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sábado, 22 de outubro de 2011

Tese - Redes Sociotécnicas, Práticas de Conhecimento e Ontologias na Amazônia

Tendo em vista a demanda de amigos e colegas interessados no tema, estou disponibilizando a versão final da minha tese de doutorado - Redes Sociotécnicas, Práticas de Conhecimento e Ontologias na Amazônia: tradução de saberes no campo da biodiversidade - para download via "4Shared".

O link para download está disponível na página ao lado.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Notícias sobre a defesa...

Como divulguei o evento no blog, não poderia deixar de mencionar que a defesa da tese transcorreu  bem e o trabalho foi aprovado. Com isso, dá-se fim a uma jornada de cinco anos no PPGAS-UnB, onde cursei o doutorado em antropologia e contei com o apoio de valorosos colegas e amigos.

Gostaria de agradecer as contribuições dos professores Marcela Coelho de Souza (Presidente da Banca), Claudia Fonseca, Mauro Almeida, Henyo T. Barreto Filho e Guilherme da Silva e Sá. Fico contente que a tese tenha suscitado um bom e agradável debate.

Agradeço aos familiares, colegas e amigos que estiveram presente no dia ou que enviaram palavras de apoio.

De fato, quando uma jornada tem fim, outras têm início. Ao conquistar esse pequeno passo inicial, já se abre um novo horizonte de possibilidades e novos desafios.

Entre os projetos mais imediatos, pretendo continuar trabalhando com o material gerado durante a pesquisa de doutorado a partir da publicação do texto integral da tese e de  artigos em revistas, além da participação em congressos da área.

Voltarei a tratar de questões relacionadas à tese aqui no blog, algumas delas abordadas na banca.

Também pretendo fazer uma lenta reformulação do blog, que receberá um novo perfil em breve, com a renovação do material da biblioteca e da videoteca, assim como a criação de novas páginas permanentes.

Segue abaixo algumas fotos da defesa para os amigos e colegas que pediram a publicação desse registro. Grande abraço a todos.






        

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Redes Sociotécnicas, Práticas de Conhecimento e Ontologias na Amazônia

O dia da defesa está se aproximando. Estou disponibilizando logo abaixo o sumário da tese para quem quiser se informar um pouco mais sobre a pesquisa. Em linhas gerais, a tese foi concebida a partir de uma interface entre a antropologia da ciência e a etnologia, tendo como tema o contexto histórico da regulamentação das pesquisas e iniciativas tecnológicas no campo da biodiversidade e dos conhecimentos tradicionais.

A proposta inicial foi abordar a forma como está ocorrendo o chamado "diálogo" entre as ciências ocidentais e os chamados "conhecimentos tradicionais" sob o novo contexto da regulamentação, marcado por uma problematização ética e política dessa relação. Após realizar um levantamento inicial no Conselho de Gestão do Patrimônio Genético - órgão do governo federal responsável por conceber e aplicar as novas diretrizes jurídicas nessa área - selecionei duas iniciativas para acompanhar em campo, ambas desenvolvidas na Amazônia. 

Uma dessas iniciativas foi abordada na primeira parte da tese. Trata-se de uma pesquisa realizada por uma rede de laboratórios de farmacologia da Universidade Federal do Amazonas, envolvendo a coleta de plantas medicinais e conhecimentos associados em uma comunidade ribeirinha, tendo como objetivo a concepção de fitoterápicos, medicamentos e outros produtos naturais. Trata-se da primeira iniciativa de bioprospecção envolvendo acesso à biodiversidade e aos chamados "conhecimentos tradicionais associados" autorizada pelo governo brasileiro. A escolha desse caso também se justifica pelo fato das pesquisas na área de produtos naturais ser um dos setores científicos mais diretamente envolvidos com a problemática da regulamentação. 

A outra iniciativa, abordada na segunda parte, envolve duas pesquisas realizadas pelo Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN): um projeto sobre agrobiodiversidade em São Gabriel da Cachoeira e arredores; e outro sobre "paisagens ecológicas" entre os índios Baniwa do rio Içana. Os dois projetos integram o "Programa Rio Negro" e estão associados a um conjunto de "pesquisas interculturais" e desenvolvimento sustentável em andamento na região noroeste da Amazônia. Essas iniciativas compartilham a proposta de uma "metodologia participativa" e envolvem a atuação de pesquisadores indígenas nas etapas de coleta e sistematização de dados. A escolha dessa iniciativa se justifica porque os projetos na área de desenvolvimento sustentável - envolvendo a parceria entre ONGs ambientalistas e organizações indígenas - constituem um setor de pesquisa bastante envolvido nos debates sobre regulamentação. 

