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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Vida e Materialismo Histórico em Marx e Engels

"Com relação aos alemães, que não dispõem de quaisquer premissas, devemos lembrar a existência de uma primeira premissa de toda a existência humana e, portanto, de toda a História, ou seja, a premissa de que os homens têm de estar em condições de viver para poderem fazer História. Para viver é preciso, sobretudo, comer, beber, vestir-se, ter uma habitação etc. O primeiro fato histórico é, portanto, a produção dos meios para a satisfação dessas necessidades, a produção da própria vida material, e a verdade é que este é um fato histórico, uma condição fundamental de toda a História, que ainda hoje, tal como há milhares de anos, tem de ser realizado dia a dia, hora a hora, para, ao menos, manter os homens vivos. Mesmo quando a realidade se reduz a um simples bastão, como como São Bruno, essa mesma realidade pressupõe a atividade da produção deste bastão. Assim a primeira coisa a fazer em qualquer concepção da História é observar este fato fundamental em todo o seu significado e em toda a sua dimensão, e atribuir-lhe a importância que lhe é devida.

(...) A produção da vida, tanto da própria, no trabalho, como da alheia, na procriação, surge imediatamente como uma dupla relação: por um lado como relação natural, por outro como relação social, no sentido em que aqui se entende a cooperação de vários indivíduos não importando em que circunstância, maneira e com que objetivos. Disto resulta que um determinado modo de produção ou estágio de desenvolvimento industrial esteja sempre ligado a um determinado modo de cooperação, ou fase social, e este modo de cooperação é ele próprio uma 'força produtiva'; e que a quantidade das forças produtivas acessíveis aos homens condiciona o estado da sociedade e, portanto, a 'História da Humanidade' tem de ser estudada e tratada em conexão com a história da indústria e da troca.

Somente agora, depois de termos examinado quatro momentos, quatro facetas das relações históricas primordiais, verificamos que o homem também tem 'consciência'. Mas não se trata de uma consciência que seja de antemão consciência 'pura'. Sempre pesou sobre o 'espírito' a maldição de estar preso à matéria, a qual aqui se manifesta sob a forma de camadas de ar em movimento, de sons, em outras palavras: sob a forma de linguagem. A linguagem é tão velha como a consciência, a linguagem é a consciência real prática que existe também para outros homens e que, portanto, só assim existe também para mim, e a linguagem só nasce, como a consciência, da necessidade, da carência de contato com outros homens. Onde existe uma relação, ela existe para mim.

(...) A consciência da necessidade de manter relações com os outros indivíduos marca o começo da consciência do homem de que vive, de fato, em sociedade. Este começo é tão animal quanto a própria vida social desta fase, é mera consciência gregária e, neste aspecto, o homem se distingue aqui do carneiro apenas pelo fato de a sua consciência substituir o instinto ou de o seu instinto ser consciente".

Referência: MARX, K. e ENGELS, F. A Ideologia Alemã: teses sobre Feuerbach (Relações Históricas Primordiais).

Imagem: Cássio Loredano (Editora Boitempo)            

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

28ª Reunião Brasileira de Antropologia - Desafios Antropológicos Contemporâneos

Com esta postagem, damos início às atividades do blog em 2012.

O tema é a 28ª Reunião Brasileira de Antropologia, a ser realizada na Pontifícia Universidade Católica, em São Paulo, entre os dias 2 e 5 de julho deste ano. O tema do congresso está centrado nos desafios contemporâneos que estimulam o crescimento da disciplina, incentivando nossa comunidade a buscar novos espaços de atuação. Essa temática se enquadra perfeitamente no trabalho desempenhado pela atual gestão, que tem contribuindo significativamente para aproximar a antropologia dos dilemas socioculturais enfrentados por diversos setores da nossa sociedade, com suas demandas por posicionamento e ação política. Nunca a comunidade acadêmica esteve tão diretamente envolvida com as controvérsias políticas e técnicas de nosso tempo.

É preciso reconhecer que esse trabalho dá continuação a um processo que teve início nas gestões passadas e que amadureceu com o tempo e com o crescimento da própria disciplina, tanto no que se refere ao tamanho de nossa comunidade, como também no que se refere às abordagens teóricas e metodológicas, com a ampliação de novas perspectivas e a consolidação de outras mais antigas. A antropologia brasileira é reconhecida mundialmente como uma das sociedades acadêmicas mais bem sucedidas, o que se deve ao trabalho obstinado das gerações anteriores e a criatividade e disposição dos acadêmicos mais novos. Também é importante reconhecer o trabalho fundamental de melhoria dos nossos meios de comunicação, com destaque especial para o informativo da ABA, que nos mantém informados sobre assuntos de interesse de nossa comunidade.

Seguindo uma prática iniciada na 27ª Reunião Brasileira de Antropologia, nós, da comunidade 'antroposimetrica', fizemos uma pequena seleção de grupos de trabalho e mesas redondas que melhor se enquadram com a proposta do nosso blog.
 
Para além desta listagem, gostaríamos de salientar que a programação da 28ª RBA está ótima, com atividades e eventos que abrangem uma diversidade imensa de temas e abordagens, satisfazendo todas as tendências atuais de nossa comunidade. Informações mais detalhadas sobre os GTs e MRs mencionados aqui podem ser encontradas no site do evento:  http://www.28rba.abant.org.br/

Com isso, gostaríamos de desejar a todos um ótimo congresso! Nos vemos em São Paulo!

