Homens e mulheres de todas as idades, profissionais liberais e trabalhadores desempregados - vítimas do investimento do alto capital de risco e da especulação imobiliária que deu origem à crise econômica norte-americana - acamparam no centro econômico mundial para protestar contra as injustiças de um sistema econômico e político que tem gerado desemprego e sofrimento para a maior parte da população. O movimento centralizou suas forças em um lugar localizado a poucos metros do "Marco Zero", onde barracas e barricadas foram levantadas e comitês foram formados, tudo de forma autônoma. Eles são provenientes de diferentes regiões do país, pessoas comuns que perderam tudo devido à irresponsabilidade de uma dezena de empresários e especuladores financeiros: professores universitários e estudantes das mais diferentes áreas do conhecimento, trabalhadores, músicos, ativistas, políticos e artistas. Nas praças e ruas de Nova Iorque encontramos gente 'comum', cidadãos de uma sociedade em crise, pessoas que não suportam mais viver em um mundo que não oferece qualquer perspectiva positiva. O grito de 'ocupação de Wall Street" é o efeito político de um contexto de inversão de valores éticos, onde as pessoas já começam a perceber que a 'crise' econômica é, de fato, o reflexo de uma crise moral de caráter estrutural (e estruturante). No mundo das grandes corporações e multinacionais do setor financeiro, os valores humanos e sociais são submetidos aos efeitos da ganância de uma uma elite de magnatas que "jogam" diariamente com as vidas de milhões de pessoas.
O movimento teve origem nas redes sociais, a partir de uma convocatória para um protesto contra Wall Street, denominado de "Occupy Wall Street". Mobilizados por interesses comuns, coletivos civis foram estabelecidos da noite para o dia, transformando-se rapidamente em células autônomas de grande mobilidade política. Sem um centro de dispersão ou hierarquia de mando instituída, as pessoas simplesmente começaram a ocupar praças e ruas, trazendo consigo cartazes e bandeiras, preparados para ficar "o tempo necessário". Em poucos dias a notícia se espalhou e o protesto recebeu o apoio de intelectuais famosos, artistas e outras personalidades públicas, que se manifestaram na internet a favor do movimento. O que era para ser uma pequena e passageira manifestação se transformou rapidamente em uma mobilização política de grandes proporções, que encontrou adeptos em outras metrópoles, como Tóquio, Londres e Paris. As pessoas ocuparam as ruas com seus cartazes, denunciando o desmando e a irresponsabilidade das elites financeiras mundiais e dos governantes.
Em pouco tempo, uma ação política localizada deu origem a múltiplos focos descentralizados de manifestação no mundo inteiro, formando nódulos em redes de protesto de extensão global. Seguindo a mesma lógica de organização das mobilizações políticas que varreram o oriente médio a poucos meses atrás, a internet forneceu o suporte de comunicação que permitiu a rápida dispersão das informações em diferentes regiões dos Estados Unidos e do mundo. Sem necessidade de organização planejada e estrutura hierárquica, as células se multiplicam com rapidez impressionante. Os rizomas brotaram e se multiplicaram a partir de uma crise generalizada que atingiu hastes duras e tradicionais, como a família e o emprego.
E não se trata de uma mobilização partidária, apesar de todos possuírem seus respectivos partidos e opções políticas, muitas vezes divergentes. Mas apesar das diferenças entre os manifestantes, todos concordam que a crise econômica mundial é o resultado da ganância e da irresponsabilidade de uma elite econômica que tem gerado grandes prejuízos às pessoas "comuns", que sustentam o capitalismo no dia a dia enquanto consumidores de produtos e bens de consumo.
Nos Estados Unidos, conforme ouvi de amigos que vivem lá, existe um sentimento compartilhado por todos de que "as coisas não estão indo bem", principalmente, devido a uma crise ética que domina a política e a economia desse país. As altas taxas de desemprego atingiram um nível insuportável. A crise abalou um dos pilares fundamentais do sistema capitalista: o círculo existente entre trabalho, liberdade e consumo. Diante de um contexto político tenso, marcado pela aproximação das próximas eleições presidenciais, as pessoas começam a perceber que as lideranças partidárias estão mais preocupadas em garantir seus domínios eleitorais do que em buscar soluções para superar a crise econômica. As expectativas projetadas sobre Obama não surtiram os resultados esperados e o sentimento geral é de que alguma coisa se perdeu no caminho. Por outro lado, os republicanos buscam, mais uma vez, impor sobre a sociedade um "clima de terror", baseado na desinformação. Ao analisarmos a história econômica e política mais recente dos Estados Unidos, é fácil perceber que a crise financeira e o desemprego são heranças de um regime 'terrorista' representado na figura de G. Bush, cuja base de sustentação sempre foi a elite financeira nacional (e internacional). A situação econômica norte-americana deve ser analisada sob a perspectiva histórica e não-imediatista, sem sensacionalismo e revanchismos partidários.
Diante de um contexto tão negativo, onde o prisma político não oferece alternativas promissoras de mudança, a solução que o povo encontrou foi sair as ruas para protestar contra uma situação que parece 'fora de controle'. O improviso e a descentralização do processo decisório foram fundamentais para a rápida dispersão das mobilizações em diferentes regiões. Essa multiplicação das manifestações políticas acabou por romper com o 'velamento' midiático que estava sendo imposto sobre os primeiros protestos.
Em uma cena que circulou as redes sociais do mundo inteiro, uma menina de dez anos segura um cartaz onde é possível ler: "devolva ao povo o poder de mudar o mundo!". Apesar de muitas pessoas criticarem o movimento "Occupy Wall Street" pela falta de clareza no que se refere às demandas e propósitos da manifestação (uma de suas principais potencialidades), não resta dúvida que o cidadão comum está insatisfeito com os rumos que a política e a economia norte-americana tomou nas últimas décadas e julga que uma das principais razões que deram origem a essa deplorável situação foi a total irresponsabilidade da elite financeira, preocupada unicamente em garantir suas altas taxas de lucro, mesmo que para isso seja necessário levar o restante da nação à falência.
O ato de ir as ruas protestar reflete o sentimento geral de indignação diante da atitude dos governantes, que privilegiam às brigas partidárias em detrimento da busca por soluções concretas. Enquanto os republicanos acusam os democratas de não conseguir superar a crise econômica nacional (apesar de não terem colaborado nem um pouco para tal propósito), os democratas buscam relembrar a população que a "crise" foi uma herança maldita da política republicana, que sempre privilegiou o "Grande Capital" em detrimento da 'economia popular'. Diante da guerra de acusações republicanas e democratas, o povo vai as ruas sem ver qualquer perspectiva positiva de superação da atual crise através do meio eleitoral.
Diante deste contexto, é saudável imaginar que estamos diante dos primeiros focos de emergência de um novo estilo de fazer política, identificado com os princípios de uma 'democracia direta' e com valores como autonomia, descentralização e liberdade de expressão civil e a-partidária.
