sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Rapidinhas das Eleições 2010

Não sei por que, mas me sinto um pouco idiota dizendo isso. Teve início, nesta semana, o melhor show de comédia brasileira dos últimos tempos: o horário eleitoral. Nunca vi tanta bizarrice reunida num único lugar. Candidatos? Sim, temos de todos os tipos: “Zé do Lanche”; “Zorro”; “Homem-Bomba”; “Coronel”; “Capitão”; “Mostarda”; “Barrigudinho”; “Salvador da Pátria”... Guarde esse nome: “Super Homem”. Talvez seja preciso mesmo uma além-humanidade que nos salve desta vergonha. O que será? Um avião? Um carro-de-mão? Uma televisão? Não, nada disso. É o candidato do povo: é o “Zé povinho”! “Vai, vote em mim, eu estou precisando de um dinheirinho”. Com tanto desempregado no ar, o que fazer com a nossa política?

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Antropologia Simétrica: etnografia das ciências e dos conhecimentos indígenas e tradicionais

Aproveito o espaço para divulgar que estarei ministrando a oficina - "Antropologia Simétrica: etnografia das ciências e dos conhecimentos indígenas e tradicionais" - no âmbito do Programa de Educação Tutorial (PET) da UnB. O evento será realizado no auditório do Departamento de Sociologia, no dia 26/08, as 19hrs. A idéia é discuir diferentes "objetos" de estudo a partir da perpectiva da antropologia simétrica, abordando os seguintes temas (entre outros): ontologias, conhecimentos (científicos e tradicionais), redes e traduções. Apesar da atividade estar voltada para os estudantes do PET, quem estiver interessado em discutir o tema também pode comparecer.  

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Moção de repúdio às práticas de planejamento e de licenciamento dos projetos de desenvolvimento no Brasil - Associação Brasileira de Antropologia

A Assembléia Geral da Associação Brasileira de Antropologia vem a público manifestar o seu repúdio à condução dos processos de implementação de projetos de desenvolvimento e infraestrutura que hoje ocorrem no país à revelia dos princípios e fundamentos que deveriam nortear o planejamento estratégico das políticas estatais numa perspectiva democrática. Esses projetos podem modificar drasticamente as condições sociais e ambientais em que vivem comunidades e povos diversos, os quais são alijados dos processos decisórios. Estando reunidos no Pará, é digno de nota o emblemático caso da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Neste episódio, evidencia-se que a premência do desenvolvimento dos projetos e dos interesses empresariais e estatais impede a realização de estudos adequados e que os povos conheçam, reflitam e se posicionem como sujeitos diante das transformações que lhes poderão afetar. Esse processo evidencia, ainda, o desrespeito aos órgãos públicos e suas equipes técnicas, a debilidade das audiências públicas e a ausência de consultas adequadas aos povos indígenas e demais grupos sociais atingidos. É imperativo que o processo de planejamento seja pautado pelo respeito aos diversos modos de vida e territorialidades vividas pelos grupos sociais. É inaceitável que nos processos de implementação dos projetos sejam desrespeitados os princípios que amparam as normas e os prazos previstos na legislação. A constituição de uma sociedade livre, justa e democrática pressupõe o reconhecimento da legitimidade de todos os interessados na construção do processo decisório e no constante exercício do controle sobre as decisões tomadas. É por isso que, reunidos em assembléia geral, repudiamos a forma arbitrária como vem sendo conduzido esse processo e exigimos o respeito aos princípios constitucionais.

Belo Monte: uma ameaça aos valores democráticos

Já tive a oportunidade de mencionar aqui os problemas envolvendo a construção da Usina Hidroelétrica Belo Monte e como esse projeto governamental representa uma ameaça ao modo de vida de humanos e não-humanos que vivem na (dá) bacia do rio Xingu. Apesar das mobilizações políticas de povos indígenas, comunidades locais ribeirinhas e organizações civis, que manifestaram a necessidade de discutir e debater melhor o assunto, a presidência da república continua tratando a questão como um problema “superado”.