Grupos de Trabalho da 28ª RBA associados à temática 'antroposimetrica'

GT 04 - Amazônia e Nordeste Indígenas: por uma etnologia transversa
Coordenadores: Ugo Maia Andrade (UFS) e Maria R. de Carvalho (UFBA)                  

GT 05 - Animais e humanos em contextos urbanos e rurais: novas perspectivas sobre relações interespecíficas
Coordenadores: Felipe Ferreira Vander Velden (UFSCAR) e Ciméa Barbato Bevilaqua (UFPR)
Debatedores: Andréa Osório (UFF) e Maria Isabel Dantas (UFRN)

GT 06 - Antropologia da Comunicação de Massa
Coordenadores: Isabel Travancas (UFRJ) e Silvia Garcia Nogueira (UEPB)

GT 09 - Antropologia do Cinema: entre narrativas, políticas e poéticas
Coordenadores: Luiz Gustavo Correia (UFS) e Debora Breder (UCAM)

GT 13 - Arte e Antropologia
Coordenadores: Caleb Farias Alves (UFRGS) e Carla Dias (UFRJ)
Debatedor: Lígia Dabul (UFF)

GT 17 - Como reconhecer os empasses do desenvolvimento e do ambientalismo
Coordenadores: Marta Amoroso (USP) e Stellio Marras (IEB/USP)
Debatedor: Gilton Mendes (UFAM)

GT 18 - Conhecimento, criatividade e os efeitos dos direitos culturais e intelectuais entre povos amazônicos
Coordenadores: Edilene C Lima (UFPR) e Geraldo Andrello (UFSCAR)
Debatedores: Marcela Coelho de Souza (UnB) e Dominique Tilkin Gallois (USP)

GT 19 - Cooperação Internacional: temas, problemas e perspectivas antropológicas de análise
Coordenadores: Renata C Valente (MI) e Maria Barroso Hoffman (UFRJ)
Debatedores: João Paulo Castro (UNIRIO) e Natasha Nicaise (UNICAMP)

GT 20 - Cuidados Terapêuticos, crenças e emoções
Coordenadores: Octavio Bonet (UFRJ) e Fátima Tavares (UFBA)
Debatedores: Rachel Menezes (UFRJ) e Claudia Rezende (UERJ)

GT 43 - Grandes empreendimentos, administração pública e populações: encontros e desencontros
Coordenadores: Marcos Bezerra (UFF) e Deborah Bronz (UFRJ)
Debatedores: Henyo T Barreto Fº (IIEB) e Antonio Carlos de Souza Lima (UFRJ)

GT 48 - Materialidades do Sagrado: religiões e objetos
Coordenadores: Renata de Castro Menezes (UFRJ)e Ronaldo de Almeida (UNICAMP)

GT 51 - Novos olhares na etnologia voltada aos Guarani
Coordenadores: Valéria Macedo (UNIFESP) e Elizabeth Pissolato (UFJF)
Debatedores: Dominique Tilkin Gallois (USP) e Tania Stolze Lima (UFF)

GT 57 - Por uma antropologia política da saúde indígena
Coordenadores: Carla Costa Teixeira (UnB) e Carmen Lucia da Silva (UFMT)
Debatedor: Cristina Dias da Silva (UFJF, UnB)

GT 64 - Repensando a política da América Indígena: liderança contra-o-Estado, respostas às formas modernas
Coordenadores: Salvador Schavelzon (PUC-Campinas) e Renato Sztutman (USP)
Debatedores: Marina Figueiredo (UFRJ) e Oiara Bonilla (UFRJ)

Mesas Redondas da 28ª RBA associadas à temática 'antroposimetrica'

MR01 - Antropologia da Ciência: trajetória, interfaces, intervenções
Coordenador: Claudia W Fonseca (UFRGS)
Debatedor: Otávio Velho (UFRJ)
Participantes: Sérgio Carrara (UERJ), Fabíola Rohden (UFRGS) e Guilherme da Silva e Sá (UnB)

MR06 - As metamorfoses do etnógrafo
Coordenador: Vanessa Lea (UNICAMP)
Debatedor: Bruna Franchetto (UFRJ)
Participantes: Edilene C Lima (UFPR), Marcela Coelho de Souza (UnB) e Fabiane dos Santos (Fiocruz)

MR08 - Biosocialidades, instituições e espaços identitários em perspectiva comparada
Coordenador: Carlos Guilherme Octaviano do Valle (UFRN)
Participantes: Susana Margulies (UBA), Telma Camargo da Silva (UFG) e Sahra Gibbon (UCL)

MR09 - Claude Lévi-Strauss e os desafios da antropologia contemporânea
Coordenador: Marcos Lanna (UFSCAR)
Debatedor: Amir Geiger (Inirio)
Participantes: Mauro W Barbosa de Almeida (UNICAMP), Edmundo Peggion (UNESP) e Mariza Werneck (PUC/SP)

MR12 - Críticas Ameríndias da Política: experiências cruzadas (Amazônia, Andes e Chaco)
Coordenador: Renato Sztutman (USP)
Participantes: Marina Figueiredo (UFRJ), Diego Villar (CONICET) e Salvador Schavelzon (PUC-Campinas)

MR26 - Mundo Mudo e Muitos Mundos: debates em antropologia da ciência e da tecnologia
Coordenador: Eduardo Viana Vargas (UFMG)
Debatedor: Pedro Ferreira (UNICAMP)
Participantes: Stelio Marras (USP), Marko Monteiro (UNICAMP) e Érica de Souza (UFMG)

