Não sou contra Feliciano porque ele é Evangélico! Isso seria racismo religioso e a CF é clara nesse ponto: a opção religiosa é um direito civil. Apesar de não ser evangélico, defendo a liberdade de expressão religiosa e a boa convivência entre membros de religiões diferentes no âmbito de um Estado laico. Mesmo sabendo que muitos pastores evangélicos incitam o ódio contra membros de outras religiões, pregando que as mesmas são expressões diabólicas ou coisas do gênero - atitude, diga-se de passagem, compartilhada por católicos conservadores - também sei que essas noções, por mais etnocêntricas que sejam, integram suas cosmologias. E conforme reza o ditado popular, religião não se discute. Ora, enquanto eles se limitarem a expressar essas opiniões no âmbito do culto de suas igrejas, não vejo problema nisso. Certamente, não faltam vozes contrárias no cenário político contemporâneo. Agora, quando esse etnocentrismo é transformado em intolerância e gera ações de violência, deve ser tratado como um desrespeito à alteridade ideológica ou religiosa, algo inaceitável e proibido em lei. As pessoas que incitam a violência contra a opinião alheia devem ser presas, não por terem esta ou aquela religião, mas devido ao teor racista de suas ações e por desrespeitarem um preceito constitucional extremamente importante: a liberdade de expressão.
Sou contra Feliciano porque ele incita o ódio, fazendo uso da moral religiosa para se promover e promover o preconceito de gênero e a homofobia. Mas essa atitude não reflete sua opção religiosa, mas a intolerância de certos setores da sociedade civil para com a alteridade, seja ela qual for. A censura da alteridade (de gênero, raça, religião, etc) é um fenômeno mais amplo do que a homofobia e revela traços herdados de uma história de arbitrariedades políticas promovidas por ditaduras e governos civis.
No entanto, mesmo diante do etnocentrismo autoritário, a censura e o totalitarismo ideológico ou religioso não é a solução. Assim como não podemos exigir que todos os políticos sejam ateus ou argumentar que tal descrença em Deus (ou entidades similares) é ou já foi indicio de uma política coerente ou justa, também não podemos partir do pressuposto que política e religião são coisas completamente distintas e divergentes, principalmente, quando a história demonstra exatamente o contrário. Existe algo de religioso em todo pensamento político, assim como há algo político em toda atitude religiosa. Acreditar que o culto de lideranças políticas é completamente diferente do culto religioso de santos e outras entidades significa compartilhar de outra crença, essa sim, muito mais destrutiva e anti-humanista: a crença de que o exercício da política pode ser reduzido aos seus aspectos racionais e técnicos.
Por mais que eu não concorde com o pensamento de Feliciano, defendo sua liberdade de expressão, desde que essas opiniões não resultem em ações violentas e ataques às pessoas que pensam diferente e também têm o direito de se pronunciar. Afinal, outro preceito constitucional do Estado de Direito é a convivência pacífica entre múltiplas perspectivas políticas, religiosas, literárias, jornalísticas e científicas. Em uma democracia, não podemos simplesmente censurar todas as vozes contrárias, o que parece ser a vontade política de muito militante, seja de esquerda ou de direita. Quanto ódio já não foi disseminado em nome de ideologias e pensamentos políticos? Quantas atrocidades já não foram cometidas em nome da técnica e da razão?
No caso de Feliciano, a polêmica maior se dá pelo fato de uma pessoa que defende tais ideias estar presidindo uma comissão de direitos humanos, essa é a questão fundamental e o que gerou e ainda gera a indignação coletiva nas redes sociais e nos meios de comunicação. Devido ao histórico de luta por direitos humanos no Brasil - marcado pelo compromisso com os direitos políticos e civis das minorias - é uma contradição inaceitável que uma pessoa que dá declarações fascistas, homofóbicas e preconceituosas, presida uma comissão que foi fundada exatamente para combater esse tipo de discurso.
E é exatamente isso que Marina Silva vem dizendo desde que surgiu a polêmica, basicamente, "ele não está no lugar certo, não por ser evangélico, mas por defender o que defende". Marina tem se esforçado para ponderar que o problema não é a religião de Feliciano, mas o uso que ele faz da religião para incitar o ódio e o preconceito para com toda e qualquer alteridade. A questão é que ele está em um lugar historicamente ocupado por pessoas que pensam e defendem ideias exatamente opostas às suas e está despreparado para exercer a função que essa comissão tem exercido desde que foi instituída: lutar pelos direitos das minorias. Ou seja, estamos diante de uma situação onde os representados se rebelaram contra um porta-voz, que, de fato, não os representa adequadamente. Mas isso não tem nada haver com a sua religiosidade (ou pelo menos não deveria ter).
Agora, o fato dos governistas fazerem uso deste ponderamento para tentar deslegitimar uma provável candidatura da Marina é anti-ético e injusto (ver matéria publicada recentemente na Carta Capital). Ainda mais vindo de quem vem. Afinal, foi a 'política de alianças' do Governo Dilma que levou Feliciano a ocupar a presidência da Comissão de Direitos Humanos: negociar cargos públicos como se fossem 'bens partidários' dá no que dá.
Mas esse discurso de "denúncia" em relação à opção religiosa da Marina Silva - que é evangélica por opção de vida - revela, de fato, um preconceito subliminar que nos remete às nossas heranças católicas. Afinal, nunca vi ninguém reclamar do fato de um candidato ser "católico", por exemplo, apesar da nossa história estar repleta de presidentes católicos. O fato de um crucifixo ter lugar de destaque no STF e em outros ambientes governamentais não parece gerar a mesma polêmica.
Aliás, não foi Dilma que, nas últimas eleições, retrocedeu no debate sobre o aborto para não enfrentar os eleitores cristão (sejam eles evangélicos ou católicos)?
Ora, não entendo porque um católico assumido - seja ele praticante ou não - pode exercer o mandato de presidente sem ter sua religiosidade questionada enquanto membros de outras religiões são perseguidos devido à sua opção religiosa?
Marina, por diversas vezes, já declarou que será presidente de todos e não apenas dos evangélicos. De fato, em nenhum momento, ela se colocou como representante desse setor da sociedade. Inclusive, sua trajetória pessoal demonstra claramente que as suas raízes políticas não residem no movimento evangélico, mas no movimento dos seringueiros do Acre, nas alas mais à esquerda do antigo PT e no socioambientalismo. Basta analisar sua trajetória política para perceber esse fato.
Quem promove o discurso 'alarmista' sobre uma possível eleição de Marina Silva como presidenta do Brasil pelo simples fato dela ser evangélica está sendo preconceituoso (ou partidário), o que é, de fato, algo bastante previsível diante de um ambiente político extremamente intolerante para com toda e qualquer alteridade.
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sexta-feira, 17 de maio de 2013
terça-feira, 14 de maio de 2013
Machu Picchu, Cusco - Peru
Estive recentemente em Cusco, no Peru, conhecendo de perto os vestígios arqueológicos do Império Inca e outras sociedades pré-incas. O lugar é especial, único, belo em todos os sentidos. Apesar da altitude - que produz efeitos como o 'soroche', também conhecido como 'mal estar das alturas' - o ambiente local ainda respira a história andina pré-colonização espanhola, presente nos centros arqueológicos e nas manifestações culturais dos campesinos e povos indígenas da região. Além dos passeios realizados no entorno da cidade, existem dezenas de sítios arqueológicos localizados em pequenos povoados e vilas dos arredores, que podem ser acessados com apenas algumas horas de viagem. O povo é hospitaleiro e simpático e a infra-estrutura local oferece inúmeras opções de lazer, incluindo trilhas ecológicas, festas populares, restaurantes, museus, cafés e feiras de artesanato.