Na tese, busco descrever as práticas de conhecimento dos cientistas e das comunidades; e a sua relação com os objetos dessas pesquisas: em linhas gerais, plantas, lugares e saberes associados. Tendo como referência uma abordagem ontológica das práticas de conhecimento - inspirada pelos trabalhos de autores como Heidegger, Merleau-Ponty, Ingold, Law, Latour e Mol - busco descrever a relação dos diferentes coletivos envolvidos nessas iniciativas com os objetos de conhecimento, buscando entender como essas múltiplas ontologias entram em relação nessas iniciativas através de uma série de práticas de tradução (entendida à luz da Teoria Ator-Rede).

Essa discussão das práticas de conhecimento também envolveu uma interlocução com a noção de habitus em Bourdieu e Mauss; assim como uma reflexão sobre o fenômeno histórico do objetivismo científico e a sua relação com modos de subjetivação no campo das ciências e dos conhecimentos tradicionais a partir de um diálogo com o trabalho de Ian Hacking, Daston e Galison. 


A descrição das práticas de conhecimento dos ribeirinhos e dos índios envolvidos nessas iniciativas levou a uma discussão sobre o perspectivismo e o multinaturalismo (Viveiros de Castro), iluminada pelas formas que esses coletivos agenciam a relação com os pesquisadores e com o discurso científico, dando origem a fenômenos como a feirinha de comercialização de produtos agrícolas e a farmácia ribeirinha. Também abordei a emergência da categoria de "pesquisadores indígenas" como uma forma de agenciamento e domesticação dos pesquisadores brancos e seus conhecimentos e instrumentos de pesquisa.    

Na tese, também desenvolvo algumas reflexões sobre a noção de "redes sociotécnicas" tendo como ponto de partida uma série de problematizações teóricas e metodológicas próprias dos estudos da ciência e da "Teoria Ator-Rede" ("Actor-Network Theory"). Essas reflexões são desenvolvidas a partir de um diálogo com noções cunhadas por Deleuze e Guattari na obra "Mil Platôs" - rizoma, sistemas arbóreos, devir, linhas de fuga e desterritorialização, espaço liso e estriado e ciências nômade e de Estado -, tendo como cenário as formas de ordenação e coordenação das redes colocadas em prática pelos diferentes coletivos que atuam nessas iniciativas.      

O tema da regulamentação foi retomado nos dois capítulos da terceira parte - que reúne as conclusões finais da tese - a partir de uma interlocução com a noção de governamentalidade em Foucault e outros estudos mais contemporâneos sobre as formas modernas de governo e a sua relação com o discurso científico. Neste trecho final, também desenvolvi uma reflexão sobre os principais instrumentos da regulamentação, como é o caso dos dispositivos de consentimento informado e repartição de benefícios, tendo como referência a forma como esses instrumentos foram agenciados nas duas iniciativas.        

Após a defesa, vou montar uma nova página aqui com informações mais detalhadas sobre o trabalho. Assim que a versão mais definitiva estiver pronta (pós-banca), pretendo disponibilizar o texto final no blog. A proposta é, caso possível, tentar publicar a tese em livro ainda em 2012. 

Só relembrando, a defesa está marcada para o dia 04 de agosto, as 14 horas, no Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília. A banca é presidida pela Profª. Marcela Coelho de Souza e composta pelos professores: Claudia Fonseca, Mauro W. B. de Almeida, Henyo Barreto Trindade Filho e Guilherme J. da Silva e Sá. Segue abaixo o sumário da tese.