MR31 - Problemas e possibilidades no estudo etnográfico do Estado
Coordenador: Antonio Carlos de Souza Lima (UFRJ)
Participantes: Carla Costa Teixeira (UnB), Gustavo Blázquez (CONICET/UNC) e Marcos Bezerra (UFF)     

sábado, 3 de dezembro de 2011

A Linguagem em Heidegger e Gadamer

"Talvez a melhor forma de mostrar isso seja a partir da interpretação heideggeriana da aletheia. Heidegger traduz aletheia por 'desvelamento'. A partir do uso linguístico grego, talvez fosse mais correto dizer com Humboldt e outros: 'desocultamento'. (...) A linguagem 'arranca' do 'velamento', traz para o desvelamento, para a palavra e para o risco do pensamento. (...) É quase desnecessário dizer como resultou daí facilmente para Heidegger a passagem para o 'morar'. Pois 'morar' também é efetivamente uma palavra para designar o fato de não nos encontrarmos diante dos objetos para dominá-los. Nós habitamos no habitual. No interior desse habitual também se acha a linguagem, algo em que vivemos, moramos e nos sentimos em casa. (...) Palavra e língua são aquilo com o que lidamos uns com os outros e com o mundo no estamos em casa - essa moral do qual Hegel já estava consciente ao empregar a bela expressão 'encontrar sua moradia' para descrever a tarefa humana. De maneira similar, Heidegger mostrou junto ao morar que a palavra não possui em torno de si um círculo daquilo que é dominado, mas um círculo daquilo que é familiar. É um espaço próprio que se abre aí - e um espaço no qual nunca estamos sozinhos. Não apenas porque estamos aí tão frequentemente com outros homens. Sempre estamos antes de tudo envolvidos pelos rastos da própria vida e preenchidos pela totalidade de nossas lembranças e esperanças".

Fonte: "Hermenêutica em Retrospectiva" - Hans-Georg Gadamer    

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Gregory Bateson: uma figura interdisciplinar

"O mais interessante dos jovens forasteiros ingleses nos anos entre as duas grandes guerras, porém, foi Gregory Bateson (1904-1980). Ele vinha de uma família acadêmica, de classe média alta. Seu pai, o famoso biólogo William James, deu esse nome ao filho em homenagem a Gregor Mendel, criador da genética. Bateson estudava biologia quando Haddon, em conversa com ele num trem com destino a Cambridge, o converteu para a antropologia, e ele logo partiu para pesquisas de campo na Nova Guiné. Depois de uma tentativa fracassada de trabalho de campo entre os bainings, Bateson estudou os iatmuls, um povo das terras baixas cujo ritual naven formou a espinha dorsal da primeira (e única) monografia etnográfica de Bateson, Naven (1936).

Na Nova Guiné, e ao que parece numa viagem de canoa no Rio Sepik, Bateson encontrou Reo Fortune e sua esposa, Margaret Mead, que realizava trabalho de campo na mesma região. A descrição desse encontro se tornou um clássico da antropologia. O encontro foi intenso sob todos os aspectos. Os três falaram sobre antropologia e a vida em geral, discutiram sobre as diferenças entre os povos que estavam estudando e analisaram corajosamente suas próprias relações pessoais. Quando a situação se acalmou, Fortune e Mead se divorciaram, Bateson se casou com Mead e em 1939 ambos de mudaram para os Estados Unidos.

O encontro de Mead com Bateson ilustra a relação entre a antropologia inglesa e americana nesses anos. A admiração de Bateson pelo intelectualismo elegante de Radcliffe-Brown foi posta à prova pela intuição de Benedict com relação à psicologia e às emoções. Qual era o papel específico do antropólogo: descobrir princípios sociológicos gerais ou descrever as sutilezas da comunicação humana? Um excluía o outro? Ou existia uma linguagem comum que podia abranger a ambos? A monografia de Bateson é uma expressão desses dilemas. No ritual naven, homens iatmul se vestem de mulher e representam o desejo homossexual por seus sobrinhos jovens. Bateson analisou esse ritual a partir de três perspectivas analíticas distintas. A primeira foi 'sociológica e estrutural', inspirada por Radcliffe-Brown. À segunda ele chamou de eidos (um estilo cognitivo e intelectual da cultura) e à terceira de ethos (de Benedict). Ele achou muito difícil conciliar, para não dizer sintetizar, esses três enfoques, e acabou desistindo da tarefa. Como foi publicado originalmente em 1936, Naven se constitui assim num enigma não solucionado. Só em 1958 apareceu uma segunda edição do livro, com um longo apêndice em que Bateson procurou amarrar as várias pontas soltas.

A monografia de Bateson foi uma obra ambígua, com pouca influência sobre a antropologia da época. Seus contemporâneos ingleses não sabiam o que fazer com ela (Kuper 1996), mas seu prestígio foi aumentando à medida que se tornava claro que ela antecipava várias mudanças que ocorreram na disciplina a partir da década de 1950. Assim, Bateson critica a ideia de 'função' que, do ponto de vista dele, é teleológica. As explicações funcionalistas devem ser sempre examinadas com todo rigor, para verificar se elas de fato especificam todos os encadeamentos pelos quais os 'propósitos' e 'necessidades' do todo são comunicados ao ator individual. Esse exame nos levará a concentrar-nos no processo e na comunicação, e não na função e na estrutura.

Bateson foi um intelectual excepcional que ainda inspira comentários de admiração. Depois da guerra, seu interesse pela comunicação e pelo processo o aproximaria de estudiosos brilhantes em muitos campos: psiquiatras, psicólogos, etólogos, matemáticos, ecólogos, biólogos, etc. Ele logo se tornou uma figura interdisciplinar que fez contribuições importantes para campos como o da psicologia e da teoria das comunicações e foi pioneiro no uso de modelos cibernéticos na explanação antropológica. Mesmo antes da II Guerra Mundial, seu trabalho de campo fotográfico com Mead sobre Bali mostrou sua disposição de explorar os limites da antropologia. Durante a guerra Bateson contribuiu com os estudos de Mead sobre o 'caráter nacional' e trabalhou numa teoria da comunicação que influenciou muitos estudiosos, antropólogos ou não".

