sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Vida e Materialismo Histórico em Marx e Engels

"Com relação aos alemães, que não dispõem de quaisquer premissas, devemos lembrar a existência de uma primeira premissa de toda a existência humana e, portanto, de toda a História, ou seja, a premissa de que os homens têm de estar em condições de viver para poderem fazer História. Para viver é preciso, sobretudo, comer, beber, vestir-se, ter uma habitação etc. O primeiro fato histórico é, portanto, a produção dos meios para a satisfação dessas necessidades, a produção da própria vida material, e a verdade é que este é um fato histórico, uma condição fundamental de toda a História, que ainda hoje, tal como há milhares de anos, tem de ser realizado dia a dia, hora a hora, para, ao menos, manter os homens vivos. Mesmo quando a realidade se reduz a um simples bastão, como como São Bruno, essa mesma realidade pressupõe a atividade da produção deste bastão. Assim a primeira coisa a fazer em qualquer concepção da História é observar este fato fundamental em todo o seu significado e em toda a sua dimensão, e atribuir-lhe a importância que lhe é devida.

(...) A produção da vida, tanto da própria, no trabalho, como da alheia, na procriação, surge imediatamente como uma dupla relação: por um lado como relação natural, por outro como relação social, no sentido em que aqui se entende a cooperação de vários indivíduos não importando em que circunstância, maneira e com que objetivos. Disto resulta que um determinado modo de produção ou estágio de desenvolvimento industrial esteja sempre ligado a um determinado modo de cooperação, ou fase social, e este modo de cooperação é ele próprio uma 'força produtiva'; e que a quantidade das forças produtivas acessíveis aos homens condiciona o estado da sociedade e, portanto, a 'História da Humanidade' tem de ser estudada e tratada em conexão com a história da indústria e da troca.

Somente agora, depois de termos examinado quatro momentos, quatro facetas das relações históricas primordiais, verificamos que o homem também tem 'consciência'. Mas não se trata de uma consciência que seja de antemão consciência 'pura'. Sempre pesou sobre o 'espírito' a maldição de estar preso à matéria, a qual aqui se manifesta sob a forma de camadas de ar em movimento, de sons, em outras palavras: sob a forma de linguagem. A linguagem é tão velha como a consciência, a linguagem é a consciência real prática que existe também para outros homens e que, portanto, só assim existe também para mim, e a linguagem só nasce, como a consciência, da necessidade, da carência de contato com outros homens. Onde existe uma relação, ela existe para mim.

(...) A consciência da necessidade de manter relações com os outros indivíduos marca o começo da consciência do homem de que vive, de fato, em sociedade. Este começo é tão animal quanto a própria vida social desta fase, é mera consciência gregária e, neste aspecto, o homem se distingue aqui do carneiro apenas pelo fato de a sua consciência substituir o instinto ou de o seu instinto ser consciente".

Referência: MARX, K. e ENGELS, F. A Ideologia Alemã: teses sobre Feuerbach (Relações Históricas Primordiais).

Imagem: Cássio Loredano (Editora Boitempo)            

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O Cego e a bengala - Merleau-Ponty



"Na verdade, todo hábito é ao mesmo tempo motor e perceptivo, porque, como dissemos, reside, entre a percepção explícita e o movimento efetivo, nesta função fundamental que delimita ao mesmo tempo nosso campo de visão e nosso campo de ação. A exploração dos objetos com uma bengala, que há pouco apresentávamos como um exemplo de hábito motor, também é um exemplo de hábito perceptivo. Quando a bengala se torna um instrumento familiar, o mundo dos objetos táteis recua e não mais começa na epiderme da mão, mas na extremidade da bengala. É-se tentado a dizer que, através das sensações produzidas pela pressão da bengala na mão, o cego constrói a bengala e suas diferentes posições, depois que estas, por sua vez, medeiam um objeto à segunda potência, o objeto externo. A percepção seria sempre uma leitura dos mesmos dados sensíveis, ela apenas se faria cada vez mais rapidamente, a partir de signos cada vez mais claros. Mas o hábito não consiste em interpretar as pressões da bengala na mão como signos de certas posições da bengala, e estas como signos de um objeto exterior, já que ele nos dispensa de fazê-lo. As pressões na mão e a bengala não são mais dados, a bengala não é mais um objeto que o cego perceberia, mas um instrumento com o qual ele percebe. A bengala é um apêndice do corpo, uma extensão da síntese corporal".