As populações afetadas direta e indiretamente por grandes obras como Belo Monte têm o direito de entender o que está em jogo e se posicionar politicamente, seja de forma favorável ou não. A própria sociedade civil tem o direito de exigir uma ampliação do debate sobre a proposta do governo. Precisamos refletir sobre a nossa matriz energética, pensar a partir de experiências passadas e presentes, enfim, dialogar com maior propriedade sobre uma questão de extrema importância para todos nós. Obras do porte da Belo Monte são complexas o suficiente para exigir do governo e da sociedade um tempo maior de estudo e discussão. Trata-se de empreendimentos tecnológicos e sociais de extrema complexidade, geralmente, envolvendo também um campo de conflitos entre interesses divergentes. O que caberia ao governo, neste caso, seria conduzir e oportunizar o debate público, pensar alternativas, enfim, estudar ele mesmo com mais calma e atenção a questão, não somente do ponto de vista econômico, mas também do ponto de vista socioambiental. De fato, o grande desafio dessa obra é que os seus efeitos são múltiplos: estamos exatamente no ponto de encontro (e superação) entre tecnologia e sociedade. Buscar um melhor entendimento do que está em jogo nessa obra não só é um desafio para todos nós, como também deveria ser uma política de governo.

O fundamental, neste caso, é que os povos indígenas e ribeirinhos têm o direito de entender o que está acontecendo nas suas vidas e esse entendimento exige não só um esforço imenso de tradução e discussão, como também o respeito a uma temporalidade (a temporalidade do entendimento) que difere da temporalidade governamental. Afinal, são essas pessoas que terão suas vidas afetadas pela obra. Apesar de existirem tantos outros interesses (técnicos, políticos, econômicos) envolvidos na construção de Belo Monte, o interesse mais importante é o interesse dos povos e das comunidades que terão o seu meio ambiente alterado e, desta forma, a sua vida afetada por mudanças que eles ainda não tiveram o tempo nem mesmo de entender, muito menos ainda de se opor. A vida em democracia exige o livre debate como prerrogativa da sociedade na sua relação com o poder público. A existência de um “Estado de Direito” pressupõe exatamente isso: o direito da sociedade em orientar a ação do estado. Todo e qualquer movimento contrário aos direitos civis e socioambientais pode e deve ser entendido como uma ameaça aos valores mais caros da nossa Constituição. É fundamental que o governo observe e respeite os procedimentos legais que envolvem o licenciamento de grandes obras como Belo Monte. Os laudos, relatórios e pareceres técnicos não podem ser tratados como meros “entraves burocráticos”, mas devem ser observados como uma referência importante e necessária na tomada de decisões políticas, além de ser um importante dispositivo legal.

Quando esses dispositivos institucionais não são observados pelo poder público (seja ele federal, estadual ou municipal), cabe ao Ministério Público sair em defesa dos interesses coletivos da sociedade, caso contrário, estaremos abrindo precedentes perigosos.

Durante a última Reunião Brasileira de Antropologia, realizada em Belém, esse tema foi amplamente debatido em diversos grupos de trabalho, sendo que três desses grupos acabaram redigindo uma moção que foi posteriormente lida e discutida na assembléia da ABA. Essa moção foi apoiada pala associação e tornou-se pública. Agora a nossa tarefa é tentar fazer com que ela circule nas redes virtuais e reais, pois com o apoio de todos talvez ainda seja possível pressionar o Governo Federal a rever seus planos.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Lançamento de Livros na Livraria Zouk - Porto Alegre/RS

Lançamento de mais duas coletâneas da editora da UFRGS na livraria Zouk, em Porto Alegre, no próximo dia 16 de agosto, às 18:30.

