunicação acabam fortalecendo a manipulação política dos fatos, sem nunca tratar do problema estrutural (e estruturante) que está por trás desses eventos circunstanciais. Enquanto não abordarmos a corrupção como uma instituição social que perpassa diferentes setores do governo e da sociedade civil, nunca vamos conseguir superar o problema a partir de iniciativas concretas e eficientes.

Ao mesmo tempo, a criminalidade nos grandes centros urbanos aumenta cada vez mais: roubos, assaltos, assassinatos etc. se tornaram comuns no cotidiano das grandes cidades. A violência está por toda parte: no trânsito, na escola, na família, nas ruas, nas empresas. Afinal, não poderia ser diferente, pois uma sociedade desigual que estimula a atitude competitiva e individualista produz fenômenos de insensibilidade civil e humana em todos os setores. Por outro lado, a falta de planejamento urbano resulta em um crescimento desordenado, dando origem a alagamentos, congestionamentos e outros males enfrentados pelos habitantes das grandes cidades. As catástrofes ambientais representam um novo desafio para os governos municipais, estaduais e federais, que precisam criar mecanismos de prevenção e amparo das vítimas atingidas. Por outro lado, o governo precisa fiscalizar o uso das verbas concedidas para a recuperação das cidades e regiões atingidas, pois as denunciais de desvios de recursos públicos destinados para a recuperação dos municípios serranos do Rio de Janeiro demonstram que nem mesmo a dor e sofrimento da perda vivenciado pelos moradores dessas localidades consegue sensibilizar os corruptos. A população precisa fiscalizar de perto a aplicação dessas verbas, cobrando de seus representantes políticos o uso desses recursos em projetos de reestruturação da infra-estrutura local e de apoio direto as famílias atingidas.

A crise ambiental está diretamente associada ao chamado "aquecimento global", ocasionado um processo de mudanças climáticas com grande impacto sobre o meio de vida das populações do mundo inteiro. O desmatamento do meio ambiente na Amazônia Brasileira, ocasionado pelo avanço da 'frente desenvolvimentista', também conhecida como o 'arco do desmatamento', contribui sensivelmente para a crise climática vivenciada nas grandes metrópoles.

No que se refere à conservação da biodiversidade de nossas florestas e rios, infelizmente, assistimos a um verdadeiro retrocesso com a aprovação do Novo Código Florestal. Isso demonstra que a maior deficiência dos governantes brasileiros esteja exatamente em perceber que esses dois pólos estão interligados: os desastres ambientais urbanos e a devastação do meio ambiente são as duas faces de uma única e mesma moeda. Vivemos em rede, tudo está interligado. As ações promovidas no norte do país resultam em danos para as populações das grandes cidades da faixa litorânea. Infelizmente, as ações governamentais nessa área têm sido desastrosa, permitindo o cancelamento de multas e a modificação da lei em benefício dos desmatadores.

Mas a vida, neste último ano, também nos beneficiou com algumas flores. Apesar do contextos hostil vivenciado por uma parte da população indígena e ribeirinha brasileira, muitas foram as conquistas alcançadas em 2011. A maior de todas elas, certamente, é o amadurecimento dos movimentos políticos indígenas e não-indígenas em todo Brasil, com o fortalecimento de suas redes e a intensificação de suas ações políticas. Uma rede de iniciativas de desenvolvimento sustentável percorre o Brasil inteiro, do sul ao norte, de leste a oeste. Projetos de revitalização cultural e geração de renda se multiplicam em todo país, assim como as iniciativas na área de educação intercultural. Muito se tem avançado - mesmo que a duras custas - na luta pelo reconhecimento dos direitos fundiários dos povos indígenas e tradicionais. O debate sobre os direitos intelectuais dos povos da Amazônia, assim como a discussão sobre mecanismos de defesa de seus bens culturais (materiais e imateriais) e instrumentos de repartição de benefícios e consentimento informado também avançou sensivelmente, com a consolidação de uma rede de extensão nacional.    

Esse movimento tem sido acompanhado, em parte, por um aumento considerável das mobilizações políticas de setores da população urbana, principalmente, de trabalhadores e estudantes. Esse movimento representa um lento processo de consolidação da mentalidade democrática, mesmo diante de um contexto institucional consideravelmente autoritário.


Inclusive, é importante notar que essa intensificação das mobilizações e manifestações políticas da população civil é uma tendência 'mundial'. Afinal, neste ano, acompanhamos a emergência do movimento de ocupação de "Wall Street" e outras tantas ações semelhantes em cidades do mundo inteiro. A "Primavera Árabe" revelou a força da comunidade árabe mobilizada, fato que teve grande influência na emergência de movimentos políticos civis no mundo interior, inclusive no coração do mundo financeiro, em Nova Iorque. A crise econômica mundial atingiu as grandes economias do mundo interior, levando fenômenos que até pouco tempo eram praticamente uma exclusividade dos chamados 'países do terceiro mundo' - desemprego, pobreza e desigualdade - para as grandes potências mundiais. Ainda fica difícil visualizar o novo contexto político que está emergindo lentamente dessas manifestações, mas, certamente, estamos diante de um fortalecimento da sociedade civil diante dos abusos cometidos por nossos representantes políticos.



Por último, é importante destacar que o projeto do blog "Antropologia Simétrica" - apesar das limitações circunstanciais (finalização do doutorado etc.), avançou significativamente. A nossa comunidade quase dobrou de tamanho no último ano, assim como o número de acesso. Estamos inseridos em redes virtuais de grande extensão, contribuindo - ao lado e em parceria com outros blogs e colaboradores - para a circulação de informações e notícias que não recebem o devido destaque na grande mídia. Acredito que esse seja o maior e principal objetivo deste blog: disponibilizar, para o grande público, informações diferenciadas sobre fatos e eventos que estão ocorrendo no mundo, privilegiando a nossa linha editorial, que consiste em buscar romper com o Grande Divisor entre 'modernidade' e 'tradição', tentando atuar para além dessas fronteiras, abordando uma multiplicidade de temas sob uma perspectiva antropológica. Nesse sentido, o blog representa uma ferramenta de ativismo político à disposição dos coletivos com os quais estamos em contato. Afinal, uma parte importante do material publicado no blog tem sua origem em sugestões de membros da comunidade ou em notícias ou comentários que circulam nas redes em que estamos inseridos. E olha que essa rede não aumentou apenas em tamanho, mas também em termos de extensão geográfica. O blog recebe acesso do mundo inteiro e de centenas de cidades brasileiras, que chegam até nós por uma infinidade de caminhos. Muitos desses internautas passam e nunca mais retornam, outros, no entanto, tornam-se parte de nossa comunidade, seja como membros formais, colaboradores ocasionais ou leitores assíduos. Sem esse apoio, certamente, o projeto não teria continuidade.      

Mas ainda resta muito o que melhorar. Espero que o ano de 2012 seja tão ou mais produtivo quanto o de 2011. Estamos comprometidos em dar continuidade ao nosso trabalho nesse novo ciclo que está por nascer. Mas, nos próximos dias (até o início de janeiro), o blog vai entrar em recesso. Afinal, todo mundo precisa de férias para renovar as energias. Eu, pessoalmente, após um ano de trabalho exaustivo, mal consigo esperar para entrar em férias e curtir com meus amigos e familiares esta virada de ano. O ano de 2012 promete novas revelações e desafios. Apesar das dificuldades enfrentadas, também existe muita coisa para comemorar. O término do doutorado e o início de uma nova etapa é uma delas.

Vamos em frente, sem nunca perder a esperança e com muito perseverança. A vida está aí para ser vivida com intensidade. Não nascemos para sermos telespectadores passivos e precisamos agir sempre e estar atentos, ativos, mobilizados, comprometidos, engajados em mudar o mundo e colocar nossas ideias em movimento. A luta que enfrentamos ao lado dos nossos companheiros e amigos não é nada fácil. O trabalho é exaustivo e diário, exigindo de nossa parte sacrifícios e doações constantes. Mas o retorno é talvez o melhor que a vida pode nos dar: dignidade humana, esperança e a capacidade de imaginar uma sociedade melhor, mais justa, sustentável e igualitária.

Em 2012, venha você também fazer parte desta comunidade de ativistas e seja mais um anônimo trabalhando para colocar em prática o nosso projeto!

Com isso, nós da comunidade antroposimetrica gostaríamos de desejar a todos:

Um Feliz Natal e um Próspero 2012!

   

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

"O Preço do Progresso" - Desenvolvimento e Antropofagia

O título da reportagem é bem sugestivo, O Preço do Progresso. Uma frase que, para nós, brasileiros,  assume um sentido mitológico, como um caminho inevitável prescrito em nossa história. O tema da matéria é bastantes atual, aborda o provável impacto da hidroelétrica São Luiz no rio Tapajós, uma das 22 hidroelétricas que o governo federal pretende construir na região norte até 2019. O tom nostálgico da notícia parte de um pressuposto considerado inevitável, o Brasil precisa se desenvolver e, para isso, é necessário gerar novas fontes de energia. Mas a construção de grandes hidroelétricas ocasiona efeitos ambientais e sociais extremamente destrutivos. Apesar dos jornalistas lamentarem essa destruição, o título da reportagem indica uma mensagem subliminar: "se quisermos continuar nosso caminho em direção ao progresso, esse é o preço que teremos de pagar". A questão é apresentada como um fato consumado, prescrito, agendado, programado, um caminho do qual não podemos escapar.

