segunda-feira, 23 de abril de 2012

23 de abril: dia de Ogum

No Brasil, no dia 23 de abril, comemora-se, entre os adeptos das religiões afro-brasileiras, o dia de Ogum (Ògún, em yourubá), orixá ferreiro, portador e manipulador do aço e dos metais, artesão que deu origem às ferramentes de trabalho e às armas de guerra. Um guerreiro-justiceiro com personalidade inconstante e intempestiva. Na África, o culto desse orixá era restrito aos homens, havendo templos de seguidores em Ondo, Ekiti e Oyo. Conforme a mitologia, Ogum foi um dos primeiros orixás a descer do Orun (céu) para a terra, motivo pelo qual também é denominado de Oriki Imole ("O primeiro orixá a vir para a terra"). Existe a lenda de que Ogum teria sido a primeira divindade a ser cultuada pelos povos yorubá da África Ocidental. 

Na família de orixás africanos, Ogum é filho de Oduduwa, herói civilizador que fundou a cidade de Ifé, irmão, portanto, de Xangô, Oxossi, Oxun e Eleggua. Ele é considerado dono de todos os caminhos e encruzilhadas junto com Exu e tem uma ligação muito forte com Oxaguian, de quem é inseparável. É considerado o último dos Igba imolé, deuses da direita que foram destruídos por agirem mal. Como último sobrevivente dessa legião de deuses, coube a ele conduzir os Irun Imolé, os outros quatrocentos deuses da esquerda. Suas cores são o azul cobalto, o verde (no Candomblé) e o vermelho (na Umbanda).


Segundo Pierre Verger, Ogum representa o arquétipo do "guerreiro", identificado com 'pessoas fortes', 'destemidas', 'aguerridas' e 'impulsivas', incapazes de perdoar as ofensas das quais foram vítimas. Os filhos de Ogum geralmente não são muito exigentes na comida, no vestir e na moradia, são um tanto desapegados das conquistas já estabelecidas e estão sempre elaborando novos planos. Devido à coragem e ao espírito bélico e destemido, Ogum é considerado patrono das grandes demandas, senhor da guerra e do exército. Acolhe e dá força às pessoas que triunfam diante de grandes adversidades, atendendo  seus apelos no momento da guerra e do combate. No Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, Ogum é identificado com São Jorge, mas na Bahia e no Nordeste é associado à figura de Santo Antônio.


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Marina Silva, Belo Monte e o Movimento Gota D'água

Este vídeo contém o depoimento de Marina Silva sobre o caso Belo Monte, um apoio à campanha que o Movimento Gota D'água tem feito em torno desta questão. Diferente de Dilma, que atropela e passa por cima dos setores da sociedade civil contrários à construção de Belo Monte, Marina demonstra bom senso político e reconhece a relevância da controvérsia e a necessidade de se debater a questão.

Já Dilma, por outro lado, tem utilizado de todos os artifícios para calar os questionamentos de diversos setores da sociedade civil e barrar as suas demandas por maior participação em uma decisão que não é somente técnica, mas também política. Entre outras tantas ações autoritárias e anti-democráticas, podemos citar: 
  • o remanejo de pessoas de seus cargos para aprovar projetos sem passar pelos devidos trâmites institucionais de aprovação de mega-obras como Belo Monte; 
  • o desrespeito aos direitos de consulta prévia dos índios e ribeirinhos que vivem na região; 
  • o apoio incondicional a máfia de superfaturamento capitaneada por Sarney, que lucra há décadas com a construção de hidroelétricas no país; 
  • o total descaso para com as demandas por maior debate e discussão da matriz energética;
  • retaliação política à atuação das ONGs que apoiam os índios e ribeirinhos atingidos pela construção de Belo Monte;
  • a total falta de fiscalização e regulamentação das condições de trabalho nas grandes obras do PAC;
  • a incapacidade de gestão e planejamento de uma infraestrutura adequada para as mudanças que as cidades do entorno dessas obras estão passando devido ao aumento radical da população local, ocasionada pela chegada de milhares de trabalhadores.  

Pois é Dilma, parece que você tem muito o que apreender com Marina. Assista o vídeo, uma verdadeira aula de "cidadania":

terça-feira, 17 de abril de 2012

O Massacre de Eldorado dos Carajás: 16 anos depois

Em 17 de abril de 1986, dezenove sem-terra foram brutalmente assassinados no município de Eldorado dos Carajás devido à ação da polícia militar do Estado do Pará, encarregada pelo então governador a desobstruir a rodovia BR-155. Devido à sua gravidade, este evento emblemático entrou para a história como um marco da trajetória de luta política recente por reforma agrária no Brasil, tornando-se o "Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária".