Experiências, dilemas e desafios do fazer etnográfico contemporâneo
(Org. Patrice Schuch, Miriam Vieira e Roberta Peters)

Este livro pretende discutir como a relação entre o processo de pesquisa e a produção de teorias e dados na antropologia se expressa na minúcia do trabalho antropológico, focalizando prioritariamente quatro dimensões: definição dos universos e problemas de pesquisa, escrita do diário de campo, dimensão temporal da pesquisa e a relação ética e a pesquisa na antropologia. 

Dinâmicas de Cidadania: abordagens etnográficas sobre a diversidade 
(Org. Cíntia Beatriz Muller e Miriam Chagas)

O fazer etnográfico é valorizado por seu potencial crítico de análise, principalmente quando discorre sobre a forma como as pessoas vivenciam as políticas a elas direcionadas e seus efeitos. A etnografia do "encontro" entre diferentes subjetividades e sensibilidades permite, assim, dar visibilidade à diversidade cultural e às reivindicações específicas dos grupos, bem como aos modos com que os mesmos grupos percebem o próprio antropólogo.

A Livraria Zouk está localizada na R. Garibaldi, 1333. Essas e outras coletâneas produzidas pela equipe do Núcleo de Antropologia e Cidadania (NACI/UFRGS) podem ser adquiridas pelo site da livraria Zouk:

http://www.livrariazouk.com.br/
   

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Conservação, Vida Social e Desenvolvimento entre os Povos Indígenas Kayapó do Sudeste da Amazônia - Parte II

Parte II (Continuação)
Neste espaço, não pretendo tecer ou aprofundar questões antropológicas sobre os Kayapós da A’Ukre. Gostaria apenas de apresentar breves observações sobre essa última experiência que tive entre os índios Mebêngôkre – os homens do buraco/lugar d’água – conforme eles se autodenominam.


Dados históricos e etnológicos apontam para a existência originária de três grandes grupos desta etnia: os Irã-‘ãmranh-re (“os que passeiam nas planícies”); os Goroti Kumrenhtx (“os homens do verdadeiro grande grupo”); e os Porekry (“os homens dos pequenos bambus”). Esses três grandes grupos habitavam desde tempos imemoriais a região do rio Tocantins, numa região de transição mais acentuada entre o cerrado e a floresta tropical, aproveitando os recursos diferenciados destes dois biomas. O seu modo de vida, no entanto, foi fortemente afetado pelos primeiros contatos com os “brancos” colonizadores, ainda no início do século XIX. Devido à violência desse primeiro contato, os Kayapó migraram para o oeste, adentrando o interior do país. Após um breve período de paz, devido à expansão da fronteira de colonização, esses índios enfrentaram novamente a situação de contato. Nesse momento, houve uma cisão interna: uma parte era favorável ao estabelecimento de relações com os brancos e a outra parte não. Essa cisão acabou ocasionando uma série de subdivisões internas e a conseqüente fragmentação desses três grandes grupos originários. Os subgrupos que decidiram estabelecer relações com o branco foram, em grande medida, exterminados. Já os sobreviventes continuaram a sua migração em direção ao oeste e, após se estabelecerem em seu novo território, passaram a atacar todos que se aproximassem deles. Já mais recentemente, nas décadas de 1950/60, o Governo Brasileiro enviou equipes para “pacificar” os Kayapós, que, desde então, entraram em contato definitivo com a sociedade nacional.

Durante as décadas de 1980/90, os Kayapó ficaram conhecidos na mídia brasileira e internacional devido à sua mobilização em prol dos seus direitos políticos e territoriais. Foi nessa época que lideranças como Ropni (Raoni) e Bepkoroti (Paulinho Payakã) ficaram famosos no mundo inteiro, aparecendo ao lado de artistas, personalidades e chefes de estado. O evento mais importante desta fase mais recente da história do contato com a sociedade nacional foi o grande encontro indígena de Altamira, realizado em fevereiro de 1989 em parceria com outros 24 povos indígenas, ambientalistas e antropólogos. Inclusive, é importante mencionar o apoio de Janet Chernela, Barbara Zimmerman, Terence Turner e Darell Posey durante essas mobilizações políticas. Apesar dessa “parceria” ter servido para dar maior visibilidade às demandas políticas dos Kayapó, a imagem idealizada de muitos ambientalistas acabou gerando alguns conflitos de entendimento dos interesses indígenas e não-indígenas envolvidos nessa associação. Por outro lado, a visibilidade alcançada pelos Kayapó no cenário internacional resultou num vasto conhecimento etnológico e etnobiológico sobre o grupo, o que, em certa medida, também ajudou a fortalecer os seus direitos territoriais e intelectuais.