E olha, que esse preço é bastante caro, de fato, de valor inestimável: a extinção de peixes, pássaros, árvores, insetos e animais que só existem na região; a remoção de comunidades indígenas e ribeirinhas; e a inundação de um patrimônio arqueológico inestimável. Ou seja, em nome do "progresso" - esse emblema totêmico inscrito em nossa bandeira - vamos destruir o nosso patrimônio ambiental, cultural e arqueológico. Ao que parece, estamos diante de um "progresso antropofágico".

Mas o que a reportagem não questiona é a própria ideia do 'progresso'. Desde sempre crescemos ouvindo que o Brasil precisa se desenvolver economicamente e tecnologicamente. Mas será que o problema do Brasil é realmente a necessidade de aumentar o tamanho do bolo? Sim, porque tudo indica que o nosso grande problema não é, por assim dizer, o tamanho do bolo, mas a divisão extremamente desigual do mesmo. Afinal, temos um coeficiente de Gini que está entre os mais altos do mundo: 0,540 (2007). Esse índice mede o grau de concentração de renda em determinada economia, onde o "0" corresponde a uma situação onde a renda se encontra igualmente distribuída e o "1" a uma situação onde toda a renda está concentrada na mão de uma única pessoa. Ao que parece, o grande problema brasileiro é a desigualdade radical. Não adianta continuar o caminho do 'progresso', se os dividendos não são nunca distribuídos e compartilhados. O resultado inevitável dessa fórmula política é o enriquecimento cada vez maior das nossas elites financeiras e dos nossos políticos, que se aproveitam das "mega-obras" do setor hidroelétrico para saquear os tesouros nacionais.    

Ao invés de nos preocuparmos tanto com a crescimento econômico, deveríamos usar a mesma energia para pensar formas de distribuir melhor  a renda entre nossos cidadãos. Isso sem falar, é claro, na concentração de terra, que também é medida pelo mesmo coeficiente, chegando a assustadora marca de 0,90. Nem é preciso lembrar que, até hoje, ainda estamos aguardando o governo federal implementar de fato uma política de reforma agrária séria e eficiente.

A nossa fixação obsessiva  no "progresso" nos impede de pensar e refletir sobre a forma como esse progresso vem ocorrendo nas últimas décadas. Afinal, a ideia de 'desenvolvimento nacional' não é nenhuma novidade, trata-se de uma fórmula governamental que já vem sendo aplicada no Brasil há séculos pelas nossas elites nacionais (talvez seja melhor adjetivá-las de "regionais"). Quem não se lembra do slogan de JK, "50 anos em 5" ou o "milagre econômico" dos militares, na década de 1970? O resultado dessas políticas desenvolvimentistas foi o pior possível: aumentamos o bolo sem dividi-lo.

A questão portanto não é ter que optar entre preservar a natureza e os índios ou continuar o caminho inevitável em direção ao progresso nacional. Mas, sim, refletir qual a melhor forma de desenvolvimento, a maneira mais sustentável e eficaz de nos tornarmos uma sociedade melhor, mais igualitária e justa. Pelo menos, em tese, deveria ser assim.

Mas, de fato, não é. O que temos é um processo histórico de colonialismo interno de caráter antropofágico, baseado em uma percepção do Brasil como fonte de riqueza privada. As análises antropológicas e sociológicas sempre apontaram para essa mistura ou sobreposição entre o público e o privado no Brasil.  Mal compreendemos o valor inestimável da biodiversidade e já estamos elaborando formas de comercializá-la ao melhor preço. Estamos diante de um novo "El dorado". No imaginário da elite financeira e política - não raro traduzido como "imaginário nacional" - a Amazônia é uma fonte de energia e enriquecimento pessoal, sem qualquer outro valor. O que importa é aniquilar tudo o quanto antes, retirar dali o máximo que for possível, mesmo que isso resulte, a médio e longo prazo, em uma total extinção da 'sociobiodiversidade amazônica'. O "progresso" é apresentado como um caminho inevitável e sem volta, mesmo que para isso seja necessário levar adiante o genocídio programado contra os povos indígenas e comunidades ribeirinhas, que sempre levaram a pior nessa história de desenvolvimento.

Conforme mostra a reportagem, diante do inevitável 'preço do progresso', cabe aos cientistas contabilizar as perdas e, aos jornalistas, registrar a tragédia 'ao vivo'. Qual será o nosso papel nesse enredo? Telespectadores passivos de uma narrativa cinematográfica? Vítimas de   um caminho irreversível? Testemunhas do percurso "inevitável" da história? Qual será o papel de nossos filhos? Herdeiros ou vítimas do progresso?

Nos escritórios e gabinetes de Brasília, as decisões governamentais são tomadas com base unicamente em cálculos, números, estatísticas, previsões e análises de conjuntura. Diante dos números, os seres humanos de carne e osso desaparecem. Os burocratas estatais estão imersos em um labirinto de documentos, normas, editais, projetos e programas. O tecnicismo burocrático nunca esteve tão em moda. O cronograma conturbado da política partidária - alimentado pelo sensacionalismo superficial e anti-ético da grande mídia - não dá espaço para a reflexividade. E o "progresso" é uma dessas categorias do pensamento que parecem estar por toda parte, absorvido e transformado por redes diversificadas de coletivos, que traduzem essa ideia a partir de seus interesses políticos e existenciais. A sensação é que estamos percorrendo um caminho prescrito em nossa mitologia 'moderna', uma via de mão única, sem desvios ou alternativas. O estilo apocalíptico da reportagem transmite e expressa muito bem esse sentido de 'inevitabilidade'.

Mas para além das torres do Castelo - imagem usada por Kafka para descrever a máquina estatal, com seus labirintos, surtos rizomáticos e eventos surreais - existe o mundo da vida. Abaixo dos nossos pés entramos em contato direto com a terra que habitamos diariamente, onde encontramos as pessoas que vivem ao nosso lado, as coisas que chamam a nossa atenção, os ritmos locais, os desafios, a vontade existencial de persistir. As pessoas continuam buscando alternativas, criticando, defendendo ideias e questionando o nosso caminho (aparentemente inevitável) em direção ao progresso antropofágico. Mesmo diante do autoritarismo totalitário - camuflado sob o véu de 'democracia representativa' - a voz das minorias (políticas) clama por justiça e por reconhecimento existencial e político.

Infelizmente, no entanto, os gritos da resistência não são ouvidos por aqueles que governam e fazem as leis em nosso nome, os nossos representantes políticos. De fato, já faz algum tempo que há algo errado com a nossa democracia, outra ideia que importamos rapidamente e traduzimos conforme o sabor dos trópicos. Mas algo está se perdendo no caminho. A corrupção é apenas o indício mais significativo de uma crise muito mais ampla, de qualidade, por assim dizer, 'estrutural' (e estruturante). Enquanto não nos dermos a chance e o tempo para refletir de forma crítica sobre as tradições políticas que herdamos nos últimos séculos, nunca seremos capazes de avançar e realmente progredir, no sentido de atingir um 'lugar' no tempo e no espaço que nunca conquistamos antes. Quando não há tempo para a reflexividade, o progresso se dá em círculos; temos a sensação de estar nos movendo sem nunca sair do lugar que ocupamos na história.

Apesar de todo esse sensacionalismo romântico em torno da ideia de 'progresso', o que vemos por toda parte é como esse pensamento se traduz em 'reprodução' de um plano ou projeto arbóreo de caráter predatório e eficácia duvidosa (para não dizer desastrosa). Enquanto nossos antigos colonizadores buscam por alternativas para superar os efeitos nefastos gerados por um modelo insustentável, nós insistimos em refazer o mesmo caminho em direção ao 'progresso' destrutivo da humanidade e do humano. Ao que parece, a mentalidade colonizada é um 'espelho' de vaidades privadas e, com isso, reflete apenas a posição subordinada que lhe é projetada do exterior.

sábado, 3 de dezembro de 2011

A Linguagem em Heidegger e Gadamer

"Talvez a melhor forma de mostrar isso seja a partir da interpretação heideggeriana da aletheia. Heidegger traduz aletheia por 'desvelamento'. A partir do uso linguístico grego, talvez fosse mais correto dizer com Humboldt e outros: 'desocultamento'. (...) A linguagem 'arranca' do 'velamento', traz para o desvelamento, para a palavra e para o risco do pensamento. (...) É quase desnecessário dizer como resultou daí facilmente para Heidegger a passagem para o 'morar'. Pois 'morar' também é efetivamente uma palavra para designar o fato de não nos encontrarmos diante dos objetos para dominá-los. Nós habitamos no habitual. No interior desse habitual também se acha a linguagem, algo em que vivemos, moramos e nos sentimos em casa. (...) Palavra e língua são aquilo com o que lidamos uns com os outros e com o mundo no estamos em casa - essa moral do qual Hegel já estava consciente ao empregar a bela expressão 'encontrar sua moradia' para descrever a tarefa humana. De maneira similar, Heidegger mostrou junto ao morar que a palavra não possui em torno de si um círculo daquilo que é dominado, mas um círculo daquilo que é familiar. É um espaço próprio que se abre aí - e um espaço no qual nunca estamos sozinhos. Não apenas porque estamos aí tão frequentemente com outros homens. Sempre estamos antes de tudo envolvidos pelos rastos da própria vida e preenchidos pela totalidade de nossas lembranças e esperanças".