REDES SOCIOTÉCNICAS, PRÁTICAS DE CONHECIMENTO E ONTOLOGIAS NA AMAZÔNIA: TRADUÇÃO DE SABERES NO CAMPO DA BIODIVERSIDADE
SUMÁRIO
PARTE I
CAPÍTULO I - BIOPROSPECÇÃO DE PLANTAS MEDICINAIS AMAZÔNICAS E A PRODUÇÃO DE FITOTERÁPICOS: FARMACOGNOSIA, REDE E ONTOLOGIA, 44
1. A Etnofarmacologia e o Projeto da Farmacognosia, 44
2. Identificação de espécies amazônicas como potenciais fitoterápicos, 49
    2.1. Por uma ciência amazônida, 51  
   2.2. Traduções e agenciamentos científicos: o processo de construção de um laboratório de plantas medicinais amazônidas, 54
3. Redes Sociotécnicas na Amazônia: farmacognosia, bioprospecção e fitoterápicos, 59
4. Plantas medicinais, conhecimentos tradicionais e fitoterápicos: pressupostos ontológicos, 68
    4.1. A planta medicinal, a farmacognosia e o ideal da multidisciplinaridade, 68
    4.2. O valor econômico e humanitário da biodiversidade e dos conhecimentos tradicionais e o risco de erosão, 71
    4.3. A cadeia produtiva de fitoterápicos: aproximação com a indústria e geração de renda, 74
5. Objetivismo científico e farmacognosia: o mundo-das-substâncias, 75
CAPÍTULO II - PRÁTICAS DE CONHECIMENTO NO LABORATÓRIO: DA PLANTA AO FITOTERÁPICO, 83
1. A coleta das plantas na Comunidade Nossa Senhora de Nazaré, 85
2. O levantamento etnofarmacológico: tradução e objetivação científica dos conhecimentos tradicionais associados às plantas medicinais, 88
3. As práticas científicas na bancada e o processo de transformação da planta em fitoterápico, 95
    3.1. O laboratório Planta-Piloto: secagem e processamento, 95  
    3.2. O laboratório de Fitoquímica: cromatografia, fracionamento e produção de extratos, 96
    3.3. O laboratório de Bioquímica: testes de bioatividade in vitro, 102
    3.4. O Biotério: testes de bioatividade in vivo, 107    
4. Formas de conhecimento no laboratório: práticas de ordenação, distribuição e objetivação científica, 110
     4.1. Reproduzindo o protocolo na bancada: temporalidade e conhecimento, 111
     4.2. Formas de Classificação: espacialidade e conhecimento, 116
  4.3. A relação dos pesquisadores com os actantes e o habitus laboratorial: objetivação científica formas de visualização dos dados e práticas de tradução, 120
CAPÍTULO III - HABITUS RIBEIRINHO, REDES COMUNITÁRIAS E PLANTAS MEDICINAIS, 127    
1. A Comunidade Nossa Senhora de Nazaré, 127
2. Ontologia e Plantas Medicinais: formas ribeirinhas de conhecer, falar e usar as plantas, 133
     2.1. O Mundo do Quintal: universo feminino e a poética do cuidado, 134 
     2.2. O Mundo da Mata: universo masculino e a poética da valentia, 141
     2.3. O Mundo do Curandeiro: hibridismo e a poética da tradução/transformação, 145
3. Redes Ribeirinhas e a Circulação de Plantas e Conhecimentos Medicinais, 149
4. Sazonalidade, Habitus Ribeirinho e Plantas Medicinais, 155
5. A "Farmacinha Ribeirinha": resiliência, tradução e agenciamento, 159