"O Povo Vs. Wall Street" é um clássico dos tempos atuais e parece refletir essa tendência global.
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segunda-feira, 17 de outubro de 2011
sábado, 10 de setembro de 2011
O Atentado de 11 de Setembro de 2001
Passaram-se dez anos desde o ataque às torres gêmeas, em Nova York, em 2001. Trata-se, sem dúvida nenhuma, de um evento crítico na vida de ocidentais e não-ocidentais. O "11 de Setembro" foi - depois da primeira Guerra no Iraque - um dos primeiros acontecimentos "globais" transmitidos "ao vivo" para o mundo inteiro e exaustivamente comentado nos anos posteriores. Afinal, quem não lembra o que estava fazendo quando recebeu pela primeira vez a notícia sobre os atentados na terra do Tio Sam? O sentimento geral foi de perplexidade diante de um evento até então impensável. Afinal, apesar da política belicista e intervencionista dos norte-americanos produzir inimigos no mundo inteiro, ninguém imaginava que um ataque em solo americano seria, algum dia, possível. O poder da maior potência militar do mundo parecia, naqueles dias de pós-guerra fria, absoluto e inabalável a qualquer ataque estrangeiro. Foi então que, no início da manha do fatídico dia, o centro financeiro do capitalismo sofreu um abalo inesperado. As imagens das torres gêmeas em chamas marcou, certamente, o imaginário político de toda uma geração.
Os homens que sequestraram e jogaram os aviões comerciais contra as torres gêmeas e o Pentágono demonstraram claramente que nenhum governo do mundo, por mais poderoso que seja, tem condições de conter ou se prevenir inteiramente contra ataques terroristas. Afinal, a ação foi tão inusitada quanto arrojada. Inclusive, esse estilo de guerrilha rompe com qualquer lógica de batalha ao fazer uso de táticas e meios nada convencionais para atacar o inimigo, como trens, homens, aviões, carros e outros objetos produzidos pela modernidade, utilizados como instrumentos ou ferramentas de ataque. Como encontrar o "alvo" quando o inimigo é um mutante que pode assumir qualquer forma e estar em praticamente qualquer lugar? Sem estrutura hierárquica que possa ser identificada e combatida, as células terroristas atuam como pequenos nódulos em uma rede múltipla, rizomática e de extensão variável, presente em todo e em nenhum lugar ao mesmo tempo, desafiando qualquer estratégia militar ou de inteligência policial. Como nômades contemporâneos, grupos de jovens passam dias planejando ataques inesperados e suicidas, misturando-se junto à sociedade do inimigo, convertendo-se em uma espécie de predador parasita que pode atacar a qualquer momento.
Inclusive, é importante observar que a prática terrorista não é nenhuma exclusividade dos árabes, tendo em vista o seu vasto uso no mundo ocidental. As ações de grupos extremistas de direita na Europa não são menos "terroristas" do que os ataques dos "homens-bomba". Sem falar dos inúmeros atentados cometidos por ocidentais no mundo inteiro, inclusive nos Estados Unidos. Isso sem falar de outra forma de terrorismo de Estado tão comum em países ocidentais, com os ataques à população civil palestina cometidos pelo exército de Israel ou as tantas intervenções das forças armadas norte-americanas. Mas, se o terrorismo não é nenhuma exclusividade dos "terroristas", o ataque de 11 de setembro entrou, certamente, para a história dos Estados Unidos.
De fato, desde então a vida dos norte-americanos jamais foi a mesma. As medidas de segurança implantadas pelo governo Bush mudaram completamente o cotidiano desse país, que vive ainda hoje sob um vasto sistema de vigilância estabelecido em nome da "segurança nacional" e que resultou em uma clara limitação dos direitos civis tão valorizados nos Estados Unidos. As medidas de segurança mudaram a vida dos americanos, impondo sérias restrições a sua privacidade. Além das vítimas diretas do atentado de 11 de Setembro, o povo norte-americano passou a sofrer diariamente restrições as suas liberdades civis, muitas vezes sem entender que o ataque às torres gêmeas não era uma ação unilateral, mas uma resposta a um movimento intervencionista colocado em prática pelos seus próprios governantes. Esse contexto de "terror" acabou resultando na polarização das forças políticas nacionais e na emergência de um movimento civil que acabou por eleger Obama como presidente dos Estados Unidos. Com isso, acreditou-se, por alguns meses, em uma mudança de rumos da política externa norte-americana, o que acabou não ocorrendo. A crise econômica e política que os Estados Unidos enfrenta é, de certa forma, um dos tantos efeitos dos ataques de dez anos atrás.
O avanço da rede rizomática de grupos extremistas no mundo inteiro acabou desencadeando um movimento de intensificação do caráter arbóreo das forças policiais norte-americanas, dando início a um sistema de vigilância sem precedentes na história deste país. Mas, conforme esclarecem Deleuze e Guattari, árvores costumam germinar rizomas... Assim como rizomas costumam desencadear hastes que, mais adiante, podem assumir a forma hierárquica de uma árvore. O extremismo político que tem pautado a ação de republicanos e democratas de leste a oeste é um efeito de uma lenta polarização da opinião pública que tem produzido resultados nefastos nos últimos anos. Apesar disso, no entanto, o povo norte-americano continua buscando achar um caminho diante da atual crise econômica.
Por outro lado, a intensificação da política belicista que ocasionou os ataques parece ter contribuído para a ampliação e fortalecimento do alcance da rede de inimigos do Tio Sam, que assumiu nas últimas décadas uma extensão planetária. A invasão do Iraque foi um verdadeiro desastre militar, pois contribuiu para a crise econômica nacional (basta ver os gastos do governo com a guerra) e isso tudo sem qualquer resultado pragmático. O governo norte-americano respondeu à violência com mais violência, dando início a um ciclo de reciprocidade negativa que ainda não mostrou todo o seu potencial destrutivo. Como um "Golias" que tenta, inutilmente, acertar a mosca posicionada em seu nariz sem causar maiores danos a sua triste face, os soldados norte-americanos enfrentam, desde então, uma "missão impossível" no melhor estilo cinematográfico. Afinal, como combater inimigos cuja forma de organização é descentralizada, a-centrada, múltipla, sem chefe ou estrutura hierárquica, enfim, um conjunto interligado de células relativamente autônomas? E como fazer isso sob um contexto interno de extremismo político e crise econômica? Sim, certamente, "é possível", como diria Obama, mas é preciso reconhecer o caráter épico da jornada.