Referência: MERLEAU-PONTY, M. 2011. Fenomenologia da Percepção (Capítulo IV). São Paulo: Martins Fontes.   

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Metrologia e Formatação em Serres

"Enfim, como navegar sem instrumentos para medir os ângulos, sem regras de cálculo, sem um modelo astronômico, sem compasso nem portulano, sem um mapa que indique o traçado exato do espaço a percorrer? Por meio da generalização dessa métrica, essas máquinas e referências contribuem para um verdadeiro controle das operações.

Essa padronização de pesos e medidas, de sinais e atos, torna possíveis as trocas mundializadas entre o que então se chamava de terra habitada. No espaço desse tempo, nenhuma economia de tal envergadura teria sido capaz de se organizar nem funcionar sem esses números, sem essas operações, não apenas sem as medidas que eles permitem ou pressupõem, mas, sobretudo, sem essa metrologia generalizada. A economia é resultante dela, pelo menos na mesma medida em que a condiciona. Em resumo, sua novidade pressupõe, ou acompanha, no mesmo momento e nos mesmos lugares, a emergência da ciência moderna: em países mercantilistas como a Itália e Flandres, pátrias de Girolamo Cardano (1501-1576) e Simon Stevin (1548-1620), respectivamente. Não que eu acredite, repito, que a economia tenha determinado as descobertas científicas, mas o reagrupamento de um conjunto de técnicas do mesmo gênero, um gênero ao qual procuro dar um nome, condiciona as trocas complexas do comércio realizado em torno do Mediterrâneo na época do Renascimento, assim como a emergência da ciência que herdamos.

(...) A esse gênero de coisas dou o nome de formato: a contabilidade formata as trocas, assim como, nos dias de hoje, computador formata e globaliza nossas informações; denominemos, pois, formatação a padronização do conjunto dessas medidas científicas, práticas, culturais e até mesmo artísticas, nos casos das partituras musicais destinadas aos corais e nas pinturas dos mestres. Uso o exemplo da contabilidade porque a palavra procede o que, em latim anglicizado, designa nossas máquinas: ao agrupar contábil e mensurável, ambas produzem inumeráveis configurações, pressupõem elementos, séries, repetições, homogeneidades, medidas e acordos que dizem respeito a vários domínios que, naturalmente, pensamos não terem nenhuma relação entre si.

(...) O formato diz respeito a homens e coisas, à natureza e à cultura... assim como ao acontecimento, que é seu oposto. Se alguém adivinhar rapidamente o poder que o acontecimento propicia, poderá também perceber seus inconvenientes. Preservar a uniformidade do mensurável certamente permite a eficácia, uma vez que elimina qualquer acidente, mas exclui o acontecimento e impede a novidade.

(...) Quem nunca obedeceu a um horário rígido, previsto com muita antecedência, tanto para o ano como para as horas, matinas, tércias, sextas, laudes, vésperas e completas, quem não saiu de sua cela ao soar dos sinos, não se debruçou sobre o birô para estudar, quem não foi ao refeitório, sempre em fila e, com frequência, em silêncio... O claustro, o pátio do colégio, a fábrica ou o escritório, o estádio ou a prisão... criam um lugar no espaço, contam o tempo, determinam de que maneira preencher os dias e a sequencia das horas, seus monges, internos, marinheiros e equipes vestem uniformes... em resumo, eles formatam o tempo, o espaço e as ações das crianças e dos adultos. Esse programa variou pouco desde a Idade Média até a manha de ontem.