Cusco é conhecida como a capital do antigo Império Inca, que, entre os séculos XV e XVI, chegou a dominar uma extensão territorial que ia do Equador até Santiago, atual capital do Chile. Essa sociedade andina ficou conhecida no mundo inteiro pela complexidade da sua cultura material e imaterial, incluindo o seu sistema filosófico e religioso, os seus conhecimentos agrícolas, cosmológicos, medicinais e técnicos, além de construções gigantescas cujos vestígios ainda são encontrados praticamente intactos e estradas que interligam cidades fortificadas onde viviam milhares de habitantes. Essa civilização andina viveu seu apogeu entre os anos 1430-1530, período em que foi governada por Pachacuteq, imperador Inca responsável pela ampliação do domínio político através da conquista ou integração de outras sociedades andinas regionais, seja através da guerra ou do comércio.
Infelizmente, quando os espanhóis chegaram na América do Sul, no início do século XVI, já encontraram o império Inca fragilizado por uma guerra civil ocasionada pela sucessão política, que levou a uma disputa acirrada pelo poder entre os dois filhos do imperador. Essa cisão interna do império Inca explica como - através de uma série de injustiças, alianças e traições - um exército formado por pouco mais de uma centena de espanhóis foi capaz de conquistar uma legião composta por cerca de 20 mil soldados Incas. O fato é que em algumas centenas de anos as antigas cidades Incas foram praticamente destruídas e reconstruídas pelos 'conquistadores', os últimos membros da linhagem de imperadores foram assassinados e, por muito tempo, qualquer identificação com a cultura Inca - como o uso da língua do antigo império, o quechua, ou o culto aos antigos deuses Incas - foi expressamente proibido. Por muito tempo, as 'ruínas' do antigo império foram mantidas em estado de total abandono, praticamente desaparecendo em meio às matas e montanhas locais. Deviso a esse (des) encontro de civilizações, jamais poderemos saber como teria sido o desenvolvimento desta sociedade andina.
No entanto, a cultura, a língua e a cosmologia dos Incas permanece 'viva' nos campesinos indígenas que habitam regiões como o Vale Sagrado, onde continuam praticando e desenvolvendo técnicas agrícolas herdadas de seus antepassados; nas manifestações folclóricas e culturais do povo cusquenho, cuja boa parte ainda fala a língua quechua; na agrobiodiversidade local, rica em variedades de milho, batata e outros tubérculos e frutas locais; nas danças e músicas típicas; nas histórias e lendas relatadas pelos moradores mais antigos; nos movimentos indígenas, campesinos e populares que predominam na região; além, é claro, de uma culinária local repleta de pratos típicos como o "Cuy ao forno" e o "Ceviche".
Em meados do século XIX, a província de Cusco recebeu a visita de exploradores e comerciantes europeus, que percorreram a região em busca de tesouros minerais e arqueológicos. Assim, os vestígios de ouro e argila ainda existentes nos antigos sítios Incas foram contrabandeados para museus europeus e norte-americanos, finalizando uma história de roubo e violência colonial. Durante muito tempo a região de Cusco foi praticamente abandonada pelo Estado do Peru e, em meados dos anos 1990, estava ocupada por grupos terroristas e movimentos revolucionários.
Ao final da década de 1990, com as reformas políticas e econômicas, o governo do Peru voltou sua atenção à região de Cusco, fazendo uso político de inúmeros estudos históricos e arqueológicos realizados autonomamente por pesquisadores peruanos e estrangeiros, dando início a um processo histórico de luta pelo reconhecimento da cidade e seus arredores como um sítio arqueológico de valor humanitário.
Após o reconhecimento oficial de Machu Picchu como um patrimônio da humanidade pela Unesco, Cusco passou a receber uma legião de turistas provenientes de países do mundo inteiro. Com isso, boa parte da população local está envolvida direta ou indiretamente com atividades de turismo, retirando daí parte de sua renda. Ao mesmo tempo, teve início um movimento amplo de reconhecimento de identidades e culturas andinas locais, com o incentivo a projetos de 'revitalização cultural' promovidos por agências locais de desenvolvimento, levando à multiplicação, em poucos anos, das iniciativas folclóricas e culturais promovidas pela população local.
Nesta postagem, pretendo mostrar algumas fotos retratando vestígios arqueológicos localizados na cidade de Cusco, em vilas e povoados dos arredores e na antiga cidade Inca de Machu Picchu, reservando para outras postagens um relato fotográfico sobre outros trechos da viagem, como uma festa popular camponesa que tive a oportunidade de acompanhar e as visitas ao Mercado Público local e ao Museu de Plantas Medicinais Andinas.
Chinchero, Cusco - Peru
Salineras de Maras, Cusco - Peru
Sítio Arqueológico de Moray, Cusco - Peru
Sítio Arqueológico de Pisac, Cusco - Peru
Sítio Arqueológico de Tipon, Cusco - Peru
Templo del Sol, Cusco - Peru
Cusco é conhecida como a capital do antigo Império Inca, que, entre os séculos XV e XVI, chegou a dominar uma extensão territorial que ia do Equador até Santiago, atual capital do Chile. Essa sociedade andina ficou conhecida no mundo inteiro pela complexidade da sua cultura material e imaterial, incluindo o seu sistema filosófico e religioso, os seus conhecimentos agrícolas, cosmológicos, medicinais e técnicos, além de construções gigantescas cujos vestígios ainda são encontrados praticamente intactos e estradas que interligam cidades fortificadas onde viviam milhares de habitantes. Essa civilização andina viveu seu apogeu entre os anos 1430-1530, período em que foi governada por Pachacuteq, imperador Inca responsável pela ampliação do domínio político através da conquista ou integração de outras sociedades andinas regionais, seja através da guerra ou do comércio.
Infelizmente, quando os espanhóis chegaram na América do Sul, no início do século XVI, já encontraram o império Inca fragilizado por uma guerra civil ocasionada pela sucessão política, que levou a uma disputa acirrada pelo poder entre os dois filhos do imperador. Essa cisão interna do império Inca explica como - através de uma série de injustiças, alianças e traições - um exército formado por pouco mais de uma centena de espanhóis foi capaz de conquistar uma legião composta por cerca de 20 mil soldados Incas. O fato é que em algumas centenas de anos as antigas cidades Incas foram praticamente destruídas e reconstruídas pelos 'conquistadores', os últimos membros da linhagem de imperadores foram assassinados e, por muito tempo, qualquer identificação com a cultura Inca - como o uso da língua do antigo império, o quechua, ou o culto aos antigos deuses Incas - foi expressamente proibido. Por muito tempo, as 'ruínas' do antigo império foram mantidas em estado de total abandono, praticamente desaparecendo em meio às matas e montanhas locais. Deviso a esse (des) encontro de civilizações, jamais poderemos saber como teria sido o desenvolvimento desta sociedade andina.