A meu ver, mesmo a captura do velho Bin Laden em uma casa localizada a poucos metros do centro de inteligência dos aliados - ao invés de ser o sinal da eminente derrota da Al Qaeda - é uma prova da genialidade de seus métodos e estratégias militares. Afinal, a captura do autor do atentado quase dez anos após os ataques e a custa de milhões de dólares e algumas centenas de vidas está longe de ser um sucesso. A maneira como tal captura foi interpretada pelos norte-americanos - como uma vitória sobre o terrorismo e um motivo de orgulho nacional - parece equivocada e isso por diversas razões. Primeiro, porque não estamos diante de um exército constituído por um chefe que comanda uma estrutura hierárquica de subordinados, mas por células com relativa independência de qualquer centro de comando. Bin Laden não exercia um poder baseado em uma prerrogativa formal, como aquela exercida pelo chefe das forças armadas norte-americanas. A sua liderança era, como diria Weber, de ordem 'carismática'. As pessoas seguiam suas ordens por motivos de simpatia política e religiosa. E o problema do líder carismático é esse: a sua eliminação o transforma automaticamente em um mártir, desencadeando um novo ciclo de recrutamento de correligionários e combatentes no mundo inteiro, motivados pela vingança de sua morte. Ao matar um líder prestes a se aposentar, os norte-americanos criaram, automaticamente, novas células inimigas no mundo inteiro. Infelizmente, a morte de Bin Laden é apenas uma etapa em um ciclo de reciprocidade negativa que não parece apontar para um fim próximo.
Eventos como o "11 de Setembro", a "invasão do Iraque" e a morte de Bin Laden fazem parte de um ciclo de violência cujo sentido para a história das relações entre ocidente-oriente ainda é uma incógnita. Talvez estejamos assistindo aos sinais que evidenciam o início da decadência do império norte-americano, algo que a atual crise econômica dos Estados Unidos parece evidenciar de forma mais contundente. As próximas eleições serão uma prova de fogo para a sociedade norte-americana. A esperança de mudança projetada sobre a eleição de Obama precisa ser renovada. Em outros momentos da história, o Estados Unidos demonstrou que é capaz de superar crises econômicas e políticas. De qualquer forma, essa mudança interna deve ser orientada no sentido de uma adaptação da política externa frente ao novo contexto de divisão/distribuição do poder político internacional, marcado pela emergência de novas forças políticas no cenário mundial: os chamados "países em desenvolvimento", como o Brasil, a Índia, a África do Sul e a China.
Independentemente do que vier a acontecer nas próximas décadas, não resta dúvida de que o 11 de setembro foi um evento paradigmático que os americanos e seus inimigos precisam superar. Diante do atual contexto, resta apenas lamentar as milhares de vítimas desse ciclo de violência que não parece ter fim, tanto as vidas perdidas no World Trade Center, como também as vidas consumidas pela política belicista do governo norte-americano e seus aliados militares. As grandes potências precisam entender que é impossível lutar pela democracia de forma autoritária, através de intervenções militares anti-democráticas. Da mesma forma,os grupos extremistas (sejam eles de esquerda ou direita) precisam ter mais tolerância com a diferença ideológica, política e religiosa, buscando meios pacifistas para expor seus ideais. Estamos diante de uma situação onde não existem mocinhos de um lado e bandidos de outro, mas apenas gerações e gerações de vitimas de um conflito de ordem ideológica e política de natureza heterogênea e abrangência global.
Os homens que sequestraram e jogaram os aviões comerciais contra as torres gêmeas e o Pentágono demonstraram claramente que nenhum governo do mundo, por mais poderoso que seja, tem condições de conter ou se prevenir inteiramente contra ataques terroristas. Afinal, a ação foi tão inusitada quanto arrojada. Inclusive, esse estilo de guerrilha rompe com qualquer lógica de batalha ao fazer uso de táticas e meios nada convencionais para atacar o inimigo, como trens, homens, aviões, carros e outros objetos produzidos pela modernidade, utilizados como instrumentos ou ferramentas de ataque. Como encontrar o "alvo" quando o inimigo é um mutante que pode assumir qualquer forma e estar em praticamente qualquer lugar? Sem estrutura hierárquica que possa ser identificada e combatida, as células terroristas atuam como pequenos nódulos em uma rede múltipla, rizomática e de extensão variável, presente em todo e em nenhum lugar ao mesmo tempo, desafiando qualquer estratégia militar ou de inteligência policial. Como nômades contemporâneos, grupos de jovens passam dias planejando ataques inesperados e suicidas, misturando-se junto à sociedade do inimigo, convertendo-se em uma espécie de predador parasita que pode atacar a qualquer momento.
Inclusive, é importante observar que a prática terrorista não é nenhuma exclusividade dos árabes, tendo em vista o seu vasto uso no mundo ocidental. As ações de grupos extremistas de direita na Europa não são menos "terroristas" do que os ataques dos "homens-bomba". Sem falar dos inúmeros atentados cometidos por ocidentais no mundo inteiro, inclusive nos Estados Unidos. Isso sem falar de outra forma de terrorismo de Estado tão comum em países ocidentais, com os ataques à população civil palestina cometidos pelo exército de Israel ou as tantas intervenções das forças armadas norte-americanas. Mas, se o terrorismo não é nenhuma exclusividade dos "terroristas", o ataque de 11 de setembro entrou, certamente, para a história dos Estados Unidos.
De fato, desde então a vida dos norte-americanos jamais foi a mesma. As medidas de segurança implantadas pelo governo Bush mudaram completamente o cotidiano desse país, que vive ainda hoje sob um vasto sistema de vigilância estabelecido em nome da "segurança nacional" e que resultou em uma clara limitação dos direitos civis tão valorizados nos Estados Unidos. As medidas de segurança mudaram a vida dos americanos, impondo sérias restrições a sua privacidade. Além das vítimas diretas do atentado de 11 de Setembro, o povo norte-americano passou a sofrer diariamente restrições as suas liberdades civis, muitas vezes sem entender que o ataque às torres gêmeas não era uma ação unilateral, mas uma resposta a um movimento intervencionista colocado em prática pelos seus próprios governantes. Esse contexto de "terror" acabou resultando na polarização das forças políticas nacionais e na emergência de um movimento civil que acabou por eleger Obama como presidente dos Estados Unidos. Com isso, acreditou-se, por alguns meses, em uma mudança de rumos da política externa norte-americana, o que acabou não ocorrendo. A crise econômica e política que os Estados Unidos enfrenta é, de certa forma, um dos tantos efeitos dos ataques de dez anos atrás.
O avanço da rede rizomática de grupos extremistas no mundo inteiro acabou desencadeando um movimento de intensificação do caráter arbóreo das forças policiais norte-americanas, dando início a um sistema de vigilância sem precedentes na história deste país. Mas, conforme esclarecem Deleuze e Guattari, árvores costumam germinar rizomas... Assim como rizomas costumam desencadear hastes que, mais adiante, podem assumir a forma hierárquica de uma árvore. O extremismo político que tem pautado a ação de republicanos e democratas de leste a oeste é um efeito de uma lenta polarização da opinião pública que tem produzido resultados nefastos nos últimos anos. Apesar disso, no entanto, o povo norte-americano continua buscando achar um caminho diante da atual crise econômica.