Enquanto evento crítico, a tragédia marca a conturbada passagem de um regime político ditatorial (onde os movimentos sociais eram tratados como 'caso de polícia') para o início de um processo lento rumo ao estabelecimento da democracia. Outros eventos com o mesmo grau de relevância ocorreram na década de 1990, como o massacre na Praça da Matriz, em Porto Alegre, e outras manifestações políticas brutalmente combatidas por uma Polícia Militar despreparada para abordar o problema em um contexto de democracia recente. A violência que perpassa a ação das forças policiais é o indicio de um autoritarismo gestado em anos de militarismo e mandonismo, onde as questões sociais eram reprimidas sem qualquer parcimônia. Foram esses eventos que permitiram - na medida em que se tornaram paradigmas ou bandeiras de ação política - 'inventar' uma nova forma de luta social no campo da reforma agrária: as manifestações públicas (como marchas, comícios e passeatas) e as ocupações de terras improdutivas. Esses novos instrumentos de luta política conseguiram romper minimamente com o silêncio pós-abertura democrática, marcado pelo imobilismo político e a total ausência de discussão séria sobre os problemas estruturais que levaram ao golpe militar de 1964 (entre eles, a reforma agrária). Com isso, criou-se um espaço descontínuo entre a forma como o problema afeta diversos setores da sociedade civil e a total incapacidade governamental de abordar a questão com seriedade, a partir de políticas públicas sólidas e duradouras. O que se vê, de fato, é uma política fragmentada e em grande parte desorganizada de pequenas concessões sem qualquer planejamento administrativo.        

O Massacre de Eldorado dos Carajás é um símbolo importante de uma questão social e política ainda não resolvida pelo governo brasileiro: a reforma agrária. As políticas nessa área ainda são insuficientes diante da magnitude estrutural (e estruturante) da questão agrária para o desenvolvimento sustentável da sociedade como um todo. A despolitização do tema - acompanhada pela sua transformação em 'problema técnico' - levou a emergência de um campo alternativo de luta política e resistência, os movimentos sociais camponeses. Apesar da incapacidade dos governos em tratar a questão com a devida seriedade, o tema é polêmico e se desdobra em inúmeras batalhas civis e cotidianas entre os 'ruralistas' e sem-terra.

Em 2003, tive a oportunidade de acompanhar de perto uma dessas batalhas: o eminente conflito entre uma marcha de sem terra e uma 'contra-marcha' de ruralistas na região de São Gabriel, no Rio Grande do Sul, devido aquela que poderia ter sido (mas não foi) a primeira grande desapropriação de terra do então recém-eleito governo Lula. Até hoje as famílias de sem terra continuam acampadas na região, aguardando pelo encaminhamento da questão.

De fato, a problemática que está na origem desta tragédia ainda se faz presente como realidade contemporânea na vida de milhares de brasileiros e brasileiras. A ausência dos meios materiais (a terra, a tecnologia, etc.) para os camponeses se reproduzir socialmente e economicamente - ao lado de um dos maiores índices de concentração fundiária - resulta em uma guerra que perpassa diversos setores da sociedade civil. Infelizmente, os governos não tem assumido a responsabilidade de dar a devida relevância que o tema exige na agenda política nacional.

Ao mesmo tempo, assistimos ao crescimento das vítimas dessa batalha cruel, com o constante assassinato de lideranças políticas envolvidas diretamente com a luta por reforma agrária. Sem falar que 16 anos após o massacre de Carajás, os 155 policiais envolvidos na ação permanecem soltos e ainda não foram condenados criminalmente. E não se trata aqui de uma exceção, mas de uma tendência que se faz presente na histórica impunidade daqueles que agem fora da lei, abusando da sua autoridade de forma indevida e inconstitucional, ceifando vidas de trabalhadores rurais que lutam por seus direitos políticos.    

Como podemos ver, passaram-se 16 anos e ainda é preciso relembrar. Em 2008, tive a oportunidade de cruzar pelo fatídico local onde ocorreu a tragédia. Havia lá cruzes em estado de  abandono onde deveria haver um museu ou algo do gênero. É preciso reforçar a memória coletiva e reafirmar constantemente o significado de eventos históricos como este. Para que não se perca junto com as vidas o sentido da luta, é preciso dar vida a história recente através da produção de monumentos da memória. Reviver o passado é também uma forma de construir o futuro. O esquecimento, neste caso, significa a incapacidade reflexiva de reviver o tempo vivido, repleto de sangue, carne e suor. Esse tempo - que reaparece constantemente em outras formas, que se reproduz entre as novas gerações de sem-terra, que afeta a vida e que produz novas vítimas a todo momento - esse tempo da experiência histórica precisa ser sustentado pela ação de relembrar e de reviver os momentos significativos de nossa história recente. Ao não fazermos isso, corremos o sério risco de andar para sempre em círculos intermináveis, de reproduzir constantemente os mesmos problemas, as mesmas demandas, as mesmas mentalidades e formas de ação política que nos conduziram ao insucesso e a tragédia.