PARTE II
CAPÍTULO IV - AGROBIODIVERSIDADE, PAISAGENS E PESQUISA INTERCULTURAL NO ALTO RIO NEGRO: SOCIOAMBIENTALISMO, REDE E ONTOLOGIA, 168
1. O Socioambientalismo e o diálogo entre conhecimentos científicos e tradicionais no final do século XX, 168
2. O Instituto Socioambiental, o Programa Rio Negro e a Rede ISA/FOIRN, 173
3. Agrobiodiversidade e inventário de Paisagens Baniwa: pressupostos ontológicos, 181
     3.1. Mandioca, Agrobiodiversidade, Urbanização, Redes Sociais e Risco de Erosão, 184
     3.2. Trilhas, Conhecimentos e Paisagens Baniwa, 193
CAPÍTULO V - PRÁTICAS DE REGISTRO DA SOCIOBIODIVERSIDADE: A TRADUÇÃO/TRANSFORMAÇÃO DOS CONHECIMENTOS TRADICIONAIS EM DADOS CIENTÍFICOS, 199
1. As Expedições de Campo e os Aparelhos de Registro da Sociobiodiversidade, 200
     1.1. Entrevistas, Questionários e Cadernos de Anotação, 202
     1.2. Transectos, Coleções e Fotografias, 207
2. Os Aparelhos de Sistematização e Visualização da Sociobiodiversidade, 210
      2.1. Cartografia, 212
      2.2. Softwares, Banco de Dados e Diagramas, 215
3. Os "Pesquisadores Indígenas": formação, tradução e mediação cultural, 221
      3.1. As atividades de formação em técnicas de pesquisa: a produção do diálogo intercultural, 223
      3.2. Da pesquisa 'sobre' os índios para a pesquisa 'dos' índios, 226
4. Ontologias e Temporalidades: ciências e engajamento político-comunitário, 227
5. O Mapeamento do Mundo: a ciência enquanto máquina de tradução, 232
CAPÍTULO VI - ONTOLOGIAS AMERÍNDIAS E PRÁTICAS DE CONHECIMENTO NO ALTO RIO NEGRO, 237
1. Percorrendo as trilhas comunitárias, 240
2. O Mundo da Roça, 244
    2.1. A Origem das Manivas e o Mundo dos Ancestrais, 244
    2.2. Práticas de Conhecimento na Roça, 247
3. A história da pimenta, 251
4. Ontologias Ameríndias no Alto Rio Negro: múltiplos corpos-mundos, 255
CAPÍTULO VII - AGENCIAMENTOS INDÍGENAS DA PESQUISA "AGR-ARN": A FORMAÇÃO DA FEIRA E DA ASSOCIAÇÃO CULTURAL DOS AGRICULTORES INDÍGENAS "DIRETO DA ROÇA", 263
1. A Feira "Direto da Roça", 267
2. A maloca em dia de festa, 270
3. Associativismo, demandas políticas e valores comunitários, 275
    3.1. Assembléias e demandas da Associação, 279
    3.2. Valores Comunitários e a "chefia da maloca", 283
4. Devir-índio e Devir-Branco no Contexto Urbano: entre a festa, a feira e o associativismo, 285
CAPÍTULO VIII - OS "PESQUISADORES INDÍGENAS": DOMESTICANDO OS CONHECIMENTOS E A TECNOLOGIA DO BRANCO, 290
1. Pesquisadores Indígenas no Alto Rio Negro: diferentes trajetórias e gerações, 292
    1.1. Primeira geração: de liderança indígena a pesquisador, 293
    1.2. A geração intermediária: de pesquisador à liderança comunitária, 296
    1.3. A terceira geração e a institucionalização da pesquisa nas escolas indígenas, 299
2. Formas de Agenciamento da Pesquisa (pelos pesquisadores nativos), 301
     2.1. A Pesquisa Indígena enquanto saber-fazer, 301
     2.2. A Pesquisa Indígena enquanto domesticação da alteridade, 304
3. Os Conhecimentos e as mercadorias do branco nas Ontologias Indígenas do Alto Rio Negro: alteridade, risco e domesticação, 308

PARTE III
(CONSIDERAÇÕES FINAIS)
CAPÍTULO IX - PRÁTICAS DE CONHECIMENTO, ONTOLOGIAS E TEMPORALIDADES: ACORDOS PRAGMÁTICOS E OS DILEMAS DO "DIÁLOGO", 318
1. Múltiplas Práticas de Conhecimento, Múltiplos Mundos, 318
2. Ontologias e Temporalidades, 325
3. Múltiplas formas de pensar/viver o "diálogo" entre conhecimentos na prática, 337
4. Propriedade intelectual, Consentimento Informado e Repartição de Benefícios, 341
5. Acordos pragmáticos: convivência ou conflito de ontologias, 352
CAPÍTULO X - REDES SOCIOTÉCNICAS NA AMAZÔNIA: MÚLTIPLAS ONTOLOGIAS-TOPOLOGIAS, 359
1. Rizomas e Árvores, 359
2. Ciências Nômades e Ciências de Estado, 368
3. Ontologias e Topologias, 374
4. Alfândegas: governamentalidade, regulamentação e ontologia, 387
REFERÊNCIAS BIBIOGRÁFICAS, 399
APÊNDICES, 425
ANEXOS, 464

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Tese entregue, Banca marcada para 04 de agosto


Entreguei ontem a versão da tese para a banca, composta pelos professores Claudia Fonseca, Mauro Almeida, Henyo T Barreto Filho e Guilherme da Silva e Sá. A defesa está marcada para o dia 04 de agosto, as 14hrs, no Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília.

O título do trabalho é:

Redes Sociotécnicas, Práticas de Conhecimento e Ontologias na Amazônia: tradução de saberes no campo da biodiversidade.