(...) Sem o formato, no qual as formas dizem respeito tanto ao artesão como à sua obra, não há produção. Como é que um atleta alcança o estado que ele designa como 'estar em forma'? Por meio de um treinamento que exige que ele siga uma regra e que se torne um monge; o mesmo acontece com o escritor. Trata-se de uma condição necessária que assegura, pelo menos, um trabalho bem-feito, uma corrida honrosa, um lugar medíocre entre os profissionais. Para a genialidade, porém, ninguém encontrou ainda as condições suficientes. A classificação das ciências e disciplinas, dos artigos e teses, das notas de rodapé, do índice e da bibliografia, a citação conscienciosa e humilde por ocasião do debate... são exigências universitárias que disciplinam a pesquisa e o pensamento. Conforme-se à força coercitiva da formatação... Obedeça ao formato-pai que, invisível e ausente, reina sobre o saber absoluto.

Se seu desejo, porém, é inventar, arrisque-se, livre-se do formato. Faça isso, mesmo que tenha de morrer, transforme-se em filho. As grandes obras conjugam formato e invenção, disciplina de ferro e liberdade: pai e filho."

Referência: SERRES, M. 2008. Ramos (Formato-Pai). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.    

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Objetos Fractais em Mandelbrot

"Ao longo deste ensaio, objetos fractais naturais muito diversos, alguns dos quais, como a Terra, o céu e o oceano, nos são bastante familiares, são estudados com a ajuda de uma grande família de objetos geométricos, até agora considerados exotéricos e perfeitamente inúteis. Pretendo mostrar, pelo contrário, que estes objetos, pela sua simplicidade, diversidade e extraordinária extensão das suas novas aplicações, merecem ser rapidamente integrados na geometria elementar. Apesar do seu estudo fazer parte de campos científicos diferentes, entre os quais a geomorfologia, a astronomia e a teoria da turbulência, os objetos naturais em questão têm em comum uma forma irregular ou interrompida. Para os estudar, concebi, aperfeiçoei e utilizei extensivamente uma nova geometria da natureza.

A noção que lhe serve de fio condutor será designada por um de dois neologismos equivalentes, 'objeto fractal' ou 'fractal', termos que formei, pela necessidade que me surgiu com este livro, a partir do adjetivo latino fractus, que significa 'irregular' ou 'quebrado'.

Será necessário definir uma figura fractal de modo rigoroso, para em seguida dizer que um objeto real é fractal por se assemelhar à figura geométrica que constitui o modelo? Considerando que um tal formalismo seria prematuro, adotei um método muito diferente: um método baseado numa caracterização aberta e intuitiva, onde os avanços se efetuam por retoques sucessivos.

O subtítulo sublinha que o meu objetivo inicial consiste em descrever, a partir do exterior, a forma de diversos objetos. Logo que esta primeira fase seja bem sucedida, a prioridade transita de imediato da descrição para a explicação: da geometria para a dinâmica, a física e por aí adiante.

O subtítulo indica ainda que, para conseguir a irregularidade fractal, coloco em discussão as construções em que predomina o acaso.

Por fim, o subtítulo explicita que uma das características principais de todo objeto fractal é a sua dimensão fractal, que será representada por D. Esta é uma medida do grau de irregularidade e de fragmentação. Um fato muito importante: ao contrário dos números dimensionais correntes, a dimensão fractal pode muito bem ser uma fração simples, como 1/2 ou 5/3, ou mesmo um número irracional, como log 4/log 3 = 1,2618... Assim, é conveniente dizer, a respeito de certas curvas planas muito irregulares, que a sua dimensão fractal se situa entre 1 e 2, a respeito de certas superfícies muito enrugadas e cheias de pregas, que a sua dimensão fractal está entre 2 e 3 e, enfim, definir conjuntos de pontos sobre uma linha cuja dimensão fractal está entre 0 e 1.

(...) A geometria fractal é caracterizada por duas escolhas: a escolha de problemas no seio do caos da natureza, uma vez que descrever todo caos seria uma ambição sem esperança e sem interesse, e a escolha de ferramentas no seio das matemáticas, pois procurar aplicações das matemáticas pelo simples fato de serem belas acabou sempre por causar dissabores.

Depois de progressivamente amadurecidas, estas duas escolhas criaram algo de novo: entre o domínio do caos desregulado e a ordem excessiva de Euclides existe agora a nova zona da ordem fractal."

