É lamentável que uma presidenta que se diz defensora dos direitos humanos coloque os interesses econômicos de grandes empresas do setor hidroelétrico acima dos interesses de índios e ribeirinhos que vivem na região onde a obra será construída. Mesmo diante da necessidade de reajustes no orçamento da união, o governo continua dando prioridade a uma obra que só vai gerar benefício para meia dúzia de empresários paulistas, causando danos ambientais e sociais no médio e longo prazo. Essa ação jurídica também é uma clara demonstração de que o atual governo não está disposto a dialogar com os movimentos sociais, uma clara atitude anti-democrática e autoritária.
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quarta-feira, 9 de março de 2011
Novidades sobre Belo Monte
No dia 03 de março, na véspera do carnaval, a procuradoria geral da união derrubou a liminar que impedia o início do canteiro de obras de Belo Monte. O presidente do TRF-1ª Região, Desembargador Federal Olindo Menezes, acatou o pedido de suspensão de liminar protocolado pela AGU no início da semana. O parecer jurídico do desembargador reconhece a necessidade do IBAMA fiscalizar a realização das condicionantes pelo consórcio de empresas responsáveis pela construção da hidroelétrica. Segundo o magistrado, o IBAMA estaria "cobrando" a implantação das condicionantes, o que não representa uma afirmativa de que elas seriam colocadas em prática antes do início das obras. Mais uma atitude de desrespeito à democracia e ao povo brasileiro!
terça-feira, 8 de março de 2011
A Luta Libertária das Mulheres e o dia 8 de março
No dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos localizada na cidade de Nova York, nos Estados Unidos, fizeram uma grande greve reivindicando uma redução da jornada de trabalho de 16 horas para 10 horas e uma equiparação salarial com os seus colegas homens. A manifestação foi brutalmente reprimida pelas forças policiais, que trancaram as mulheres dentro da fábrica e colocaram fogo, ocasionando a sua morte por carbonização. Mais tarde, em 1910, em uma conferência na Dinamarca, essa data foi escolhida como um símbolo da luta feminista no mundo inteiro, passando a ser celebrada como homenagem à dedicação e à coragem das operárias norte-americanas.
Após a atuação das mulheres em duas guerras mundiais, quando tiveram que assumir um papel até então desempenhado pelos homens na economia de suas nações, trabalhando nas fábricas e exercendo funções até então consideradas “masculinas”, o movimento feminista ganhou maior visibilidade política no mundo inteiro. Após as lutas desempenhadas durante todo o século XX, os direitos civis e políticos das mulheres foram reconhecidos por boa parte das sociedades ocidentais contemporâneas. Hoje em dia, as mulheres possuem mais autonomia do que as suas antepassadas e podem gozar de uma relativa liberdade civil e política, podendo atuar em praticamente todas as áreas. No Brasil, a revisão do código civil e a criação de leis rigorosas para combater as situações de violência doméstica, como é o caso da Lei Maria da Penha e da criação das delegacias especializadas, criou uma base jurídica importante para a consolidação dos direitos das mulheres. Por outro lado, mudanças culturais também foram importantes, como o ingresso das mulheres no mercado de trabalho nacional e internacional.
A eleição da primeira presidenta do Brasil, em 2010, foi um marco no imaginário nacional e o início de um novo ciclo libertário para todas as brasileiras. O mesmo ocorreu em outros países da América Latina, que também escolheram uma mulher para ocupar o cargo mais importante da vida política nacional. Também é cada vez maior o número de mulheres ocupando posições de comando no mundo empresarial ou assumindo funções importantes no mundo da ciência e das artes. As grandes conquistas das nossas esportistas não deixam dúvida da sua capacidade de superar grandes obstáculos e conquistar uma posição de destaque nas grandes competições mundiais.