Para avançar é preciso tornar o passado significativo (no presente). A melhor forma de fazer isso é reafirmar a importância e o significado que perpassa essa grande tragédia humana que foi (e continua sendo) Eldorado dos Carajás.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A violação dos direitos humanos em Belo Monte e Jirau

Na semana passada, teve início no canteiro de obras de Belo Monte um protesto motivado pela morte do operador de moto serra, Francisco Lopes, no sítio Pimentel. A manifestação teve como objetivo chamar a atenção do governo e da sociedade para uma série de irregularidades existentes na região da hidroelétrica, principalmente, no campo da segurança do trabalho: salários baixos, péssimas condições de infra-estrutura e demissão de lideranças trabalhistas. Apesar do governo Dilma afirmar que a construção de grandes hidroelétricas resulta em empregos para a população, o que se percebe na prática é uma situação de sub-emprego, onde os trabalhadores se submetem a péssimas condições de trabalho por necessidade, chegando a colocar a própria vida em risco.

Ao mesmo tempo, em Rondônia, trabalhadores da hidroelétrica Jirau colocaram fogo em um alojamento para protestar contra as péssimas condições de trabalho no local. Apesar dessas obras serem financiadas, em grande parte, com verbas públicas, a administração está na mão das empreiteiras e o governo não faz qualquer esforço em fiscalizar a situação na região.

Por outro lado, o governo Dilma continua intransigente em relação às demandas políticas colocadas pelos índios e ribeirinhos que vivem na região de Belo Monte, ao mesmo tempo que promove, nas diferentes instâncias do governo federal, um verdeiro 'cerco' às ONGs ambientalistas. Num exemplo claro de autoritarismo e anti-democracia, o atual governo prefere proteger o esquema de super-faturamento financiado por Sarney e seus comparsas ao invés de permitir que a sociedade brasileira discuta o atual modelo de geração de energia elétrica. Através de ações perversas e autoritárias, pessoas são removidas de seus cargos na FUNAI e no IBAMA para facilitar a aprovação e liberação de obras mal planejadas e até mesmo ilegais.

Mas não são apenas os trabalhadores que sofrem com o descaso governamental e a ganância dos investidores. Uma série de reportagens apresentadas no Jornal Nacional apontam que as populações que vivem em cidades localizadas nas imediações da hidroelétrica de Jirau continuam 'abandonadas', expressão utilizada por diversas pessoas que vivem na região. As promessas de melhoria da infra-estrutura não foram colocadas em prática e a situação piorou bastante com o aumento radical da população local. Não existem médicos nos hospitais, policiais nas delegacias e professores nas escolas, sem falar que a rede de serviços é praticamente inexistente. Com isso, pessoas que, no passado, defenderam a instalação da obra na região devido às promessas de melhoria feitas pelas empreiteiras e pelo governo, percebem agora que fizeram a opção equivocada, que foram enganadas e abandonadas.

Apesar disso, no entanto, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República pretende retirar do relatório da CDDPH o capítulo sobre a violação de direitos humanos em Belo Monte. Ao mesmo tempo, a mesma secretaria demonstra morosidade no que se refere ao combate aos crimes contra lideranças indígenas no Mato Grosso, sem falar no total descaso frente ao assassinato de lideranças ribeirinhas na Amazônia, fato recorrente na região.

No vídeo institucional de promoção da Rio+20 (uma obra de ficção científica), o modelo hidroelétrico de geração de energia é apresentado como o 'mais limpo do mundo'. Percebe-se aqui, mais uma vez, um equivoco grave. Afinal, o impacto ambiental e social de obras como Belo Monte é um fato técnico e político que deve ser contabilizado. Além do mais, trata-se de uma mentira, pois existem, sim, formas de geração de energia mais 'limpas' do que o modelo hidroelétrico, apesar de não fornecerem a mesma oportunidade de super-faturamento em grande escala que as mega-obras fornecem às empreiteiras.    

A ironia de tudo isso é que esse mesmo governo se apresenta ao mundo como o país do 'desenvolvimento sustentável', buscando capitalizar a Rio+20 como um instrumento político de auto-promoção. Um governo que promove a destruição de florestas e rios, que financia o desvio de verbas públicas e o esquema de super-faturamento coordenado por Sarney, não pode se apresenta agora como o grande 'defensor' do desenvolvimento sustentável. Só se o adjetivo 'sustentável' significar aqui a 'sustentação' de um modelo de desenvolvimento predatório colocado em prática no Brasil desde 1930 e que teve nos governos militares o seu apogeu.