A geometria fractal foi criada, em 1975, pelo matemático francês nascido na Polônia, Benoit Mandelbrot. Em linhas gerais, um fractal é um objeto geométrico que pode ser divido em partes, cada uma da qual semelhante ao original. Essas figuras de forma irregular e fragmentada são encontradas na natureza ou podem ser produzidas artificialmente através de um algoritmo matemático.



Referência: MANDELBROT, B. 1998. Objetos Fractais (Introdução). Lisboa: Editora Gradiva.      

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A noção de "transformação" em Lévi-Strauss

"A de 'transformação' tem um espaço capital em suas análises de o Pensamento Selvagem como igualmente será o caso em Mitológicas. A quem o senhor tomou de empréstimo? Aos lógicos?"

"Nem aos lógicos nem aos linguistas. Veio-me de uma obra que para mim desempenhou um papel decisivo, e que li durante a guerra, nos Estados Unidos: On Growth and Form, em dois volumes, de D'arcy Wentworth Thompson, publicada pela primeira vez em 1917. O autor, naturalista escocês, interpretava como transformações as diferenças visíveis entre as espécies e órgãos animais ou vegetais no seio de um mesmo gênero. Isso foi uma iluminação, tanto que logo iria perceber que esta maneira de ver inscrevia-se numa longa tradição: antes de Thompson, havia a botânica de Goethe, e antes de Goethe, Albert Dürer, com seu Traité de la proportion du cosps humain.

Ora, a noção de transformação é inerente à análise estrutural. Diria, até, que todos os erros, todos os abusos cometidos, sobre ou com a noção de estrutura, provêm do fato de seus autores não compreenderem que é impossível concebê-la separada da noção de transformação. A estrutura não se reduz ao sistema: conjunto composto de elementos e de relações que os unem. Para que se possa falar de estrutura, é necessário que entre os elementos surjam relações invariantes, de tal forma que se possa passar de um conjunto a outro por meio de uma transformação.

Um outro itinerário, que os historiadores das ideias saberiam traçar melhor, introduziu a noção de transformação em linguística, talvez também a partir de Goethe, por intermédio de Guillaume de Humboldt e Baudoin de Courtenay. Quando se tenta dar conta da diversidade, seja qual for o domínio considerado, das diferentes maneiras pelas quais os elementos podem ser combinados, impõe-se o recurso à noção de transformação.

Se invoco um único princípio, o intercâmbio das mulheres entre os subgrupos da sociedade, para ficar a par de todas as regras de casamento, é necessário que essas regras, diferentes conforme a época e o lugar, se reduzam a estados de uma mesma transformação. O mesmo acontece quando o linguista prepara o repertório de fenômenos que o aparelho vocal consegue articular, e destaca as limitações a que cada língua deve curvar-se para retirar desse fundo comum os elementos de seu sistema fonológico particular. A própria noção de fenômeno implica que as propriedades divergentes dos sons, tal como a fonética os registra, constituam-se em transformações opcionais ou contextuais de uma realidade invariante, num nível mais profundo."

Referência: LÉVI-STRAUSS, C. e ERIBON, D. 2005. De perto e de longe. São Paulo: Cosac Naify.            

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Metalogue: Why a Swan? - Bateson