ERIKSEN, T. H. e NIELSEN, F. S. História da Antropologia. RJ: Editora Vozes, 2007.

As ideias de Bateson foram publicadas em uma série de ensaios, que foram reunidos em três livros:

"Steps to an Ecology of Mind" (1972)
"Mind and Nature: a necessary unity" (1979)
"A Sacred Unity: further steps to an ecology of mind" (1991)

        

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Franz Boas e o Particularismo Histórico

Este post é para os meus alunos de antropologia, um reforço para a prova da próxima semana. Os trechos abaixo são sobre o antropólogo Franz Boas e a sua concepção de cultura, que influenciou toda uma geração de antropólogos norte-americanos.

Sobre a origem de Boas

"Boas (1858-1942) era oriundo de uma família judia alemã de espírito liberal. Sensível a questão do racismo, ele mesmo fora vítima do anti-semitismo de alguns de seus colegas de universidade. Estudou em diversas universidades da Alemanha, primeiramente cursando física, depois matemática e finalmente geografia (física e humana). Em 1883/84, ele participou de uma expedição entre os Esquimós da terra de Baffin. Ele partiu como geógrafo, com preocupações de geógrafo (estudar o efeito do meio físico sobre a sociedade esquimó) e percebeu que a organização social era determinada mais pela cultura do que pelo ambiente físico. Retornou à Alemanha decidido a se consagrar, a partir de então, principalmente à antropologia" (A Noção de Cultura em Ciências Sociais - Denys Cuche).

A noção de cultura em Boas

"Toda a obra de Boas é uma tentativa de pensar a diferença. Para ele, a diferença fundamental entre os grupos humanos é de ordem cultural e não racial" (Ibidem).

"Ao contrário de Tylor, de quem ele havia no entanto tomado a definição de cultura, Boas tinha como objetivo o estudo 'das culturas' e não 'da Cultura'. Muito reticente em relação às grandes sínteses especulativas, em particular à teoria unilinear então dominante no campo intelectual, apresentou em uma comunicação de 1896, o que considerava os 'limites do método comparativo em antropologia'" (Ibidem). Para Boas, cada cultura forma um todo coerente e funcional: "cada cultura representava uma totalidade singular e todo seu esforço consistia em pesquisar o que fazia sua unidade. Daí sua preocupação de não somente descrever os fatos culturais, mas de compreendê-los juntando-os a um conjunto ao qual estavam ligados. Um costume particular só pode ser explicado se relacionado ao seu contexto cultural. Trata-se assim de compreender como se formou a síntese original que representa cada cultura e que faz a sua coerência. Cada cultura é dotada de um 'estilo' particular que se exprime através da língua, das crenças, dos costumes, também da arte, mas não apenas desta maneira. Este estilo, este 'espírito' próprio a cada cultura influi sobre o comportamento dos indivíduos" (Ibidem).

"Em substituição ao evolucionismo, [Boas] propôs o princípio do particularismo histórico. Como sustentava que cada cultura continha e sua própria história única, em alguns casos poderia ser reconstruída pelos antropólogos. Ele via valor intrínseco na pluralidade das práticas culturais no mundo e era profundamente cético com relação a qualquer tentativa, política ou acadêmica, de interferir nessa diversidade" (História da Antropologia, Eriksen e Nielsen).    
    

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Etnocentrismo - Parte II

"O que surpreende o leitor, ao se retomar as teorias explicativas do Brasil, elaboradas em fins do século XIX e início do século XX, é a sua implausibilidade. Como foi possível a existência de tais interpretações, e, mais ainda, que elas tenham se alçado ao status de Ciências. A releitura de Sílvio Romero, Euclides da Cunha, Nina Rodrigues é esclarecedora na medida em que revela esta dimensão da implausibilidade e aprofunda nossa surpresa, por que não um certo mal-estar, uma vez que desvenda nossas origens. A questão racial tal como foi colocada pelos percursores das Ciências Sociais no Brasil adquire na verdade um contorno claramente racista, mas aponta, para além desta constatação, um elemento que me parece significativo na história da cultura brasileira: a problemática da identidade nacional" - Cultura Brasileira & Identidade Nacional - Renato Ortiz

Nesta postagem, vou explorar o viés etnocêntrico das teorias racialistas do século XIX como um exemplo de como o etnocentrismo pode se associar ao racismo.

A relação entre etnocentrismo e ciência não é nenhuma novidade, constituindo-se em mais um daqueles fenômenos negativos que importamos dos nossos colonizadores europeus. Afinal, tanto os argumentos científicos como a linguagem racialista mobilizada para defender a superioridade moral e intelectual dos brancos sobre as demais etnias foi uma 'cópia" de ideias populares entre intelectuais franceses e alemães. Essas ideias foram reformuladas à luz da temática da identidade nacional, tendo como referência o ideal de formação do povo brasileiro a partir da mistura de brancos, índios e negros. Influenciados pelas teorias do positivismo francês, do darwinismo social e do evolucionismo cultural, os autores brasileiros buscaram formular uma interpretação extremamente etnocêntrica do que seria o Brasil e os brasileiros.

A suposta superioridade (tecnológica e moral) dos europeus frente aos demais povos colocava países como o Brasil em situação de 'inferioridade', pois a sua emergente sociedade nacional era retratada como 'atrasada' frente aos povos 'desenvolvidos' da Europa. Incapazes de olhar para o povo brasileiro levando em conta as suas características culturais específicas, os nossos intelectuais viam a realidade brasileira a partir da lente dos colonizadores, ou seja, como uma sociedade decadente e atrasada. Os índios que aqui viviam antes dos portugueses chegarem e os negros escravizados durante a colonização portuguesa foram percebidos como um entrave ao desenvolvimento nacional. Isso explica a emergência da 'teoria do branqueamento', que teve forte influência nas políticas de atração de imigrantes europeus para o Brasil: acreditava-se que ao aumentar a presença do branco na sociedade, isso levaria a uma diluição das demais "raças", produzindo o que alguns defensores dessa teoria denominavam de contínuo e lento 'branqueamento' do nosso povo.

