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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O Cego e a bengala - Merleau-Ponty



"Na verdade, todo hábito é ao mesmo tempo motor e perceptivo, porque, como dissemos, reside, entre a percepção explícita e o movimento efetivo, nesta função fundamental que delimita ao mesmo tempo nosso campo de visão e nosso campo de ação. A exploração dos objetos com uma bengala, que há pouco apresentávamos como um exemplo de hábito motor, também é um exemplo de hábito perceptivo. Quando a bengala se torna um instrumento familiar, o mundo dos objetos táteis recua e não mais começa na epiderme da mão, mas na extremidade da bengala. É-se tentado a dizer que, através das sensações produzidas pela pressão da bengala na mão, o cego constrói a bengala e suas diferentes posições, depois que estas, por sua vez, medeiam um objeto à segunda potência, o objeto externo. A percepção seria sempre uma leitura dos mesmos dados sensíveis, ela apenas se faria cada vez mais rapidamente, a partir de signos cada vez mais claros. Mas o hábito não consiste em interpretar as pressões da bengala na mão como signos de certas posições da bengala, e estas como signos de um objeto exterior, já que ele nos dispensa de fazê-lo. As pressões na mão e a bengala não são mais dados, a bengala não é mais um objeto que o cego perceberia, mas um instrumento com o qual ele percebe. A bengala é um apêndice do corpo, uma extensão da síntese corporal".

Referência: MERLEAU-PONTY, M. 2011. Fenomenologia da Percepção (Capítulo IV). São Paulo: Martins Fontes.   

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Epistemologia-Ontologia em Bateson: traduções e agenciamentos

O agenciamento de conceitos - como toda e qualquer 'tradução' (no sentido de "translação") - envolve certa parcela de 'traição', permitindo colocar em ação desvios sutis que fornecem a base para a 'relação' que se estabelece entre o 'texto' (o artigo ou livro) e outras 'textos' (e autores). De fato, o uso (ou consumo) de teorias, obras e autores não envolve a simples reprodução de noções ortodoxas, mas um agenciamento da 'diferença' para projetar ou descrever circunstâncias específicas (o tipo de 'unidade de informação' que faz a diferença em determinado contexto etnográfico, por exemplo).

Ao mesmo tempo, Foucault já demonstrou que a 'autoria' não reflete uma unicidade (da obra ou do autor), mas uma multiplicidade de perspectivas teóricas e enunciados que se transformam a partir da relação que estabelecem entre si. Com isso, os autores de obras (um conjunto heterogêneos de livros e artigos) permitem diversas apropriações, em momentos diferentes da trajetória intelectual do autor. Por isso é possível falar de um "Jovem Marx" em contraposição ao "Velho Marx" ou do Lévi-Strauss das "Estruturas Elementares do Parentesco" ou da série "Mitológicas". Em alguns casos, a diferença entre um livro e outro do mesmo autor é tão significativa que o próprio escritor tem dificuldade em se reconhecer nos seus escritos mais antigos.

Enfim, seja pelo lado do consumo de teorias e autores, seja pelo lado da produção, a multiplicidade inerente à obra de arte (ou científica, existe mais em comum entre essas duas atividades do que a epistemologia naturalista reconhece) permite múltiplas 'traduções', todas elas envolvendo certo agenciamento.

Vou citar um exemplo específico que reflete o tipo de 'controvérsia' que costuma acompanhar a 'economia da citação'. Na defesa da minha tese de doutorado em antropologia, ouvi de um colega o comentário de que eu teria elaborado uma crítica ao naturalismo ocidental a partir de duas perspectivas analíticas supostamente "irreconciliáveis": uma análise 'epistemológica' (presente na obra de Bateson, por exemplo) e outra 'ontológica', presente na obra de Heidegger e nos escritos mais recentes da 'ontologia política' (ver Law e Mol em outras postagens deste blog). A suposta 'aporia' viria do fato de Bateson ainda estar 'preso' à noção de 'epistemologia', enquanto a outra perspectiva busca se deslocar em direção à abordagem ontológica dos processos de conhecimento e saber.