Orientadora: Marcela Coelho de Souza
Co-Orientador: Paul E. Little

Trata-se de uma etnografia em rede, constituindo-se como uma tentativa de estabelecer uma interface entre a antropologia da ciência e a etnologia, tendo como cenário etnográfico duas iniciativas de pesquisas na área de biodiversidade e conhecimentos tradicionais, ambas envolvendo o encontro entre cientistas, índios e ribeirinhos e a proposta do estabelecimento de um “diálogo de saberes”. Os dois projetos foram autorizados pelo Conselho de Gestão do Patrimônio Genético e estão inseridos no contexto histórico de problematização do acesso aos recursos genéticos e aos chamados "conhecimentos tradicionais associados". 

A discussão mais geral envolve uma abordagem ontológica das formas de conhecimento científicas, indígenas e ribeirinhas, com enfase na maneira como esses diferentes coletivos conhecem os objetos que circulam nessas iniciativas e pensam a relação entre saberes no campo da biodiversidade. As palavras-chave mais importantes são: ontologia; práticas de conhecimento; tradução; redes sociotécnicas; objetivismo científico; perspectivismo; governamentalide; modos de objetivação e subjetivação.      

A primeira parte da tese é sobre um projeto na área de plantas medicinais e fitoterápicos envolvendo uma equipe de farmacêuticos de uma universidade federal do Amazonas e uma comunidade ribeirinha do Alto Amazonas. Busquei seguir todo o ciclo de produção científica que tem início com a coleta das plantas na comunidade até a sua transformação em extratos e produtos naturais. Também busquei contrapor essa forma científica (e farmacêutica) de conhecer e transformar as plantas medicinais e a maneira como os ribeirinhos conhecem as plantas na comunidade.   

A segunda parte é sobre duas pesquisas na área de desenvolvimento sustentável envolvendo pesquisadores do Instituto Socioambiental e organizações e povos indígenas do Alto Rio Negro. Busquei descrever o ciclo de produção científica que tem início com a coleta de dados nas comunidades indígenas e finaliza com a sistematização desses dados nos escritórios do ISA. Também busquei contrapor a forma como índios e pesquisadores abordam os dois objetos dessas iniciativas: a agrobiodiversidade e as "paisagens florestais".  

Na terceira e última parte busco tecer associações entre esses dois universos, tendo como cenário histórico mais amplo o processo de regulamentação do acesso ao “patrimônio genético” e aos “conhecimentos tradicionais associados”.  O tema de destaque nesta parte é a problematização política e ética das relações de saberes na área de biodiversidade, envolvendo temas como "repartição de benefícios", "consentimento prévio e informado" e "propriedade intelectual" (entre outros).    

 Ainda volto a escrever sobre a tese no blog, em uma postagem específica de divulgação. Por ora, só queria mesmo comunicar o término da escrita e a entrega da tese para a banca. Agora fica faltando a etapa final e derradeira: a defesa!   
   
Nem acredito que finalizei tudo em tempo. Os últimos cinco anos foram de dedicação exclusiva ao doutorado. Lembro como se fosse hoje quando cheguei à Brasília, em março de 2007, sem conhecer a cidade e estranhando muito a arquitetura urbana da capital. Tive a sorte de contar com a recepção e o acolhimento de amigos e colegas, que tornaram a minha estadia nesta cidade e na UnB muito agradável. A tese é o resultado do apoio e parceria de inúmeras pessoas que estiveram ao meu lado nos últimos cinco anos. Gostaria de agradecer em especial aos colegas, funcionários e professores do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UnB, com quem tive a oportunidade de conviver nos últimos cinco anos; aos pesquisadores do ISA e da UFAM; e aos ribeirinhos de N. S. de Nazaré e às lideranças e agricultores indígenas de São Gabriel da Cachoeira (ARN). 

Tendo finalizado a escrita da tese, aos poucos pretendo retomar o projeto do blog. Acredito, no entanto, que isso só irá ocorrer com mais intensidade a partir de agosto, após o rito final. Até lá ainda estarei envolvido com a preparação para a defesa.    