Fonte: "Hermenêutica em Retrospectiva" - Hans-Georg Gadamer    

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

"Gentileza gera Gentileza", uma filosofia da dádiva

A frase do século XX: "Gentileza gera gentileza". A lógica da dádiva em linguagem-grafite, no muro da grande metrópole, propõe a imersão e o envolvimento com tudo aquilo que está ao nosso lado, que exige nossa atenção e cuidado. Estamos todos conectados em um único sistema "vivo". 'Cuidar', fazer a dádiva circular, dar atenção, envolver-se no mundo, eis o grande segredo da vida tão bem resumido por esse nobre filósofo das ruas.

Para estar 'vivo' não basta ter um corpo com órgãos, é preciso muito mais do que isso. Para estar 'vivo' realmente é preciso ter uma atitude existencial e saber estar-conectado, deixar-se levar pelo fluxo da vida... Desde o momento em que nascemos, já no primeiro grito de vida, anunciamos a nossa presença. A partir daí, jamais ficamos sozinhos, nem mesmo na morte. Estar 'vivo', habitar o mundo, tudo isso já pressupõe estar-com-os-outros, deixar-se afetar e afetar os demais. A presença exige a atenção e a atenção exige o cuidado. O gabinete da mente e do indivíduo enquanto célula autônoma é uma grande ilusão. O Ser enquanto presença é sempre um Ser-no-mundo. Mesmo as atividades mais abstratas como escrever, pensar, compor, fazem parte do fluxo da vida e do constante exercício de imersão no mundo. Viver é sempre conviver. Mesmo quando cultivamos nossos pensamentos mais íntimos sem revelá-los, mesmo quando mantemos os nossos segredos longe da curiosidade dos outros, mesmo assim, ainda é com-os-outros (ou em relação aos outros) que fazemos silêncio ou mantemos segredo. Não importa o quanto sejamos individualistas, a reciprocidade e a dádiva é um efeito do estar-vivo-e-conectado com o mundo.

Quando agimos com gentileza, recebemos em troca mais gentileza (mesmo que não seja na mesma proporção), num circuíto virtuoso de "cuidado" e "atenção" que torna o viver lado a lado um exercício sensível de compaixão. Mesmo quando não somos correspondidos, essa postura, quando acompanhada de uma disposição feliz, segura e sincera, gera incomodo e inquietude mesmo naqueles que respondem com violência ou ignorância. Talvez esteja aí o ponto de partida para uma nova jornada: a oportunidade de uma conscientização e de uma sensibilidade física de estar em contato, de estar vivo, de afetar e ser afetado pelos outros, de compartilhar e ser compartilhado, de modificar e ser modificado.  

"Gentileza gera Gentileza", dizia o poeta das ruas, com sua barba branca e seu olhar sincero.

Existe uma verdade nessa sentença que não é de ordem racional, mas emocional. Essa frase sintetiza uma filosofia-vida que emerge da experimentação do cotidiano e da convivência com os outros. Uma filosofia mundana baseada simultaneamente no entendimento da lógica da reciprocidade como base da sociedade e na projeção subsequente desse entendimento na forma de "um saber-viver-com-os-outros". Uma proposição solidária e altruísta como esta é facilmente interpretada como "romântica", "idealista" ou qualquer coisa do gênero, quando de fato se trata quase de uma tese fisiológica.

De fato, o pressuposto de que o indivíduo é auto-suficiente e auto-gestionável e de que o cogito se basta a si mesmo parece partir de um racionalismo messiânico, pois tudo na vida mostra o quanto estamos genuinamente conectados, entrelaçados em associações, inseridos em extensas redes sociotécnicas, sempre em relação aberta com a "finitude" e a "materialidade" dos conhecimentos. O fato é que desde o primeiro grito e da primeira palavra pronunciada, estamos sempre em relação com um mundo de coisas e pessoas com os quais nos encontramos essencialmente envolvidos. Mesmo quando buscamos 'ignorar o outro', existe algo no ignorar que leva em conta o ser ignorado como parte da facticidade do "Ser-no-mundo".

O filósofo Gentileza percebeu isso desde sua infância. Mas foi a partir de um acontecimento trágico que ele recebeu o "chamado" para a missão de pregar a "gentileza" como uma atitude diante da vida: o trágico incêndio de um circo, em Niterói, em 1961, onde morreram 500 pessoas. Diante da tristeza imensurável diante da perda de amigos e familiares, o profeta 'percebeu' uma 'verdade' fundamental da existência: a essência da vida é ser-com-outros. Infelizmente, só percebemos o sentido mais profundo desse enunciado quando perdemos alguém importante, quando sentimos que 'algo de nós' se foi também.O poeta Gentileza abandonou carreira e família para pregar sua mensagem nas ruas e muros do Rio de Janeiro. Deixou de viver-com-os-seus, para viver-com-todos, numa ação paradigmática que deu origem a um mito urbano. Reza a lenda que Gentileza se tornou um renunciante após perder a família no incêndio. Ele mesmo, no entanto, afirmava que era pai de cinco filhos. Seja como for, sua história é conhecida por todos e inspira poetas e artistas até hoje.

O enunciado "Gentileza gera Gentileza" pode ser encontrado na rua, em murais, mas também em camisetas e adesivos. A marca do profeta se tornou imortal, sobreviveu a própria morte física de José Datrino.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Os Aparelhos de Cálculo Matemático

Hoje dou início a uma série de postagens sobre a história das ciências ocidentais. A ideia surgiu por incentivo de membros da comunidade 'antroposimétrica' e leitores do blog, que mandaram mensagens requisitando textos de caráter ilustrativo e descritivo sobre a história do pensamento científico ocidental. É importante notar, no entanto, que essa história das ideias e práticas científicas não segue um eixo evolutivo ou progressivo, mas é repleta de rupturas, caminhos alternativos, multiplicidade enunciativa e reconfigurações conceituais, epistemológicas e teóricas.

Neste primeiro texto, vamos abordar um aspecto que, segundo Martin Heidegger, constitui uma das principais características do pensamento científico ocidental, conforme esse se desenvolveu a partir do século XVI e XVII: trata-se do papel desempenhado pelo cálculo e pelo raciocínio matemático na interpretação e sistematização do conhecimento nas diferentes disciplinas científicas. Mas vamos abordar essa questão a partir do viés das máquinas ou aparelhos de cálculo que ampliaram a capacidade de processamento das operações aritméticas que formam a base do conhecimento matemático.

Um dos aparelhos de cálculo mais antigos foi o ábaco, usado na Mesopotâmia, por volta de 2700-2300 a.c. Esse aparelho é composto por uma estrutura de madeira com contas presas em arames horizontais, o que permite calcular pequenas cifras, pois cada coluna corresponde a uma posição digital (unidades, dezenas, centenas etc.), facilitando as operações de soma e subtração. O aparelho foi adaptado mais tarde pelos romanos, egípcios, gregos, indianos e chineses (entre outros povos), que construíram versões diferenciadas da máquina. O ábaco forneceu o modelo inicial para o desenvolvimento de outras máquinas de calcular.

Esse é o caso de uma série de aparelhos concebidos pelo escocês John Napier (1550-1617), matemático que concebeu a noção de logaritmos:

"Bastões de Napier" é um aparelho composto por um conjunto de bastões com colunas de números inscritos. Esses bastões permitem a memorização das tabelas de multiplicação ao serem manipulados pelos usuários, que os organizam em um tabuleiro especial de forma a realizar uma série de operações de cálculo.




Mais tarde, foram desenvolvidos diferentes versões do mesmo aparelho, como é o caso dos "Ossos de Napier", uma caixa de madeira com cilindros que desempenham a mesma função dos bastões.

Esses aparelhos serviram de ponto de partida para o desenvolvimento da primeira calculadora, em 1645, denominada de "Calculadora de Pascal", em homenagem ao inventor do artefato, o matemático francês Blaise Pascal:

    
Alguns anos antes, no entanto, o matemático inglês William Oughtred desenvolveu, a partir de um caminho um tanto diferenciado, um aparelho usado até hoje por engenheiros para realizar operações básicas de cálculo aritmético. Trata-se da "Régua de Cálculo", um conjunto de réguas com diferentes escalas logarítmicas cuja disposição e alinhamento permitem uma série de operações:


De fato, não estamos diante de uma história linear e progressiva, pois os aparelhos mais antigos não foram abandonados com a descoberta de outras máquinas, assim como as novas descobertas nem sempre foram realizadas a partir de um desenvolvimento linear das antigas. Muitos adventos científicos têm origem na exploração de caminhos tecnológicos alternativos.