A eleição da primeira presidenta do Brasil, em 2010, foi um marco no imaginário nacional e o início de um novo ciclo libertário para todas as brasileiras. O mesmo ocorreu em outros países da América Latina, que também escolheram uma mulher para ocupar o cargo mais importante da vida política nacional. Também é cada vez maior o número de mulheres ocupando posições de comando no mundo empresarial ou assumindo funções importantes no mundo da ciência e das artes. As grandes conquistas das nossas esportistas não deixam dúvida da sua capacidade de superar grandes obstáculos e conquistar uma posição de destaque nas grandes competições mundiais.
Mas, infelizmente, ainda resta muito a fazer. Nos países ocidentais, as mulheres ainda ganham menos do que os homens para exercer a mesma atividade econômica, sofrem preconceito de gênero dentro e fora de casa e ainda possuem uma participação na política partidária bem abaixo do ideal. Infelizmente, a violência doméstica é um fenômeno que atinge todas as classes sociais. Ao mesmo tempo, as mulheres ainda são tratadas como “mercadorias” ou “objetos” de consumo dos homens, principalmente, nas campanhas publicitárias, no mundo da moda, no cinema e na televisão. As jovens sofrem a imposição de um padrão de beleza desumano e estão submetidas à necessidade de reprodução de uma estética exógena e de características européias e norte-americanas. Os comerciais de cerveja estão aí para revelar com expressividade a violência simbólica da “mulher-mercadoria”, reduzida a um mero objeto da consciência e do desejo masculino, sem vontade própria ou sentido independente. A continuidade no tempo de práticas históricas de submissão disseminadas na sociedade e reproduzidas pelas novas gerações é uma prova do quanto ainda temos que avançar para que as mulheres do mundo inteiro possam viver uma vida realmente digna. A violência mais direta e subversiva do tráfico de mulheres tem sido um difícil obstáculo para os instrumentos de inteligência do estado, devido a sua disseminação e organização rizomática em todas as fronteiras do país. Não podemos deixar de notar a associação existente entre as mulheres que são escravizadas ou violentadas e a indústria pornográfica que reproduz a imagem da mulher como simples objeto do desejo (de consumo) dos homens.
De qualquer forma, as conquistas das últimas décadas são incontestáveis e as feministas estão cada vez mais fortes e atuantes no mundo inteiro.
Eu, como um humilde companheiro de luta e simpatizante feminista, desejo que este dia seja o início de um grande ciclo de novas conquistas para as mulheres do mundo inteiro!
segunda-feira, 7 de março de 2011
Desigualdade Racial, Violência e Direitos Humanos
No Brasil, o carnaval é também a data que comemoramos a igualdade e a solidariedade, colocando abaixo as barreiras sociais que nos separam. O ideal seria que esse espírito de compreensão mútua também estivesse presente durante todo o ano, como parte do nosso cotidiano. Assim, nada melhor do que refletirmos sobre alguns dados divulgados no “Mapa da Violência”, um reflexo do fenômeno da desigualdade racial na forma como brancos e negros vivenciam o problema da segurança pública.
Os dados dessa pesquisa são bastante expressivos. Afinal, das 50 mil vítimas da violência, em 2002, foram assassinados 46% mais negros do que brancos. Em 2008, esse índice aumentou ainda mais e chegou à casa dos 100%. Esse número é maior ainda em algumas regiões do Brasil: na Paraíba, por exemplo, morrem mais de 1000% mais negros do que brancos. Outros dados divulgados nessa pesquisa não deixam a menor dúvida: no Brasil, os negros sofrem mais diretamente os efeitos perversos da violência criminal. E olha que estamos nos referindo aos efeitos diretos da criminalidade, sem falar nos indiretos. Afinal, quem vive em áreas marcadas pelo tráfico também precisa conviver diariamente com uma cidadania dilacerada, tendo seu direito de ir e vir severamente prejudicado. Os moradores dos bairros mais pobres de grandes metrópoles como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e São Paulo, entre outras, precisam se adaptar a uma paisagem de guerra civil. Todos nós sabemos que além dos jovens diretamente afetados pela vida no tráfico e pelo efeito perverso das drogas, ainda temos que contabilizar as famílias cuja qualidade de vida é ameaçada diariamente.