Pelo jeito, a presidenta Dilma tem memória curta. Esqueceu que a política 'desenvolvimentista' sempre foi a grande bandeira de luta de seus antigos algozes e inimigos políticos. Afinal, mega-políticas de desenvolvimento, principalmente, quando sustentadas por práticas autoritárias e anti-democráticas, foram gestadas nos porões da ditadura militar. Essa mesma política teve continuidade nos governos mais recentes. O projeto de Belo Monte, por exemplo, foi retomado durante o governo FHC e, na época, foi duramente criticado por Lula e outros membros do PT. Afinal, não podemos esquecer que, nas eleições de 2002, Lula incluiu em seu programa de governo a afirmativa de ruptura com o modelo de geração de energia hidroelétrica existente na época (o mesmo de hoje), criticando duramente a construção e o superfaturamento de grandes obras e denunciando os seus impactos sociais e ambientais. Mas o mundo dá voltas e essas mesmas pessoas defendem hoje o que combateram no passado.    

É realmente lamentável que um governo que se diz de centro-esquerda e social-democrata (a moda atual da política brasileira) não tenha a capacidade de inventar um novo caminho, uma nova estrada, de alimentar novos sonhos e visualizar uma nova sociedade. Ao contrário disso, os correligionários de Dilma continuam promovendo a ignorância política, o mandonismo autoritário e a ausência de debate participativo. Com isso, segue-se aqui no Brasil o mesmo caminho traçado pelas grandes potências, que destruíram os índios e a natureza em nome da construção de uma sociedade 'insustentável' em médio e longo prazo.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Ontological Politics - Annemarie Mol

"These have to do with ontological politics. They have to do with the way in which 'the real' is implicated in the political and vice versa.(...) Ontological Politics is a composite term. It talks of ontology - which in standart philosophical parlance defines what belongs to the real, the conditions of possibility we live with. If the term 'ontology' is combined with that of 'politics' then this suggests that the conditions of possibility are not given. That reality does not precede the mundane practices in which we interact with it, but is rather shaped within this practices. So the term politics works to underline this active mode, this process of shaping, and the fact that its character is both open and contested. To be sure, is has always been assumed that 'reality' is not entirely immutable. Such was the point of technology - and indeed politics. These worked on the assumption that the world might be mastered, changed, controlled. So within the conventions of technology and politics the question of how to shape reality was open: at some point in the future it might be otherwise. But along with this it was assumed that the building blocks of reality were permanent: they could be uncovered by means of sound scientific investigation. Over the last two decades, however, they have been undermined, these neat divisions between present and future; between that which is well-set and that which is still-to-be-formed; between the building blocks that are given and the modes by which they might be differently adjusted.

This work - of which actor network theory  did quite a bit but that it by no means did alone - has robbed the elements that make up reality - reality in its ontological dimension - of its alleged stable, given, universal character. It has argued, instead, that reality is historically, culturally and materially located. Located where? The answer depends on the field in which it is given. In social studies of science it was the laboratory that was rediscribed as a sociomaterial practice where reality is transformed and where news ways of doing reality are crafted. From there they are exported, not so much in the form of theory but rather - or at least as much - in the shape of vaccinations, microchips, valves, combustion engines, telephones, genetically manipulated mice and other objects - objects that carry new realities, new ontologies, with them.


Ontologies: note that. Now the word needs to go in the plural. For, and this is a crucial move, if reality is done, if it is historically, culturally and materially located, then ir is also multiple. Realities have become multiple".

Ontological  Politics  (ANT and After) - Annemarie Mol 

A Constituição Moderna segundo Latour: purificação e hibridização

"A hipótese deste ensaio - trata-se de uma hipótese e também de um ensaio - é que a palavra 'moderno' designa dois conjuntos de práticas totalmente diferentes que, para permanecerem eficazes, devem permanecer distintas, mas que recentemente deixaram de sê-lo. O primeiro conjunto de práticas cria, por 'tradução', misturas entre gêneros de seres completamente novos, híbridos de natureza e cultura. O segundo cria, por 'purificação', duas zonas ontológicas inteiramente distintas, a dos humanos, de um lado,  e a dos não-humanos, de outro. Sem o primeiro conjunto, as práticas de purificação seriam vazias ou supérfluas. Sem o segundo, o trabalho da tradução seria freado, limitado ou mesmo interditado. (...) Enquanto considerarmos separadamente estas práticas, seremos realmente modernos, ou seja, estaremos aderindo sinceramente ao projeto da purificação crítica, ainda que esse se desenvolva somente através da proliferação dos híbridos. A partir do momento em que desviamos nossa atenção simultaneamente para o trabalho de purificação e o de hibridização, deixamos instantaneamente de ser modernos, nosso futuro começa a mudar" (16).