No entanto, a cultura, a língua e a cosmologia dos Incas permanece 'viva' nos campesinos indígenas que habitam regiões como o Vale Sagrado, onde continuam praticando e desenvolvendo técnicas agrícolas herdadas de seus antepassados; nas manifestações folclóricas e culturais do povo cusquenho, cuja boa parte ainda fala a língua quechua; na agrobiodiversidade local, rica em variedades de milho, batata e outros tubérculos e frutas locais; nas danças e músicas típicas; nas histórias e lendas relatadas pelos moradores mais antigos; nos movimentos indígenas, campesinos e populares que predominam na região; além, é claro, de uma culinária local repleta de pratos típicos como o "Cuy ao forno" e o "Ceviche".
Em meados do século XIX, a província de Cusco recebeu a visita de exploradores e comerciantes europeus, que percorreram a região em busca de tesouros minerais e arqueológicos. Assim, os vestígios de ouro e argila ainda existentes nos antigos sítios Incas foram contrabandeados para museus europeus e norte-americanos, finalizando uma história de roubo e violência colonial. Durante muito tempo a região de Cusco foi praticamente abandonada pelo Estado do Peru e, em meados dos anos 1990, estava ocupada por grupos terroristas e movimentos revolucionários.
Ao final da década de 1990, com as reformas políticas e econômicas, o governo do Peru voltou sua atenção à região de Cusco, fazendo uso político de inúmeros estudos históricos e arqueológicos realizados autonomamente por pesquisadores peruanos e estrangeiros, dando início a um processo histórico de luta pelo reconhecimento da cidade e seus arredores como um sítio arqueológico de valor humanitário.
Após o reconhecimento oficial de Machu Picchu como um patrimônio da humanidade pela Unesco, Cusco passou a receber uma legião de turistas provenientes de países do mundo inteiro. Com isso, boa parte da população local está envolvida direta ou indiretamente com atividades de turismo, retirando daí parte de sua renda. Ao mesmo tempo, teve início um movimento amplo de reconhecimento de identidades e culturas andinas locais, com o incentivo a projetos de 'revitalização cultural' promovidos por agências locais de desenvolvimento, levando à multiplicação, em poucos anos, das iniciativas folclóricas e culturais promovidas pela população local.
Nesta postagem, pretendo mostrar algumas fotos retratando vestígios arqueológicos localizados na cidade de Cusco, em vilas e povoados dos arredores e na antiga cidade Inca de Machu Picchu, reservando para outras postagens um relato fotográfico sobre outros trechos da viagem, como uma festa popular camponesa que tive a oportunidade de acompanhar e as visitas ao Mercado Público local e ao Museu de Plantas Medicinais Andinas.
Chinchero, Cusco - Peru
Sítio Arqueológico de Moray, Cusco - Peru
Sítio Arqueológico de Pisac, Cusco - Peru
Sítio Arqueológico de Saqsayhuamán, Cusco - Peru
Sítio Arqueológico de Tipon, Cusco - Peru
Templo del Sol, Cusco - Peru
Machu Picchu & Huayna Picchu, Cusco - Peru
Sítio Arqueológico Pikillacta Wari, Cusco - Peru
sexta-feira, 10 de maio de 2013
"Spinoza - Filosofia Prática" - G. Deleuze
A filosofia é a arte de invenção de conceitos. Fazer filosofia, ou 'filosofar', implica experimentar com sistemas ou linguagens conceituais, mas não para reproduzi-los de maneira didática ou para reificá-los como princípios gerais e universais associados a uma doutrina moral, tratado lógico ou racional, mas para romper toda e qualquer estrutura de forma a elevá-la à sua última e derradeira potencia, o que significa corromper sua suposta unidade até que a multiplicidade fundante torne-se explícita e, novamente, produtiva.
Por isso, para Deleuze, experimentar filosofias não consiste em abordá-las como uma unidade - uma obra, um autor, uma teoria - que deve ser refutada ou admitida em sua totalidade. Para experimentar conceitos ou ideias não precisamos firmar compromisso com todo o castelo conceitual no qual estão imersas e com o qual formam um todo ou uma estrutura sistemática mais ou menos coerente. Não é preciso ser spinozista para experimentar algumas ideias sugeridas ou expressas na filosofia de Spinoza, apesar dessa 'experiência' ter um efeito em nossa vida. Cada autor tem sua própria caixa de ferramentas, que pode ser justaposta ou colocada em ação de forma completamente inovadora, compondo com outras ideais, autores e teorias. Afinal, é isso que torna possível colocar em relação preceitos teóricos e conceitos provenientes de filosofias 'opostas' ou supostamente incomensuráveis.
É exatamente por que os campos ideacionais estão sempre abertos ao mundo da vida - da mesma forma que o sujeito e a subjetividade - que eles podem sofrer deslocamentos, rupturas e desvios, assumindo novas formas ao serem incorporados em novos sistemas ideacionais. A filosofia deve ser sempre libertadora.
Não é preciso, portanto, tornar-se um 'spinozista' para fazer uso mais ou menos alternativo de algumas de suas ideias e conceitos. Esse seria, por assim dizer, o modo deleuzeano de se relacionar com a filosofia de Spinoza: uma experimentação com alguns de seus conceitos ou ideias, sem maior compromisso em defender didaticamente o seu sistema filosófico como um todo, mas sempre elevando essa relação com conceitos à última potência, retirando dela o maior número de possibilidades, sem nunca alcançar concretamente a sua multiplicidade virtual.
No que refere à abordagem de autores, obras e teorias, só existe uma única regra: deixem o pensamento exercer a sua função libertadora!
Mas voltando à leitura deleuziana de Spinoza, ou melhor, à minha leitura dessa leitura (o que temos são sempre interpretações de interpretações), não sejamos assim tão 'puristas'. Nesta breve postagem, gostaria apenas de esboçar anotações para uma futura reflexão sobre alguns pontos que são, por assim dizer, fundamentais para a minha (atual) relação com a filosofia deleuziana (perpassada pela sua apropriação de Spinoza). Essas anotações foram escritas a partir da leitura paralela de dois livros: "Espinoza: filosofia prática", de Gilles Deleuze (Editora Escuta); e "Ética", de Spinoza (edição bilíngue, Autêntica). Com isso, não tenho a menor pretensão em descrever o sistema filosófico de Spinoza, mas de apresentar algumas notas sobre a equação: "Deleuze + Spinoza/X = uma filosofia prática".
[A delimitação em sub-títulos dos itens aqui expostos não reflete uma pretensão de didatismo, mas busca expressar a noção subjacente de multiplicidade presente em todo e qualquer sistema conceitual, apontando para o fato dessas notas não formarem um todo "Uno" - sistema coerente de coordenadas ideacionais com latitude e longitude bem delimitadas - mas um mosaico de elementos cuja ordem pode ser invertida ou corrompida, possibilitando que cada ideia possa ser destacada individualmente e explorada enquanto um campo de problematização próprio, ou até mesmo colocado em composição com elementos ausentes].
O 'filosofar' enquanto experiência existencial de ordem prática
A primeira observação diz respeito à abordagem deleuziana de alguns conceitos e pressupostos teóricos retirados de Spinoza. Essa abordagem não deve ser meramente didática, mas um experimento de ordem prática que tem um reflexo inevitável na própria forma como vivemos e pensamos a nossa relação com o mundo. Não se trata, portanto, de reproduzir um conjunto estável de definições mais ou menos precisas de conceitos ou de repetir uma determinada linguagem conceitual, mas de retirar desses conceitos uma nova possibilidade de viver a vida. No lugar de uma aventura epistemológica e linguística, estamos diante de uma jornada ontológica:
"(...) uma única Natureza para todos os corpos, uma unica Natureza para todos os indivíduos, uma Natureza que é ela própria um indivíduo variando de uma infinidade de maneiras. Não é mais a afirmação de uma substância única, é a exposição de um plano comum de imanência em que estão todos os corpos, todas as almas, todos os indivíduos. Esse plano de imanência ou de consistência não é um plano no sentido de um desígnio no espírito, projeto, programa, é um plano no sentido geométrico, seção, intersecção, diagrama. Então, estar no meio de Spinoza é estar nesse plano modal, ou melhor, instalar-se nesse plano; o que implica um modo de vida, uma maneira de viver. Em que consiste esse plano e como construí-lo? Pois é ao mesmo tempo completamente plano de imanência, e todavia deve ser construído, para que se viva de maneira espinosista" ("Spinoza: filosofia prática" - G. Deleuze, p. 127).