Os índices que revelam a persistência da desigualdade racial refletem um fenômeno cultural amplamente disseminado em nossa sociedade. Conforme declaração da atual ministra da Igualdade Racial, em reportagem da revista “Carta Capital”, a socióloga Luiza Bairros: “A imagem utilizada para compor o criminoso é calcada na pessoa negra, mais especificamente no homem negro. O negro foi caracterizado como perigoso em estudos de criminologia e o lugar onde ele mora é visto como suspeito. É automaticamente enquadrado nas três possibilidades de construção da suspeição: lugar, características físicas e atitude. Ou seja, como o racismo institucional existe, acaba moldando o comportamento de boa parte da corporação”.
Tanto brancos como negros são iguais. Não existe, por parte dos jovens negros, nenhuma predisposição natural para a criminalidade. Essa diferença evidenciada nas estatísticas revela uma desigualdade racial histórica, que reforça ainda mais a desigualdade econômica entre brancos e negros. A situação é a mesma em outros setores, como no mundo do trabalho e da educação. Trata-se, portanto, de um fenômeno político e cultural produzido pela nossa sociedade, que nuca conseguiu superar, de fato, as nossas raízes escravocratas.
Depois ainda existem antropólogos, no Brasil, que defendem o mito da igualdade racial e da miscigenação, combatendo as políticas de reparação, como as cotas universitárias. Segundo eles, ao dar atenção à desigualdade histórica e real, estaríamos prejudicando o efeito ideológico do mito das três raças, supostamente, um poderoso instrumento de coesão social. De fato, a ideologia da igualdade racial também serviu para camuflar práticas cotidianas de racismo amplamente disseminadas em todos os setores da nossa sociedade, mas escondidas sobre a sombra de um mito e de um ideário.
As estatísticas, de fato, não deixam a menor dúvida: os negros sofrem mais com a criminalidade, são mais pobres e possuem menos condições de trabalho, remuneração e acesso à educação. Fortalecer os movimentos reivindicatórios, portanto, é uma forma de dar ênfase a este problema, criando mecanismos efetivos para reverter os índices da desigualdade, dando condições para a população negra brasileira conquistar de fato a sua cidadania. As cotas são políticas de reparação histórica, um instrumento governamental cujo objetivo é reverter tendências que refletem características estruturais e estruturantes da nossa sociedade. No futuro, no entanto, quando negros e brancos viverem em um contexto social de igualdade política, esses instrumentos já não serão mais necessários. Enquanto os dados revelarem a persistência da desigualdade racial no campo da saúde, trabalho, educação, cultura e direitos humanos, o governo e a sociedade terão que implantar mecanismos reais para combater esse fenômeno.
Espero que o espírito igualitário e humanista do carnaval se mantenha durante todo o ano e que possamos, em um futuro próximo, viver em uma sociedade mais igualitária. Afinal tenho certeza que a eliminação histórica e real do racismo nos tornará uma sociedade melhor, mais justa e humanista.
sábado, 5 de março de 2011
Carnaval em Brasília/DF
É, por incrível que pareça, existe carnaval em Brasília. O melhor da festa são os blocos que percorrem as ruas da capital. Veja a programação:
Pacotão - dias 6 e 8, das 17-22hrs, CLN 302-303 via W3 Norte/Sul (na contramão)
Baratona - dias 6 e 8, das 17-22hrs, Eixão sul 109-110 (rumo ao Granfolia)
Galinho de Brasília - dias 5 e 7, das 16-24hrs, SBS a SAUS (L1 sul, rumo ao Granfolia)
Pacotão - dias 6 e 8, das 17-22hrs, CLN 302-303 via W3 Norte/Sul (na contramão)
Baratona - dias 6 e 8, das 17-22hrs, Eixão sul 109-110 (rumo ao Granfolia)
Galinho de Brasília - dias 5 e 7, das 16-24hrs, SBS a SAUS (L1 sul, rumo ao Granfolia)
sexta-feira, 4 de março de 2011
Carnaval no Brasil
Hoje tem início, no Brasil, o feriado de carnaval. Essa grande festa popular tem sua origem mais remota no cristianismo da Idade Média européia, quando cada região “brincava” o carnaval a seu modo. Tudo começou quando a Igreja Católica, ainda no século XI, instituiu a Semana Santa e impôs um período anterior de privações e jejum. Com isso, surgiu o costume de se festejar na rua os “prazeres da carne” um dia antes da quarta-feira de cinzas, com muita bebida, comida e a busca incessante da satisfação dos prazeres do corpo.