"Daughter: why a swan?
Father: Yes - and why a puppet in Petroushka?
D: No - that's different. After all a puppet is sort of human - and that particular puppet is very human.
F: More human then people?
D: Yes.
F: But still only sort of human? And after all the swan is also sort of human.
D: Yes.
***
D: But what about the dancer? Is she human? Os course she really is, but, on the stage, she seems inhuman or impersonal - perhaps superhuman. I don't know.
F: You mean - that while the swan is only a sort of swan and has no webbing between her toes, the dancer seems only sort of human.
D: I don't know - perhaps it's something like that.
***
F: No - I get confused when I speak of the 'swan' and the dancer as two different things. I would rather say that the thing I see on the stage - the swan figure - is both 'sort of' human and 'sort of' swan.
D: But then you would be using the word 'sort of' in two senses.
F: Yes, that's so. But anyhow, when I say that the swan figure is 'sort of' human, I don't mean that it (or she) is a member of that species or sort which we call human.
D: No, of course not.
F: Rather that she (or it) is a member of another subdivision of a larger group which would include Petroushka puppets and ballets swans and people.
D: No, it's not like genera and species. Does your larger group include geese?
***
F: But we don't have to avoid puns. In french the phrase espèce de (literally 'sort of') carries a special sort of punch. If one man calls another 'a camel' the insult may be a friendly one. But if he calls him an espèce de chameau - a sort of camel - that's bad. Is's still worse to call a man as espèce d'espèce - a sort of a sort.
D: A sort of a sort of what?
F: No - just a sort of a sort. On the other hand, if you say of a man that he is a true camel, the insults carries a flavor of grudging admiration.
D: But when a frenchman calls a man a sort of camel, is he using the phrase sort of in anything like the same way as I, when I say the swan is sort of human?
***
F: It's like - there's a passage in Macbeth. Macbeth is talking to the murderers whom he is sending out to kill Banquo. They claim to be man, and he tells them they are sort of men. 'Ay - in the catologue ye go for men. as hounds and greyhounds, mongrels, spaniels, curs, shoughs, water-rugs and demi-wolves are clept all by the name of dogs' (Macbeth, Act III, Scene 1).  
D: No - that's what you said just now. What was it? 'Another subdivision of a larger group? I don't think that's it at all.
F: No, it's not only that. Macbeth, after all, uses dogs in his simile. And 'dogs' means either noble hounds or scavengers. It would not be the same if he had used the domestic varieties of cats - or the subspecies of wild roses.
D: All right, all right. But what is the answer to my question? When a frenchman calls a man a 'sort of' camel, and I say the swan is 'sort of' human', do we both mean the same thing by 'sort of'?
***
F: All right, let's try to analyze what 'sort of' means. Let's take a single sentence and examine. If I say 'the puppet Petroushka is sort of human,' I state a relatioship.
D: Between what and what?
F: Between Ideas, I think.
D: Not between a puppet and people?
F: No. Between some ideas that I have about puppet and some ideas that I have about people.
D: Oh.
***
F: And then there is that other relationship which is emphatically not 'sort of'. Many men have gone to the stake for the proposition that the bread and wine are not 'sort of' the body and the blood.
D: But is that the same thing? I mean - is the swan ballet a sacrament?
F: Yes - I think so - at least for some people. In Protestant language we might say that the swanlike costume and movements of the dancer are 'outward and visible signs of some inward and spiritual grace' of woman. But in catholic language that would make the ballet into a mere metaphor and not a sacrament.
D: But you said that for some people it is a sacrament. You mean for Protestants?
F: No, no. I mean that if for some people the bread and wine are only a metaphor, while for others - Catholics - the bread and wine are a sacrament; then, if there be some for whom the ballet is a metaphor, there may be other for whom it is emphatically more than a metaphor - but rather a sacrament.
D: In the Catholic sense?
F: Yes.
***
F: I mean that if we could say clearly what is meant by the proposition 'the bread and wine is not 'sort of' the body and blood'; then we should know more about what we mean when we say either that the swan is 'sort of' human or that the ballet is a sacrament.
D: Well - how do you tell the difference?
F: Which difference?
D: Between a sacrament and a metaphor?
***
F: Wait a minute. We are, after all, talking about the performance of the artist or the poet, or a given member of the audience. You ask me how I tell the difference between a sacrament and a metaphor. But my answer must deal with the person and not the message. You ask me how I would decide whether a certain dance on a certain day is or is not sacramental for the particular dancer.
D: All right - but get on with it.
F: Well - I think it's a sort of a secret.
D: You mean you won't tell me?
F: No - it's not that sort od secret. It's not something that one must not tell. It's something that one cannot tell.
D: What do you mean? Why not?
F: Let us suppose I asked the dancer, 'Miss X, tell me, that dance which you perform - is it for you a sacrament or a mere metaphor?' And let us imagine that I can make this question intelligible. She will perhaps put me off by saying, 'You saw it - it is for you to decide, if you whant to, whether or not it is sacramental for you'. Or she might say, 'Sometimes it is and sometimes is isn't'. Or 'How was I, last night?' But in any case she can have no direct control over the matter.
***
D: Do you mean that anybody who knew this secret would have it in their power to be a great dancer or a great poet?
F: No, no, no. It isn't like that at all. I mean first that great art and religion and all the rest of it it is about this secret; but knowing the secret in an ordinary conscious way would not give the knower control. 
                                                                               ***