Por outro lado, a intensificação da política belicista que ocasionou os ataques parece ter contribuído para a ampliação e fortalecimento do alcance da rede de inimigos do Tio Sam, que assumiu nas últimas décadas uma extensão planetária. A invasão do Iraque foi um verdadeiro desastre militar, pois contribuiu para a crise econômica nacional (basta ver os gastos do governo com a guerra) e isso tudo sem qualquer resultado pragmático. O governo norte-americano respondeu à violência com mais violência, dando início a um ciclo de reciprocidade negativa que ainda não mostrou todo o seu potencial destrutivo. Como um "Golias" que tenta, inutilmente, acertar a mosca posicionada em seu nariz sem causar maiores danos a sua triste face, os soldados norte-americanos enfrentam, desde então, uma "missão impossível" no melhor estilo cinematográfico. Afinal, como combater inimigos cuja forma de organização é descentralizada, a-centrada, múltipla, sem chefe ou estrutura hierárquica, enfim, um conjunto interligado de células relativamente autônomas? E como fazer isso sob um contexto interno de extremismo político e crise econômica? Sim, certamente, "é possível", como diria Obama, mas é preciso reconhecer o caráter épico da jornada.
A meu ver, mesmo a captura do velho Bin Laden em uma casa localizada a poucos metros do centro de inteligência dos aliados - ao invés de ser o sinal da eminente derrota da Al Qaeda - é uma prova da genialidade de seus métodos e estratégias militares. Afinal, a captura do autor do atentado quase dez anos após os ataques e a custa de milhões de dólares e algumas centenas de vidas está longe de ser um sucesso. A maneira como tal captura foi interpretada pelos norte-americanos - como uma vitória sobre o terrorismo e um motivo de orgulho nacional - parece equivocada e isso por diversas razões. Primeiro, porque não estamos diante de um exército constituído por um chefe que comanda uma estrutura hierárquica de subordinados, mas por células com relativa independência de qualquer centro de comando. Bin Laden não exercia um poder baseado em uma prerrogativa formal, como aquela exercida pelo chefe das forças armadas norte-americanas. A sua liderança era, como diria Weber, de ordem 'carismática'. As pessoas seguiam suas ordens por motivos de simpatia política e religiosa. E o problema do líder carismático é esse: a sua eliminação o transforma automaticamente em um mártir, desencadeando um novo ciclo de recrutamento de correligionários e combatentes no mundo inteiro, motivados pela vingança de sua morte. Ao matar um líder prestes a se aposentar, os norte-americanos criaram, automaticamente, novas células inimigas no mundo inteiro. Infelizmente, a morte de Bin Laden é apenas uma etapa em um ciclo de reciprocidade negativa que não parece apontar para um fim próximo.
Eventos como o "11 de Setembro", a "invasão do Iraque" e a morte de Bin Laden fazem parte de um ciclo de violência cujo sentido para a história das relações entre ocidente-oriente ainda é uma incógnita. Talvez estejamos assistindo aos sinais que evidenciam o início da decadência do império norte-americano, algo que a atual crise econômica dos Estados Unidos parece evidenciar de forma mais contundente. As próximas eleições serão uma prova de fogo para a sociedade norte-americana. A esperança de mudança projetada sobre a eleição de Obama precisa ser renovada. Em outros momentos da história, o Estados Unidos demonstrou que é capaz de superar crises econômicas e políticas. De qualquer forma, essa mudança interna deve ser orientada no sentido de uma adaptação da política externa frente ao novo contexto de divisão/distribuição do poder político internacional, marcado pela emergência de novas forças políticas no cenário mundial: os chamados "países em desenvolvimento", como o Brasil, a Índia, a África do Sul e a China.
Independentemente do que vier a acontecer nas próximas décadas, não resta dúvida de que o 11 de setembro foi um evento paradigmático que os americanos e seus inimigos precisam superar. Diante do atual contexto, resta apenas lamentar as milhares de vítimas desse ciclo de violência que não parece ter fim, tanto as vidas perdidas no World Trade Center, como também as vidas consumidas pela política belicista do governo norte-americano e seus aliados militares. As grandes potências precisam entender que é impossível lutar pela democracia de forma autoritária, através de intervenções militares anti-democráticas. Da mesma forma,os grupos extremistas (sejam eles de esquerda ou direita) precisam ter mais tolerância com a diferença ideológica, política e religiosa, buscando meios pacifistas para expor seus ideais. Estamos diante de uma situação onde não existem mocinhos de um lado e bandidos de outro, mas apenas gerações e gerações de vitimas de um conflito de ordem ideológica e política de natureza heterogênea e abrangência global.
segunda-feira, 21 de março de 2011
Uma breve história da Líbia
História Antiga
Antigo assentamento de povos como os fenícios, romanos e turcos, a Líbia recebeu seu nome dos colonos gregos, no séc. II a.C. Durante boa parte da sua história, a Líbia foi povoada por árabes e nômades berberes. Uma parte significativa do seu território é ocupada pelo deserto do Saara. Com isso, estabeleceram-se cidades e oásis apenas mais ao norte do país. Fenícios e Gregos chegaram à região no séc. VII a.C. e estabeleceram pequenos povoados: respectivamente, Tripolitânia e Cirenaica. No século I a.C., o Império Romano se estabeleceu na região, deixando grandes monumentos visíveis até hoje. A Líbia permaneceu como colônia romana até ser conquistada pelos vândalos, por volta de 455 d.C., tendo sido retomada mais tarde pelo Império Bizantino e pelos Árabes por volta do séc. VII d.C. Esses últimos expandiram a área cultivável e habitável para o interior do país, formando novos povoados ao sul. Em 1551, Solimão I incorporou a região ao Império Otomano, estabelecendo a capital em Trípoli, mas a autoridade turca se resumia ao controle de algumas cidades localizadas mais ao norte. No interior, no entanto, a região continuava inteiramente governada por tribos nômades.
História Colonial
Em 1911, com a desculpa de defender os seus colonos estabelecidos na Tripolitânia, a Itália declarou guerra ao Império Otomano e invadiu o país, dando início a guerra Ítalo-Turca. A seita puritana islâmica dos sanusis liderou a resistência e impediu a penetração dos italianos no interior do país. A Turquia acabou renunciando aos seus “direitos” políticos sobre a Líbia no Tratado de Lausanne (1912) e, em 1914, o país já estava inteiramente ocupado por Italianos. Na 1ª Guerra Mundial, os Líbios recuperaram boa parte do seu território, que foi retomado novamente pela Itália após o término da guerra. Em 1939, a Líbia foi incorporada ao Reino da Itália. O colonialismo italiano na região é conhecido como um dos piores da história da África, com repressão desumana de manifestações políticas contrárias ao governo italiano por parte das diversas tribos berberes. Na 2ª Guerra Mundial, a Líbia foi palco de combates decisivos entre os ingleses e a “Afrikakorps” do general alemão Rommel. Após o término das hostilidades, a Líbia foi temporariamente ocupada por França e Inglaterra.