Um bom exemplo de ruptura na história dos aparelhos de cálculo matemático pode ser exemplificado pelo trabalho de Charles Babbage, matemático inglês que desenvolveu, em 1822, a "Máquina de Diferenças", uma engenhoca mecânica acionada por uma manivela que permitia a realização de uma série de operações matemáticas. Essa máquina representa uma ruptura com os mecanismos mais simples das máquinas de calcular anteriores, fazendo uso de uma série de instrumentos cuja concepção só se tornou possível com o aperfeiçoamento das engrenagens mecânicas. A engenhoca, no entanto, não convenceu a comunidade de engenheiros da época, o que resultou na falta de recursos para desenvolver o projeto. A máquina de diferenças nunca chegou a ser produzida em grande escala, mas um protótipo foi elaborado no Museu de Ciência de Londres, uma homenagem póstuma às contribuições de Babbage.

Mas o grande advento científico na área dos aparelhos de cálculo foi apenas esboçado por Babbage. Trata-se da chamada "Máquina Analítica", um aparelho inspirado em uma ideia retirada da indústria têxtil inglesa: o uso de cartões perfurados para programar padrões para os teares, desenvolvidos pelo francês Joseph-Marie Jacquard, por volta de 1804. A proposta desse aparelho representou uma ruptura radical com os princípios de engenharia utilizados na construção dos aparelhos de cálculo anteriores, motivo pelo qual foi mal recebida pelos engenheiros da época. Com isso, o protótipo deste aparelho de cálculo - que pode ser considerado o primeiro computador programável que se tem conhecimento - jamais foi construído de fato, tendo sido negligenciado pelo governo e pelos cientistas da época. A ideia que estava por trás do aparelho, no entanto, teve grande influência na concepção da lógica binária, que mais tarde tornou possível o desenvolvimento dos primeiros computadores.

Os aparelhos de cálculo matemático fazem parte da história da ciências ocidentais. Uma história repleta de rupturas, desvios e retomadas. Estamos diante daquilo que Law e Callon chamam de "materialidade relacional", isto é, o conjunto de aparelhos utilizados pelos cientistas para visualizar, processar e sistematizar as informações científicas. A agência desses aparelhos e a sua influência no processo de construção dos conhecimentos científicos ocidentais - em grande parte de ordem quantitativa - não pode ser negligenciada. Não se trata de simples 'instrumentos' agenciados pelos cientistas, mas aparelhos que abram um novo campo de ação e visão. Infelizmente, a genealogia arqueológica desses aparelhos científicos ainda está por ser escrita. Retornarei a essa questão em postagens futuras.    

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

"A Política Energética do nosso país é uma caixa preta" - Entrevista com Célio Bergman

"A política energética do nosso país é uma 'caixa-preta' e é mantida dessa forma por uma série de razões. Primeiro, porque a baixa escolaridade da população brasileira não permite, por exemplo, que o leitor da Época entenda o que é terawatts-hora. Mas seria interesse que a população toda tivesse conhecimento e pudesse, com informação, começar a definir junto com empresas e governo os rumos que são mais adequados. Acho que a academia tem um papel fundamental nesse processo.(...) A governabilidade foi encontrada a partir de uma aliança que mantém o círculo de interesses que sempre estiveram em nosso país. (...)  Pois então, naquela época, em 2003, era ele o diretor da Eletronorte que a Dilma tinha ficado feliz por ter conseguido afastar. Por isso que eu falo que não é o governo Lula, é o governo Lula/Sarney. Constituiu-se uma amálgama entre os interesses históricos do superfaturamento de obras, sempre falado, nunca evidenciado. Não se trata de construir uma usina para produzir energia elétrica. Uma vez construída, alguém vai precisar produzir energia elétrica, mas não é para isso que Belo Monte está sendo construída. O que está em jogo é a utilização do dinheiro público e especialmente o espaço de cinco, seis anos em que o empreendimento será construído. É neste momento que se fatura. É na construção o momento que o dinheiro corre solto. É quando prefeitos, vereadores e governadores são comprados e essa situação é mantida. Estou sendo muito claro ao expor o que é uma usina como Belo Monte" - Entrevista com Célio Bergman, Revista Época.

O trecho acima foi retirado de uma entrevista com Célio Bergman, ex-acessor de Dilma no Ministério de Minas e Energia durante o governo Lula (2003-04), publicada recentemente na revista Época. Repare que ele faz uso da noção de "caixa-preta" para se referir ao setor energético brasileiro, comandado por Sarney e seus correligionários, com consentimento, inicialmente, de Lula, e atualmente, de Dilma. É essa rede que lucra com obras como Belo Monte, superfaturando os custos e desviando verbas públicas. Não se trata, portanto, de se prevenir contra um possível apagão, mas em lucrar em cima de uma necessidade do povo brasileiro, mesmo que para isso seja necessário devastar o meio ambiente e desalojar milhares de famílias ribeirinhas e indígenas.

Acesse a entrevista na íntegra no link abaixo:

http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/10/belo-monte-nosso-dinheiro-e-o-bigode-do-sarney.html


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Assassinato de Liderança Kaiowá em Mato Grosso do Sul

A região do Mato Grosso do Sul tem sido cenário de ações violentas contra os povos indígenas, que enfrentam diariamente um contexto regional extremamente hostil. Essa hostilidade está presente, obviamente, em assassinatos e crimes, mas também predomina de forma dissimulada entre uma parte da população local não-indígena, que percebe os índios como um obstáculo ao desenvolvimento regional. Essa conjuntura política já gerou diversas situações de conflito aberto entre, de um lado, latifundiários, fazendeiros e comerciantes; do outro, índios das etnias Guarani-Kaiowá e Guarani-Nãndeva, que lutam pelo reconhecimento dos seus direitos territoriais. Nas últimas décadas, essas etnias têm conseguido certo avanço (ainda modesto) na recuperação dos seus territórios tradicionais, denominados de tekoha, áreas de onde foram expulsos nos últimos séculos de colonização. Esse processo foi acompanhado por uma intensificação do avanço das frentes desenvolvimentistas regionais, representadas pelos empresários do agronegócio e uma estrutura governamental que trata os índios com omissão e descaso. O conflito agrário tem se agravado bastante nos últimos anos.


No dia 18 de novembro, sexta-feira passada, o acampamento Guaviry, de índios da etnia Kaiowá, foi atacado por um grupo de 30 pistoleiros fortemente armados. Na ocasião, o líder indígena do acampamento, o cacique Nísio Gomes, foi brutalmente assassinado na frente de seus familiares, num ato de violência covarde. Até o momento, quatro jovens que estavam no local estão desaparecidos, outros foram feridos na fuga e a comunidade como um todo encontra-se em estado de pânico e trauma profundo. Algumas pessoas, com medo de novos ataques, ainda estão escondidas na mata. O grupo aguarda o lento processo de reconhecimento de suas terras. O acampamento foi montado em um trecho de terra localizado entre as fazendas Chimarrão, Querência Nativa e Ouro Verde, todas elas instaladas em área de ocupação tradicional indígena. O território está em fase final de reconhecimento pela FUNAI e os índios estão sendo ameaçados pelos fazendeiros e seus mandantes. A situação é de extrema tensão e conflito iminente. Recentemente, um grupo de 70 índios da mesma etnia se dirigiu ao local para defender e apoiar seus companheiros.  

Esse evento é o reflexo de um contexto mais amplo de constantes ataques aos direitos indígenas na região, algo que já era de conhecimento da presidência da república há um bom tempo. Inclusive, a visita de uma comissão de direitos humanos estava prevista para ocorrer nos próximos meses e, diante do acontecimento, acabou sendo antecipada. O assassinato de lideranças indígenas é uma ação terrorista que não pode ser permitida pelo Estado, que deve agir de forma contundente na busca dos culpados e mandantes. Diante da omissão (e, em algumas situações, conivência) do poder público estadual frente à violência cometida contra índios que lutam pelo reconhecimento dos seus diretos constitucionais, cabe ao governo federal investigar, prender e condenar os assassinos. A situação fundiária na região merece uma atenção especial do poder público em suas diferentes instâncias (ministério público, polícia militar e civil, secretarias estaduais, ministérios federais etc.), visando uma ação conjunta e coordenada para superar a tensão e os conflitos entre índios e não-índios. Essas ações devem ser de caráter permanente, através de um acompanhamento constante dos conflitos na região.

O Estado não pode ser conivente com o terrorismo e deve agir em defesa dos direitos indígenas, criando as condições para que esses direitos sejam exercidos na prática. Para isso, é fundamental intensificar a velocidade dos estudos e do processo de reconhecimento de terras indígenas em Mato Grosso do Sul, fornecendo também mecanismos e meios para que esses povos possam viver de forma sustentável, conforme seus costumes e sua cultura.  

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Movimento Gota D'água, Cultura e Marketing Político

Tenho acompanhado na internet manifestações "idealistas" de supostos militantes que acusam o movimento "Gota D'água" de marketing, como se o marketing não fizesse parte da vida e da política.
Toda e qualquer cultura ou mentalidade nunca é o simples efeito do raciocínio lógico individual. Para que as pessoas possam se posicionar no mundo da política, elas precisam, fundamentalmente, de informações. Essas informações são fornecidas diariamente, não só nos meios jornalísticos (revistas, tele-jornais etc.), mas também na rede de relações (entre amigos, vizinhos, colegas de trabalho etc.). Mas essa disposição das informações envolve sempre certo grau de tradução, incluindo as diferentes maneiras como 'apresentamos' nossas idéias de forma a atrair a atenção de outras pessoas, possíveis parceiros e colaboradores. Com isso, o que denominamos de "posição política" é, também, o efeito de um processo de marketing e propaganda, mesmo que "velado". Todas as idéias, mentalidades e culturas são, até certo ponto, "inventadas" ou "fabricadas" em uma rede de produção, tradução e circulação de informações, que envolve também estratégias mais ou menos sutis de marketing e propaganda.