Não se trata, portanto, de interpretar, explicar ou compreender Spinoza, mas de viver e experimentar (com) o seu pensamento.
Spinoza propõe o corpo como modelo para pensar o pensamento
Estamos diante de um 'Spinoza Materialista', mas não se trata de inverter a assimetria histórica entre alma e corpo, onde o fortalecimento de um implica na anulação do outro (e vice-versa, como nos 'perigos da carne ao bem estar espiritual'), mas em defender um 'paralelismo' entre corpo e espírito.
"Trata-se de mostrar que o corpo ultrapassa o conhecimento que dele temos, e o pensamento não ultrapassa menos a consciência que dele temos. (...) Procuramos adquirir um conhecimento das potências do corpo para descobrir paralelamente as potências do espírito que escapam à consciência, e poder compará-los" (Idem, p. 24).
Na "Ética", de Spinoza, o que é ação na alma é também ação no corpo. As ideias possuem extensão corporal, assim como todo corpo possui um caráter ideacional: "(...) que a mente e o corpo são uma só e mesma coisa, a qual é concebida ora sob o atributo do pensamento, ora sob o da extensão. Disso resulta que a ordem ou a concatenação das coisas é uma só, quer se conceba a natureza sob um daqueles atributos, quer sob o outro e, consequentemente, que a ordem das ações e das paixões de nosso corpo é simultânea, em natureza, à ordem das ações e das paixões da mente" ("Ética" - Spinoza, terceira parte, p. 100).
"Assim, a própria experiência ensina, não menos claramente que a razão, que os homens se julgam livres apenas porque estão conscientes de suas ações, mas desconhecem as causas pelas quais são determinados. Ensina também que as decisões da mente nada mais são do que os próprios apetites: elas variam, portanto, de acordo com a variável disposição do corpo. (...) Sem dúvida, tudo isso mostra claramente que tanto a decisão da mente, quanto o apetite e a determinação do corpo são, por natureza, coisas simultâneas" (Ibidem, p. 102-3).
O corpo como o efeito da dinâmica de múltiplas singularidades ou forças que entram em composição
Os corpos são definidos por Spinoza de duas formas: a) "todo corpo comporta uma infinidade de partículas: são as relações de repouso ou movimento, de velocidades e de lentidões entre partículas que definem um corpo, a individualidade de um corpo" (Deleuze, idem, p. 128); b) "um corpo afeta outros corpos, ou é afetado por outros corpos: é este poder de afetar e ser afetado que também define um corpo em sua individualidade" (Ibidem). "O importante é conceber a vida, cada individualidade de vida, não como uma forma, mas como uma relação complexa entre velocidades diferenciais, entre abrandamento e aceleração de partículas. (...) Concretamente, se definirmos os corpos e os pensamentos como poderes de afetar e ser afetado, muitas coisas mudam. Definiremos um animal, ou um homem, não por sua forma ou por seus órgãos e suas funções, e tampouco como sujeito: nós o definiremos pelos afetos de que ele é capaz" (ibidem).
Primeira observação: todo corpo é composto por forças ou singularidades que entram em relação de associação, formando um sistema dinâmico e múltiplo. Esse sistema possui um certo grau de intensidade, marcado por um ritmo de composição e expressão de partículas menores. O corpo é, portanto, uma unidade que não anula a multiplicidade, mas se compõe através dela, uma multiplicidade em potencial (virtual), viva e atuante. Um conjunto de órgãos que estão em relação de associação entre si, que estabelecem um ritmo de composição, que se colocam em movimento de convergência e divergência, formando um coletivo mais amplo, uma individualidade.
Segunda observação: a tese do paralelismo. Toda ideia é composta por forças ou singularidades que entram em relação de associação, formando um sistema dinâmico e múltiplo... (idem). As ideias existem como forças que entram em relação de associação ou dissociação, formando sistemas mais amplos, configurando novos campos de problematização. Se o corpo é coletivo, a mente também é. O pensamento implica a multiplicidade, constituindo-se através dela, alimentando-se de sua potencialidade virtual.
Os corpos são conjuntos dinâmicos de afetos e afecções e não podem ser avaliados a partir da sua forma ou função, mas a partir da sua potência de afetar e ser afetado por outros corpos
"Por afeto compreendo as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada e, ao mesmo tempo, as ideias dessas afecções. Explicação. Assim, quando podemos ser a causa adequada de alguma dessas afecções, por afeto compreendo, então, uma ação; em caso contrário, uma paixão. Postulados: 1. O corpo humano pode ser afetado de muitas maneiras, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, enquanto outras tantas não tornam sua potência de agir nem maior nem menor" (Ética, Spinoza, p. 99).
Desvalorização de todos os valores e sobretudo do bem e do mal (Spinoza, o imoralista)
Se todos os corpos são caracterizados, por um lado, pelo ritmo e intensidade das forças que entram em composição e, por outro lado, pela capacidade de afetar e ser afetado, deduzi-se daí que todo e qualquer corpo possui sua integridade demarcada pela sua potência (afecções + afetos, que dizem respeito a sua relação com outros corpos) e pela sua dinâmica (certo ritmo ou intensidade de movimentos que demarca a sua individualidade), isso significa que a continuidade de um corpo depende da manutenção dessas duas variáveis em limites aceitáveis.
Ao mesmo tempo, tanto os corpos como as ideias (tese do paralelismo) entram constantemente em relação de composição, atraindo-se ou repelindo-se conforme a situação e o contexto relacional, sendo que essas relações podem ser benéficas ou maléficas no que se refere à manutenção dos dois atributos que caracterizam toda e qualquer corporalidade. Isso significa que aquilo que é 'bom' contribui para potencializar ou fortalecer seja a potência de um corpo (sua capacidade de afetar ou ser afetado), seja a dinâmica (ritmo e intensidade das forças que o compõem), sendo 'mal' tudo aquilo que contribui para transformações ou mutações que alteram esse estado individual.
"O bom existe quando um corpo compõe diretamente a sua relação com o nosso, e, com toda ou com uma parte de sua potência, aumenta a nossa. Por exemplo, um alimento. O mal para nós existe quando um corpo decompõe a relação do nosso, ainda que se componha com nossas partes, mas sob outras relações que aquelas que correspondem à nossa essência: por exemplo, como um veneno que decompõe o sangue. Bom e mau têm pois um primeiro sentido, objetivo, mas relativo e parcial: o que convém a nossa natureza e o que não convém. E, em consequência, bom e mau têm um segundo sentido, subjetivo e modal, qualificando dois tipos, dois modos de existência do homem: será dito bom (ou livre, ou razoável, ou forte) aquele que se esforça, tanto quanto pode, por organizar os encontros, por se unir ao que convém à sua natureza, por compor a sua relação com relações combináveis e, por esse meio, aumentar a sua potência. Dir-se-á mau, ou escravo, ou fraco, ou insensato, aquele que vive ao acaso dos encontros, que se contenta em sofrer as consequências, pronto a gemer e a acusar toda vez que o efeito sofrido se mostra contrário e lhe revela a sua própria impotência" (Deleuze, Idem, p. 28-9).