A própria aldeia da A’Ukre foi afetada por essa visibilidade política ao se tornar um dos “cenários” de uma inusitada parceria com a Body Shop, empresa multinacional do setor de higiene pessoal sediada na Inglaterra. Os contornos dessa parceria foram delineados ainda no encontro de Altamira, em 1989, quando Payakã – um dos principais líderes políticos desta aldeia – convidou representantes desta instituição para buscarem alternativas ambientalmente sustentáveis e que pudessem atender as demandas econômicas do seu povo. Foi assim que surgiu o projeto de exploração do óleo extraído da castanha e usado pela empresa na fabricação de seus produtos de higiene (condicionadores de cabelos). Desde o início desse empreendimento, a parceria foi permeada por inúmeros conflitos entre a mentalidade capitalista (o significado do empréstimo e da poupança) e as formas comunitárias de agenciamento indígena do empreendimento. Esses conflitos se intensificaram ainda mais com a “regulamentação” das atividades de acesso ao “patrimônio genético” e aos “conhecimentos tradicionais associados”, inviabilizando por completo a continuação do projeto. Hoje em dia, conforme pude observar, o único sinal dessa parceria na aldeia A’Ukre é a presença, em estado de completo abandono, da infra-estrutura utilizada no armazenamento, extração e transporte do óleo de castanha.

Os Mebêngôkre da A’Ukre também são conhecidos pela sua associação, durante boa parte da década de 1980, com garimpeiros atraídos pelo ouro existente em suas terras. Apesar da dificuldade enfrentada pelos índios para controlar o fluxo de ouro e as conseqüências sociais, políticas e culturais originadas da presença de forasteiros em suas terras, os kayapós obtiveram relativo sucesso ao controlar e administrar esse fluxo através da cobrança de uma taxa de 10% sobre todo o ouro extraído pelos garimpeiros. O dinheiro adquirido com a cobrança da taxa foi investido no patrulhamento do seu território com o auxílio de aviões e a conta bancária dos caciques de Goritire cresceu sensivelmente durante esse período. Mas o eldorado kayapó acabou em meados da década de 1990, quando foi substituído pela presença dos madeireiros, que adentraram o território kayapó para extrair a valiosa madeira de mogno. Não há dúvida que essas duas formas de associação com atores da sociedade nacional afetaram sensivelmente o modo de vida kayapó, mas, por outro lado, precisamos reconhecer a capacidade de autodeterminação histórica desse povo, que mesmo diante de situações de desigualdade de força e poder, buscou controlar a situação de contato através da manutenção da sua vida cerimonial. A abertura para a relação com os “brancos” também nunca foi consenso entre os chefes kayapós. O filme de Terry Turner, “The Kayapó”, que tivemos a oportunidade de assistir na aldeia junto com a comunidade da A’Ukre, retrata esse momento e as divergências entre chefes favoráveis e contrários a relação com os garimpeiros.

