sexta-feira, 31 de maio de 2013

O eterno retorno em Zaratustra - Nietzsche

"'Alto, anão!, falei eu. 'Ou eu ou tu! Mas eu sou o mais forte de nós dois -: tu não conheces meu pensamento abissal! Esse - tu não poderias carregar!'

Então aconteceu que eu me tornei mais leve: pois o anão saltou-me do ombro, o curioso! E agachou-se sobre uma pedra diante de mim. Mas havia um portal, precisamente ali onde fizemos alto.

'Vê este portal, anão!', continuei a falar: 'ele tem duas faces. Dois caminhos se juntam aqui: ninguém ainda os seguiu até o fim. Este longo corredor para trás: ele dura uma eternidade. E aquele longo corredor para adiante - é uma outra eternidade. Eles se contradizem, esses caminhos; eles se chocam frontalmente: e aqui neste portal é onde eles se juntam. O nome do portal está escrito ali em cima: 'Instante'.

Mas se alguém seguisse adiante por um deles - e cada vez mais adiante e cada vez mais longe: acreditas, anão, que esses caminhos se contradizem eternamente?.'

'Tudo o que é reto mente', murmurou desdenhosamente o anão. 'Toda verdade é curva, o próprio tempo é um círculo.'

'Tu, espírito de peso!', falei, irado, 'não tornes tudo tão leve para ti! Ou eu te deixo agachado aí onde estás agachado, pé coxo - e olha que eu te trouxe bem alto! Vê, continuei a falar, vê este instante! Deste portal Instante corre um longo, eterno corredor para trás: atrás de nós há uma eternidade. Não é preciso que, de todas as coisas, aquilo que pode acontecer já tenha uma vez acontecido, já esteja feito, transcorrido? E, se tudo já esteve aí: o que achas tu, anão, deste Instante? Não é preciso que também este portal - já tenha estado aí? E não estão tão firmemente amarradas todas as coisas, que este Instante puxa atrás de si todas as coisas vindouras? E assim - a si próprio também? Pois, de todas as coisas, aquilo que pode correr: também por este longo corredor para diante - é preciso que corra uma vez ainda!

E esta lenta aranha, que rasteja ao luar, e este próprio luar, e eu e tu no portal, cochichando juntos, cochichando de coisas eternas - não é preciso que todos nós já tenhamos estado aí? - e que retornemos e que percorremos aquele outro corredor, para diante, à nossa frente, esse longo, arrepiante corredor - não é preciso que retornemos eternamente?'

Assim falava eu, e cada vez mais baixo: pois tinha medo de meus próprios pensamentos e dos pensamentos que se escondiam atrás deles. Então, subitamente, ouvi ali perto um cão uivar. Ouvi alguma vez um cão uivar assim? Meu pensamento correu para trás. Sim! Quando eu era criança, na mais longínqua infância: - foi quando ouvi um cão uivar assim. E também o vi, eriçado, com a cabeça voltada para cima, estremecendo, na mais silenciosa meia-noite, na hora em que também os cães acreditam em fantasmas: - tanto que me apiedei. Acabava, com efeito, de aparecer a lua cheia, mortalmente calada, sobre a casa, acabava de parar, uma brasa redonda - parada sobre o teto raso, como sobre propriedade alheia; - com ela assustou-se aquela vez o cão: pois cães acreditam em ladrões e fantasmas. E quando ouvi outra vez uivar assim, isso me apiedou mais uma vez.

Para onde teria ido agora o anão? E o portal? E a aranha? E todo o cochichar? Eu estava sonhando? Acordei? Entre penhascos selvagens fiquei de repente sozinho, ermo, no mais ermo dos luares.

Mas ali jazia um homem! E eis! O cão, saltando, eriçado, ganindo - agora ele me viu chegar - e recomeçou a uivar, e gritou: - ouvi alguma vez um cão gritar assim por socorro?."

Trecho extraído de "Da visão e enigma"
Assim falou Zaratustra, terceira parte (1883-1884)
Tradução de Rubens  R. Torres Filho 

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