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sexta-feira, 21 de junho de 2013

Poética - Manuel Bandeira

"Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expe
diente protocolo e manifestações de apreço ao senhor
                                                             [diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicioná-
                  [rio o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de
                                                           [si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos do amante
                       [exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
                                        [maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.    

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Espelho Mágico - Mario Quintana

DA OBSERVAÇÃO

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...

DO ESTILO

Fere de leve a frase... E esquece... Nada
Convém que se repita...
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.

DAS BELAS FRASES

Frases felizes... Frases encantadas...
Ó festa dos ouvidos!
Sempre há tolices muito bem ornadas...
Como há pacóvios bem vestidos.

DO CUIDADO DA FORMA

Teu verso, barro vil,
No teu casto retiro, amolga, enrija, pule...
Vê depois como brilha, entre os mais, o imbecil,
Arredondado e liso como um bule!

DOS MUNDOS

Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo...
Decerto não gostou lá muito do que via...
E foi logo inventando o outro mundo.

DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que triste os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

DO SABOR DAS COISAS

Por mais raro que seja, ou mais antigo,
Só um vinho é deveras excelente:
Aquele que tu bebes calmamente
Com o teu mais velho e silencioso amigo.

Mario Quintana é simplesmente sensacional! Sem a menor dúvida, um dos melhores poetas da língua portuguesa. Pela sabedoria de saber-fazer uma poesia mundana, voltada para o estranhamento poético dos pequenos eventos cotidianos, que são transformados pelo olhar sensível e pelo ritmo sutil de uma poesia pequena, minuciosa, cotidiana.

E dizer que Mario teve sua candidatura negada pela Academia de Letras. Mais tarde, ao final da vida, quando já era um poeta consagrado nos circuítos nacionais e internacionais, a Academia enviou-lhe um convite, o qual foi recusado. Se os doutores podiam viver sem sua poesia, certamente, ela também poderia entrar para a história sem o peso de uma instituição que tão generosamente integrou políticos habituados na terrível arte de enganar e roubar o povo brasileiro.

É porque, de fato, o poeta sabe mais sobre a linguagem do que o melhor dos especialistas em linguística. É porque a linguagem não é algo passível de ser abstraída como um jogo matemático, mas algo que evoca o mundo da existência, apontando para o exercício cotidiano de habitação e convivência com as entidades que valorizamos e que requerem nossa atenção e cuidado. Como diria Heidegger, para apreender a essência da linguagem (seja ela qual for), não pergunte aos matemáticos da linguística, mas aos poetas, esses sim sabem experimentá-la na prática!        

    

sábado, 12 de junho de 2010

Dois Poeminhas de Mario Quintana: para recitar ao pé do ouvido

Quem ama inventa

Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo sobre a ruinaria.
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressureições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar dos nossos corações
Batento juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado... E ter vivido o sonho!

O Umbigo

O teu querido umbiguinho,
Doce ninho do meu beijo
Capital do meu Desejo,
Em suas dobras misteriosas,
Ouço a voz da natureza
Num eco doce e profundo,
Não só o centro de um corpo,
Também o centro do mundo!

                                   Mario Quintana


 
                                            Mario Quintana
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