Jamais fomos modernos - B. Latour

Como podemos ver acima, a proposta de Latour não consiste em voltar a atenção apenas para as práticas de hibridização, mas também para as práticas de purificação. Afinal, é a relação entre esses dois conjuntos de práticas que constitui a possibilidade de transformar a própria modernidade (enquanto discurso e prática) em um fenômeno passível de descrição e reflexão etnográfica. Essa orientação da pesquisa surge em outro trecho do mesmo livro:

"A tarefa da antropologia do mundo moderno consiste em descrever da mesma maneira como se organizam todos os ramos de nosso governo, inclusive da natureza e das ciências exatas, e também em explicar como e por que estes ramos se separam, assim como os múltiplos arranjos que os reúnem. O etnólogo de nosso mundo deve colocar-se no ponto comum onde se dividem os papéis, as ações, as competências que iram enfim permitir definir certa entidade como animal ou material, uma outra como sujeito de direito, outra como sendo dotada de consciência, ou maquinal, e outra ainda inconsciente ou incapaz. Ele deve até mesmo comparar as formas sempre diferentes de definir ou não a matéria, o direito, a consciência, e a alma dos animais sem partir da metafísica moderna. Da mesma forma que a constituição dos juristas define os direitos e deveres dos cidadãos e do Estado, da mesma esta Constituição - que escrevo com maiúscula para distingui-lá da outra - define os humanos e não-humanos, suas propriedades e suas relações, suas competências e seus agrupamentos" (Idem, p. 20-1).

Não se trata, portanto, de negar ou criticar (antes mesmo de analisar) a "Constituição Moderna" (identificada pela correlação entre purificação e hibridização), mas em buscar descrever como essa constituição é colocada em prática em diferentes contextos, ou seja, analisá-la em ação.

Não tenho dúvida de que a objetividade científica, por estar associada simultaneamente a práticas de purificação e hibridização, não somente envolve modos históricos de objetivação (estratégias discursivas e  materiais de transformação dos fenômenos em objetos), como essas formas também dependem de um conjunto de práticas disciplinares associadas a construção de uma determinada subjetividade (neste caso, uma 'intersubjetividade'). Ao descrever como o objetivismo histórico é construído nas diferentes áreas científicas, leva-se adiante o projeto de uma antropologia simétrica.

Já uma perspectiva assimétrica, neste caso, consistiria em voltar o olhar etnográfico apenas para as práticas de hibridização, buscando velar ou desconstruir o outro conjunto de práticas mencionado por Latour, as chamadas práticas de purificação (e o que é pior, em tom de denúncia retórica). Essa 'anulação' do pensamento do 'outro' foi uma prática histórica comum em relação aos índios, por exemplo, assim como em relação a outros coletivos visados pelo olhar antropológico. Dizer que os atores não sabem o que estão dizendo quando dizem que sabem o que estão fazendo é uma forma de constituir um atalho, um recorte, uma linha que permite impor sobre o outro uma linguagem conceitual exógena e avassaladora.

Talvez seja o momento de retornarmos a boa etnografia, voltada para a reflexão sobre a relação tensa entre pensamento e ação. Na antropologia da ciência, isso implica em voltar a atenção para esses dois conjuntos de práticas científicas - purificação e hibridização - sem negligenciar nenhum deles, levando em conta a relação tensa que existe entre esses dois aspectos do pensamento 'moderno'. 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Astrofísica e Objetivismo Científico (2ª Versão)

Um dos efeitos dos estudos sociais da ciência é a popularização da crítica (a priori) do objetivismo científico, ora acompanhada da defesa da ideia de que ele já não existe mais enquanto pressuposto  (um absurdo etnográfico), ora promovendo uma desautorização explícita do discurso e da fala dos próprios pesquisadores (uma atitude de autoritarismo epistemológico um tanto objetivista). Resulta dessa crítica uma batalha científica e epistemológica de grandes proporções que não representa nenhuma novidade no mundo ocidental.