Essa observação também é válida para a mentalidade desenvolvimentista, construída com muito marketing político, boa parte dele de caráter 'velado' (filmes, documentários, novelas etc.). Idéias como "a energia hidroelétrica é limpa", "o Brasil precisa se desenvolver a qualquer custo" etc., são construídas em sociedade e não refletem, de forma alguma, um posicionamento "neutro". Coisas que você cresceu ouvido e que apreendeu a "naturalizar" como "deduções lógicas de caráter universal" (do tipo "basta ser inteligente para entender") são, de fato, construções sociotécnicas. Por trás de idéias simples como "os índios são manipulados por ONGs estrangeiras", existe toda uma rede social e tecnológica de produção, tradução e circulação de informações com grande poder de infiltração nos mais diferentes setores de nossa sociedade. A eficácia do ideário desenvolvimentista não provêm de uma suposta "neutralidade", seja ela de ordem moral, científica ou técnica, mas de uma ampla rede de "marketing" político que atua em diferentes setores da sociedade: nas escolas, nas artes, nas igrejas etc.

Quem nunca ouviu falar em "slogans" políticos como "Pra frente Brasil", "Cinqüenta anos em cinco", "Avança Brasil" etc.? O próprio PAC está baseado em uma visão do Brasil que foi construída durante séculos de marketing político...  Mas existem 'propagandas' mais veladas, como a edição das notícias em tele-jornais: após retratar as controvérsias em torno da construção de Belo Monte, os jornalistas apresentam uma reportagem sobre o "risco de apagão" em cidades do interior de São Paulo; os filmes e documentários que apresentam os índios como 'habitantes da floresta', 'bárbaros' ou simplesmente 'primitivos'... A sobreposição ou correlação de notícias ou fatos é uma arte sútil de marketing político presente no nosso cotidiano jornalístico...

E o uso do marketing nunca foi uma exceção 'diabólica', pois também sempre esteve presente entre as chamadas "forças do bem". Afinal, o que seria do ambientalismo sem "slogans", "cartazes", "campanhas" e outros instrumentos de propaganda? O que seria do socialismo sem as estátuas, imagens e santinhos? O que seria do comunismo sem os "chavões" ou "bandeiras de luta"? Enfim, o que seria da política sem o uso de símbolos? Somente os demagogos acham que política e marketing são coisas completamente opostas. Marketing enquanto instrumento de propaganda é um fato da política de todos os tempos, mas esse marketing não pode ser traduzido - necessariamente - como 'mentira' ou 'ilusão', mas como um instrumento de tradução de idéias.  

O mundo da política é, essencialmente, um campo permeado por batalhas de interpretações infinitas. Nesse campo não existe posição neutra, pois basta estar vivo para estar posicionado. Numa democracia, a arte de convencimento é fundamental para a aprovação de uma lei, ação estatal ou política pública, seja ela qual for. Para aprovar um projeto de lei, por exemplo, é preciso ter uma base de sustentação política e, para isso, é necessário muito marketing. O argumento "purista" de que existe política sem marketing é de um idealismo perigoso, pois completamente contraditório com as "regras" do jogo político vigentes em nossa sociedade. E isso por um motivo muito simples: numa democracia, as idéias precisam ser traduzidas para circularem em amplos setores da população. Em outras palavras, em um regime onde é a "maioria" numérica que decide, a arte de traduzir projetos específicos para uma grande e diversificada massa de seres humanos é fundamental para o exercício do poder político. O fato é que, no que se refere à tradução de idéias, o marketing exerce uma função importante. Mas isso não significa que todo marketing resulta sempre em "ilusionismo", apesar de toda tradução envolver necessariamente uma transformação de um sentido anterior (que não deve ser confundido com a verdade). No campo do marketing, existem diversas estratégias de tradução, algumas mais imaginativas, outras literárias, 'veladas' ou extremamente 'técnicas'...

Mas não devemos partir do pressuposto de que todo marketing é, necessariamente, 'mentiroso', pois essa dedução parte do pressuposto que existe "uma única verdade" a ser revelada (científica ou técnica). Todo marketing é de fato uma tradução e toda 'tradução' tem um tanto de 'traição', mais isso não transforma toda forma de marketing numa forma de mentira (seja ela velada ou explícita). Pois para que um discurso ou imagem seja considerada "mais verdadeira" ou "genuína" é preciso desalojar/deslocar outros discursos, considerados 'mentirosos', algo que faz parte da batalha de interpretações mencionada por Nietzsche (comentando em outro post deste blog). Mas se partirmos do pressuposto de que todas as interpretações são formas de tradução, começamos a entender que as práticas de conhecimento são construções culturais. Com isso, idéias e práticas não surgem do nada, ou 'naturalmente', nem mesmo são o efeito do raciocínio lógico universal (como gostaria Kant), mas são forjadas em sociedade, através de instrumentos como, por exemplo, o marketing social e político (entre outros).

Isso significa que opiniões ou posicionamentos políticos são construídos em sociedade, mas é importante observar aqui que, por 'sociedade', entendo também os elementos técnicos ou tecnológicos (não-humanos), como as redes de computadores, os transmissores, microfones, câmeras... Enfim, todo um conjunto de aparatos tecnológicos que atuam na divulgação e circulação de idéias. A opinião, assim como a crítica e o posicionamento político, são fenômenos construídos em redes sociotécnicas que envolvem uma diversidade de coletivos humanos e não-humanos..   

O fato é que, em um ambiente realmente democrático, não podemos definir o que seria uma 'razão válida' ou não para tomar uma decisão política. Tem gente, por exemplo, que é 'contra Belo Monte" por ter lido textos científicos que comprovam o quanto a obra é inviável do ponto de vista técnico; mas também existem pessoas que são contra por outros motivos, alguns deles supostamente menos 'nobres'.O fato é que as razões, sejam elas quais forem, são sempre políticas. Numa democracia, não podemos definir a priori 'o que é uma razão válida' para tomar uma decisão'. Porque a democracia não diz respeito unicamente à universalização dos direitos de escolha, mas também à aceitação das diferentes motivações ou razões pelas quais as pessoas escolhem. Ora, na era das eliminações "online" do "Big Brother", as pessoas escolhem seus candidatos pelas razões mais diversas possíveis: por gosto pessoal, por origem étnica, pela forma como se vestem ou falam, e também pelas seus posicionamentos religiosos ou ideológicos em questões específicas e pontuais. As motivações para escolher este ou aquele candidato, este ou aquele argumento, são as mais variadas possíveis. Exatamente por isso, para que as idéias possam circular por extensas redes sociotécnicas, elas precisam ser constantemente traduzidas. Não existe circulação sem tradução, assim como não existe tradução sem circulação. O marketing e a propaganda são instrumentos historicamente usados para disseminar idéias e posições, sejam elas políticas, religiosas ou científicas.  

Por isso, não consigo entender o posicionamento dos 'puristas', sejam eles de esquerda ou de direita, em relação ao movimento Gota D'água. Pior, vejo nessas manifestações um traço marcante de intolerância, etnocentrismo e, em alguns casos, algo muito próximo ao autoritarismo fascista. Afinal, todos sabemos que a temática socioambiental precisa ser traduzida para amplos setores da população que não possuem um entendimento técnico da questão, algo fundamental em uma sociedade democrática. Realizar essa tradução é um dos principais objetivos do movimento Gota D'água, que tem a proposta de 'traduzir' as questões socioambientais para o grande público. Trata-se, sem dúvida nenhuma, de um instrumento de marketing político. Mas não se trata de 'qualquer' estratégia de propaganda, pois a proposta consiste em atrair atores, artistas e músicos 'simpatizantes' com as causas socioambientais, no estilo "depoimento". Daí as pessoas colocarem em dúvida o quanto essas pessoas estão 'realmente engajadas' na defesa dos povos indígenas e do meio ambiente. Ora, o importante aqui é que esses artistas participaram voluntariamente e isso indica a sua vontade de contribuir com a causa. E depois, colocar em dúvida o engajamento dos atores globais não seria também outra forma de marketing político?

O fato é que, em uma democracia capitalista como a brasileira, torna-se necessário traduzir a temática socioambiental de uma forma que pessoas de diferentes origens sociais (e com diferentes culturas) possam agenciá-las em suas vidas, apropriando-se delas de diversas formas e por diversos motivos. No mundo da política real (quem quiser mudar a política, vai precisar antes mudar o mundo), o pragmatismo pressupõe tradução, e a tradução pressupõe marketing. Com isso, se quisermos - realmente - impedir ou parar a construção de Belo Monte de forma democrática (caso contrário, poderíamos pegar em armas, como fez a Dilma na época da ditadura militar e, diga-se de passagem, por razões menos nobres) é preciso apreender a jogar sob as regras do jogo, fazendo uso das estratégias da democracia que está aí, fruto de escolhas históricas que fizemos no passado, e continuamos fazendo no presente.