O viés etnocêntrico das teorias racialistas está presente na incorporação dos pressupostos racistas dos colonizadores, embasados por suas teorias científicas sobre a suposta superioridade moral e intelectual do branco. Atualmente, essas teorias são amplamente refutadas pela comunidade científica, pois não existe nenhum argumento que justifique tal superioridade do branco sobre as demais raças, seja do ponto de vista intelectual ou moral. Ao eleger os traços culturais dos brancos como indícios de sua superioridade racial, os defensores das teorias racialistas desenvolveram uma explicação etnocêntrica da diversidade humana. Com isso, esses cientistas colaboraram para legitimar o domínio ideológico dos colonizadores sobre o rumo que suas antigas colonias traçaram após a sua independência política.

A preocupação com o estabelecimento de uma 'identidade nacional' a partir de uma teoria explicativa do Brasil e dos brasileiros impediu aos percursores das ciências sociais de perceber a potencialidade da multiplicidade cultural e social dos habitantes deste continente chamado "Brasil", impossibilitando a nossa gente de traçar seu próprio caminho e estabelecer suas prioridades e objetivos enquanto uma nação multicultural.

O viés etnocêntrico e racialista que perpassou as teorias explicativas da nossa identidade nacional justificou a emergência de uma série de micro-mecanismos de exclusão racial no cotidiano de nossa sociedade, disseminando ações de exclusão racial em instituições como a escola, o mercado de trabalho, a universidade e o governo, sem nunca corromper a retórica da 'igualdade racial' presente na teoria da mistura (supostamente igualitária) de raças que teria dado origem aos brasileiros. O resultado da dinâmica estabelecida entre esses dois movimentos - de um lado os micro-mecanismos de exclusão racial e de outro a retórica da igualdade de raças - resultou em índices estatísticos que demonstram claramente a exclusão de negros e índios da vida política e intelectual do país.    

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Etnocentrismo - Parte I

"A atitude mais antiga, e que se baseia indiscutivelmente em fundamentos psicológicos sólidos (já que tende a reaparecer em cada um de nós quando nos situamos numa situação inesperada), consiste em repudiar pura e simplesmente as formas culturais: morais, religiosas, sociais, estéticas, que são as mais afastadas daquelas com as quais nos identificamos. 'Hábitos de selvagens', 'na minha terra é diferente', 'não deveria permitir isso' etc., tantas reações grosseiras que traduzem esse mesmo calafrio, essa mesma repulsa diante de maneiras de viver, crer ou pensar que nos são estranhas. (...)" - Lévi-Strauss, Raça e História (1952)

Com esta postagem, dou início a uma série de intervenções no blog voltadas para os meus alunos da Faculdade de Ciências Sociais e Tecnológicas (FACITEC) e o público mais amplo interessado em se familiarizar com conceitos, teorias e autores da antropologia. A ideia é associar essas postagens com a criação de duas novas páginas permanentes direcionadas para a mesma finalidade: "Dicionário de Antropologia Simétrica" (em processo de construção) e "Autores e Obras" (Idem).

Nesta primeira intervenção, pretendo dissertar brevemente sobre o etnocentrismo. Primeiramente, acho importante pontuar que essa noção remete a um fenômeno comum a todos os coletivos humanos, apesar de sofrer variações em termos de formas de manifestação e intensidade. Na antropologia, costuma-se denominar de 'etnocentrismo" a tendência geral de naturalizarmos os nossos hábitos culturais como os "mais corretos" ou simplesmente como "melhores" que os demais, que são percebidos sob o viés da nossa própria cultura (comportamento, ideais e formas de saber-fazer que apreendermos durante o processo de socialização). Isso ocorre porque a cultura orienta a  forma de vermos os costumes de outros povos, grupos ou sociedades, que são costumeiramente classificados como "menos adequados", "impróprios" e, em alguns casos, como "amorais", "bárbaros" e etc.

O trecho de Lévi-Strauss citado acima busca apontar para um aspecto muitas vezes negligenciado no uso que se faz dessa noção: a ideia de que o etnocentrismo é o desdobramento (consciente e manifesto) da atitude de perplexidade que sentimos diante do contato com a alteridade, o que conduz (em alguns casos) à reafirmação (frente à diferença) dos nossos próprios costumes e formas de pensar e fazer as coisas. Ao fazer isso o fundador do estruturalismo não estava incentivando ou justificando as violências cometidas em nome da intolerância de gênero, racial, religiosa, cultural e até mesmo ideológica, mas buscando mostrar que essas manifestações são um desdobramento mais ostensivo e hostil de uma atitude frente à alteridade verificável em vários povos e culturas. Trata-se de um fenômeno múltiplo e dinâmico, que assume diferentes configurações e intensidades. Nas sociedades ocidentais, o etnocentrismo deu origem a movimentos de intolerância ostensiva contra a diferença de gênero, racial, religiosa e ideológica. As inúmeras guerras de extermínio contra povos e culturas não-ocidentais e as milenares guerras religiosas são bons exemplos históricos de como a atitude etnocêntrica pode resultar em ações de violência.    