Outra iniciativa importante foi o estabelecimento, em 1992, de uma base científica localizada 15 km a montante da aldeia, a “Reserva e Estação de Pesquisa do Pinkaiti”, resultado de uma parceria entre os chefes políticos locais e a ONG Conservação Internacional. A idéia inicial desse projeto era buscar, com apoio de pesquisadores, alternativas de conservação de uma população de mogno em uma área de cerca de 8 mil hectares de terra. Essa iniciativa conservacionista foi pensada em contraponto as iniciativas comerciais levadas a diante pelos próprios Kayapós, que por muito tempo mantiveram relações econômicas com os madeireiros. Desde então, foram vários os pesquisadores que foram desenvolver seus trabalhos de pesquisa na Reserva, o que acabou gerando alternativas de renda para a comunidade da A’Ukre: o pagamento, por parte dos cientistas, de taxas de ingresso e permanência na comunidade; e o emprego remunerado de auxiliares e assistentes indígenas nas pesquisas (ver mais sobre essa iniciativa no Programa do Curso, anexado neste blog na página ao lado). Inclusive, A’Ukre seria um contexto excelente para a realização de uma pesquisa na área de etnologia e antropologia da ciência, devido à existência de uma relação histórica entre cientistas e comunidade.

Acima de qualquer julgamento sobre o mérito de tais “parcerias” com cientistas e empresas (assunto complexo que não merece ser tratado aqui), o fato é que os Kayapó têm demonstrado sua capacidade histórica de, mesmo quando em situações limitadas, optar e escolher formas diferentes de lidar com a diferença.

Continua em breve...

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Porque a candidatura de Marina Silva é um evento único na política nacional?

Primeiro, devido a sua trajetória de vida, que a coloca lado a lado com os povos indígenas, comunidades amazônicas e ambientalistas que sempre estiveram conectados com o discurso socioambiental. Marina esteve ao lado de Chico Mendes, participou do movimento de base no Acre, da formação do Partido dos Trabalhadores, enfim, de inúmeros movimentos políticos diretamente ligados à temática ambiental e aos direitos humanos. A sua força política retira seu embasamento da prática concreta, do cotidiano de luta ao lado dos povos que representam o que ela sempre acreditou. Essa qualidade faz com que a sua candidatura seja a mais sensata em meio ao mar desenvolvimentista. O seu lado humano a torna diferente de seus colegas tecnocratas (Dilma e Serra), pois a sua proposta de governo surge da idéia de que precisamos de uma mudança na forma de fazer política. Precisamos de uma política governamental que leve em conta fenômenos como a crise ambiental e o aquecimento global na agenda de governo e que defenda os interesses das populações tradicionais e indígenas que conhecem e vivem a floresta de outra forma: não como um objeto meramente utilitário, mas como uma fonte que alimenta o pensamento.


Segundo, a campanha política de Marina foi organizada da forma mais descentralizada possível e conta com a participação direta e indireta de seus próprios eleitores. O “O Movimento Marina Silva” está distribuído e organizado em forma de redes (virtuais ou reais) que possuem uma autonomia relativa na hora de planejar ações e reações. Trata-se de um movimento aberto para a participação de todos, não somente dos partidários, mas também de pessoas que apesar de serem apartidárias, acreditam na possibilidade de construir uma nova forma de fazer e pensar a política.

Terceiro, a intervenção de Marina em eventos políticos tem sido marcada pela boa poesia. Marina também sabe transformar suas propostas políticas em sentimento poético. Há muito tempo que a política brasileira precisa de poesia: para libertar a alma da ganância e da corrupção.

Viva Marina e sua poesia do dia a dia. Cenas cotidianas transformadas em sentimento estético, ético, poético.

Conforme dizia outro grande poeta do cotidiano: “a poesia não é de quem faz, é de quem precisa”. Sim, Marina, nós precisamos de boa poesia nessas eleições!

Sou o arco, sou a flecha.
Sou todo em metades.
Sou as partes que se mesclam
Nos propósitos e nas vontades

Sou o arco por primeiro,
Sou a flecha por segundo,
Sou a flecha por primeiro,
Sou o arco por segundo

Buscai o melhor de mim
E terás o melhor de mim.
Darei o melhor de mim
Onde precisar o mundo.