[A confusão pode ser maior ainda quando levamos em consideração o fato da perspectiva teórica da 'ontologia política' ter sido proposta por seus defensores em contraposição à abordagem epistemológica defendida por autores como Susan Star e James Griesemer (ver o artigo clássico publicado em 1989 na biblioteca do blog), reafirmando a suposta 'aporia' reproduzida também por autores que assumem uma posição mais 'tradicional' em relação à divisão "Ontologia X Epistemologia".]

Tal polêmica, no entanto, assume um novo sentido quando vemos o próprio Bateson admitindo que, ao usar a noção de 'epistemologia', ele está também se referindo à ontologia, pois ambas seriam indissociáveis. Ele faz isso em um pequeno trecho publicado em um artigo sobre o tema do alcoolismo (autores nada didáticos como Bateson dificultam ainda mais a busca de uma 'tradução ortodoxa', no sentido de uma reprodução do conceito ou da teoria tal como foi concebida pelo autor, pois não costumam escrever resumos ou sínteses de suas ideias). Neste trecho, Bateson esclarece o uso que faz do conceito de 'epistemologia', uso esse bastante incomum. Vejamos.

"Os filósofos reconheceram e separaram dois tipos de problemas. Primeiro, existe o problema de como as coisas são, o que é uma pessoa, e que tipo de mundo é esse em que vivemos. Esses são os problemas da ontologia. Segundo, existe o problema de como conhecemos qualquer coisa, ou mais especificamente, como a gente sabe que tipo de mundo é este e que tipo de criatura somos nós quando dizemos que podemos conhecer algo (ou talvez nada) dessa questão. Esses são os problemas da epistemologia" (Tradução Livre, ver referência abaixo).

[Neste trecho, Bateson apresenta o seu ponto de partida: um contexto teórico onde ontologia e epistemologia remetem a problemáticas diferentes, que são abordadas separadamente. Se ficarmos aqui, poderíamos afirmar que Bateson faz uma opção por trabalhar com o segundo tipo de questões, mais propriamente de natureza 'epistemológica', enquanto autores como Heidegger estariam preocupados com o segundo tipo de questões, de natureza ontológica (leitura possível, já que todas as traduções são necessariamente 'parciais', apesar de não ser o caminho adotado na minha tese). O trecho subsequente, no entanto, revela a posição tomada por Bateson diante desse contexto (que envolve certo agenciamento da problemática)].

"Na história natural dos seres humanos vivos, ontologia e epistemologia não podem ser separadas. As crenças sobre o 'tipo' de mundo irão determinar a forma como o sujeito vê e age no mundo, e as suas formas de perceber o mundo e agenciá-lo irão determinar as suas crenças sobre o tipo de mundo em que ele vive. O homem vivo está associado a uma rede de pressupostos ontológicos e epistemológicos com os quais - independentemente de qualquer julgamento externo de verdade ou de falsidade - se tornam parcialmente auto-suficientes para ele".

[Neste trecho, Bateson desfaz a aporia construída e reificada por uma parte dos filósofos ocidentais, argumentando que, na fluxo da vida, questões epistemológicas e ontológicas são indissociáveis. Mais do que isso, o autor sugere a existência de uma espécie de circularidade entre os pressupostos ontológicos sobre o que existe e as formas de conhecer o 'existente'. Por último, ele esclarece o uso que faz das duas noções. O caminho percorrido por Bateson não consiste em dar enfase à epistemologia em detrimento da ontologia (ou o inverso, que também reifica o Grande Divisor) , mas em buscar desfazer a suposta aporia ao tornar epistemologia-ontologia perspectivas não somente indissociáveis, mas também interconectadas. Inclusive, a 'diferença' que faz a diferença na proposição teórica de Bateson - em relação a outras abordagens teóricas - não consiste em optar por um ou outro lado do divisor, mas em buscar superá-lo.]