A Independência Política da Líbia
Em 1952, a Assembléia das Nações Unidas reconheceu a independência da Líbia, que passou a ser governada por um líder religioso dos sanusis, Idris I, que foi nomeado rei (1952-1969). Após a sua admissão na Liga Árabe, em 1953, o jovem país firmou acordos para a implantação de bases militares norte-americanas em toda a região. Durante esse período, apesar da aparente independência política, a presença de tropas norte-americanas e inglesas tornou-se cada vez mais intensa, influenciando os rumos históricos da recém independente nação. Com a descoberta de petróleo, em 1959, o governo Líbio determinou a retirada das tropas estrangeiras do país, o que provocou graves conflitos políticos com a Inglaterra, os Estados Unidos e o Egito.
A Revolução Muçulmana e a República Árabe Popular e Socialista
Em 1969, um grupo de oficiais radicais islâmicos derrubou a monarquia e instalou uma república de orientação socialista. O Conselho da Revolução era presidido pelo coronel Muammar al-Khadafi. O novo regime decretou a nacionalização do petróleo, dos bancos e de empresas residentes na região, ocasionando grandes protestos internacionais. Nos anos seguintes, Khadafi buscou desencadear uma revolução cultural, econômica e política no país, o que acabou resultando em conflitos com os Estados Unidos, a Inglaterra e países árabes moderados (Egito, Sudão e etc.). Sob o comando político da União Socialista Árabe, Khadafi aproveitou-se da sua riqueza petrolífera para constituir um exército bem armado e interferir na política de seus vizinhos, como o Sudão e o Chade. Após a guerra de Yom Kippur, a Líbia convenceu seus parceiros árabes a não exportar mais petróleo para os Estados Unidos devido ao seu apoio à Israel. A aproximação do país com a União Soviética, em plena guerra fria, acirrou ainda mais o conflito com o governo norte-americano, que acabou impondo um forte embargo econômico ao país com a justificativa de seu suposto envolvimento em atentados terroristas. Em 1986, o presidente norte-americano Ronald Reagan ordenou um forte bombardeio ao país, que acabou ocasionando a morte de milhares de civis, incluindo uma filha adotiva do coronel Khadafi. Mais recentemente, Estados Unidos, Inglaterra e França impuseram novo embargo comercial ao país, pois seus governantes se negaram a extraditar supostos culpados de ataques terroristas que ocorreram na Escócia, em 1988, causando a morte de centenas de pessoas.
No final da década de 1990, o regime Líbio buscou uma aproximação com o ocidente, se distanciando cada vez mais do Irã e da Palestina. Em 1995, a Líbia expulsou 30 mil palestinos que trabalhavam no país e dois anos mais tarde passou a ter problemas com grupos religiosos de orientação islâmica.
Revolução Política Contra o atual Regime de Khadafi
Em fevereiro de 2011, ocorreram várias manifestações políticas contra o governo de Khadafi. Essas manifestações foram duramente reprimidas, ocasionando a morte de dezenas de civis. O governo cortou o acesso de seus cidadãos à internet e as linhas telefônicas foram parcialmente cortadas. A Imprensa Internacional foi expulsa do país e o principal aeroporto foi fechado. Relatos de testemunhas que falaram por telefone com a BBC de Londres, contam que atiradores estavam abrindo fogo indiscriminadamente nos manifestantes, supostamente, com a intenção de “limpar as ruas”. A repressão militar aos “rebeldes” também se intensificou nas últimas semanas, com ataques constantes às forças militares e civis contrárias ao regime de Khadafi.
Na semana passada, a ONU aprovou uma resolução de implantação de uma zona de exclusão aérea na região, autorizando ações militares visando à proteção dos “rebeldes”. Nos dias seguintes, França, Inglaterra, Itália, Canadá e Estados Unidos mobilizaram suas forças militares e atacaram o exército governista. Apesar dessa ação militar ter como objetivo único proteger os civis que estão sendo duramente atacados pelo exército de Khadafi, já apareceram denúncias sobre os excessos cometidos pelas forças internacionais, que teriam resultado na morte de civis.
Como existem interesses históricos no petróleo da Líbia, a opinião pública internacional deve ficar atenta as ações militares na região, impedindo exageros que resultam em mortes de civis. É preciso também garantir que o povo da Líbia tenha condições e autonomia para decidir o seu próprio futuro.
quarta-feira, 9 de março de 2011
Chamado Massivo pela Zona de Exclusão Aérea no Libano - Avaaz
Caros amigos,
Enquanto os aviões do Kadafi bombardeiam o seu próprio povo, o Conselho de Segurança irá decidir em 48 horas se eles irão impor a zona de exclusão aérea para impedir os aviões de guerra do governo de voar.
Juntos nós enviamos 450.000 emails para o Conselho de Segurança da ONU, colocando pressão no Presidente do Conselho e ajudando a conquistar sanções sobre o regime e justiça para o povo da Líbia. Agora, para impedir um massacre, nós precisamos de um chamado massivo pela zona de exclusão aérea.
Se o Kadafi não puder usar seus aviões, ele irá perder uma arma chave em uma guerra em que os civis são os que mais sofrem. Enquanto os seus helicópteros e aviões estiverem no ar, o número de mortes irá aumentar. Nós só temos 48 horas – vamos conseguir 1 milhão de mensagens para parar os ataques mortais do Kadafi antes que seja tarde:
http://www.avaaz.org/po/libya_no_fly_zone_1/?vl
A oposição pediu a ajuda da comunidade internacional para “proteger o povo da Líbia dos crimes contra a humanidade que estão sendo cometidos contra eles”. O Ministro das Relações Internacionais do Reino Unido diz que há “relatos confiáveis do uso de helicópteros de guerra contra civis pelas forças do governo”.
Enquanto isso, a liderança da OTAN diz que qualquer tentativa de impor a zona de exclusão aérea precisaria primeiro de uma resolução da ONU. Em muitas crises como esta, um ou outro país da ONU vetou um posicionamento forte -- mas na Líbia uma situação nova emergiu. As sanções do Conselho de Segurança são reais. Embaixadores da ONU dizem que representantes “concordam significativamente" que o Kafafi precisa sair. O que nós precisamos é de mais um empurrão da sociedade civil global.
A resolução não seria a solução final -- a imposição da zona de exclusão aérea poderá ser perigosa e complexa. Porém somente a ameaça da imposição poderá mostrar para o Kadafi que o seu tempo expirou. Os nossos governos precisam saber que nós estamos ao lado do povo da Líbia e que não aceitamos demoras. Envie uma mensagem agora e depois encaminhe este email para amigos e familiares:
http://www.avaaz.org/po/libya_no_fly_zone_1/?vl
Os movimentos pacíficos pela democracia no mundo árabe inspiraram o mundo. Porém, o Kadafi escolheu o pior caminho – a repressão violenta para esmagar as manifestações corajosas e pacíficas. Neste momento nós podemos ver dois futuros para a Líbia: a violência prolongada de um ditador contra o seu povo, ou, medidas internacionais que apóiam as aspirações do povo da Líbia.