Existe, sim, uma batalha de interpretações em andamento no que se refere à construção de Belo Monte. Essas interpretações ou traduções não são, de forma alguma, neutras, pois refletem interesses econômicos e políticos específicos. Não estamos diante de uma situação onde a ciência ou a tecnologia possa tomar decisões por nós. Não existe nada como uma "verdade universal" (e inquestionável) sobre Belo Monte. As batalhas também atingem os universos da ciência e da técnica, onde também existem controvérsias sobre Belo Monte, assim como no campo conturbado da política.

O fato é que Belo Monte exige de nós um posicionamento político sobre a questão, de caráter existencial, pois está diretamente associada à vida que queremos viver, ao mundo que queremos deixar para os nossos filhos. A ciência nada pode fazer por nós, muito menos a 'verdade'. A escolha, neste caso como em outros, é de caráter existencialista: basta estar vivo para estar posicionado deste ou daquele lado do rio (Xingu).  

Por isso, fazer política consiste, entre outras coisas, em estabelecer uma boa estratégia de marketing e propaganda. O movimento Gota D'água tem o mérito de ter percebido que a pragmática política produz mais resultados do que a retórica idealistas dos radicais, sejam eles de esquerda ou de direita.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Movimento Gota D'água e Belo Monte

"Belo Monte foi superdimensionada. A capacidade de 11,2 mil MW só estará disponível durante três meses do ano. Nos meses de setembro e outubro, quando o rio Xingu fica naturalmente mais seco, a capacidade instalada aproveitável da hidroelétrica não será maior do que 1.088 MW médios. Por que, então, manter essa capacidade instalada total, que representará um custo de investimento da ordem de R$ 30 bilhões, com o aporte financeiro do BNDES, que se dispõe a financiar 80% do custo?" - Célio Bernann (Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, em entrevista para edição especial da Scientific American).

A resposta de Célio é simples: Belo Monte é apenas a ponta de um iceberg muito maior que vem por aí, um conjunto de hidroelétricas planejadas para a região do Xingu. A obra faz parte de um planejamento governamental muito mais amplo, um projeto 'estratégico' associado a forma como os nossos representantes políticos vêm a nossa matriz energética e o nosso modelo de desenvolvimento.

No ideário político de Dilma, o impacto da hidroelétrica sobre a vida de índios e ribeirinhos que vivem na região é algo inevitável diante da demanda por desenvolvimento, um "sacrifício" em nome do crescimento econômico. Esse posicionamento político conta com o suporte do imaginário nacional sobre os índios e ribeirinhos, geralmente percebidos como um obstáculo ou anacronia que deve ser superada.    

Ao mesmo tempo, o governo e os principais interessados na construção de Belo Monte têm abordado a questão por um viés "terrorista", alarmando a população de que 'sem Belo Monte vai faltar energia elétrica na casa das pessoas', o chamado 'risco do apagão'.

Mas será que é assim mesmo? Como saber, se não nos é dado o direito de discutir e debater a questão? Afinal, boa parte da população não tem a menor ideia de onde vem a energia elétrica consumida em suas casas e nunca conheceu os povos indígenas e ribeirinhos que vivem na região, seu modo de vida e a forma como eles dependem e usam a floresta e os rios que estão sob risco de destruição. Da mesma forma, desconhecemos os interesses econômicos envolvidos na construção de Belo Monte. O que sabemos é que a obra está sendo financiada com recursos públicos. Isto significa que pessoas assim como eu e você é que estão financiando Belo Monte. Agora, o difícil é visualizar quem está lucrando com a construção de Belo Monte. Quais são as empresas que compõe o consórcio responsável pela obra? Quais são os interesses econômicos envolvidos na questão? Quem sabe? Alguém sabe? Ninguém sabe?

Porque não podemos usar o caso da hidroelétrica Belo Monte para avaliar e refletir sobre a nossa matriz energética, a forma como ela foi concebida, os potenciais e as alternativas existentes, os caminhos alternativos que podemos visualizar a médio e longo prazo? Será que o passaporte para o desenvolvimento do Brasil reside necessariamente na destruição da Amazônia e dos povos que habitam suas matas e rios? Será que realmente não existem outras alternativas de geração de energia elétrica? Quais são os investimentos e as políticas públicas que estão sendo adotadas com a finalidade de buscar outros caminhos de geração de energia? Será que a energia hidroelétrica é realmente uma fonte "limpa"? Porque não podemos discutir essa questão? Será que não existem caminhos mais sustentáveis para garantir o tão aclamado desenvolvimento? As pessoas diretamente afetadas pela obra estão sendo devidamente consultadas, conforme determina a nossa Constituição?

É exatamente esse o questionamento que orienta o movimento "Gota D'água", que assumiu a polêmica em torno da construção de Belo Monte como sua primeira ação de sensibilização do público mais amplo para os problemas socioambientais enfrentados pela nossa sociedade. Com apoio de um seleto grupo de atores "globais", o movimento pretende envolver o cidadão comum no debate, para que ele busque mais informações e se posicione.

A ação é motivada pela forma estereotipada em que a mídia tem abordado os conflitos socioambientais oriundos da ampliação das frentes desenvolvimentistas na Amazônia e no centro-oeste. As reivindicações dos povos indígenas, ribeirinhos e ambientalistas são retratadas como uma anacronia sem sentido, um movimento "bárbaro" contra o desenvolvimento da sociedade brasileira. Mas será que destruir os rios e as matas que sustentam os povos que vivem na região é uma atitude "civilizada"? Não faz parte do caráter bárbaro o desrespeito e a insensibilidade com a alteridade cultural? A forma como a questão é apresentada (e editada) mostra a construção de Belo Monte como a única alternativa para a geração de energia elétrica. A sobreposição de notícias leva o espectador a acreditar que esse é a única garantia de que ele continuará tendo acesso aos benefícios da eletricidade, base material sem a qual não haveria como manter e reproduzir o modo de vida urbano e capitalista. Como podemos ver, a nossa atual matriz energética é legitimada nos meios de comunicação de massa a partir de um marketing "velado", composto nem tanto pelo conteúdo da notícia, mas pela forma como os eventos são narrados e associados entre si. As pessoas são levadas a crer que a energia hidroelétrica é o único caminho para a manutenção do seu meio de vida "moderno", urbano e capitalista. Mas, insisto, será assim mesmo?

Não sabemos e não temos como saber se não nos é dado o tempo necessário para debater e discutir a questão em um ambiente realmente democrático. A imposição desse modelo de desenvolvimento e sua respectiva matriz energética é um fato histórico da política nacional, resta saber se essa é, realmente, a única alternativa. No contexto da ditadura militar, as políticas e ações do governo eram impostas sobre a população, justificadas por um tecnicismo de "caserna" que sempre viu a Amazônia como um "território vazio" de conhecimento e pessoas, uma fonte de enriquecimento, desconhecendo o valor humanitário da sua conservação. Na época, não era permitido à população brasileira discutir ou questionar essa política. Inclusive, teve muita gente que pegou em armas contra o regime da exceção exatamente devido ao desmando dos militares e sua atitude anti-democrática. Vivíamos no período da censura totalitária, sem espaço para discussão e debate de opiniões.

Mas hoje vivemos em uma democracia e temos o direito de debater e discutir a nossa matriz energética! Energia não é um problema unicamente técnico, mas social e político. Inclusive, vale lembrar, existe muita controvérsia entre os engenheiros e cientistas sobre a viabilidade de Belo Monte, mas, infelizmente, a população não tem acesso a multiplicidade de visões e opiniões sobre o assunto. E não podemos nunca esquecer, sem acesso à informação não existe, de fato, exercício do direito de escolha, não existe democracia.

O movimento Gota D'água é uma inovação sensacional, pois faz uso dos meios de comunicação e marketing para produzir e disseminar a ideia de que precisamos debater a questão, principalmente, entre pessoas que dificilmente prestam atenção e se deixam sensibilizar pelo discurso de ambientalistas, antropólogos e lideranças políticas sobre os conflitos socioambientais na Amazônia. Afinal, é difícil imaginar a problemática sem ter contato ou experiência direta com a região e seus habitantes. Os problemas enfrentados por índios e ribeirinhos afetados pela construção de Belo Monte parecem distante - aparentemente - da realidade vivenciada nas grandes metrópoles. Para resolver esse impasse ou distanciamento emotivo (ou sentimental) do grande público, nada melhor do fazer uso de meios e recursos que possibilitem e facilitem a propagação das informações.

Os atores, músicos e artistas possuem um alcance carismático que está acima de todo e qualquer discurso teórico ou técnico, pois conseguem traduzir a problemática e a controvérsia em torno de nossa matriz energética para um grande número de pessoas, desempenhando um papel que deveria ser da mídia, conforme determina a função social dos meios de comunicação, preceito constitucional nunca observado na prática. O fato desses atores acreditarem na causa que estão ajudando a propagar torna o movimento mais legítimo ainda, potencializando ainda mais a sua mensagem.

Se você tem qualquer dúvida, por menor que seja, acesse o site do movimento no link abaixo, conduza suas próprias pesquisas em outras fontes de informação, discuta com seus familiares, amigos e vizinhos e - o mais importante - não deixe de se posicionar sobre o assunto!  