"É estranho fazer referência constante à ontologia e à epistemologia e é incorreto sugerir que essas duas perspectivas são dissociáveis na análise da história do homem. Mas, ao que parece, não existe uma palavra adequada para expressar, simultaneamente, essas duas perspectivas [ontológica e epistemológica]. (...) Com isso, eu vou usar o termo 'epistemologia' neste artigo para abordar ambos os aspectos (ontológico e epistemológico) que determinam a adaptação (ou não adaptação) ao ambiente humano e não humano (ou natural)" (Tradução Livre).

Dizer que alguém fez um 'mal uso' de determinado autor, teoria ou conceito não é assim tão simples como gostariam os defensores da 'tradição ortodoxa' (se é que existe, de fato, algo assim). Não somente os autores que são citados agenciam os conceitos que utilizam em suas obras de maneira um tanto inusitada (como vimos aqui em relação às noções de 'epistemologia' e 'ontologia' em Bateson), como também existe todo um agenciamento que perpassa o consumo (ou uso) que envolve a leitura de um autor ou teoria.

Referência:
BATESON, G. 1972. The Cybernetics of 'Self': a theory of Alcoholism. IN:______. Steps to an Ecology of Mind.  

sábado, 16 de abril de 2011

Ontologia Política em Mol

“(…) an object that is hidden underneath the skin. An object that may be approached in various ways, that shows a variety of aspects, but that in the end is one. There it is, and suddenly is no longer seems to be a part of practice, but a referent in a pre-existing reality: overwhelmingly real. At such moments doubt is smothered and certainty is being manufactured. (…) In contrast with the universalistic dreams that haunt the academic philosophical tradition, the world we live in is not one: there are a lot of ways to live. They come with different ontologies and different ways of grading the good. They are political in that the differences between them are of irreducible kind. But they are not exclusive. And there is no we to stand outside or above them, able to master them or choose between them: we are implied. Action, like everything else, is enacted, too”.

The  Body Multiple: ontologies in medical practices - Annemarie Mol

terça-feira, 5 de abril de 2011

Ontologia Histórica & Anarco-racionalismo - Ian Hacking

"Será isso afinal algum tipo de epistemologia? Certamente não é epistemologia naquele sentido maculado que Richard Rorty atribui a essa palavra em Philosophy and the Mirror of Nature (1979) [A Filosofia e o Espelho da Natureza], seu famoso repto à filosofia analítica americana como um todo. Ele interpretou a epistemologia como sendo não a teoria do conhecimento, mas uma busca dos fundamentos do conhecimento. Daston e suas colegas não estão procurando por fundamentos. Na verdade, a própria noção de que o conhecimento tem fundamento - ou melhor, grupos sucessivos de noções como essas - poderia ser um tópico para o epistemologista histórico. (...) Daston e suas colegas não fazem epistemologia. Elas não propõem, não defendem, nem refutam teorias do conhecimento. Elas estudam conceitos epistemológicos como objetos que evoluem e sofrem mutação. Um nome mais verdadeiro para o que fazem seria 'metaepistemologia histórica'. (...) Minha ontologia histórica diz respeito a objetos, ou a seus efeitos, que não existem em qualquer forma reconhecível até que sejam objetos de estudos científicos".  