Já o carnaval “moderno”, com suas fantasias e desfiles, foi uma invenção da sociedade vitoriana, ainda no século XIX. Mas foi a partir de Paris que esse costume foi disseminado em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. Tudo teve início ainda no século XVII, quando, sob as influências da modernidade européia, surgiu o costume de se comemorar o carnaval com fantasias, motivo pelo qual, até hoje, mantemos personagens carnavalescos como a colombina, o pierrô e o Rei momo. Nesse período, havia as festas de máscaras nos clube da elite das grandes cidades, que buscavam imitar os costumes provenientes da Europa. Nessa época, o carnaval era uma forma de distinção social das classes mais altas. Já no século XIX, surgiram as primeiras sociedades carnavalescas. O povo também passou a participar mais ativamente da festa – o entrudo - tomando as ruas da cidade.
Mas foi somente a partir do início do século XX que a festa começou a assumir as características atuais. Na década de 1930, o então interventor do Rio de Janeiro, Ernesto, oficializou o carnaval carioca. Desde então, começaram a surgir escolas de samba. A primeira delas teve início, em 1928, com o nome de “deixa falar”, passando mais tarde a ser chamada de “Estácio de Sá”. A partir daí surgiram outras tantas escolas no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas foi apenas na década de 1950 que os desfiles de rua assumiram certa popularidade.
Já no norte e nordeste do Brasil a festa adquiriu ares locais, associando o feriado às tradições regionais. Em Pernambuco, nas ruas de Olinda e Recife, o povo se diverte na companhia dos bonecos gigantes e ao som dos grupos de frevo. O mais famoso de todos os grupos é o “Galo da Madrugada”, que leva para as ruas milhares de foliões. Na Bahia, existem os trios elétricos, sendo que os mais famosos são “Dodô”, “Osmar” e “Batatinha”. Já São Paulo, Porto Alegre e outras capitais do Brasil adotaram o costume carioca dos desfiles de escolas de samba. No interior do Rio Grande do Sul, por exemplo, além dos desfiles de rua, existem as festas de clube e os blocos de carnaval. Em Brasília, o carnaval de rua é movimentado pelos blocos, que se reúnem em dias específicos e percorrem as ruas da cidade. Talvez nenhuma outra festa seja tão popular como o carnaval, disseminado em praticamente toda a sociedade brasileira. Mesmo as pessoas que não gostam de pular e ir para as ruas aproveitam o feriado para descansar e viajar. Mas, dificilmente, você irá conhecer um brasileiro que nunca tenha, em toda a sua vida, pulado uma noite de carnaval, nem que seja nos clubes da alta sociedade.
O melhor estudo antropológico sobre o carnaval ainda é o famoso livro de R. DaMatta, Carnavais, Malandros e Heróis, onde esse autor desenvolve sua análise dessa grande festa popular. Já sobre o carnaval carioca, recomendo a leitura do livro de Hermano Vianna, O Mistério do Samba. Sobre as origens medievais do carnaval, sugiro a leitura do livro de Bakhtin, A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento. Para uma visão histórica do carnaval brasileiro, temos o livro de Felipe Ferreira, O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro.
Bom, como dizem por aqui, agora é só pegar o pandeiro, vestir a fantasia e cair na gandaia!