De fato, os postulados naturalistas do conhecimento 'objetivo' como critério de cientificidade, assim como as práticas geradas pelo pressuposto da existência de uma Natureza objetiva, são formas históricas de pensamento que orientam parte das práticas de conhecimento nos laboratórios e instituições de pesquisa ocidentais. Essa ontologia objetivista produz coisas e leva o cientista a aproximar-se dos fenômenos a partir da tentativa de domesticação da subjetividade, projeto sempre inacabado e incompleto. As práticas de purificação também agem sobre o corpo e a mente dos pesquisadores, como forças disciplinares. Esse ideal de construção do conhecimento, cujo evento paradigmático é, certamente, o método de Descartes, ainda está vivo e atuante nas diferentes ciências ocidentais. Ele gera formas de disciplinarização do corpo e da mente e está associado a um conjunto arbitrário de modos de objetivação/subjetivação de coisas e pessoas. Trata-se, além de uma epistemologia, de um fenômeno histórico e político já bem consolidado na história ocidental. Inclusive, a crítica epistemológica e filosófica à pretensão de uma parte desses objetivistas (históricos) em promover o pensamento objetivo como o único caminho para alcançar a verdade não é nenhuma novidade  e já vem sendo feita ha muito tempo.

Os estudos da ciência percorreram outro caminho, tão importante quanto o caminho da filosofia crítica e experimental de autores como Husserl, Heidegger e Rorty, entre outros. Ao revelar os mecanismos discursivos e materiais que estão na origem da construção dos objetos (ou fatos) científicos, os estudos mais etnográficos ajudaram a historicizar e culturalizar o próprio 'objetivismo', que até então era analisado, em grande parte, como um paradigma filosófico ou epistemológico.

Ao fazer isso, no entanto, em nenhum momento negou-se a própria existência do fenômeno. Ora, apesar dos objetos não serem um reflexo imediato de uma Natureza intocada, esses estudos descrevem a forma como as coisas (e até mesmo as pessoas) são tornadas 'objetos' nas mais diferentes ciências. A crítica, portanto, não é epistemológica, mas ontológica. O que os estudos sociais da ciência demonstraram é que os cientistas não somente pensam assim, mas agenciam o mundo a sua volta de forma a reproduzir sinais que indiquem a existência de fenômenos mais ou menos 'objetivos' (no sentido de 'pensados enquanto objetos de determinada ordem').

Quando se busca objetos, o resultado da busca não pode ser nada além de 'objetos'. De fato, o objetivismo não é ignorado ou simplesmente criticado, mas descrito minuciosamente, em detalhes, como um fenômeno humano. Inclusive, é esse duplo movimento de descrição e desvelamento que vai revelar, ao lado das práticas de purificação dos objetos, as práticas de hibridização de coisas e pessoas, de natureza e cultura. A crítica, neste caso, é essencialmente etnográfica.  

Antes de promovermos uma marcha (a priori, de ordem epistemológica) contra a ontologia naturalista, devemos enraizá-la no devir histórico e humano, livrando-a da pretensão de universalidade, inserindo-a em um conjunto mais amplo de ontologias possíveis, colocando-a novamente no seu devido lugar. Somente essa atitude irá nos revelar os aspectos positivos e negativos dessa forma de construir o conhecimento, o que os seus instrumentos capturam e o mundo de coisas, pessoas, sentimentos, forças, linhas dispersivas e rebeldes,  que não são capturadas por essa malha fina. Nesse percurso, algumas questões iniciais são fundamentais:

Quais são os pressupostos ontológicos dos cientistas brasileiros, nas diferentes áreas do conhecimento? Como esses pressupostos estabelecem uma relação de circularidade com os aparelhos e os sinais que permitem a sua objetivação nas instituições de pesquisa? Quais os modos de subjetivação colocados em prática para sustentar esses objetos? Quais são os instrumentos de coleta, produção e sistematização de dados e quais são as suas implicações no processo de produção dos objetos científicos? Como os fatos científicos são construídos dentro e fora do laboratório?

O pano de fundo para a elaboração dessas questões foram enunciadas pela primeira vez em um livro germinal no campo dos estudos da ciência, Vida de Laboratório, publicado ao final da década de 1970. Nesse livro, fazendo uso da 'etnometodologia", Latour e Woolgar acompanham o cotidiano de um laboratório, descrevendo o seu funcionamento e os aparelhos e instrumentos utilizados para a construção dos fatos científicos. Descrever os processos coletivos que estão na origem da construção da objetividade é uma tarefa explicitamente proposta pelos próprios autores:

"Mais importante que o respeito por um 'vivido' tantas vezes apresentado, uma única questão antropológica domina este relato: como a objetividade que não tem a sociedade por origem é produzida por essa sociedade? Para falar como Bachelard, como é feito um fato? Para falar como Serres (1987), como o objeto chega ao coletivo? Para falar como Shapin e Schaffer (1985), como a política da experiência produz uma experiência infinitamente distante de toda política? Para dizer como Bloor, como o conteúdo emerge de seu contexto? É unicamente com relação a essa questão diversamente formulada que se deve julgar os limites desta primeira pesquisa de campo" (1979: 34).   