Por outro lado, é importante mencionar que a ralação com a alteridade nem sempre é orientada por essa atitude, pois existem povos e culturas que estabelecem uma relação mais 'amistosa' ou 'predadora' com a diferença cultural, buscando se apropriar (e transformar) as práticas e artefatos culturais de 'outros' povos ou assumindo uma atitude de tolerância amistosa com os parceiros comerciais. Com isso, podemos concluir que o etnocentrismo enquanto fenômeno cultural remete a uma das diversas atitudes possíveis diante da alteridade cultural (ideologia, moral, costumes, práticas e saberes de outros povos). Outras formas de experimentar com a diferença envolvem o estabelecimento de uma multiplicidade de relações de troca, assim como o compartilhamento ou intercâmbio de artefatos e práticas culturais. A própria guerra pode resultar na apropriação (pela força) dos traços que marcam a diferença do 'outro' enquanto presença, numa espécie de movimento antropofágico.  

Conforme identificado por Lévi-Strauss, a década de 1950 foi marcada pela busca do estabelecimento de princípios éticos universais, muitas vezes sem levar em consideração que a diferença cultural e moral é um dos elementos que constituem a diversidade humana. Ao mesmo tempo em que o autor condenou abertamente as teorias evolucionistas e racialistas que buscavam inferiorizar ou barbarizar os povos não-ocidentais como "inferiores" em termos de capacidade cognitiva e moral, ele também fez uma advertência de que a tentativa de eleger princípios éticos transculturais era, em si, uma forma de intolerância com a diversidade cultural. Ou nas palavras do próprio autor: "a simples proclamação da igualdade natural entre todos os homens, e da fraternidade que deve uni-los sem distinção de raça e cultura, tem algo de decepcionante para o espírito, pois negligencia uma diversidade de fato [cultural] que se impõe à observação (...). As grandes declarações dos direitos do homem têm também elas esta força e esta fraqueza: enunciar um ideal que raramente atenta para o fato de que o homem não realiza sua natureza numa humanidade abstrata, mas em culturas tradicionais" (Ibidem).

Ao fazer isso, Lévi-Strauss busca apontar para o fato de que a concepção de direitos humanos 'universais' tendo como referência unicamente critérios éticos e morais ocidentais também está imbuída de um certo etnocentrismo 'velado', principalmente, quando esses direitos são mobilizados para condenar e combater práticas culturais de povos não-ocidentais consideradas amorais do ponto de vista da moralidade ocidental. A questão é bastante complexa, pois remete à tensão entre Universalismo e Relativismo Cultural: até que ponto é possível eleger direitos humanos transculturais sem desrespeitar os costumes e práticas culturais de outros povos e sociedades?                  

De qualquer forma, é fundamental frisar que diversos autores da antropologia têm combatido as teorias racialistas e qualquer iniciativa de estabelecer uma hierarquia entre as diferentes culturas baseada em critérios científicos. Apesar da disseminação dessas idéias racialistas no Brasil, principalmente durante o século XIX, conforme veremos em outro post sobre esse tema, essas teorias são amplamente refutadas por boa parte da comunidade científica.

Apesar do entendimento do fenômeno do etnocentrismo ajudar a explicar uma das possíveis atitudes humanas em relação à diferença, ele certamente não pode ser mobilizado para justificar atos e ações de violência. A convivência com a diferença é, de fato, um dos maiores desafios em uma sociedade democrática. Os barbarismos cometidos contra povos e culturas são inaceitáveis, assim como as ações de violência contra indivíduos e grupos de nossa sociedade. Em um mundo globalizado e de múltiplas naturezas-culturas como o nosso, a tolerância e a convivência com a diferença (seja ela religiosa, étnica ou ideológica) é um imperativo da vida em sociedade.      

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Roy Wagner na UnB

O antropólogo norte-americano Roy Wagner (University of Virginia) fará uma palestra na Universidade de Brasília  na próxima semana, nos dias 16 e 17 de agosto. Wagner lançou recentemente a tradução para o português do livro "A Invenção da Cultura", publicado pela Cosac Naify, e é autor de uma vasta e producente obra na área de etnologia e teoria antropológica.

Confira a programação abaixo.

16 de agosto/2011, as 16hrs
"Revelations of a Daribi Land-Sham an Roy Wagner"
Local: Auditório da Reitoria/UnB

17 de agosto/2011, as 09hrs
"Trabalho de Campo na Nova Guiné" (Conversa e Imagens)
Local: Sala de Reuniões do DAN
  

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Enxurrada causa danos ao Centro dos Estudantes de Pós-Graduação em Antropologia da UnB

Neste último domingo caiu uma grande enxurrada em Brasília. Choveu muito num curto espaço de tempo. Acabou que quem levou a pior foram os estudantes da UnB. O andar subterrâneo do ICC ficou completamente destruído. Estimativas apontam que a Universidade precisará de R$ 20 milhões para se recuperar dos estragos ocasionados pela chuva. A rádio e a emissora de televisão foram seriamente atingidas, assim como vários anfiteatros e centros de pós-graduação, entre eles o de antropologia. 

Ontem fui buscar alguns livros que havia deixado na Katakumba, centro dos estudantes de pós-graduação do departamento de antropologia, localizado no subsolo. O impacto foi grande! Realmente muito triste ver um espaço como aquele completamente destruído. A força da água é realmente impressionante: livros, cadeiras, mesas e estantes destroçadas, muita sujeira por toda parte. Realmente lamentável! Vai dar o maior trabalho reconstruir tudo. Lamento por aqueles que perderam livros e documentos importantes... Espero que a reitoria ajude no processo de reconstrução.