Acredite, você pode fazer a diferença! Ajude a salvar a Amazônia e os índios que habitam lá!

Link para o blog do movimento "Gota D'água":

http://movimentogotadagua.com.br/

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Aritana - "Estamos cercados"

"Agora, ao contrário do que acontecia no passado, tudo é muito rápido. As cidades são grandes e fortes. Agora tem Canarana, Querência, Gaúcha do Norte, tudo do lado do Parque. Estamos cercados. O desmatamento agora é acelerado e bem no limite do Parque. O rio está assoreado por causa do desmatamento e da chuva que leva a terra nua. A barragem de Paratinga afeta a altura das águas do rio. E o rio, agora, tem menos peixes que no passado por causa dos pescadores que estão lá em cima, fora dos limites do Parque. Agora tem uma concentração grande e crescente de pousadas nessa área e isso preocupa muito a gente".

Aritana, cacique dos Yawalapiti, líder  Xinguano. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Raoni - Sobre Belo Monte

"Mas a gente vai lutar. Vai lutar até o fim porque Belo Monte não pode acontecer. A gente vai lutar, vai reunir muita gente. Vai em Brasília, vai falar pra todo mundo que essa usina não pode acontecer na nossa terra. Porque o branco, o governo do branco, não tem direito de fazer isso na nossa terra. A gente não tem montanha aqui, a gente não tem balsa grande pra viver todo mundo em cima dela. A gente não tem morro aqui não. É tudo plano e a água vai encher tudo e vai acabar com a mata e o rio que alimenta o nosso povo. Essa usina vai acabar com o nosso peixe, com a nossa vida, com o jeito que a gente vive aqui.

"Eu pedi ajuda sim. Eu estou pedindo ajuda de todo mundo contra a construção dessa usina de Belo Monte. (...) O branco não pode chegar assim e dizer: 'Eu vou fazer a usina e pronto'. Os portugueses chegaram aqui e foram eles que começaram a tomada da nossa terra, a terra onde a gente vivia, onde a gente vive até hoje. Aí começou tudo, com os portugueses. Mas eu estou avisando, eu estou avisando faz tempo pra não fazer a usina porque nós vamos brigar. A gente não vai desaparecer. Se não fizer a luta contra a usina, a gente vai desaparecer.

"Eu quero que eles ajudem porque eu tô preocupado com o que vai acontecer com todo mundo. Não é só com os índios não. É com o branco também. Eu tô preocupado com tudo isso aí. A usina de Belo Monte vai afetar tudo, vai destruir muito. Tem cidade aqui perto. Tem branco que mora por aqui e eles também vão ser prejudicados pela Belo Monte. Eles também vão perder se forem mexer com o rio. Todo mundo vai ficar sem peixe, a mandioca vai ser ruim para o branco também, porque a gente planta a mandioca na terra preta e a água vai cobrir essa terra.

"É isso que eu quero. Que a gente lute junto contra essa usina de Belo Monte, que a muié lá em Brasília entenda que não pode construir a usina aqui. A gente tem que ficar junto pra manter a natureza".


Raoni - cacique  Kayapó, líder indígena doBaixo Xingu


Fonte: Scientific American Brasil, Edição Especial (2011)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Xingu na Scientific American

Vale a pena conferir a edição especial da revista "Scientific American" (Brasil), intitulada "Patrimônio Cultural do Xingu: o começo do fim?". A revista aborda, sob diferentes perspectivas e cenários, a situação atual dos povos indígenas que vivem no Parque, reconhecido pela Unesco como um dos mais complexos e interessantes mosaicos linguísticos e culturais do mundo. Criado em 1961 pelo presidente Jânio Quadros, o Parque representa a primeira reserva indígena homologada pelo governo federal. Enquanto empreendimento humano e intelectual, a criação da área é reflexo do trabalho incessante e obstinado dos irmãos Villas Bôas pela preservação dos povos indígenas do centro-oeste, diante do avanço iminente da frente desenvolvimentista. Atualmente, a região abriga mais de cinco mil índios, provenientes de quatorze etnias diferentes, pertencentes as quatro grandes famílias linguísticas do Brasil.

A revista traz várias reportagens sobre o Parque, abordando o risco associado ao avanço de um processo de "povoamento" que teve início na década de 1940, no Estado Novo de Getúlio Vargas. Com o início da chamada "Marcha para o Oeste", levas de migrantes provenientes do sul do país foram incentivados a se deslocar para a região do entorno da área da reserva, hoje completamente ocupada por um arco de destruição ambiental, marcado pela agropecuária e pela agricultura (soja). O avanço desse arco e os seus efeitos na vida dos índios da região é denominado pelo jornalista Ulisses Capozzoli como "O Aperto da Sucuri", em alusão a situação em que se encontra atualmente a região, completamente cercada pelo avanço da agropecuária e da agricultura..

Outras reportagens abordam, entre outros assuntos: o posicionamento dos índios em relação à construção da Usina Hidroelétrica Belo Monte, no Pará; a relação dos irmãos Villas Bôas com o Parque e sua história; os problemas ocasionados pelo avanço do agronegócio; entrevistas com lideranças indígenas;  e um excelente artigo de Célio Bergmann, especialista em Sistema Energéticos, livre-docente do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP, sobre os aspectos técnicos da hidroelétrica Belo Monte.

A edição representa uma grande contribuição para o esclarecimento de diversas questões associadas ao polêmico debate em torno da construção de Belo Monte e outras hidroelétricas na Amazônia, além de trazer informações interessantes sobre a situação do Parque Indígena do Xingu e seus habitantes.

sábado, 12 de novembro de 2011

Autoritarismo e Anti-democracia: a portaria interministerial 419/2011

Recentemente, o governo federal editou a Portaria Interministerial nº 419/2011, por meio da qual pretende "agilizar" o andamento dos processos de licenciamento ambiental envolvendo obras com impacto direto na vida dos povos indígenas e quilombolas da Amazônia. Diante dos procedimentos constitucionais associados à liberação de obras - instituídas, vale lembrar, pelo movimento democrático e civil que deu origem à Constituição Federal de 1988 - o governo Dilma, de forma autoritária e anti-democrática, elaborou essa medida para "driblar" a Constituição e restringiu o papel desempenhado pelos órgãos responsáveis por fiscalizar a liberação de grandes obras com possível impacto social e ambiental (FUNAI, Fundação Palmares etc.). A medida foi incentivada pela atual situação política em torno da construção da hidroelétrica Belo Monte e outras obras do PAC.

Essa medida representa um ataque à democracia e ao Estado de Direito, evidenciando o autoritarismo da presidenta e seus comandados. É impressionante como uma pessoa que pegou em armas contra o autoritarismo dos governos militares, chegando a sofrer na própria pele a intransigência e a falta de ética (a maldade mesmo) dos seus algozes e torturadores, hoje, ao ocupar o cargo mais importante do governo federal, reproduz a mesma mentalidade desenvolvimentista e intransigente que marcou a atuação dos militares entre 1964-85.

Mentalidade "tosca" mesmo, de gente que não sabe ver o Brasil como ele realmente é, uma antiga falha das nossas elites intelectuais, tanto de esquerda como de direita. Para essa gente, habituada desde cedo a ver a vida pelo véu dos números e das quantidades exatas e a governar o Brasil com os olhos na Europa e nos Estados Unidos; os índios e ribeirinhos são percebidos como "pobres" (ou o que é pior ainda, "miseráveis"), que precisam ser "inseridos" como "trabalhadores braçais" na chamada "sociedade nacional". Não existe, por parte da presidenta, um reconhecimento da alteridade cultural desses povos e da importância de preservar um patrimônio inestimável para a humanidade e para todos nós, brasileiros. O desrespeito contra as prerrogativas constitucionais democraticamente estabelecidas pela sociedade civil, através dos seus representantes eleitos, é um ataque a vida democrática e ao exercício da cidadania, em pleno século XXI.

Maiores informações sobre a situação podem ser acessadas:

No site do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), através do link:
http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=5931&action=read   

No site da Associação Brasileira de Antropologia, no link:
http://www.abant.org.br/

No site da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), no link:
http://blogapib.blogspot.com/2011/11/manifesto-publico-de-organizacoes.html?spref=fb

Greve na Universidade Federal de Rondônia

Tenho recebido alguns e-mails pedindo para comentar aqui a situação dos alunos e professores da Universidade Federal de Rondônia, em greve desde o dia 14 de setembro. O objetivo da greve é buscar garantir melhores condições de trabalho na universidade, que necessita reformas emergenciais, principalmente, no que se refere a sua infra-estrutura . Os alunos aderiram à greve e ocuparam a reitoria da universidade, onde estão até agora. A situação se agravou com a prisão de um professor de história que estava apoiando o movimento grevista e que, aparentemente, foi levado pelos policiais pelo simples fato de ser um "simpatizante" e por estar literalmente chupando um pirulito enquanto conversava com os agentes da polícia civil. Diante dos acontecimentos envolvendo os estudantes da USP, a greve em Rondônia não foi sequer mencionada nos grandes meios de comunicação. Membros do movimento estão sendo perseguidos e coagidos pela polícia local e a administração da universidade não está disposta a atender as reivindicações dos grevistas.