Conforme Latour demonstrou muito bem em um livro posterior - Jamais Fomos Modernos (1991) - apesar do trocadilho do título, muito mais do que desconstruir os grandes divisores da modernidade, o etnógrafo da ciência deve estar comprometido com a descrição do funcionamento desses grandes divisores e na relação tensa e contraditória entre as práticas de hibridismo e purificação. Afinal, negar discursivamente a existência do objetivismo científico não resulta também no velamento das relações de poder que ele produz e que o produzem, exatamente aquilo que se pretende revelar ou descrever?

A etnografia da ciência em ação...

O Departamento de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP) adquiriu recentemente um supercomputador, avaliado em mais de US$ 1 milhão e composto por três torres do tamanho de geladeiras domésticas que, juntas, pesam cerca de 3 toneladas. Essa máquina computacional possui mais de 2 mil núcleos de processamento de dados, voltados exclusivamente para pesquisas astronômicas mundiais. Segundo o astrofísico Alex Carciofi, nenhuma outra instituição da área está equipada com essa capacidade de processamento de dados, tanto no que se refere à quantidade, como também no que se refere à capacidade de correlação, sistematização e cálculo de informações matemáticas. Esse computador, conforme anunciado pelos astrofísicos paulistas, tem a capacidade de aumentar "o grau de realismo físico" e rodar um maior número de "equações matemáticas".

O investimento é justificado pelos pesquisadores devido à "importância dos modelos matemáticos" para as pesquisas astrofísicas, incluindo também os estudos da teoria do multiverso. Tanto as equações como os aparelhos que as produzem são utilizadas diariamente nas instituições de pesquisa de diferentes áreas do conhecimento, em atividades cotidianas.

Mesmo os cosmólogos e astrólogos que defendem a existência de múltiplos mundos ou universos, fazem isso a partir de equações e modelos matemáticos, com o auxílio de poderosas máquinas de cálculo e computação como esta. De fato, a hipótese de múltiplos universos resulta do objetivismo científico tanto quanto do mono-naturalismo, pois é a mathesis (enquanto ciência numérica) que fornece os meios e a linguagem para a tradução e produção das informações e do conhecimento.

É claro que o objetivismo não está sozinho, pois ali, no laboratório, este templo sagrado das ciências ocidentais, outras formas de conhecimento não domesticadas, da ordem das qualidades sensíveis, também estão em ação, entrando em maior ou menor tensão com as equações matemáticas geradas pelos aparelhos. Muito mais do que negar o pensamento dos cientistas e seus pressupostos, devemos analisar como os processos de purificação e hibridização, de objetivação e subjetivação, entram em ralação nas instituições de pesquisa. Para isso, é necessário e fundamental fazer uma etnografia das ciências e, principalmente, etnografia simétrica, comprometida em levar a sério o que as pessoas dizem e pensam sobre o que estão fazendo, além de observar o que elas estão fazendo na prática.    

Da mesma forma, a maior parte das instituições de pesquisa, assim como das atividades e práticas científicas em andamento em diferentes regiões do Brasil e do mundo, trabalha com os pressupostos do objetivismo científico, construindo conhecimentos, fatos, objetos, produtos, relações de poder, etc,  a partir de informações quantitativas, cálculos matemáticos, gráficos e equações numéricas.

Tendo em vista que uma das maiores tarefas da etnografia da ciência é experimentar com o pensamento dos cientistas, a sua linguagem conceitual, seus aparelhos e objetos de trabalho, a crítica (pelo menos a priori) ao objetivismo científico torna-se anti-produtiva, além de extremamente assimétrica do ponto de vista epistemológico. Afinal, desconsiderar ou desautorizar o pensamento nativo é uma atitude bastante moderna, para não dizer modernizante. Antes de pregarmos a desconstrução do naturalismo ocidental, devemos fazer etnografia e acompanhar a ciência em ação.      

sábado, 24 de março de 2012

A reprodução do pensamento autoritário

"Como chegar a esta estrutura inconsciente?  (...)  Mostrando instituições que se transformam, esta, sozinha, permite destacar a estrutura subjacente a formulações múltiplas, e permanente através de uma sucessão de acontecimentos. (...) Assim, a etnologia não pode permanecer indiferente aos processos históricos e às expressões mais altamente conscientes dos fenômenos sociais. (...) Sua finalidade é atingir, além da imagem consciente e sempre diferente que os homens formam de seu devir, um inventário de possibilidades inconscientes, que não existem em número ilimitado; e cujo repertório e as relações de compatibilidade ou incompatibilidade que cada uma mantém com todas as outras fornecem uma arquitetura lógica a desenvolvimentos históricos que podem ser imprevisíveis, sem nunca ser arbitrários". 