A Katakumba já acolheu muitos antropólogos nas últimas décadas. Uma exceção em departamentos de antropologia brasileiros, o espaço fornecia uma estrutura mínima para que os estudantes que não podiam ou não queriam estudar em casa pudessem levar adiante os seus trabalhos. A maior parte das salas tinha computador, mesas e estantes. Havia também um salão de leitura (área de descanso e muita criatividade!) e uma pequena cozinha, onde os estudantes costumavam tomar café e trocar idéias.

Nos dois primeiros anos de doutorado, costumava ir quase todos os dias pra lá. Assim como outros tantos “estrangeiros”, o lugar funcionava como um ponto de encontro e um espaço de socialidade para os recém chegados em Brasília. Todos os estudantes, mesmo aqueles que não freqüentavam o espaço diariamente, já passaram em algum momento por lá pra trocar idéias com colegas ou participar de alguma atividade alternativa. Desde que retornei pra Brasília, em 2010, passei a trabalhar em casa por uma questão de comodidade. De qualquer forma, sou muito grato por ter contado com o apoio e a infra-estrutura do local, assim como outros tantos colegas que passaram por lá nas últimas décadas.       

Tudo bem que o ambiente sempre foi um tanto insalubre. Afinal, fica no subsolo, sem janelas, muito mofo e pouca circulação de ar. Mas as salas são bem amplas, apesar de não haver espaço para todos os estudantes. De qualquer forma, é um lugar que proporciona a troca de conhecimentos e impressões sobre o mundo e sobre a antropologia. Acho que a Universidade deveria valorizar mais esses espaços de convivência estudantil, que foram desaparecendo na mesma medida em que foram aparecendo os restaurantes, lojinhas e lanchonetes (olha o capitalismo aí)...

Na UFRGS, lembro que tivemos que ocupar um Centro de Convivência que havia sido transformado pela reitora em um restaurante. Acampamos no local durante dias, desenvolvendo uma série de atividades: teatro, shows e grupos de estudo. Com o tempo, a reitora se convenceu que o espaço deveria voltar ao controle dos estudantes, o que acabou acontecendo após um ou dois anos de manifestações e mobilizações. Com isso, os alunos dos cursos de humanas e ciências naturais ganharam um espaço para conviver e viver o espírito de uma comunidade acadêmica, o que certamente foi importante na formação de todos que passaram por lá.


Espero que a Katakumba seja reconstruída e continue servindo como um espaço de criatividade e intensa convivência estudantil! 

sábado, 8 de janeiro de 2011

Posse da Nova Diretoria da Associação Brasileira de Antropologia - Gestão 2011

Evento: Posse da Nova Diretoria da ABA - Gestão 2011/12
Local: Auditório do Instituto de Ciências Biológicas - UnB, Campus Darcy Ribeiro (Asa Norte, Brasília/DF).
Data: 11 de janeiro, as 18hrs



domingo, 5 de setembro de 2010

Noites de Cabaré - Fábio Lopes Alves

Divulgo aqui o livro de Fábio Lopes Alves sobre gênero e sociabilidade na zona de meretrício, um trabalho inédito sobre esse tema a partir de uma abordagem antropológica e etnográfica. O livro está disponível na Livraria Cultura. Segue abaixo a sua sinopse.

A vida cotidiana na zona de meretrício é o tema deste livro. Através de uma análise etnográfica são descortinadas as dinâmicas de interação, gênero e sociabilidade que ocorrem nesse estabelecimento social. Utilizando referenciais antropológicos, apresenta-se a maneira como as garotas de programa constroem suas relações cotidianas no ambiente de prostituição. O autor descreve as lógicas simbólicas dos aposentos, salas, cozinha e corredores daquele local. Narra minuciosamente os contatos, os jogos de cena, os olhares e as intenções das personagens que, embora fingindo para agradar, são verdadeiras ao se abrirem para relatar o que pensam e como veem os que com elas interagem. Desde estratégias de propaganda na rua para atrair clientes ao bordel até os relatos feitos nas entrevistas, mostram um universo complexo de relacionamentos e permitem antever o imaginário da família, do trabalho, e o que as garotas pensam de si mesmas. Além disso, os truques usados no bordel mostram estratégias de sobrevivência e lutas que só uma pesquisa como esta pode revelar.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Curso de Fotografia para Antropólogos

O fotógrafo Olivier Böels e a Escola Contemporânea de Humanidades estão promovendo um curso de fotografia voltado especialmente para antropólogos e estudantes de antropologia (e áreas afins). Olivier é especialista em fotografia social e cultural, sendo detentor de vários prêmios nacionais e internacionais. O curso consiste em seis encontros abrangendo questões relacionadas à técnica fotográfica e à relação/uso dessa técnica na antropologia ou ciências sociais. O curso será realizado em Brasília (DF) e tem previsão de início no dia 29 de setembro. Uma ótima oportunidade para quem gostaria de transformar a arte da fotografia em antropologia visual.

Para maiores informações:

Tel: (061) 3245-7083
E-mail: contato@escolacasa.com
   

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Lançamento de Livros na Livraria Zouk - Porto Alegre/RS

Lançamento de mais duas coletâneas da editora da UFRGS na livraria Zouk, em Porto Alegre, no próximo dia 16 de agosto, às 18:30.

Experiências, dilemas e desafios do fazer etnográfico contemporâneo
(Org. Patrice Schuch, Miriam Vieira e Roberta Peters)

Este livro pretende discutir como a relação entre o processo de pesquisa e a produção de teorias e dados na antropologia se expressa na minúcia do trabalho antropológico, focalizando prioritariamente quatro dimensões: definição dos universos e problemas de pesquisa, escrita do diário de campo, dimensão temporal da pesquisa e a relação ética e a pesquisa na antropologia. 