Para quem quiser saber mais informações sobre o movimento, segue abaixo  o relato de um professor da UNIR sobre o movimento grevista e as irregularidades promovidas pela atual administração.

"Em resposta a pauta grevista, a administração da Universidade disse que as reivindicações por melhorias não fariam sentido, já que a Universidade, por mais que apresentasse problemas, estava bem, obrigado.

Aos poucos, o movimento dos alunos se transformou em um movimento para afastamento da administração atual, por entender que havia uma série de denúncias (em licitações, obras, recursos, fundação de apoio, concursos públicos, etc.) que precisavam ser tiradas a limpo. Ato contínuo, o movimento grevista montou um dossiê de 1.500 páginas onde essas denúncias eram sistematizadas e foi a Brasilia, encaminhá-las ao MEC e a Casa Civil, da Presidência da República.

Na Casa Civil, com todas as letras, ouviram de um assessor que uma vez que a administração atual da Universidade contava com o apoio de um político da executiva nacional do PMDB, base aliada do Governo Federal no Congresso, nada haveria a ser feito.

Há alguns dias a Polícia Federal, em uma tentativa desastrada (e desastrosa) de descoupação do prédio da Reitoria, ocupada por alunos da instituição há quase um mês, acabou agredindo um Deputado Federal que lá estava, tentando negociar (Deputado Mauro Nazif, PSB-RO) e prendendo um professor, que nada fazia a não ser observar a cena. 

Abaixo alguns vídeos mostrando o momento da prisão do Prof. Valdir Aparecido, do Departamento de História (Campus de Porto Velho), bem como a agressão ao parlamentar:

http://www.youtube.com/watch?v=xeBQh3BlGaU&feature=player_embedded

http://www.youtube.com/watch?v=II88f_0Xn_E
  (em 04:32 vê-se claramente o deputado ser agredido pelo policial a golpes de cassetete)

http://www.youtube.com/watch?v=xnj1zx0nW3M

Já o link abaixo contém uma foto do mesmo momento da prisão onde se vê, de branco, ao centro, o prof. Valdir sendo levado por dois agentes a paisana (um moreno, a esquerda, com uma pistola na mão e outro, a direita, de camisa vermelha, com um cassetete, que daí a alguns segundos seria utilizado para agredir o Deputado Nazif, de camisa azul clara, no alto da imagem, à direita). De laranja, no canto esquerdo da foto, um rapaz que se identificou como agente da PF, carregando uma câmera subtraída de um dos professores que teria registrado parte da confusão):

http://www.rondoniagora.com/noticias/nazif-reafirma-agressao-de-agente-federal-e-identifica-agressor-2011-10-21.htm

Naquela mesma noite o Prof. Valdir foi encaminhado a um presídio comum, chamado “Urso Panda”, onde passou a noite em uma cela.

Alguns dias após o ocorrido, um jornalista local foi coagido por Policiais Federais, por publicar notícias apoiando a greve na Universidade (http://oglobo.globo.com/cidades/mat/2011/10/25/jornalista-de-rondonia-diz-ter-sido-ameacado-por-delegado-da-pf-apos-publicar-texto-de-estudantes-em-greve-925652693.asp)


Há informações atualizadas sobre esses eventos no site mantido pelo comando de greve da Universidade, http://comandodegreveunir.blogspot.com."       

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A Batalha de Interpretações em Nietzsche e Said e o Objetivismo Científico

Outro dia estava folhando o livro "Reflexões sobre o exílio e outros ensaios", de Edward Said, e encontrei uma passagem sobre Nietzsche que me chamou atenção, sobre a "batalha de interpretações". O trecho é mencionado por Said em um ensaio onde ele compara a filosofia desse autor com a literatura de J. Conrad (autor de Corações das Trevas).

"Assim, tudo que é pronunciado interpreta algo que foi dito antes, é uma interpretação de uma interpretação que não serve mais. De modo ainda mais premente, Nietzsche via a história humana como uma batalha de interpretações, pois, uma vez que o homem existe sem a esperança de chegar ao primeiro elo da cadeia de interpretações, ele deve apresentar sua própria interpretação como se fosse um significado seguro, em vez de uma mera versão da verdade. Ao fazer isso, ele forçosamente desaloja outra interpretação, a fim de colocar a sua no lugar. Nietzsche considerava que a luta entre interpretações percebida historicamente era o tema da genealogia da moral. Quanto à função da interpretação num mundo em crescente vir-a-ser, Nietzsche tinha isto a dizer em 1885-86:

'Interpretação, a introdução de sentido - não 'explicação' (na maioria dos casos, uma nova interpretação em cima de uma antiga que se tornou incompreensível, que é agora apenas um signo). Não há fatos, tudo está em fluxo, incompreensível, esquivo; o que é relativamente duradouro são nossas opiniões'.

As reflexões apresentadas por Nietzsche em Para além do bem e do mal (1885-86) e Para a Genealogia da Moral (1887) dão continuidade à crítica a pretensão de alguns filósofos em definir a verdade sobre o Homem (com "H" maiúsculo, o Homem enquanto ente universal) a partir da moral e da linguagem do seu próprio tempo. Em contraposição a isso, que o autor denomina de "defeito hereditário dos filósofos", Nietzsche propõe a necessidade de um filosofar histórico, em contraposição à saga de buscar a determinação da coisa em si (a verdade universal de Aristóteles). O autor de Assim falou Zaratustra denúncia os filósofos legisladores devido à sua pretensão em definir a verdade filosófica sobre o mundo em contraposição às interpretações, consideradas versões mais ou menos aproximadas dessa verdade (sombras na caverna platônica).

Em relação a essa pretensão de seus colegas, Nietzsche rejeita tal projeto em nome de uma visão histórica da moral e do homem, onde a prerrogativa do conhecimento filosófico e científico sobre as interpretações é negligenciada, como podemos ver nesse breve trecho de A gaia ciência, citado por Said no mesmo ensaio:

"Mas penso que hoje, pelo menos, estamos distanciados da ridícula imodéstia de decretar, a partir de nosso ângulo, que somente dele pode-se ter perspectivas. [Nietzsche rejeita aqui a posição que toma todas as outras posições como meras interpretações e a conseqüência implícita de que uma é verdadeira, e não interpretação.] O mundo tornou-se novamente 'infinito' para nós: na medida em que não podemos rejeitar a possibilidade de que ele encerre infinitas interpretações".

Essas reflexões foram importantes no desenvolvimento da abordagem de Said do fenômeno do Orientalismo, como podemos ver no seguinte trecho: "as idéias, as culturas e as histórias não podem ser seriamente compreendidas ou estudadas sem que sua força ou, mais precisamente, suas configurações de poder também sejam estudadas" (Orientalismo, p. 32).

A relação de Nietzsche com a obra de Conrad reside na maneira como a linguagem é percebida por esses dois autores: "essa visão da linguagem como perspectiva, interpretação, pobreza e excesso é a primeira das três maneiras de unir Conrad e Nietzsche". 

Não existe linguagem neutra - enquanto conhecimento objetivo e universal de uma Natureza em si  - pois todas as linguagens (inclusive as matemáticas) estão enraizadas na história e na cultura. Por outro lado, não podemos negligenciar que as ciências ocidentais - conforme argumenta Heidegger - buscam fundamentar a sua prerrogativa epistemológica na eleição do conhecimento quantitativo como índice da verdade. A questão, portanto, não é ser contra ou a favor da matemática, mas, sim, em analisar o uso que tem sido feito dessa linguagem no pensamento ocidental científico. Segundo essa abordagem, a matemática (assim como as demais linguagens humanas) deve ser entendida mais como uma interpretação (entre outras) do que como uma 'explicação' do mundo. Segundo Nietzsche (questão apropriada posteriormente por autores como Heidegger e Foucault) não existe prerrogativa epistemológica (seja ela filosófica ou científica), mas uma luta constante entre as múltiplas (e infinitas) interpretações possíveis.

Ao mesmo tempo, devemos reconhecer - como Said na questão do orientalismo - de que o imaginário objetivista associado ao conhecimento quantitativo produz efeitos pragmáticos, ou seja, de que o objetivismo matemático nas ciências ocidentais é um 'corpo elaborado de teoria e prática em que, por muitas gerações, tem-se feito um considerável investimento material' (Ver Orientalismo, p. 33). O fato, portanto, é que o objetivismo enquanto um sistema de conhecimento pode ser entendido como uma 'grade' usada para filtrar a "experiência humana" na consciência ocidental, uma forma de enquadrá-la e discipliná-la, produzindo-a enquanto um sistema de relações de poder com grande capacidade de infiltração na sociedade como um todo, modo pelo qual consegue desalojar as demais linguagens como "meras" interpretações.

O objetivismo, neste caso, não se dá a partir de uma anulação da subjetividade humana, mas como um modo específico (e histórico) de subjetivação. Esse sistema de conhecimento pode, portanto, ser abordado enquanto prática histórica (para além do seu efeito retorico), a partir de uma etnografia das ciências realmente preocupada em entender o pensamento e a prática científica nos seus próprios termos (ao invés de desautorizá-la a partir de uma autoridade etnográfica concentrada em revelar o que os cientistas estão realmente fazendo quando estão 'fazendo o que pensam estar fazendo').                     
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