quarta-feira, 30 de maio de 2012

O Estado Moderno e a Axiomática do Capitalismo - Deleuze e Guattari

DG mencionam que o surgimento do Estado Moderno Capitalista levou a uma "falência dos códigos" marcada pela "emergência da propriedade privada, a riqueza, a mercadoria, as classes". A partir desse momento, o "Estado já não pode se concentrar em sobrecodificar elementos territoriais já codificados; ele deve inventar códigos específicos para fluxos cada vez mais desterritorializados: pôr o despotismo a serviço da nova relação de classes; integrar as relações de riqueza e de pobreza, de mercadoria e de trabalho; conciliar o dinheiro mercantil com o dinheiro fiscal. (...) O que o Estado despótico corta, sobrecorta ou sobrecodifica, é o que vem antes, a máquina territorial, que ele reduz ao estado de tijolos, de peças trabalhadoras submetida desde então à ideia cerebral" (289-90).

"O Estado, inicialmente, era esta unidade abstrata que integrava subconjuntos que funcionavam separadamente; agora, está subordinado a um campo de forças cujos fluxos ele coordena e cujas relações autônomas de dominação e subordinação ele exprime. Ele não mais se contenta em sobrecodificar territorialidades mantidas e ladrinhadas; deve constituir, inventar códigos para os fluxos desterritorializados do dinheiro, da mercadoria e da propriedade privada. Já não forma por si mesmo uma ou mais classes dominantes; ele próprio é formado por essas classes tornadas independentes e que o incubem da prestação de serviços à potência delas e às suas contradições, às suas lutas e aos seus compromissos com as classes dominadas. O Estado já não é a lei transcendente que rege fragmentos; mal ou bem, ele deve desenhar um todo ao qual dá a sua lei imanente. Já é o puro significante que ordena seus significados, mas aparece agora atrás deles e depende do que ele próprio significa. Já não produz uma unidade sobrecodificante, mas ele próprio é produzido no campo de fluxos descodificados. Como máquina, o Estado já determina um sistema social, mas é determinado pelo sistema social ao qual se incorpora no jogo de suas funções" (293).

"Fluxos descodificados - quem dirá o nome desse novo desejo? Fluxo de propriedades que se vendem, fluxo de dinheiro que escorre, fluxo de produção e de meios de produção que se preparam na sombra, fluxo de trabalhadores que se desterritorializam: será preciso o encontro de todos esses fluxos descodificados, sua conjunção, a reação de uns sobre os outros, a contingência desse encontro, desta conjunção, desta reação que se produzem uma vez, para que o capitalismo nasça e que o antigo sistema encontre a morte que lhe vem de fora, ao mesmo em que nasce a vida em que o desejo recebe seu novo nome" (297).

O "Estado Capitalista", sob o contexto histórico marcado por fluxos de descodificação cada vez mais intensos e generalizados, exerce a prerrogativa de regulação ou regulamentação: esses fluxos exigem "órgãos sociais de decisão, de gestão, de reação, de inscrição, uma tecnocracia e uma burocracia que não se reduzem ao funcionamento de máquinas técnicas. Em suma, a conjunção dos fluxos descodificados, suas relações diferenciais e suas múltiplas esquizas ou fraturas, exigem toda uma regulação cujo principal órgão é o Estado. O Estado Capitalista é o regulador dos fluxos descodificados como tais, enquanto tomados na axiomática do capital. Nesse sentido, ele completa bem o devir-concreto que nos pareceu presidir à evolução do Urstaat despótico abstrato: de unidade transcendente, ele devém imanente ao campo de forças sociais, passa a seu serviço e serve de regulador aos fluxos descodificados e axiomatizados" (334).

"Se é verdade que a função do Estado moderno é a regulação dos fluxos descodificados, desterritorializados, um dos principais aspectos dessa função consiste em reterritorializar, de modo a impedir que fluxos descodificados fujam por todos os cantos da axiomática social. Às vezes, tem-se a impressão de que os fluxos de capitais voltar-se-iam de bom grado à lua, se o Estado capitalista não estivesse lá para reconduzi-los à terra" (342).    

Na axiomática do capitalismo, fundada em processos de desterritorialização e territorialização cada vez mais intensos e abrangentes, o Estado exerce a função de gestão e regulação dos fluxos, conduzindo-os em determinada direção, ordenando-os em compartimentos e vias pré-estabelecidas, garantindo, desta forma, os meios para toda forma de arranjamento e decodificação exercidos pela máquina capitalista.

O Anti-Édipo (Anotações) - Deleuze e Guattari          

5 comentários:

Cristina Dias da Silva disse...

Essas são as suas anotações sobre o livro? Muito interessante. Preciso dessa literatura para o semestre que vem... para a turma sobre antropologia e poder. Ajuda? beijos
Cris.

Diego Soares da Silveira disse...

Ótimo te ver por aqui também, que surpresa boa! São as anotações que fiz do terceiro capítulo do livro Anti-Édipo, "Selvagens, Bárbaros e Civilizados", de DG, na época que estava fazendo a revisão bibliográfica da tese. Acho que essas reflexões dão continuidade e estabelecem um diálogo produtivo com a abordagem de Foucault, principalmente, as noções de 'governamentalidade' e 'biopolítica'. É interessante dar uma olhada na série de publicações dos cursos no College de France (pela editora Martins Fontes, aquela da capa vermelhinha). Algum tempo atrás tinha sido publicado 'Em defesa da sociedade" (cursos ministrados em 1975-76) e mais recentemente saiu também 'Segurança, Território, População' (1977-78) e 'Nascimento da Biopolítica' (1978-79). Acho que essa trilogia pode ser boa para pensar o tema da disciplina que você vai dar no próximo semestre... É sempre bom contar com seus comentários! Depois conversamos melhor, beijos!

Anônimo disse...

Estado capitalista??
capitalismo é livre e natural: a negociação deve ser feita de forma direta entre as partes envolvidas.
no capitalismo verdadeiro o Estado não deve interferir na economia. pelo contrario, o estado deve deixar o mercado livre.
capitalismo onde o estado intervem não é capitalismo é socialismo.

se dependesse do socialimo ainda estariamos vivendo no Feudalismo, pois nele não há concorrencia.
já no capitalismo existe sim concorrencia saudavel e se até 1885 nós ainda andavamos de carroças hoje, 127 anos depois, andamos em carros que já "se dirigem sozinhos".
capitalismo é maravilhoso.

leia este livro:
http://www.mises.org.br/files/literature/As%20Seis%20Li%C3%A7%C3%B5es%20MISES%20-%20WEB.pdf

veja esse video:
http://www.youtube.com/watch?v=myuczQmQEHc

Marcio disse...

O coleguinha anônimo aí de cima não entendeu nada... Acha que é uma discussão daquelas sobre o bem contra o mal... É triste mas existem pessoas que se acham intelectualizadas porque sabe usar palavras como Capitalismo e comunismo... Amigo, pegue as referência que estão no texto e vá estudar antes de escrever qualquer bobagem que vc pensar...

Brito disse...

os fluxos descodificados são como cavalos bravos que sao capturados axiomatizados e engrossam o caldo do curral...

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