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Plantas Medicinais na Comunidade: práticas de conhecimento ribeirinhas

Estas fotos foram tiradas durante o meu trabalho de campo na comunidade N. S. de Nazaré, localizada na região do Alto Amazonas. Foi nessa comunidade que as plantas medicinais analisadas no laboratório (ver post anterior) foram coletadas. Durante o período que permaneci na comunidade, acompanhei os homens nas atividades de coleta de plantas na mata, as mulheres no cuidado das plantas medicinais do quintal e na preparação dos remédios caseiros. Também ouvi muitas histórias sobre plantas e animais da floresta e acompanhei o trabalho de um curandeiro local em diversas situações de cura. A minha intenção era entender melhor a relação dos ribeirinhos com as plantas, suas práticas de conhecimento e a sua inserção no projeto de pesquisa coordenado por uma equipe de farmacêuticos.

    Comunidade Ribeirinha de N. S. de Nazaré - Alto Amazonas (AM)

Praça Central da Comunidade: Igreja e Sede da Associação

Lago Purupuru

Reunião da Coordenação de Área - Comunidade N. S. de Nazaré

Dona Maria, suas netas e seu canteiro de Plantas Medicinais

O cuidado com as plantas medicinais do quintal

Dona Lourdes e as suas plantas medicinais

As redes de circulação de plantas e conhecimentos na comunidade

As viagens de coleta das plantas da mata

As Trilhas na Floresta em busca de plantas medicinais da mata

Outra Viagem de Coleta

Compadre Manuel e as plantas medicinais

Cortando as cascas para preparação de remédio caseiro

Contando histórias sobre plantas, animais e entidades da floresta

Os remédios caseiros

Os remédios caseiros II

Flutuante Ribeirinho - Comunidade N. S. de Nazaré  

terça-feira, 10 de maio de 2011

Foto-Etnografia no Laboratório

Estas fotos foram tiradas em um laboratório de produtos naturais localizado em Manaus (AM), onde desenvolvi parte do meu trabalho de campo. Os extratos analisados na bancada foram preparados a partir de plantas medicinais coletadas em uma comunidade ribeirinha do alto amazonas. A iniciativa faz parte de um projeto na área de plantas medicinais e fitoterápicos  autorizado pelo Conselho de Gestão do Patrimônio Genético. Trata-se de uma das pesquisas que acompanhei durante o meu projeto de doutorado em antropologia, intitulado: Redes Sociotécnicas na Amazônia: etnociências, biodiversidade e conhecimentos tradicionais.

A Planta Medicinal

O Laboratório Planta-Piloto: limpeza das folhas para preparação de extratos

Laboratório Planta-Piloto: trituração de cascas para preparação de extratos

O Extrato Seco

Laboratório de Fitoquímica: cromatografia e produção de extratos
Múltiplas Variações 

Testes de Bioatividade na Bancada do Laboratório de Bioquímica

Idem

O antropólogo experimentando o mundo-laboratorial

HPLC: analisando os "picos" das amostras e identificando as substâncias bioativas 

Pesquisadores escrevendo os dados gerados na bancada em relatórios e artigos científicos

quinta-feira, 31 de março de 2011

Tese - Na Reta Final (reformulado)...

Estou entrando na reta final de escrita da tese! Com isso, as atividades no blog estão um pouco de lado, em segundo ou terceiro plano... A solução tem sido publicar coisas relacionadas ao que ando lendo ou escrevendo. Na última semana, revisei Anti-Édipo e Mil Platôs de Deleuze e Guattari, motivo pelo qual publiquei alguns trechos sobre as noções de devir e rizoma e um rabisco inspirado nessa leitura (Ciência Régia e a Casa do Imperador). Nada de muito importante, apenas alguns trechos e imagens... Suspiros paralelos ao que estou pensando/escrevendo. No início da semana, foi a vez de revisar Gregory Bateson e sua noção de "organismo + meio ambiente", assim como sua crítica à divisão entre mente (suj.) / mundo (obj.)... Na quarta-feira, retornei às minhas anotações sobre o "Ser e o Tempo", de Martin Heidegger e escrevi alguns apontamentos e esboços iniciais. Hoje devo começar a ler "Ontologia Histórica", de Ian Hacking. É interessante como esse autor se apropriou da obra de Foucault, aplicando sua abordagem arqueológica no estudo das ciências ocidentais.  Depois vai ficar faltando duas ou três coletâneas de artigos, que devo acabar até o início da próxima semana, para então me dedicar à escrita dos dois últimos capítulos e da introdução. Os temas de fundo são: propriedade intelectual, direitos autorais, conhecimentos tradicionais e repartição de benefícios... Os eixos transversais: ontologia, tradução, práticas de conhecimento, espaço liso/estriado, territorialização/desterritorialização, habitus (para além de Bourdieu), redes sociotécnicas e outros conceitos correlatos.