                     Marina Silva (Poeta, Professora, Senadora e Candidata à Presidência da República)

sábado, 7 de agosto de 2010

Conservação, Vida Social e Desenvolvimento entre os Povos Indígenas Kayapó do Sudeste da Amazônia

Parte I

Entre os dias 17 e 31 de julho de 2010, viajei para o sudeste do Pará para participar como instrutor de um curso de campo sobre a interface entre povos indígenas e conservação ambiental. A iniciativa é resultado de uma parceria entre a Universidade de Maryland, a Universidade de Brasília, a Associação Floresta Protegida (AFP) e a Fundação Nacional do Índio (FUNAI). A minha primeira experiência com o curso ocorreu em 2008, quando participei como estudante da UNB. Já neste ano, a minha inserção se deu na condição de “colaborador” da AFP, ONG que representa 9 aldeias Kayapó localizadas na TI Kayapó. Para saber informações mais detalhadas sobre o histórico e os objetivos do curso, ver na página deste blog (que tem o mesmo título desta postagem).

A minha jornada teve início no dia 17, em Brasília, quando embarquei num vôo em direção à cidade de Marabá, localizada na região sudeste do Pará, na companhia dos dois estudantes da UNB que participaram do curso e Maria Beatriz Ribeiro, instrutora da área de ecologia. Ao chegar nessa cidade, cuja povoação teve início ao final do século XIX, notei que a grande nuvem de poeira que paira sobre a região é mais um dos sinais do ritmo frenético de crescimento que esta cidade tem enfrentado nos últimos 15 anos, além das máquinas e canteiros de obras que se espalham por toda parte.

Ao desembarcar no aeroporto, encontramos o grupo de estudantes norte-americanos e a outra instrutora do módulo da aldeia A’Ukre, a antropóloga Laura Zanotti. Ao entrar no ônibus, a expressão do grupo apontava para o extremo cansaço após 9 horas de deslocamento entre Belém e Marabá. Dali seguimos viagem até Tucumã, pequena cidade localizada mais ao sul, onde encontramos o quarto instrutor do curso, o ecólogo Adriano Jerozolimskie, que também exerce a função de coordenador da AFP. O percurso até lá foi um pouco conturbado devido à péssima qualidade das estradas. Lembro que, em 2008, quando estive na região pela primeira vez, o mesmo trecho rodoviário estava em melhores condições, o que indica a má qualidade do asfalto usado na pavimentação da estrada, que até pouco tempo atrás era de terra batida.

Ficamos em Tucumã somente até a manha do dia 19, quando partimos em quatro pequenos aviões em direção à aldeia A’Ukre, localizada na TI Kayapó. Durante esse breve período, aproveitamos para nos conhecermos melhor, fazer a última compra de mantimentos e finalizar a organização do cronograma de atividades que seriam realizadas tanto na aldeia como na base científica do Pinkaiti. A maior parte dos nossos mantimentos tinha sido enviada via barco alguns dias antes e estava a nossa espera na aldeia.

A viagem até a A’Ukre foi uma experiência incrível. Sobrevoamos a TI Kayapó até chegarmos à aldeia. O vôo foi maravilhoso. Como esse tipo de aeronave voa em menor altitude e o céu estava claro, foi possível observar a zona de transição entre o Cerrado e a Floresta Tropical, uma das regiões mais lindas da Amazônia. Na medida em que nos aproximamos da aldeia, o tapete verde abaixo de nós foi assumindo proporção exuberante, revelando que estávamos entrando na terra indígena dos Kayapó, uma gigantesca “ilha verde” que resiste ao avanço do chamado arco do desmatamento.

A chegada na A’Ukre foi repleta de alegria. Ao descer do avião, recebi as boas vindas de Begoti (Tiago), jovem liderança Kayapó (em torno de 40 anos) que conheci em 2008, durante a viagem que fizemos pelo rio Xingu, ocasião em que visitamos outras duas aldeias Kayapó (Kokraimoro e Pukararânkre). Tanto ele como os demais indígenas que estavam nos aguardando na pista de avião da aldeia pareciam felizes ao nos ver ali.