Nestes dias cruciais, nós precisamos reconhecer que as nossas ações, como cidadãos globais, irão afetar o destino dos nossos irmãos e irmãs na Líbia. Nós devemos nos unir em solidariedade às pessoas que já se foram e aquelas que estão lutando para sobreviver.
Com esperança,
Ben, Luis, Graziela, Benjamin, Ricken, Stephanie, Rewan e toda a equipe Avaaz
Se o Kadafi não puder usar seus aviões, ele irá perder uma arma chave em uma guerra em que os civis são os que mais sofrem. Enquanto os seus helicópteros e aviões estiverem no ar, o número de mortes irá aumentar. Nós só temos 48 horas – vamos conseguir 1 milhão de mensagens para parar os ataques mortais do Kadafi antes que seja tarde:
http://www.avaaz.org/po/libya_no_fly_zone_1/?vl
A oposição pediu a ajuda da comunidade internacional para “proteger o povo da Líbia dos crimes contra a humanidade que estão sendo cometidos contra eles”. O Ministro das Relações Internacionais do Reino Unido diz que há “relatos confiáveis do uso de helicópteros de guerra contra civis pelas forças do governo”.
Enquanto isso, a liderança da OTAN diz que qualquer tentativa de impor a zona de exclusão aérea precisaria primeiro de uma resolução da ONU. Em muitas crises como esta, um ou outro país da ONU vetou um posicionamento forte -- mas na Líbia uma situação nova emergiu. As sanções do Conselho de Segurança são reais. Embaixadores da ONU dizem que representantes “concordam significativamente" que o Kafafi precisa sair. O que nós precisamos é de mais um empurrão da sociedade civil global.
A resolução não seria a solução final -- a imposição da zona de exclusão aérea poderá ser perigosa e complexa. Porém somente a ameaça da imposição poderá mostrar para o Kadafi que o seu tempo expirou. Os nossos governos precisam saber que nós estamos ao lado do povo da Líbia e que não aceitamos demoras. Envie uma mensagem agora e depois encaminhe este email para amigos e familiares:
http://www.avaaz.org/po/libya_no_fly_zone_1/?vl
Os movimentos pacíficos pela democracia no mundo árabe inspiraram o mundo. Porém, o Kadafi escolheu o pior caminho – a repressão violenta para esmagar as manifestações corajosas e pacíficas. Neste momento nós podemos ver dois futuros para a Líbia: a violência prolongada de um ditador contra o seu povo, ou, medidas internacionais que apóiam as aspirações do povo da Líbia.
Nestes dias cruciais, nós precisamos reconhecer que as nossas ações, como cidadãos globais, irão afetar o destino dos nossos irmãos e irmãs na Líbia. Nós devemos nos unir em solidariedade às pessoas que já se foram e aquelas que estão lutando para sobreviver.
Com esperança,
Ben, Luis, Graziela, Benjamin, Ricken, Stephanie, Rewan e toda a equipe Avaaz
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Conflito Político na Líbia
Na história, os eventos políticos são avaliados conforme o poder de disseminação de novos paradigmas para a ação humana, abrindo novas possibilidades de imagin-ação e transform-ação de sociedades e governos. As manifestações políticas no Egito estão servindo de inspiração para seus vizinhos. O grito oriental de indignação contra as injustiças históricas oriundas da exploração desigual das reservas de petróleo do capitalismo ocidental vai inaugurar um processo lento (mas contínuo) de reconfiguração política do oriente médio. Estamos assistindo à emergência de uma nova etapa na política internacional.
Segue abaixo um vídeo explicando o caso da Líbia, onde os protestos civis dos últimos dias já produziram cenas de terror e centenas de vítimas. A internet na região foi cortada e os jornalistas foram impedidos de noticiar os acontecimentos. Mesmo assim, o povo está mobilizado e decidido a tirar o ditador do poder. No entanto, diferente do seu vizinho egípcio, o ditador da Líbia não pretende deixar o poder e promete "lutar até o último homem", ao mesmo tempo em que busca conter os protestos com ameaças de uma eminente guerra civil.
Segue abaixo um vídeo explicando o caso da Líbia, onde os protestos civis dos últimos dias já produziram cenas de terror e centenas de vítimas. A internet na região foi cortada e os jornalistas foram impedidos de noticiar os acontecimentos. Mesmo assim, o povo está mobilizado e decidido a tirar o ditador do poder. No entanto, diferente do seu vizinho egípcio, o ditador da Líbia não pretende deixar o poder e promete "lutar até o último homem", ao mesmo tempo em que busca conter os protestos com ameaças de uma eminente guerra civil.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Vitória do Povo Egípcio!
Parabéns ao povo egípcio por essa grande vitória popular! O povo, na rua, jamais será vencido!
Após semanas de mobilização popular e conflitos civis no Egito, finalmente, o presidente-ditador resolveu se retirar do cargo e nomear um comitê militar para conduzir eleições democráticas no país. Após décadas de ditadura, os egípcios podem imaginar, pela primeira vez, uma sociedade mais justa e livre.
Mas ainda resta muito a fazer. Primeiro, é preciso manter os militares sob rigorosa vigilância. Apesar das claras demonstrações de apoio ao movimento popular do exército egípcio, inclusive, negando-se a reprimir manifestações contrárias ao governo instituído, não podemos esquecer o vínculo existente entre os generais egípcios e o Pentágono. Assim, o povo precisa estar vigilante para o Tio Sam não assumir o controle da transição. Afinal, uma democracia imposta não é, de fato, uma democracia real. É preciso que o povo se organize e construa alternativas de governo, incluindo também as forças políticas vinculadas ao Islã. Será preciso organizar partidos políticos, canalizar a mobilização civil para a abertura de alternativas políticas reais e consistentes em uma futura eleição.
De qualquer forma, hoje é um dia de comemoração! A derrubada do presidente foi uma grande conquista dos egípcios, além de uma demonstração clara que a revolta civil pacífica e organizada pode ser uma alternativa para a construção de sociedades mais justas. Esse evento político nacional pode servir como referência para as sociedades de outros países da região também submetidas à arbitrariedade de ditadores, dando início a um processo virtuoso de reconfiguração da política regional. Viva o oriente!
Agora, a construção de um novo regime é o segundo passo, talvez o mais difícil. Muita força ao povo Egípcio! Viva ao povo nas ruas!
Após semanas de mobilização popular e conflitos civis no Egito, finalmente, o presidente-ditador resolveu se retirar do cargo e nomear um comitê militar para conduzir eleições democráticas no país. Após décadas de ditadura, os egípcios podem imaginar, pela primeira vez, uma sociedade mais justa e livre.