Bom e Mau, portanto, não são categorias absolutas, determinadas por uma moral que busca universalizar valores transcendentes, válidos para todos os homens, em todos os tempos, em todas as situações históricas.
Alguns exemplos que me ocorrem neste momento.
Um homem intempestivo e raivoso - cujas forças internas se compõem de determinada forma, caracterizando um ritmo de intensidade e potência - não é, em si mesmo, um homem mau. Ele será (ou poderá) ser mau para uma pessoa pacífica, medrosa e indefesa, quando e se essa pessoa entrar em uma trajetória de conflito com ele - principalmente em situações em que o segredo garante o anonimato da ação ou quando esse homem mau for também ateu, destemido, ladrão, louco ou assassino. Esse encontro (ou desencontro) poderá significar o aniquilamento da pessoa pacífica e medrosa diante da pessoa destemida, aguerrida e raivosa, evento permeado por um conjunto de condicionantes externos (bebidas, paixões, angústias, imagens-afetos). Mas, quando o homem raivoso e destemido é colocado em uma situação de guerra, ali, no campo de batalha, a sua raiva torna-se em elemento de libertação, será o veiculo ou a ferramenta utilizada para libertar o povo da opressão de um ditador. Um exército de homens raivosos pode representar a 'salvação de uma nação', ou a sua redenção (como nas Cruzadas Cristãs). A raiva e o ódio - em ocasiões específicas - são atributos facilmente transformados em ferramentar de libertação 'divina'. Assim como a coragem pode ser o veículo de uma grande tragédia ou a desatenção ser o motivo de um acidente terrível ou de uma grande descoberta científica. Assassinos comuns também são transformados em verdadeiros heróis. 'Salvadores da pátria' podem ser raivosos, opressores e destemidos e, mesmo assim, serem considerados 'benevolentes' ou até mesmo 'divinos'.
O fogo pode entrar em diferentes composições com o meu corpo, algumas delas benéficas (o fogo que esquenta o corpo em uma noite fria), outras extremamente maléficas (o corpo que queima a pele), mas o fogo 'em si' não é bom ou mau. Ele pode, por exemplo, servir para cozinhar alimentos ou para afastar inimigos, mas também ser o veículo da destruição e da tragédia coletiva ao destruir uma floresta ou uma cidade.
A planta é composta por um conjunto de elementos ou substâncias, cada uma definida por um conjunto de afecções e afetos, que entram em relação de associação ou dissociação, formando coletivos bioquímicos maiores, que podem agir de forma sistêmica, produzindo certo número de efeitos ou ações em outros corpos ou seres. Esses elementos ou substâncias que entram em relação de composição podem contribuir para fortalecer ou enfraquecer o corpo ou o espírito, podem compor com outros corpos de diferentes formas e em diferentes ritmos. A planta é um conjunto dinâmico de afetos e afecções, uma multiplicidade virtual associada com outros organismos e seres. Essa associação pode ser benéfica ou maléfica conforme a qualidade da relação, resultando em substração, soma ou multiplicação de potência. A planta pode servir de alimento, medicamento ou até mesmo veneno, produzindo efeitos diferenciados conforme a relação entre suas propriedades ou atributos e as afecções do corpo ou indivíduo com o qual ela entra em associação. Mas a planta, 'em si', não é boa ou má, ela apenas produz associações benéficas ou maléficas para este ou aquele corpo, podendo curar, alimentar ou matar.
A crítica das paixões tristes
Todo individuo é caracterizado pela forma como afeta e é afetado por outros corpos e pela dinâmica das forças que entram em sua composição. Desta forma, a liberdade de ação consiste em buscar 'compor' preferencialmente com outros corpos (ou indivíduos) que agregam vitalidade e potência a nossa existência, seja ampliando a nossa capacidade de afetar e ser afetado, seja fornecendo os elementos necessários para a manutenção da nossa dinâmica individual (certo ritmo ou intensidade que nos caracteriza diante dos demais corpos).
"Temos três componentes: 1º) nossa essência singular eterna; 2º) nossas relações características (de movimento e de repouso), ou nossos poderes de ser afetado; 3º) as partes extensivas que definem a nossa existência na duração e pertencem à nossa essência enquanto efetuam esta ou aquela de nossas relações (do mesmo modo as afecções externas que preenchem a nossa potência de ser afetado). O 'mau' é quando partes extensivas que nos pertenciam sob uma relação são determinadas do exterior a entrar sob outras relações; ou então quando uma afecção nos toca e excede o nosso poder de ser afetado. Nesse caso, dizemos que nossa relação é decomposta, ou que nosso poder de ser afetado foi destruído" (Ibidem, p. 48).
O homem bom é aquele que busca orientar suas ações de forma a compor positivamente com outros corpos (ou ideias). O resultado de uma composição positiva com o mundo da vida, efeito de associações que somam ao invés de subtrair, resulta na alegria que emana naturalmente do homem bom, do homem que orienta suas ações buscando a intensificação da sua potência ou vontade de poder. Isso nem sempre resulta em uma atitude 'justa' ou 'boa' diante de toda e qualquer situação da vida, nem mesmo produz necessariamente 'bondade', apesar de possibilitar a afirmação de uma potência e de uma vida sobre outras vidas. O homem bom, de fato, não é bom para todos ou sempre, mas apenas parcialmente e sempre em um sentido único: a sua bondade potencializa a sua força e, desta forma, a própria Natureza. Como todos os corpos e todas as ideias fazem parte de uma única substância, mesmo o homem bom sabe oferecer-se em sacrifício no momento apropriado e, se for realmente 'bom', saberá também tirar o maior proveito disso que puder. Esse é, afinal, o caminho para a eternidade.
Já o homem mau ou fraco é aquele que se deixa levar por suas paixões e afecções, compondo com outros corpos (ou indivíduos) de maneira a se decompor com o tempo, ou seja, minimizando sua dinâmica individual e sua capacidade de afetar e ser afetados pelos outros. O homem fraco não conhece a si mesmo e aos outros, suas ações são sempre reações ocasionais e oportunistas que o impedem de poder equacionar produtivamente a sua existência. Ele se deixa conduzir pelas suas paixões, afetando-se conforme o acaso e o destino, sem nunca assumir a responsabilidade de conduzir a si próprio e aos outros diante da tormenta. O homem fraco está sempre reclamando da vida, dos infortúnios de outrem e de si mesmo, transformando-se em vítima, justificando seus atos pela fraqueza diante de paixões e desejos que não consegue explicar. O homem mau justifica sua maldade pela fraqueza dos outros, mas sem nunca entender a química que movimenta os corpos, incluindo o seu. Como um louco perdido, o homem fraco vaga sem rumo, trocando alguns segundos de alegria por uma vida de tristeza e amargura existencial.