Dinâmicas de Cidadania: abordagens etnográficas sobre a diversidade 
(Org. Cíntia Beatriz Muller e Miriam Chagas)

O fazer etnográfico é valorizado por seu potencial crítico de análise, principalmente quando discorre sobre a forma como as pessoas vivenciam as políticas a elas direcionadas e seus efeitos. A etnografia do "encontro" entre diferentes subjetividades e sensibilidades permite, assim, dar visibilidade à diversidade cultural e às reivindicações específicas dos grupos, bem como aos modos com que os mesmos grupos percebem o próprio antropólogo.

A Livraria Zouk está localizada na R. Garibaldi, 1333. Essas e outras coletâneas produzidas pela equipe do Núcleo de Antropologia e Cidadania (NACI/UFRGS) podem ser adquiridas pelo site da livraria Zouk:

http://www.livrariazouk.com.br/
   

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Programação do GT 23: Conhecimento, criatividade e os efeitos dos direitos culturais e intelectuais entre povos amazônicos (XVII RBA, agosto de 2010)

Coordenadoras - Edilene Coffaci de Lima e Marcela Coelho de Souza
Debatedora - Manuela Carneiro da Cunha

02 de agosto, 8h30 ao meio-dia
Sessão 1: Conhecimentos tradicionais: sobre autoria e autoridades

1. Dominique Tilklin Gallois, Donos, detentores e usuários da arte kusiwa
2. Joana Cabral de Oliveira, “Vocês sabem por que vocês viram!”: Discursos sobre a autoridade do conhecimento
3. Pedro Niemeyer Cesarino, Considerações sobre os processos de tradução e circulação das artes verbais marubo (Pano)
4. Marcela Coelho de Souza, A pintura esquecida e o desenho roubado: contrato, troca e criatividade entre os Kisedje
5. Maria Denise F. Grupioni, Dar a César o que é de César: será isso possível no universo da arte indígena?
6. Guilherme Moura Fagundes (painel): As “invenções” do murmuru e a economia dos pronomes possessivos: conhecimentos tradicionais entre os Ashaninka e seus outros

03 de agosto, 8h30 ao meio-dia
Sessão 2: Conhecimentos tradicionais: como, por que, de quem e para quem

1. Luciana Gonçalves de Carvalho, Conhecimentos tradicionais, mercado e drama social no Ver-o-Peso
2. Diego Soares, Conselho de Gestão do Patrimônio Genético: hibridismo, tradução e agência compósita
3. Jocilene Gomes da Cruz, Propriedade de Saberes e afirmação da Identidade Étnica: interlocuções sobre marcos legais de proteção dos Conhecimentos Tradicionais
4. Artionka Capiberibe, "Ponte entre Povos": entendimentos e desentendimentos em um projeto músico-cultural
5. Priscila Matta, De quem é esse conhecimento? Reflexões a partir do processo de regularização do acesso ao óleo de buriti entre comunidades locais de um município no Piauí
6. Bárbara Arisi, Os Matis – a economia da "cultura" com jornalistas, turistas e pesquisadores no mercado

04 de agosto, 8h30 ao meio-dia
Sessão 3: Conceituações e transformações

1. Geraldo Andrello e Ana Gita de Oliveira, A variação de usos da noção de cultura em dois momentos da história recente do alto rio Negro
2. Edilene Coffaci de Lima, "A gente é que sabe": apropriações, trocas e transformações no kampô katukina
3. Edmundo Marcelo Mendes Pereira, Palavra de Coca e de Tabaco como “conhecimento tradicional”: ritual, política e desenvolvimento entre os Uitoto-murui (Colômbia)
4. Valéria Macedo, Dos cantos para o mundo
5. Paulo Roberto H. Góes, A “cultura”, os especialistas e os especialistas em “cultura”: notas sobre políticas interétnicas Katukina/Pano
6. Rafael Barbi (painel), A Cultura e o Segredo: diferença e cosmologia entre os Xakriabá de São João das Missões

Dinâmicas de Cidadania: abordagens etnográficas sobre a diversidade

Aproveiro para divulgar aqui lançamento de Coletânia na próxima RBA, em Belém, uma iniciativa do Núcleo de Antropologia e Cidadania (NACI/URFGS) e seus colaboradores:

Dinâmicas de Cidadania: abordagens etnográficas sobre a diversidade
Cíntia Beatriz Müller e Miriam de Fátima Chagas - Organizadoras

Parte I - A antropologia frente aos desafios dos direitos socioculturais

Cidadanias e liberdades no Sul do Brasil nas décadas finais do século XIX
Rodrigo de Azevedo Weimer

Movimento afrodescendente na Argentina no contexto pós-Durban: redefinições de sujeitos políticos
Laura López

Na fronteira das classificações raciais: entre a diferença e a desigualdade no Sistema de Justiça
a partir de um caso de estupro
Miriam Steffen Vieira

“Viu, como nego tem direito!” O pleito etno-racial e político de comunidades quilombolas no Sul do Brasil
Vera Rodrigues

Emergência de etnicidade: dos territórios negros aos “quilombos urbanos”
Ana Paula Comin de Carvalho

A “parentalidade” como constituinte do território em rede: perspectivas de construção de um sujeito coletivo de direitos
Cíntia Beatriz Müller

Parte II - Entre a aventura e a desventura antropológica

Antropologia em segredo: considerações tardias sobre um estudo etnográfico em um reassentamento de atingidos por barragem
Antonádia Borges

Perspectivas contemporâneas sobre a construção do texto etnográfico: antropologia e extensão rural
Diego Soares

Queridos corridos: uma experiência etnográfica entre os índios Kadiwéu
Lisiane Koller Lecznieski

Antropologia em “movimento”: lançando olhares sobre a auto-reflexividade etnográfica
Miriam de Fátima Chagas
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