Mas ainda resta muito a fazer. Primeiro, é preciso manter os militares sob rigorosa vigilância. Apesar das claras demonstrações de apoio ao movimento popular do exército egípcio, inclusive, negando-se a reprimir manifestações contrárias ao governo instituído, não podemos esquecer o vínculo existente entre os generais egípcios e o Pentágono. Assim, o povo precisa estar vigilante para o Tio Sam não assumir o controle da transição. Afinal, uma democracia imposta não é, de fato, uma democracia real. É preciso que o povo se organize e construa alternativas de governo, incluindo também as forças políticas vinculadas ao Islã. Será preciso organizar partidos políticos, canalizar a mobilização civil para a abertura de alternativas políticas reais e consistentes em uma futura eleição.
De qualquer forma, hoje é um dia de comemoração! A derrubada do presidente foi uma grande conquista dos egípcios, além de uma demonstração clara que a revolta civil pacífica e organizada pode ser uma alternativa para a construção de sociedades mais justas. Esse evento político nacional pode servir como referência para as sociedades de outros países da região também submetidas à arbitrariedade de ditadores, dando início a um processo virtuoso de reconfiguração da política regional. Viva o oriente!
Agora, a construção de um novo regime é o segundo passo, talvez o mais difícil. Muita força ao povo Egípcio! Viva ao povo nas ruas!
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Sobre o Conflito no Egito
Os Estados Unidos já entraram em muitas guerras em nome da “democracia” e da “liberdade de expressão”. Eles se apresentam ao mundo como guardiães dos valores liberais e enchem a boca para apontar o arbítrio de ditaduras inimigas vigentes em países como Coréia do Sul, o ex-Iraque e a pequena ilha de Cuba.
Mas nem todos os ditadores são mal vistos. Afinal, conforme uma frase de um conhecido general norte-americano: “os nossos ditadores são sempre bem vindos no Pentágono”. Sim, “os ditadores” apadrinhados pelo “Tio Sam” podem tudo: matar, desrespeitar os direitos humanos, desenvolver bombas atômicas e manter um povo inteiro submetido ao terrorismo de Estado. Quando o assunto é “os nossos ditadores”, tudo é válido: roubar, matar, passar por cima dos direitos civis... A lista de “liberdades” que o governo dos Estados-Unidos concede aos seus ditadores pode ser infinita.
Já os “outros ditadores” – o chamado “eixo do mal” - esses devem ser perseguidos em nome da “democracia”. Mas não qualquer democracia: é preciso criar a opinião pública. Se os democratas forem muçulmanos, por exemplo, bem... Talvez a democracia não seja um bom negócio mesmo.
Em um artigo publicado por um jornalista norte-americano, ele comentava que o governo do seu país estava “indeciso”, pois não sabia se apoiava o seu colega ditador ou exigia do mesmo uma guinada em direção à democracia. Mas, como tudo na vida, havia um “porém”... O “problema” é que os únicos partidos políticos organizados existentes no Egito são muçulmanos... Bem, então, vejamos... Conclusão do renomado jornalista: é preciso criar um partido “realmente” democrata e conduzi-lo ao poder. Ironia do destino: será possível falar em democracia quando essa democracia é uma imposição? Mais grave ainda, será que a democracia pode ser forjada pelo governo de outro país? Será que a “vontade popular” pode ser fabricada? Afinal, se o governo é do povo, não caberia ao povo egípcio decidir qual partido político deve assumir o poder?
Da mesma forma, ditaduras sul-americanas foram apoiadas durante os anos de Guerra-Fria: Argentina, Brasil e Chile são exemplos históricos que não podem ser negligenciados. Durante os anos de chumbo, governos eleitos popularmente eram combatidos, enquanto ditadores fascistas eram mantidos no poder. Afinal, é de conhecimento público onde estava o porta-aviões da armada Ianque quando Jango e Brizola fugiram do país pela porta dos fundos. Nessa época, a democracia não era bem vinda! Não! Sob essas circunstâncias, era melhor manter ditaduras “amigas” do que arriscar dar voz ao povo.
Ao ver os egípcios nas ruas, lutando por liberdade e justiça social, lembrei dessas ironias da história e fiquei tentando imaginar qual seria a atitude de Obama caso ainda vivêssemos sob o clima mais do que pesado da guerra-fria. Acho que os seus soldadinhos de chumbo seriam mobilizados e o exército esmagaria com violência a tal democracia que eles tanto defendem.
Mesmo diante de um contexto bastante diferenciado, a hipocrisia norte-americana continua ativa. Onde estão os valores democráticos? Por que todo esse silêncio e esse marasmo? As declarações são sempre evasivas, reflexo de uma “indecisão” estratégica. Afinal, todos sabem que o “ditador”, neste caso, era amigo íntimo do Pentágono. Seus militares freqüentavam os cursos norte-americanos, tomavam cafezinho com seus colegas de farda. Enquanto isso... No Egito, o povo sofria com as maiores injustiças. Mas o que importa? Para os generais norte-americanos a democracia é uma palavra vazia mobilizada em momentos estratégicos, seja contra ou a favor do povo.
Só espero que os egípcios possam viver sua própria democracia e não uma democracia imposta pelo olhar vigilante do velho “Big Brother”!
Mas nem todos os ditadores são mal vistos. Afinal, conforme uma frase de um conhecido general norte-americano: “os nossos ditadores são sempre bem vindos no Pentágono”. Sim, “os ditadores” apadrinhados pelo “Tio Sam” podem tudo: matar, desrespeitar os direitos humanos, desenvolver bombas atômicas e manter um povo inteiro submetido ao terrorismo de Estado. Quando o assunto é “os nossos ditadores”, tudo é válido: roubar, matar, passar por cima dos direitos civis... A lista de “liberdades” que o governo dos Estados-Unidos concede aos seus ditadores pode ser infinita.Em um artigo publicado por um jornalista norte-americano, ele comentava que o governo do seu país estava “indeciso”, pois não sabia se apoiava o seu colega ditador ou exigia do mesmo uma guinada em direção à democracia. Mas, como tudo na vida, havia um “porém”... O “problema” é que os únicos partidos políticos organizados existentes no Egito são muçulmanos... Bem, então, vejamos... Conclusão do renomado jornalista: é preciso criar um partido “realmente” democrata e conduzi-lo ao poder. Ironia do destino: será possível falar em democracia quando essa democracia é uma imposição? Mais grave ainda, será que a democracia pode ser forjada pelo governo de outro país? Será que a “vontade popular” pode ser fabricada? Afinal, se o governo é do povo, não caberia ao povo egípcio decidir qual partido político deve assumir o poder?
Da mesma forma, ditaduras sul-americanas foram apoiadas durante os anos de Guerra-Fria: Argentina, Brasil e Chile são exemplos históricos que não podem ser negligenciados. Durante os anos de chumbo, governos eleitos popularmente eram combatidos, enquanto ditadores fascistas eram mantidos no poder. Afinal, é de conhecimento público onde estava o porta-aviões da armada Ianque quando Jango e Brizola fugiram do país pela porta dos fundos. Nessa época, a democracia não era bem vinda! Não! Sob essas circunstâncias, era melhor manter ditaduras “amigas” do que arriscar dar voz ao povo.