Bom, como dizem por aqui, agora é só pegar o pandeiro, vestir a fantasia e cair na gandaia!
quinta-feira, 3 de março de 2011
Violência no Trânsito: um fenômeno sócio-cultural contemporâneo
Quem nunca ouviu uma história ou presenciou pessoalmente uma situação de violência no trânsito? Quem nunca vivenciou ataques verbais ou gestuais ou teve que sair da pista para dar passagem para algum maluco que acha que andar na velocidade máxima da via é o maior absurdo do mundo? Em Brasília, por exemplo, apesar de não termos os congestionamentos quilométricos de São Paulo e Rio de Janeiro, a violência no trânsito é constante e diária. Pra mim, o mais difícil é conviver com os apressadinhos: pessoas que andam, geralmente, bem acima da velocidade da via e ainda acreditam que você, que anda na velocidade da via, é um idiota. Tudo isso para chegar alguns minutos antes em casa ou até mesmo no trabalho. Eu sempre me lembro dos milhões de brasileiros que precisam viver uma verdadeira epopéia para chegar em casa após um dia de trabalho, pegando dois, as vezes até mesmo três ônibus. Acredito que o simples fato de poder me deslocar de automóvel já é uma vantagem (em termos de economia de tempo) e um alívio, então, qual é a razão para correr tanto? A impressão que tenho é que as pessoas se transformam completamente quando entram em seus carros, deixando de ser aquele cidadão pacato para se transformar em um verdadeiro “monstro”.
Mas pior ainda são as situações de violência, seja contra os próprios motoristas, seja contra os pedestres. O evento que presenciamos no início desta semana, em Porto Alegre, retrata muito bem uma situação de total descontrole psicológico, gerando danos para pessoas que estavam apenas se manifestando de forma pacífica, com sua frágil bicicleta. E olha que não se tratava de um entregador de pizza correndo para não perder o emprego ou alguma situação de doença – o que explicaria, mas não justificaria o ato - mas um bem sucedido funcionário do Banco Central que voltava para casa com seu filho adolescente. E o pior é que ainda existem pessoas que procuram justificar tamanha ignorância. Conforme já foi abordado em outro blog, explicar sim, justificar não.
De fato, apesar de entendermos que o crime foi resultado de descontrole emocional, isso não é e nunca será uma justificativa para atropelar dezenas de ciclistas inocentes e desprotegidos. Infelizmente, conforme me foi relatado por amigos do sul, os meios de comunicação locais só foram divulgar o fato diante da pressão popular, pois o lamentável acontecimento comoveu a sociedade gaúcha. Ainda existem pessoas que acham que manifestações políticas em vias públicas não deveriam ser permitidas, pois isso atrapalha o seu direito de ir e vir. De fato, estamos diante de uma situação onde dois direitos colidem: o direito de livre manifestação política e o direito de ir e vir. Eu, sinceramente, acredito que aguardar alguns minutos para o povo se deslocar por uma via não chega a configurar uma ameaça ao direito de ir e vir. Caso contrário, os congestionamentos de trânsito ocasionados pelo crescimento urbano desordenado deveriam ser considerados um caso de desrespeito ao mesmo direito civil, cuja responsabilidade seria do governo.
A violência no trânsito não é nenhuma novidade. Lembro de um caso no Rio de Janeiro, já faz dois ou três anos, de um pai que foi brutalmente assassinado por um motorista na frente do seu pequeno filho, tudo isso devido a um desentendimento. Ou da história de uma colega de trabalho que foi perseguida durante quilômetros até ser abordado em um posto de gasolina por um sujeito enraivecido que batia violentamente nos vidros do seu carro. Eu mesmo, certa vez, fui perseguido até a universidade (sem notar), por um sujeito que me abordou com arma em punho, supostamente, por que eu havia cortado a sua frente em um cruzamento. Histórias como essas são comuns.