D: Daddy, what has happened? We were trying to find out what 'sort of' means when we say that the swan is 'sort of' human. I said that there must be two senses of 'sort of'. One in the phrase 'the swan figure is a 'sort of' swan, and another in the phrase 'the swan figure is 'sort of' human'. And now you are talking about mysterious secrets and control.
F: All right. I'll star again. The swan figure is not a real swan but a pretend swan. It is also a pretend-not human being. It is also 'really' a young lady wearing a white dress. And a real swan would resemble a young lady in certain ways.
D: But which of these is sacramental?
F: Oh Lord, here we go again. I can only say this: that it is not one of these sacrament but their combination which constitutes a sacrament. The 'pretend' and the 'pretend-not' and the 'really' somehow get fused together into a single meaning.
D: But we ought to keep them separate.
F: Yes. That is what the logicians and the scientists try to do. But they do not create ballets that way - nor sacraments."

Referência: BATESON, G. 1972. Steps to an Ecology of Mind. Chicago and London: The University of Chicago Press.    

Observação: este breve trecho retirado da primeira parte do livro de Bateson - uma série de meta-diálogos estabelecidos entre o autor e sua filha - serviu de inspiração para que Deleuze e Guattari desenvolvessem a noção de "devir" em Mil Platôs.  

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Qualidades Sensíveis - Lévi-Strauss

"Entre seus livros, talvez O Pensamento Selvagem seja o que mais modificou as formas de pensar para além do círculo de especialistas em etnologia. Sua reabilitação do pensamento primitivo transformou-se em trecho selecionado para todas as antologias do pensamento contemporâneo (Didier Eribon).

Queria mostrar que não existe um fosso entre o pensamento dos povos chamados primitivos e o nosso. Quando, em nossas próprias sociedades, observávamos crenças ou costumes estranhos, que contrariavam o senso comum, nós os explicávamos como vestígios ou lembranças de formas arcaicas do pensamento. Parecia-me, ao contrário, que essas formas de pensamento estão sempre presentes, atuantes entre nós. Muitas vezes lhes damos livre curso. Elas coexistem com formas de pensamento que se apoiam no testemunho da ciência; são igualmente contemporâneas (Lévi-Strauss).

Por exemplo, essa era a comparação que o senhor fazia com frequência entre a bricolagem e o pensamento mítico.

Eu citava a bricolagem como exemplo de modos de pensamento dotados de uma originalidade específica, aos quais não prestamos atenção, ou melhor, pelos quais não temos a mínima consideração, porque nos parecem fúteis ou secundários, quando demonstram mecanismos essenciais da atividade mental e nos põem em pé de igualdade com operações intelectuais bem distantes do que acreditamos ser nossa maneira moderna de pensar. Na ordem especulativa, o pensamento mítico opera como a bricolagem num plano prático; ele dispõe de um tesouro de imagens acumuladas pela observação do mundo natural: animais, plantas, com seus habitats, suas características distintivas, seu emprego numa determinada cultura. Ele combina esses elementos para construir um sentido, como o bricoleur utiliza, diante de uma tarefa, os materiais ao seu alcance para lhes conferir um novo significado, diferente daquele que tinham inicialmente.

Mas esse livro tinha um alcance epistemológico mais amplo...

Era uma tentativa de superar a oposição já clássica na filosofia ocidental entre a ordem do sensível e a do inteligível. Se a ciência moderna conseguiu constituir-se, foi ao preço de uma ruptura entre as duas ordens, entre o que no século XVII chamava-se qualidades secundárias - ou seja, os dados da sensibilidade: cores, odores, sabores, ruídos, texturas - e as qualidades primárias, não tributárias dos sentidos, que constituem a verdadeira realidade. Ora, parecia-me que o pensamento dos povos chamados 'selvagens', que permanecera refratária a essa distinção, conduzia toda a sua reflexão no plano das qualidades sensíveis e conseguia, contudo, construir sobre essa única base uma visão do mundo não desprovida de coerência nem de lógica. E também mais eficiente do que se costuma crer.