Essas leituras e o trabalho de campo no Amazonas afetaram e transformaram a minha forma de ver o mundo. Tudo, desde então, ganhou outra dimensão. Cada vez me convenço mais de que a escrita da tese também envolve um processo de auto-conhecimento muito forte. Tenho refletido muito sobre a vida e sobre a existência no mundo. Sobre novos e velhos amigos... Sobre questões mal ou bem resolvidas.. Sobre novos e velhos sentimentos. A escrita tem me levado a um mergulho reflexivo impressionante, inquietante e ao mesmo tempo extremamente produtivo. Reviver as imagens-lembranças do campo, das relações que estabeleci no Amazonas, das trilhas e dos conhecimentos... Mergulhar em todos esses mundos possíveis, navegar por seus caminhos, conhecer suas pequenas vielas e seus atalhos, tentar diferenciar uma piscadela de um piscar de olhos, tudo isso me transformou completamente.

O exercício ruminante de tentar tornar as idéias mais claras e mais precisas tem sido bom, mas exaustivo. Ter que retornar muitas vezes para as mesmas linhas, estabelecer conexões e refazer os mesmos caminhos a partir de trajetórias diferentes, traçar contornos, cortar ou adicionar trechos... É impressionante como a escrita provoca uma mistura alucinante de todos esses níveis da existência: de tudo que está em mim e lá fora ao mesmo. O resultado disso? Um corpo de afetos estratificado no papel,  perdendo-se no jogo das letras e dos pensamentos para se encontrar sob a forma desse "outro" que ainda está por ser revelado ou descoberto.

Existe uma parte de mim que tem vontade de continuar por outros meios. Nenhuma novidade, com o tempo, também vamos apreendendo a nos conhecer melhor. Tenho a forte impressão que sempre vivi essa inquietação: uma busca incessante por linhas de fuga rumo ao oriente, talvez para redescobrir aqueles velhos caminhos que ainda vivem em mim como uma espécie de enunciação rebelde, uma disposição-miragem rumo a um devir-futuro. A distância de um "cair-no-mundo" que me coloca em contato com um "Eu" que vive lá fora, com as coisas e pessoas que  comovem e me fazem viver: seja o sorriso das crianças ou o grito desesperado dos desolados...              

Percorrer a reta final não tem sido nada fácil. Minha rotina tem sido a mesma todos os dias da semana: acordar por volta das 07hrs, sentar no escritório e ficar lá até por volta das 21/22hrs, só fazendo um pequeno intervalo para almoçar. Até aí, nada de mais. Milhões de brasileiros vivem jornadas exaustivas. Longe de mim querer me fazer de vítima. De qualquer forma, a imobilidade também provoca danos e o corpo reclama. Mal posso esperar a oportunidade de voltar a fazer algum exercício: nadar, caminhar, jogar basquete ou qualquer coisa do tipo. Também seria ótimo ficar sem fazer nada, apenas pensando. Gostaria de ter mais tempo para aprofundar algumas idéias que grudaram em mim. Mas esse outro "tempo-cronograma" - que me persegue na forma do aviso "o tempo está passando" ou de mais um "prazo final" que se aproxima - não me permite. Pelo menos não sem ter que fazer jornada dupla, trabalhar nos feriados e finais de semana...

Vivo hoje as boas experiências que vivi nos últimos três anos de campo. Mas isso me distancia de outras tantas coisas legais que estão acontecendo no mundo e com as quais eu gostaria de me envolver mais.  De fato, ficar sentado o dia inteiro não tem sido nada fácil. Distante da família e dos amigos, a auto-disciplina tem sido o meu principal apoio nessa jornada. Como dizia meu caro avô, "as conquistas na vida são regadas de muito sacrifício e dedicação"... Lembrei do meu antigo professor de epistemologia (na graduação), José Carlos dos Anjos, que dizia sempre: "eu não acredito em genialidade. Tudo é fruto de muito trabalho... Somos todos operários das ciências sociais!". Nunca uma afirmação esteve tão correta.  Longe de qualquer pretensão aristocrata, gosto de ver o meu ofício como uma prática artesanal que exige muita dedicação. A minha sorte é que tenho contado com a compreensão e o carinho da minha companheira Cristina, que agora também dá início a uma nova jornada como professora, após ter vivenciado o mesmo processo. Também não posso deixar de mencionar os amigos e os familiares que estão ao meu lado, mesmo quando distantes. Enfim, vamos levando...