Não podemos esquecer que o trânsito é um fenômeno histórico e sócio-cultural que reflete, em grande medida, a nossa própria sociedade. Uma sociedade violenta e sem civilidade acaba resultando em um trânsito violento. O tema tem sido objeto de estudo do antropólogo Roberto DaMatta, que resultou na publicação do seu livro – “Fé em Deus e Pé na Tábua”. Entre outras conclusões que o estudo aponta, o autor argumenta que o brasileiro vê o bom motorista (que anda conforme as regras do trânsito) como um “babaca”. Segundo o antropólogo, não existe um reconhecimento do “outro” como alguém que merece respeito e consideração:
“Os outros são invisíveis no Brasil. Você não é treinado em casa nem nas escolas para ver o outro como colega, como um sujeito que tem os mesmos direitos de usufruir o espaço de todos. Para nós, é o contrário: o espaço de todos pertence a quem ocupar este espaço primeiro, com mais agressividade” – R. DaMatta
Lembro uma socióloga que estudava o assunto comentar em um congresso que os motoristas passam por uma transformação completa quando entram em seus carros. Na época, como agora, lembrei de um desenho do Pateta que retrata com humor essa tal transformação (logo abaixo), vale apena conferir. Espero que o evento que ocorreu em Porto Alegre sirva para nos alertar da importância de tratarmos a questão com seriedade, o que certamente exigiria uma revisão da nossa legislação de trânsito.
quarta-feira, 2 de março de 2011
A música/poesia de Tom Zé: rompendo a dialogia tradicional/moderno
A música e letra de Tom Zé rompe com a dialogia tradicional/moderno, transformando a tecnologia a partir da tradição sertaneja e fazendo da poesia oral e falada uma rima poética que nos transforma e comove. Nunca o Brasil esteve tão próximo de acontecer.
Nada de reprodução, mas uma invenção genuinamente e tradicionalmente sertaneja da modernidade metropolitana. Com a simplicidade da mais pura poesia, Tom Zé associa a musicalidade sertaneja (estou me referindo a visão do sertão e não a cultura de massa sertaneja) à tecnologia moderna. O pensamento e a música de Tom Zé são "antroposimétricas": um híbrido de tradição/modernidade.
Segue abaixo uma música do álbum "Estudando o Samba" (1975/76), na minha opinião, um dos melhores de Tom Zé: "Solidão". Já a música "O Pirulito da ciência" é sensacional. Por último, o vídeo de uma entrevista de Caetano Veloso sobre a relação entre Tom Zé e o Movimento Tropicália (TV Cultura, 1994). Segundo esse outro grande compositor brasileiro, quando Tom Zé viajou para São Paulo para participar do movimento tropicália, o convidou a descer do avião quando descobriu que o serviço de bordo da aeronave não tinha cachaça entre as bebidas oferecidas aos passageiros. Ótimo! Sensacional!
terça-feira, 1 de março de 2011
Chico Buarque - Construção
Quando o filho de Sérgio Buarque de Holanda, um dos percursores das ciências sociais no Brasil, resolveu pegar no violão e tocar a vida, a música popular brasileira ganhou um gênio versátil e politicamente engajado nos problemas do nosso país. Chico Buarque e sua poesia cotidiana, sensível, voltada para a revelação descritiva e poética da realidade brasileira é de uma densidade impressionante. Nunca um poeta foi tão bem sucedido em transformar poesia em música ou vice-versa. Um bom exemplo é a música "Construção", que integra o álbum de mesmo nome, o quinto disco de Chico, lançado em um dos momentos mais complicados da Ditadura Militar. Também foi a partir desta música que o compositor tornou suas críticas ao regime militar mais ousadas. O álbum foi eleito pela revista Rolling Stones o terceiro melhor disco brasileiro da história. Confira abaixo um vídeo da música com imagens históricas de trabalhadores, os nossos heróis anônimos do dia a dia, cujos corpos dilacerados na construção do país são consumidos nessa tarefa de pouco reconhecimento social. Diante de um salário mínimo de R$ 545,00, percebemos que a realidade retratada por Chico ainda continua presente para milhões de brasileiros. Mergulhar por esse imaginário de "cimento e lágrimas" é uma forma de reviver o presente e o passado do nosso país! Só espero que o futuro seja diferente e que um dia o chamado trabalho braçal seja valorizado como meio de vida digno e tão importante quanto o trabalho intelectual.
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