O que o senhor chama a "ciência do concreto"...

... uma abordagem que me parecia diferente da ciência, embora comparecendo comparável a ela. Ponto de vista fortalecido, parecia-me, por certas tendências que eu identificava no pensamento científico contemporâneo. Infelizmente, não tenho a menor competência em matéria científica mas as ciências tradicionais da natureza - zoologia, botânica, geologia - sempre me fascinaram, como uma terra prometida onde não teria a privilégio de penetrar. Nos Estados Unidos, comecei a ler assiduamente, e continuei desde então, revistas como Scientific American, Science, Nature - a essas acrescento hoje La Recherche. Não compreendo tudo, longe disso. Mas isso nutriu minha reflexão e sobretudo fiquei impressionado ao constatar que depois de ter por muito tempo proscrito as qualidades secundárias, depois de ter voltado as costas ao sensível, a ciência agora procurava reintegrá-lo. Ela se questiona sobre o que é um odor, um sabor, sobre a forma das flores e sua evolução, sobre a estrutura melódica do canto dos pássaros... Descobre assim, frequentemente, o fundamento objetivo de crendices populares e até de superstições. Contrariamente à tese proposta por Foucault em As Palavras e as Coisas - a de uma ruptura radical entre epistémes - percebo na ciência contemporânea um esforço para recuperar as etapas arcaicas de seu desenvolvimento, para integrar antiqüíssimas sabedorias à sua visão de mundo.

Para estudar a ciência do concreto que caracteriza o 'pensamento selvagem', o senhor mesmo acumulou um volume impressionante de conhecimentos concretos: sobre plantas, animais, clima...

Desde que comecei a escrever O Totemismo Hoje e O Pensamento Selvagem, até o fim das Mitológicas, vivi rodeado de livros de botânica e de zoologia... Aliás, essa curiosidade remonta a minha infância.

No caso em questão, o senhor ultrapassou o estágio da simples curiosidade.

É verdade. Precisei instruir-me em todos esses domínios. Como lembrança, conservo no meu gabinete de trabalho o globo celeste vulgarmente chamado 'cabeça de vitela', que recebi de presente não lembro de que órgão oficial ao qual me dirigia para esclarecer minhas dúvidas. É um instrumento que os astrônomos não utilizam mais, mas que muito me ajudou a para situar as constelações de que tratam os mitos. Os conhecimentos científicos que precisava adquirir não iam além dos conhecimentos de um ou dois séculos atrás! Extraía-os da Enciclopédia de Diderot e D'Alembert, da Zoologia de Brehm e, às vezes, até de Plínio...

Quando se pensa que algumas pessoas puderam criticá-lo por ignorar o concreto!

Ao contrário, presto uma atenção quase obsessiva a todos os pequenos detalhes concretos.

É essa atenção ao concreto que talvez o tenha tornado particularmente sensível ao papel da 'imaginação estética' no jogo das classificações totêmicas que o senhor descreve.

Sim, porque uma das diferenças essenciais entre a maneira como nós refletimos e a maneira como aqueles povos refletem, é nossa necessidade de fragmentar. Apreendemos isso com Descartes: dividir a dificuldade em tantas parcelas quanto forem necessárias, para melhor resolvê-las. O pensamento dos povos chamados primitivos rejeita essa fragmentação. Uma explicação só é válida desde que seja total. Quando procuramos a solução de um problema específico, dirigimo-nos a esta ou àquela disciplina científica, ou então ao direito, à moral, à religião, à arte... Nos povos que os etnólogos estudam, todos esses domínios são ligados. Assim, cada expressão da vida coletiva constitui o que Mauss denominava um fato social total. Ela põe em questão, simultaneamente, todos esses aspectos."    