Mas logo tudo isso vai recomeçar de outra forma... Tenho planos de cultivar uma horta,  ter mais contato com a terra, cuidar de plantas, viajar, conhecer novas paisagens, escutar música, percorrer novas trilhas, ir ao teatro, ler poesia, contos e literatura... Fazer novos amigos, dar início a novos projetos...

Enfim, agora falta pouco, de um total de 9 capítulos, 7 já estão prontos. Além da escrita da parte final da tese, ainda será necessário fazer a última revisão, incorporando as sugestões que surgiram a partir da discussão do material com a orientadora. Por isso, peço paciência aos leitores do blog, pois só poderei publicar reflexões paralelas ao que estou fazendo agora. Mas assim que terminar essa batalha, vou me dedicar um pouco mais a este projeto.

De qualquer forma, vale apena mencionar que, neste mês, o blog bateu o recorde de acessos: foram mais de 3500 visitas! Leitores de várias cidades do Brasil e de países como Estados Unidos, Portugal, Irlanda, Angola, Venezuela, Argentina, Holanda e França têm acompanhado as postagens com certa frequência. A nossa comunidade também está crescendo. Já são 47 membros... Tendo em vista que se trata de um blog de antropologia, está ótimo. Pra mim, isso significa que idéias e temas políticos que estão em disputa passaram a circular por essas redes  e foram apropriadas, transformadas, criticadas ou até mesmo desprezadas... Essas idéias nunca foram minhas, no sentido de uma coisa que me pertence ou algo como uma "idéia original", pois são frutos de múltiplos, pequenos e dispersos exercício de imersão no mundo, nada mais. E isso é o bastante quando não se tem nenhuma pretensão de popularidade... Talvez a proposta seja a de formar uma rede virtual em torno de questões relacionadas à antropologia, aos povos indígenas, ao meio ambiente, às práticas científicas e à antropologia simétrica. Nesse sentido, estamos caminhando na direção certa. "Antroposimétrica" está conectado com uma dezena de outros blogs, trocando idéias e colaborando para que a dádiva-conhecimento circule em redes cada vez mais amplas. Afinal, só o coletivo descentralizado faz a diferença de fato! Vamos em frente...

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Breve Nota sobre apresentação no LACT

Gostaria apenas de registrar aqui que a apresentação no LACT, nesta última segunda-feira, foi bastante produtiva! Todas as pessoas presentes fizeram valiosas contribuições ao meu trabalho e deixo aqui os meus sinceros agradecimentos. Nada melhor do que poder discutir questões que ainda estão em processo de concepção com pessoas interessadas em colaborar e fico realmente grato pela oportunidade. Acredito que o Laboratório de Ciência e Tecnologia é uma exceção no mundo acadêmico, onde boa parte dos alunos não sabe nem mesmo o que o seu colega ao lado está fazendo e a solidariedade entre os pares não é incentivada pelos próprios professores, é claro, com poucas e boas exceções. Espaços como o LACT promovem a solidariedade num contexto cientifico onde o individualismo predomina, permitindo a troca de conhecimentos e de dádivas. Fica aqui o meu agradecimento aos professores Guilherme José da Silva e Sá e Carlos Sautchuk, coordenadores do LACT, e aos demais colegas presentes. Conforme mencionei na ocasião, o exercício de uma antropologia experimental - que consiste, em linhas gerais, na discussão de idéias durante o processo de sua concepção - torna o processo de construção do conhecimento uma atividade extremamente produtiva, pois permite a constante reformulação do conhecimento e a superação dos dogmas que o individualismo produz na vida acadêmica. Fico feliz em poder contar na UNB com um espaço de troca que me faz lembrar do bom ambiente do NACI/UFRGS, onde apreendi desde cedo a valorizar o diálogo com os pares como uma forma de incentivar a circulação das idéias no meio acadêmico. O que precisamos, na verdade, é de mais exemplos como esses.

sábado, 22 de maio de 2010

Transferência da Apresentação no LACT para o dia 31 de maio

A apresentação da minha pesquisa de doutorado no LACT foi transferida para a próxima segunda-feira, dia 31 de maio, das 14-16hrs, na Sala de Reuniões do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília. Confira o texto de apresentação na postagem enviada anteriormente.   
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