História e Etnologia - Lévi-Strauss 

Diante da crença na linearidade da história, outro efeito do mito do progresso nacional, fatos extremistas como os planos de fascistas contra estudantes de ciências sociais da Universidade de Brasília revelam que o pensamento autoritário forjado por um Estado Ditatorial não desapareceu com os militares, mas continua sobre outras formas, disperso nas micro-relações diárias, na atitude de pessoas comuns, emergindo em surtos aparentemente isolados, mas constantes no cotidiano nacional. A intolerância diante da opinião política e ideológica do 'outro' é o reflexo de uma atitude comum em diversos setores da nossa sociedade: a incapacidade de refletir sobre os eventos que marcaram e continuam marcando a vida nacional. As informações são substituídas da arena pública numa rapidez impressionante. Os fatos se sucedem com tamanha rapidez que não há tempo para a reflexão.

Já tive a oportunidade de comentar aqui as reportagens fascistas de revistas como a Veja, formuladas a partir de mentiras e informações imprecisas, alimentando a incerteza diante de conquistas importantes dos índios, ribeirinhos e povos tradicionais que vivem no território brasileiro. A fábula midiática incita o ódio e o rancor diante da diversidade de opiniões. Com isso, todos perdemos. No caso de Brasília, salvaram-se em tempo os estudantes de um possível massacre. Mas estaremos realmente protegidos de outros surtos como este?

O pensamento autoritário não é uma particularidade do extremismo político e ideológico, pois está presente também na atitude fascista diante da diversidade sexual, racial e religiosa. Afinal, acompanhamos 'ao vivo' cenas de violência e preconceito gratuito: ataques contra homossexuais na Avenida Paulista; espancamentos de negros, mendigos e prostitutas; assassinatos de lideranças indígenas e ribeirinhas; a emergência de forças paramilitares nos morros cariocas; a violência e a irresponsabilidade no trânsito; a 'parceria' entre as forças de segurança pública, os políticos e os criminosos.

No Brasil como em outros países de democracia recente, a política é um campo de batalha que produz novas vítimas a todo momento. E uma parte da população assiste a tudo isso como se estivesse diante de um cenário cinematográfico. Junto com a reprodução prática da mentalidade e do comportamento autoritário, alimenta-se no imaginário nacional a crença no 'progresso' e no 'desenvolvimento'. Acreditamos estar 'evoluindo', mesmo sem saber ao certo se essa suposta evolução nos conduz ao passado ou ao futuro.  

É a mesma lógica que incita o intervencionismo autoritário do governo diante dos ribeirinhos e povos indígenas, passando por cima dos seus direitos constitucionais, em defesa do grande capital e do lucro das grandes empresas do setor hidroelétrico. Todos sabemos que Belo Monte é apenas a ponta do iceberg. Por trás desta obra reside todo um vasto esquema de corrupção financiado politicamente por Sarney e seus mandatários. É esse mesmo esquema que incita o descaso com o meio ambiente, a destruição das florestas e dos rios em nome de um produtivismo agro-industrial voltado para o mercado externo, onde os grandes fazendeiros e grileiros são os únicos que lucram. Diante disso, assistimos a uma substituição da biodiversidade pelo 'mono-agro-culturalismo', no lugar de plantas e animais, agora vemos vacas e bois espalhando-se pela Amazônia. Um exército bovino em marcha contra a sociobiodiversidade.

O 'desenvolvimento', neste caso, tem um objetivo muito específico: reproduzir as forças do colonialismo interno. De fato, estamos diante de uma forma de pensar a política e a sociedade forjada ainda nos primeiros séculos de domínio colonial: consumir com nossos bens naturais e culturais em nome do benefício e do lucro privado de uma elite que vê o Brasil como uma fonte de riqueza pessoal.

Mas o pensamento autoritário produz árvores a partir de antigos rizomas: a militante de ontem vira a tecnóloga de hoje! Na superficialidade da mudança histórica, nos interstícios do 'progresso' e do 'desenvolvimento nacional', esconde-se a lógica da reprodução estrutural de mentalidades autoritárias, agora camufladas por trás de um social-nacionalismo tupiniquim. O autoritarismo pseudo-nacionalista (porque extremamente colonialista), promove e incita o descaso para com as demandas dos povos indígenas e tradicionais. Os movimentos sociais estão fora da pauta do governo, que age para barrar toda e qualquer resistência a sua política desenvolvimentista.

Com isso, a sociedade brasileira dá um exemplo etnográfico claro de que as mudanças políticas e institucionais não resultam, necessariamente, em mudanças de mentalidade. Quanto mais tudo parece mudar, mais as coisas tendem a se reordenar de forma a reproduzir tendências e mentalidades 'profundas', que agem inconscientemente (ou conscientemente), ali onde a razão é subvertida pela emoção e o desejo.


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