Referência: LÉVI-STRAUSS C. e ERIBON D. 2005. De Perto e de Longe (capítulo 11). São Paulo: Cosac Naify.

sábado, 25 de agosto de 2012

A greve docente na encruzilhada

Os professores da UnB decidiram pelo término da greve nesta última sexta-feira (24/08). A decisão foi tomada em assembléia da categoria, por uma pequena margem de diferença: 478 (a favor) X 445. Com isso, mais uma universidade decide pelo retorno às aulas. Além da UnB, as seguintes instituições também decidiram pelo término da greve nas últimas semanas: UFC; UFRGS; UFSC e UNIFESP (Guarulhos). Por outro lado, mais de 50 universidades e institutos federais decidiram pela continuidade da greve, decisão reafirmada em assembleias realizadas na última semana. A lista de instituições ainda em greve é longa, incluindo (entre outras): UFRJ, UFRRJ, UFMG, UFBA, UFMS, UFPel, UFF, UFAM, UFPA, UFU, UFJF, UNIR, UFOP, UFG, UFPB e UNILA.

É importante observar que a decisão pelo retorno às aulas foi polêmica em todas as instituições e não conta com a concordância de uma parte significativa do corpo docente dessas universidades. O resultado apertado na assembléia da UnB é um bom retrato da atual conjuntura em outras universidades, com uma forte tendência à divisão e polarização da categoria docente, uma aposta dos negociadores do MEC. Diante da proximidade do prazo governamental para ajustes no orçamento de 2013 - o dia 31 de agosto, conforme determina a lei orçamentaria - o movimento se vê numa encruzilhada sem ter estabelecido um acordo com o governo. De fato, o acordo firmado entre o MEC e a PROIFES não resultou em uma adesão imediata dos professores, o que é compreensível diante da baixa representatividade política desse sindicato junto à classe docente. Por outro lado, as demais centrais sindicais se atrasaram em elaborar uma contraproposta (algo feito apenas recentemente) e agora correm atrás do prejuízo político, tendo como horizonte o retorno às aulas sem acordo ou uma continuidade da greve mesmo diante do término do prazo institucional para negociar alterações no orçamento da União.

Se, por um lado, a morosidade dos sindicatos docentes nacionais acabou retardando a possibilidade de um acordo mais amplo com a categoria; por outro lado, o governo não só se demonstrou intransigente durante todo o processo de negociação - desconsiderando completamente as demandas e sugestões do setor -, como continua negando qualquer possibilidade de reabertura das negociações com o movimento. Essa retomada poderia ser feita tendo como referência a "contraproposta" da ANDES encaminhada recentemente para a presidenta Dilma e os ministérios de educação e planejamento. Infelizmente, no entanto, a intransigência dos representantes governamentais não parece ter limite, pois o MEC voltou a afirmar que as negociações foram encerradas em uma nota publicada no dia 24/08.

Diante dessa decisão, resta saber qual caminho vão tomar os professores insatisfeitos com o acordo firmado com o governo. No caso de uma continuidade da greve, deve-se levar em conta que tal decisão abre um horizonte longo de paralisação, pois a retomada das negociações em termos de aumento salarial só poderia ocorrer a partir de janeiro de 2013. Na hipótese de um retorno às aulas, sabemos que esse retorno será apenas temporário, pois o término da greve representaria uma decisão tática e circunstancial que, por si só, já apontaria para a retomada do movimento grevista no início de 2013.

O melhor seria o governo fazer uma força-tarefa nos próximos dias para tentar negociar com os grevistas uma adesão à proposta já firmada, que incorporaria pequenas alterações sugeridas na contraproposta da ANDES. Mas a atual conjuntura política nacional dificulta ainda mais uma "negociação de última hora", tendo em vista o contexto de greves no setor público federal.  Também é difícil imaginar qual será a força política do movimento grevista e a sua capacidade para dar continuidade à paralisação mesmo diante da impossibilidade institucional de negociação com o governo em torno de propostas concretas.

Para pressionar o governo a retomar as negociações com o movimento docente, acesse o link abaixo e assine a petição:

http://www.avaaz.org/po/petition/Abertura_das_negociacoes_entre_o_governo_brasileiro_e_os_docentes_das_IFES_do_pais_representados_pelo_ANDESSN/?epwwHab
                
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