"1) Existem diferentes estilos de raciocínio. Muitos deles são discerníveis em nossa própria história. Eles surgem em pontos definidos e têm diferentes trajetórias de maturação. Alguns se extinguem, outros continuam a se fortalecer; 2) Proposições do tipo que necessariamente requerem raciocínio para serem substanciada têm positividade, são verdadeiras-ou-falsas, apenas em consequência dos estilos de raciocínio nos quais ocorrem; 3) Daí que muitas categorias de possibilidades do que pode ser verdadeiro ou falso dependem de eventos históricos, a saber, do desenvolvimento de certos estilos de raciocínio; 4) Pode-se então inferir que existem outras categorias de possibilidades além das que emergiram em nossa tradição; 5) Não podemos raciocinar para determinar se sistemas alternativos de raciocínio são melhores ou piores do que o nosso, porque as proposições sobre as quais raciocinamos obtêm seu sentido apenas do método de raciocínio empregado. As proposições não têm uma existência independente do modo de raciocinar para chegar a elas".

Ontologia Histórica - Ian Hacking        

sábado, 2 de abril de 2011

Being-in-the-world - Heidegger

Our method has already been assigned. The theme of our analytic is to be Being-in-the-world, and accordingly the very world itself; and these are to be considered within the horizon of average everydayness – the kind of Being which is closest to Dasein. We must make a study of everyday Being-in-the-world; with the phenomenal support which this gives us, something like the world must come into view. That world of everyday Dasein which is closest to it, is the environment. (…) We shall seek the worldhood of the environment (environmentality) by going through an ontological Interpretation of those entities within-the-enviroment which we encounter as closest to us”. 


“The Being of those entities which we encounter as closest to us can be exhibited phenomenologically if we take as our clue our everyday Being-in-the-world, which we also call our ‘dealings’ in the world and with entities within-the-world. Such dealings have already dispersed themselves into manifold ways of concern. The kind of dealing which is closest to us is as we have show, not a bare perceptual cognition, but rather that kind of concern which manipulates things and puts them to use; and this has its own kind of ‘knowledge’. The phenomenological question applies such concerns. (…) they are simply what gets used, what gets produced, and so forth. As entities so encountered, they become the preliminary theme for the purview of a ‘knowing’ which, as phenomenological, looks primarily towards Being, and which, in thus taking Being as its theme, takes these entities as its accompanying themes”.


Being and Time - Martin Heidegger 

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A Simbologia da Água entre os Povos Indígenas e Tradicionais

Final do Dia - Rio Xingu/PA

"A água é um dos elementos centrais da reprodução não somente material mas também simbólica dos povos indígenas e comunidades tradicionais. Ela está presente em inúmeros mitos de criação dessas populações, da qual as divindades separaram as terras firmes. Também aparece nos mitos criadores das próprias sociedades, muitas vezes como dádivas dos deuses aos antepassados. (...) Nas sociedades tradicionais a água é um bem da natureza, muitas vezes dádivas da divindade, responsável pela sua abundância ou pela sua escassez. Proveniente da natureza, a água é um bem de uso, em geral coletivo. Nas sociedades urbanas e modernas, a água doce é um bem, em grande parte, domesticado, controlado pela tecnologua (represas, estações de tratamento), um bem público cuja distribuição, em alguns países, pode ser apropriada de forma privada ou corporativista, tornando-se um bem de troca, ou uma mercadoria. (...) O uso da água tem dimensões conflitivas e políticas, afetando de forma distinta as sociedades urbano-industriais e as tradicionais. A construção de barragens e sistemas de irrigação são um exemplo típico de atividade geradora de conflitos, beneficiando em geral as primeiras e prejudicando as segundas. As barragens destinadas a abastecer as cidades com energia elétrica e água alteram os hábitos migratórios de peixes afetando negativamente as comunidades ribeirinhas que dependem da pesca. (...) Nas sociedades tradicionais a água, incluindo rios e lagos fazem parte de um território e um modo de vida, base de identidades específicas (ribeirinhos, quilombolas e etc.) ao passo que nas sociedades modernas a água, como bem de consumo, é desterritorializada, canalizada de outros lugares muitas vezes distantes, com os quais as populações urbanas tem pouco ou nenhum contato".

 Antonio Carlos Diegues - Água e Cultura nas Populações Tradicionais Brasileiras       

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