Ao ver os egípcios nas ruas, lutando por liberdade e justiça social, lembrei dessas ironias da história e fiquei tentando imaginar qual seria a atitude de Obama caso ainda vivêssemos sob o clima mais do que pesado da guerra-fria. Acho que os seus soldadinhos de chumbo seriam mobilizados e o exército esmagaria com violência a tal democracia que eles tanto defendem.
Mesmo diante de um contexto bastante diferenciado, a hipocrisia norte-americana continua ativa. Onde estão os valores democráticos? Por que todo esse silêncio e esse marasmo? As declarações são sempre evasivas, reflexo de uma “indecisão” estratégica. Afinal, todos sabem que o “ditador”, neste caso, era amigo íntimo do Pentágono. Seus militares freqüentavam os cursos norte-americanos, tomavam cafezinho com seus colegas de farda. Enquanto isso... No Egito, o povo sofria com as maiores injustiças. Mas o que importa? Para os generais norte-americanos a democracia é uma palavra vazia mobilizada em momentos estratégicos, seja contra ou a favor do povo.
Só espero que os egípcios possam viver sua própria democracia e não uma democracia imposta pelo olhar vigilante do velho “Big Brother”!
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Diplomacia Brasileira e o Acordo com o Irã
O acordo estabelecido com o Irã com intermediação do Brasil e da Turquia foi recebido com descaso e arrogância por parte das grandes potências que compõem o Conselho de Segurança da ONU. O posicionamento dos Estados Unidos demarcou com clareza que esse país não aceita perder seu espaço na arena mundial como liderança em assuntos de “segurança internacional”. Parece que a memória do governo norte-americano é tão fraca como o seu serviço de “inteligência”, pois os erros cometidos no passado não servem como exemplo para melhorarem a sua postura internacional: a investida contra o Iraque foi alimentada pela fobia promovida pelo Governo Bush, que aterrorizou o mundo com a promessa de que esse país tinha a bomba atômica. Agora, apesar da mudança de governo, Obama parece não conseguir se livrar da linha dura do velho sistema de segurança nacional forjado ainda nos duros anos de Guerra Fria e busca impedir de todas as formas possíveis que um país que assinou o tratado de não proliferação nuclear desenvolva a energia atômica para fins pacíficos. Por outro lado, países como a Coréia do Norte, Paquistão e Israel nunca receberam o mesmo tratamento pelo tio SAM. Esse último, inclusive, tem colocado em prática o “terrorismo de Estado” sem sofrer quaisquer sanções, postura que, segundo o Governo Americano, é legitimada pelo direito desse país em promover a sua segurança nacional. Mais uma das velhas assimetrias da política internacional, pois o mesmo direito de se defender de possíveis ameaças que é garantido aos israelenses é negado aos iranianos.
O que precisamos é uma reforma da ONU com a abertura para a participação mais ativa dos países em desenvolvimento, como Brasil, Índia, Turquia e México, entre outros. Não podemos continuar agindo como se ainda estivéssemos em plena Guerra Fria, pois o cenário internacional passou por grandes transformações nos últimos anos e não vemos qualquer reflexo disso nos organismos internacionais, que continuam centralizados em torno dos interesses das grandes potências mundiais.
A posição da diplomacia brasileira foi, a meu ver, a melhor possível, pois demonstrou a capacidade necessária para buscar uma solução amigável dentro de um contexto extremamente belicoso e hostil, provando que poderá, no futuro, assumir uma posição de maior destaque no cenário internacional. Pena que, no Brasil, uma parte da nossa mídia e alguns “especialistas” tenham promovido novamente o velho pensamento colonizado ao indicar que o Brasil não soube ocupar a posição de mero coadjuvante que lhe cabe no cenário internacional. A verdade é que desde que Lula assumiu o governo, surgiram críticas de todas as partes contra a postura autônoma que o Itamaraty passou a assumir no contexto mundial. Esses senhores não entendem que a postura submissa aos interesses norte-americanos não condiz com um país que possui o direito de construir o seu próprio futuro e, para isso, precisa deixar de viver à sombra do “Grande Irmão do Norte”.
Na verdade, talvez o melhor mesmo do Lula seja a sua capacidade de potencializar a imaginação do povo brasileiro, que, por sinal, nunca deixou de projetar no horizonte a imagem de um Brasil superior. Como já dizia Sérgio Buarque de Holanda, o problema é que a nossa elite política e intelectual continua governando o país de costas para o Brasil e com os olhos na Europa e nos Estados Unidos. Também, o que esperar de pessoas que mal conhecem o verdadeiro Brasil e que passam o ano inteiro aguardando o momento de deixar o nosso clima tropical para trás e rumar imediatamente para as férias em Nova Iorque ou Paris? Com isso, continuamos aguardando a descoberta do Brasil!
O que precisamos é uma reforma da ONU com a abertura para a participação mais ativa dos países em desenvolvimento, como Brasil, Índia, Turquia e México, entre outros. Não podemos continuar agindo como se ainda estivéssemos em plena Guerra Fria, pois o cenário internacional passou por grandes transformações nos últimos anos e não vemos qualquer reflexo disso nos organismos internacionais, que continuam centralizados em torno dos interesses das grandes potências mundiais.
A posição da diplomacia brasileira foi, a meu ver, a melhor possível, pois demonstrou a capacidade necessária para buscar uma solução amigável dentro de um contexto extremamente belicoso e hostil, provando que poderá, no futuro, assumir uma posição de maior destaque no cenário internacional. Pena que, no Brasil, uma parte da nossa mídia e alguns “especialistas” tenham promovido novamente o velho pensamento colonizado ao indicar que o Brasil não soube ocupar a posição de mero coadjuvante que lhe cabe no cenário internacional. A verdade é que desde que Lula assumiu o governo, surgiram críticas de todas as partes contra a postura autônoma que o Itamaraty passou a assumir no contexto mundial. Esses senhores não entendem que a postura submissa aos interesses norte-americanos não condiz com um país que possui o direito de construir o seu próprio futuro e, para isso, precisa deixar de viver à sombra do “Grande Irmão do Norte”.
Na verdade, talvez o melhor mesmo do Lula seja a sua capacidade de potencializar a imaginação do povo brasileiro, que, por sinal, nunca deixou de projetar no horizonte a imagem de um Brasil superior. Como já dizia Sérgio Buarque de Holanda, o problema é que a nossa elite política e intelectual continua governando o país de costas para o Brasil e com os olhos na Europa e nos Estados Unidos. Também, o que esperar de pessoas que mal conhecem o verdadeiro Brasil e que passam o ano inteiro aguardando o momento de deixar o nosso clima tropical para trás e rumar imediatamente para as férias em Nova Iorque ou Paris? Com isso, continuamos aguardando a descoberta do Brasil!
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