Neste primeiro dia na aldeia, almoçamos e aproveitamos o restante da tarde para tomar banho no rio Fresco, um dos inúmeros afluentes do rio Xingu. No final do dia, nos reunimos na Casa dos Guerreiros, localizada ao centro da aldeia, com os dois caciques da A’Ukre e seus respectivos grupos políticos. Após as devidas apresentações, Adriano falou sobre o carregamento de miçangas adquirido – por vontade e decisão direta da comunidade – com a taxa comunitária paga por cada estudante norte-americano (U$ 400,00): nada mais, nada menos do que 150 kg de miçangas que seriam usadas logo após a nossa saída da aldeia numa cerimônia de nomeação, um dos momentos mais importantes da vida ritual Kayapó. Também discutimos com a comunidade quais os instrutores indígenas que participariam do curso neste ano, além de esclarecimentos sobre a sua remuneração.

Ainda quando estávamos em Tucumã, decidimos dividir os estudantes (8 norte-americanos e 2 brasileiros) em dois grupos: o primeiro grupo ficaria na aldeia, enquanto o outro permaneceria na base científica de Pinkaiti, com previsão de troca no dia 24, sendo que o retorno do “grupo b” estava previsto para o dia 28, com previsão de retorno para Tucumã na manha do dia 30. Eu e Laura Zanotti ficamos responsáveis por conduzir as atividades na aldeia, enquanto Adriano e Fabiana (ambos responsáveis pelo tópico de conservação ambiental) ficaram locados na base científica.

Nos dias seguintes, ambos os grupos vivenciaram o mesmo ciclo de atividades na aldeia: oficina de etnografia e anotações de campo; visita às roças para apreender sobre o trabalho e a variedade de espécies agrícolas cultivada pelos Kayapó; pintura corporal; conversa com os caciques sobre a política aldeã; caminhadas na aldeia para apreender a distribuição do espaço sociopolítico e sua organização comunitária; trilhas na companhia dos instrutores indígenas; discussão sobre os serviços de educação e saúde na aldeia; direitos de imagem; a problemática da regulamentação jurídico-governamental do “acesso” aos “conhecimentos tradicionais associados” ao “patrimônio genético”; consentimento informado, repartição de benefícios e direitos indígenas. Todas essas atividades foram seguidas de seminários de discussão e leitura realizados à noite. Já durante a permanência na base científica, cada um dos grupos fez diversas trilhas no meio da mata para identificação dos diferentes tipos de paisagem; visitou uma cachoeira; fez trilhas e saiu para pescar com os instrutores indígenas e não-indígenas; realizou seminários sobre temas relacionados à conservação ambiental na região; e assistiu documentários sobre povos indígenas. Durante o período que os estudantes permaneceram em Pinkaiti, eles tiveram a companhia constante de 8 instrutores indígenas e retornaram para a aldeia com um pequeno vocabulário em língua Kayapó, que depois tentaram colocar em prática durante o seu período na aldeia. Além das atividades previstas no cronograma oficial do curso, costumávamos receber visitas constantes dos kayapós de manha, de tarde e a noite, além dos estudantes terem participado de momentos mais informais da vida comunitária: banhos de rio no final da tarde, jogos de futebol, festa e pesca. Já no segundo dia de permanência na aldeia, todos os estudantes tiveram os seus corpos pintados com jenipapo, dando início a um processo de imersão na vida comunitária que teve como momento chave o recebimento de “nomes fictícios” na língua indígena.

Esse cronograma de atividades foi elaborado com o objetivo de oferecer aos estudantes uma vivência in situ de aspectos importantes da vida social da comunidade e ao mesmo tempo ter contato com a abordagem antropológica e biológica do tema geral do curso: a relação entre povos indígenas e conservação ambiental.

Continua em breve...
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