"O bom e o mau são duplamente relativos, e exprimem-se um em relação ao outro, e ambos em relação a um modo existente. São os dois sentidos da variação de potência de agir: a diminuição desta potência (tristeza) é má, seu aumento (alegria) é bom. Objetivamente, é bom, desde logo, o que aumenta ou favorece nossa potência de ação, e mau o que a diminui ou a impede; não conhecemos o bom e o mau a não ser pelo sentimento de alegria ou de tristeza de que estamos conscientes. Como a potência de agir é o que abre o poder de ser afetado ao maior número de coisas, é com aquilo que dispõe o corpo de tal maneira que possa ser afetado pelo maior número de modos" (Ibidem, 60).
Spinoza e a filosofia da vida
"Há, efetivamente, em Spinoza, uma filosofia da 'vida': ela consiste precisamente em denunciar tudo o que nos separa da vida, todos esses valores transcendentes que se orientam contra a vida, vinculados às condições e às ilusões de nossa consciência. (...) quando encontramos um corpo exterior que não convém com o nosso (isto é, cuja relação não se compõe com a nossa), tudo ocorre como se a potência de agir é
diminuída ou impedida, e que as paixões correspondentes são de tristeza. Mas, ao contrário, quando encontramos um corpo que convém à nossa natureza e cuja relação se compõe com a nossa, diríamos que a sua potência se adiciona à nossa: as paixões que nos afetam são de alegria, nossa potência de agir é ampliada ou favorecida. Esta alegria é ainda uma paixão, visto que tem uma causa exterior; permanecemos ainda separados de nossa potência de agir, não a possuímos formalmente. Esta potência de agir não deixa de aumentar de modo proporcional, 'aproximando-nos' do ponto de conversão, do ponto de transmutação que nos torna-rá senhores dela, e por isso dignos de ação, de alegrias ativas" (Ibidem, 33-4).
Por isso, para Deleuze, experimentar filosofias não consiste em abordá-las como uma unidade - uma obra, um autor, uma teoria - que deve ser refutada ou admitida em sua totalidade. Para experimentar conceitos ou ideias não precisamos firmar compromisso com todo o castelo conceitual no qual estão imersas e com o qual formam um todo ou uma estrutura sistemática mais ou menos coerente. Não é preciso ser spinozista para experimentar algumas ideias sugeridas ou expressas na filosofia de Spinoza, apesar dessa 'experiência' ter um efeito em nossa vida. Cada autor tem sua própria caixa de ferramentas, que pode ser justaposta ou colocada em ação de forma completamente inovadora, compondo com outras ideais, autores e teorias. Afinal, é isso que torna possível colocar em relação preceitos teóricos e conceitos provenientes de filosofias 'opostas' ou supostamente incomensuráveis.
É exatamente por que os campos ideacionais estão sempre abertos ao mundo da vida - da mesma forma que o sujeito e a subjetividade - que eles podem sofrer deslocamentos, rupturas e desvios, assumindo novas formas ao serem incorporados em novos sistemas ideacionais. A filosofia deve ser sempre libertadora.
Não é preciso, portanto, tornar-se um 'spinozista' para fazer uso mais ou menos alternativo de algumas de suas ideias e conceitos. Esse seria, por assim dizer, o modo deleuzeano de se relacionar com a filosofia de Spinoza: uma experimentação com alguns de seus conceitos ou ideias, sem maior compromisso em defender didaticamente o seu sistema filosófico como um todo, mas sempre elevando essa relação com conceitos à última potência, retirando dela o maior número de possibilidades, sem nunca alcançar concretamente a sua multiplicidade virtual.
No que refere à abordagem de autores, obras e teorias, só existe uma única regra: deixem o pensamento exercer a sua função libertadora!
Mas voltando à leitura deleuziana de Spinoza, ou melhor, à minha leitura dessa leitura (o que temos são sempre interpretações de interpretações), não sejamos assim tão 'puristas'. Nesta breve postagem, gostaria apenas de esboçar anotações para uma futura reflexão sobre alguns pontos que são, por assim dizer, fundamentais para a minha (atual) relação com a filosofia deleuziana (perpassada pela sua apropriação de Spinoza). Essas anotações foram escritas a partir da leitura paralela de dois livros: "Espinoza: filosofia prática", de Gilles Deleuze (Editora Escuta); e "Ética", de Spinoza (edição bilíngue, Autêntica). Com isso, não tenho a menor pretensão em descrever o sistema filosófico de Spinoza, mas de apresentar algumas notas sobre a equação: "Deleuze + Spinoza/X = uma filosofia prática".
[A delimitação em sub-títulos dos itens aqui expostos não reflete uma pretensão de didatismo, mas busca expressar a noção subjacente de multiplicidade presente em todo e qualquer sistema conceitual, apontando para o fato dessas notas não formarem um todo "Uno" - sistema coerente de coordenadas ideacionais com latitude e longitude bem delimitadas - mas um mosaico de elementos cuja ordem pode ser invertida ou corrompida, possibilitando que cada ideia possa ser destacada individualmente e explorada enquanto um campo de problematização próprio, ou até mesmo colocado em composição com elementos ausentes].
O 'filosofar' enquanto experiência existencial de ordem prática
A primeira observação diz respeito à abordagem deleuziana de alguns conceitos e pressupostos teóricos retirados de Spinoza. Essa abordagem não deve ser meramente didática, mas um experimento de ordem prática que tem um reflexo inevitável na própria forma como vivemos e pensamos a nossa relação com o mundo. Não se trata, portanto, de reproduzir um conjunto estável de definições mais ou menos precisas de conceitos ou de repetir uma determinada linguagem conceitual, mas de retirar desses conceitos uma nova possibilidade de viver a vida. No lugar de uma aventura epistemológica e linguística, estamos diante de uma jornada ontológica:
"(...) uma única Natureza para todos os corpos, uma unica Natureza para todos os indivíduos, uma Natureza que é ela própria um indivíduo variando de uma infinidade de maneiras. Não é mais a afirmação de uma substância única, é a exposição de um plano comum de imanência em que estão todos os corpos, todas as almas, todos os indivíduos. Esse plano de imanência ou de consistência não é um plano no sentido de um desígnio no espírito, projeto, programa, é um plano no sentido geométrico, seção, intersecção, diagrama. Então, estar no meio de Spinoza é estar nesse plano modal, ou melhor, instalar-se nesse plano; o que implica um modo de vida, uma maneira de viver. Em que consiste esse plano e como construí-lo? Pois é ao mesmo tempo completamente plano de imanência, e todavia deve ser construído, para que se viva de maneira espinosista" ("Spinoza: filosofia prática" - G. Deleuze, p. 127).
Não se trata, portanto, de interpretar, explicar ou compreender Spinoza, mas de viver e experimentar (com) o seu pensamento.
Spinoza propõe o corpo como modelo para pensar o pensamento
Estamos diante de um 'Spinoza Materialista', mas não se trata de inverter a assimetria histórica entre alma e corpo, onde o fortalecimento de um implica na anulação do outro (e vice-versa, como nos 'perigos da carne ao bem estar espiritual'), mas em defender um 'paralelismo' entre corpo e espírito.
"Trata-se de mostrar que o corpo ultrapassa o conhecimento que dele temos, e o pensamento não ultrapassa menos a consciência que dele temos. (...) Procuramos adquirir um conhecimento das potências do corpo para descobrir paralelamente as potências do espírito que escapam à consciência, e poder compará-los" (Idem, p. 24).
Na "Ética", de Spinoza, o que é ação na alma é também ação no corpo. As ideias possuem extensão corporal, assim como todo corpo possui um caráter ideacional: "(...) que a mente e o corpo são uma só e mesma coisa, a qual é concebida ora sob o atributo do pensamento, ora sob o da extensão. Disso resulta que a ordem ou a concatenação das coisas é uma só, quer se conceba a natureza sob um daqueles atributos, quer sob o outro e, consequentemente, que a ordem das ações e das paixões de nosso corpo é simultânea, em natureza, à ordem das ações e das paixões da mente" ("Ética" - Spinoza, terceira parte, p. 100).
"Assim, a própria experiência ensina, não menos claramente que a razão, que os homens se julgam livres apenas porque estão conscientes de suas ações, mas desconhecem as causas pelas quais são determinados. Ensina também que as decisões da mente nada mais são do que os próprios apetites: elas variam, portanto, de acordo com a variável disposição do corpo. (...) Sem dúvida, tudo isso mostra claramente que tanto a decisão da mente, quanto o apetite e a determinação do corpo são, por natureza, coisas simultâneas" (Ibidem, p. 102-3).
O corpo como o efeito da dinâmica de múltiplas singularidades ou forças que entram em composição
Os corpos são definidos por Spinoza de duas formas: a) "todo corpo comporta uma infinidade de partículas: são as relações de repouso ou movimento, de velocidades e de lentidões entre partículas que definem um corpo, a individualidade de um corpo" (Deleuze, idem, p. 128); b) "um corpo afeta outros corpos, ou é afetado por outros corpos: é este poder de afetar e ser afetado que também define um corpo em sua individualidade" (Ibidem). "O importante é conceber a vida, cada individualidade de vida, não como uma forma, mas como uma relação complexa entre velocidades diferenciais, entre abrandamento e aceleração de partículas. (...) Concretamente, se definirmos os corpos e os pensamentos como poderes de afetar e ser afetado, muitas coisas mudam. Definiremos um animal, ou um homem, não por sua forma ou por seus órgãos e suas funções, e tampouco como sujeito: nós o definiremos pelos afetos de que ele é capaz" (ibidem).
Primeira observação: todo corpo é composto por forças ou singularidades que entram em relação de associação, formando um sistema dinâmico e múltiplo. Esse sistema possui um certo grau de intensidade, marcado por um ritmo de composição e expressão de partículas menores. O corpo é, portanto, uma unidade que não anula a multiplicidade, mas se compõe através dela, uma multiplicidade em potencial (virtual), viva e atuante. Um conjunto de órgãos que estão em relação de associação entre si, que estabelecem um ritmo de composição, que se colocam em movimento de convergência e divergência, formando um coletivo mais amplo, uma individualidade.
Segunda observação: a tese do paralelismo. Toda ideia é composta por forças ou singularidades que entram em relação de associação, formando um sistema dinâmico e múltiplo... (idem). As ideias existem como forças que entram em relação de associação ou dissociação, formando sistemas mais amplos, configurando novos campos de problematização. Se o corpo é coletivo, a mente também é. O pensamento implica a multiplicidade, constituindo-se através dela, alimentando-se de sua potencialidade virtual.
Os corpos são conjuntos dinâmicos de afetos e afecções e não podem ser avaliados a partir da sua forma ou função, mas a partir da sua potência de afetar e ser afetado por outros corpos
"Por afeto compreendo as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada e, ao mesmo tempo, as ideias dessas afecções. Explicação. Assim, quando podemos ser a causa adequada de alguma dessas afecções, por afeto compreendo, então, uma ação; em caso contrário, uma paixão. Postulados: 1. O corpo humano pode ser afetado de muitas maneiras, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, enquanto outras tantas não tornam sua potência de agir nem maior nem menor" (Ética, Spinoza, p. 99).
Desvalorização de todos os valores e sobretudo do bem e do mal (Spinoza, o imoralista)
Se todos os corpos são caracterizados, por um lado, pelo ritmo e intensidade das forças que entram em composição e, por outro lado, pela capacidade de afetar e ser afetado, deduzi-se daí que todo e qualquer corpo possui sua integridade demarcada pela sua potência (afecções + afetos, que dizem respeito a sua relação com outros corpos) e pela sua dinâmica (certo ritmo ou intensidade de movimentos que demarca a sua individualidade), isso significa que a continuidade de um corpo depende da manutenção dessas duas variáveis em limites aceitáveis.
Ao mesmo tempo, tanto os corpos como as ideias (tese do paralelismo) entram constantemente em relação de composição, atraindo-se ou repelindo-se conforme a situação e o contexto relacional, sendo que essas relações podem ser benéficas ou maléficas no que se refere à manutenção dos dois atributos que caracterizam toda e qualquer corporalidade. Isso significa que aquilo que é 'bom' contribui para potencializar ou fortalecer seja a potência de um corpo (sua capacidade de afetar ou ser afetado), seja a dinâmica (ritmo e intensidade das forças que o compõem), sendo 'mal' tudo aquilo que contribui para transformações ou mutações que alteram esse estado individual.
"O bom existe quando um corpo compõe diretamente a sua relação com o nosso, e, com toda ou com uma parte de sua potência, aumenta a nossa. Por exemplo, um alimento. O mal para nós existe quando um corpo decompõe a relação do nosso, ainda que se componha com nossas partes, mas sob outras relações que aquelas que correspondem à nossa essência: por exemplo, como um veneno que decompõe o sangue. Bom e mau têm pois um primeiro sentido, objetivo, mas relativo e parcial: o que convém a nossa natureza e o que não convém. E, em consequência, bom e mau têm um segundo sentido, subjetivo e modal, qualificando dois tipos, dois modos de existência do homem: será dito bom (ou livre, ou razoável, ou forte) aquele que se esforça, tanto quanto pode, por organizar os encontros, por se unir ao que convém à sua natureza, por compor a sua relação com relações combináveis e, por esse meio, aumentar a sua potência. Dir-se-á mau, ou escravo, ou fraco, ou insensato, aquele que vive ao acaso dos encontros, que se contenta em sofrer as consequências, pronto a gemer e a acusar toda vez que o efeito sofrido se mostra contrário e lhe revela a sua própria impotência" (Deleuze, Idem, p. 28-9).
Bom e Mau, portanto, não são categorias absolutas, determinadas por uma moral que busca universalizar valores transcendentes, válidos para todos os homens, em todos os tempos, em todas as situações históricas.
Alguns exemplos que me ocorrem neste momento.
Um homem intempestivo e raivoso - cujas forças internas se compõem de determinada forma, caracterizando um ritmo de intensidade e potência - não é, em si mesmo, um homem mau. Ele será (ou poderá) ser mau para uma pessoa pacífica, medrosa e indefesa, quando e se essa pessoa entrar em uma trajetória de conflito com ele - principalmente em situações em que o segredo garante o anonimato da ação ou quando esse homem mau for também ateu, destemido, ladrão, louco ou assassino. Esse encontro (ou desencontro) poderá significar o aniquilamento da pessoa pacífica e medrosa diante da pessoa destemida, aguerrida e raivosa, evento permeado por um conjunto de condicionantes externos (bebidas, paixões, angústias, imagens-afetos). Mas, quando o homem raivoso e destemido é colocado em uma situação de guerra, ali, no campo de batalha, a sua raiva torna-se em elemento de libertação, será o veiculo ou a ferramenta utilizada para libertar o povo da opressão de um ditador. Um exército de homens raivosos pode representar a 'salvação de uma nação', ou a sua redenção (como nas Cruzadas Cristãs). A raiva e o ódio - em ocasiões específicas - são atributos facilmente transformados em ferramentar de libertação 'divina'. Assim como a coragem pode ser o veículo de uma grande tragédia ou a desatenção ser o motivo de um acidente terrível ou de uma grande descoberta científica. Assassinos comuns também são transformados em verdadeiros heróis. 'Salvadores da pátria' podem ser raivosos, opressores e destemidos e, mesmo assim, serem considerados 'benevolentes' ou até mesmo 'divinos'.
O fogo pode entrar em diferentes composições com o meu corpo, algumas delas benéficas (o fogo que esquenta o corpo em uma noite fria), outras extremamente maléficas (o corpo que queima a pele), mas o fogo 'em si' não é bom ou mau. Ele pode, por exemplo, servir para cozinhar alimentos ou para afastar inimigos, mas também ser o veículo da destruição e da tragédia coletiva ao destruir uma floresta ou uma cidade.
A planta é composta por um conjunto de elementos ou substâncias, cada uma definida por um conjunto de afecções e afetos, que entram em relação de associação ou dissociação, formando coletivos bioquímicos maiores, que podem agir de forma sistêmica, produzindo certo número de efeitos ou ações em outros corpos ou seres. Esses elementos ou substâncias que entram em relação de composição podem contribuir para fortalecer ou enfraquecer o corpo ou o espírito, podem compor com outros corpos de diferentes formas e em diferentes ritmos. A planta é um conjunto dinâmico de afetos e afecções, uma multiplicidade virtual associada com outros organismos e seres. Essa associação pode ser benéfica ou maléfica conforme a qualidade da relação, resultando em substração, soma ou multiplicação de potência. A planta pode servir de alimento, medicamento ou até mesmo veneno, produzindo efeitos diferenciados conforme a relação entre suas propriedades ou atributos e as afecções do corpo ou indivíduo com o qual ela entra em associação. Mas a planta, 'em si', não é boa ou má, ela apenas produz associações benéficas ou maléficas para este ou aquele corpo, podendo curar, alimentar ou matar.
A crítica das paixões tristes
Todo individuo é caracterizado pela forma como afeta e é afetado por outros corpos e pela dinâmica das forças que entram em sua composição. Desta forma, a liberdade de ação consiste em buscar 'compor' preferencialmente com outros corpos (ou indivíduos) que agregam vitalidade e potência a nossa existência, seja ampliando a nossa capacidade de afetar e ser afetado, seja fornecendo os elementos necessários para a manutenção da nossa dinâmica individual (certo ritmo ou intensidade que nos caracteriza diante dos demais corpos).
"Temos três componentes: 1º) nossa essência singular eterna; 2º) nossas relações características (de movimento e de repouso), ou nossos poderes de ser afetado; 3º) as partes extensivas que definem a nossa existência na duração e pertencem à nossa essência enquanto efetuam esta ou aquela de nossas relações (do mesmo modo as afecções externas que preenchem a nossa potência de ser afetado). O 'mau' é quando partes extensivas que nos pertenciam sob uma relação são determinadas do exterior a entrar sob outras relações; ou então quando uma afecção nos toca e excede o nosso poder de ser afetado. Nesse caso, dizemos que nossa relação é decomposta, ou que nosso poder de ser afetado foi destruído" (Ibidem, p. 48).
O homem bom é aquele que busca orientar suas ações de forma a compor positivamente com outros corpos (ou ideias). O resultado de uma composição positiva com o mundo da vida, efeito de associações que somam ao invés de subtrair, resulta na alegria que emana naturalmente do homem bom, do homem que orienta suas ações buscando a intensificação da sua potência ou vontade de poder. Isso nem sempre resulta em uma atitude 'justa' ou 'boa' diante de toda e qualquer situação da vida, nem mesmo produz necessariamente 'bondade', apesar de possibilitar a afirmação de uma potência e de uma vida sobre outras vidas. O homem bom, de fato, não é bom para todos ou sempre, mas apenas parcialmente e sempre em um sentido único: a sua bondade potencializa a sua força e, desta forma, a própria Natureza. Como todos os corpos e todas as ideias fazem parte de uma única substância, mesmo o homem bom sabe oferecer-se em sacrifício no momento apropriado e, se for realmente 'bom', saberá também tirar o maior proveito disso que puder. Esse é, afinal, o caminho para a eternidade.
Já o homem mau ou fraco é aquele que se deixa levar por suas paixões e afecções, compondo com outros corpos (ou indivíduos) de maneira a se decompor com o tempo, ou seja, minimizando sua dinâmica individual e sua capacidade de afetar e ser afetados pelos outros. O homem fraco não conhece a si mesmo e aos outros, suas ações são sempre reações ocasionais e oportunistas que o impedem de poder equacionar produtivamente a sua existência. Ele se deixa conduzir pelas suas paixões, afetando-se conforme o acaso e o destino, sem nunca assumir a responsabilidade de conduzir a si próprio e aos outros diante da tormenta. O homem fraco está sempre reclamando da vida, dos infortúnios de outrem e de si mesmo, transformando-se em vítima, justificando seus atos pela fraqueza diante de paixões e desejos que não consegue explicar. O homem mau justifica sua maldade pela fraqueza dos outros, mas sem nunca entender a química que movimenta os corpos, incluindo o seu. Como um louco perdido, o homem fraco vaga sem rumo, trocando alguns segundos de alegria por uma vida de tristeza e amargura existencial.
"O bom e o mau são duplamente relativos, e exprimem-se um em relação ao outro, e ambos em relação a um modo existente. São os dois sentidos da variação de potência de agir: a diminuição desta potência (tristeza) é má, seu aumento (alegria) é bom. Objetivamente, é bom, desde logo, o que aumenta ou favorece nossa potência de ação, e mau o que a diminui ou a impede; não conhecemos o bom e o mau a não ser pelo sentimento de alegria ou de tristeza de que estamos conscientes. Como a potência de agir é o que abre o poder de ser afetado ao maior número de coisas, é com aquilo que dispõe o corpo de tal maneira que possa ser afetado pelo maior número de modos" (Ibidem, 60).
Spinoza e a filosofia da vida
"Há, efetivamente, em Spinoza, uma filosofia da 'vida': ela consiste precisamente em denunciar tudo o que nos separa da vida, todos esses valores transcendentes que se orientam contra a vida, vinculados às condições e às ilusões de nossa consciência. (...) quando encontramos um corpo exterior que não convém com o nosso (isto é, cuja relação não se compõe com a nossa), tudo ocorre como se a potência de agir é
diminuída ou impedida, e que as paixões correspondentes são de tristeza. Mas, ao contrário, quando encontramos um corpo que convém à nossa natureza e cuja relação se compõe com a nossa, diríamos que a sua potência se adiciona à nossa: as paixões que nos afetam são de alegria, nossa potência de agir é ampliada ou favorecida. Esta alegria é ainda uma paixão, visto que tem uma causa exterior; permanecemos ainda separados de nossa potência de agir, não a possuímos formalmente. Esta potência de agir não deixa de aumentar de modo proporcional, 'aproximando-nos' do ponto de conversão, do ponto de transmutação que nos torna-rá senhores dela, e por isso dignos de ação, de alegrias ativas" (Ibidem, 33-4).
domingo, 14 de abril de 2013
O desenvolvimentismo tecnicista e a popularidade do Governo Dilma
A retórica do 'crescimento' e do 'desenvolvimento' formam a base mito-ideológica de uma governamentalidade que, na prática, segue à risca a agenda neoliberal, com pequenos traços tupiniquins. De um lado a crença no crescimento sem limites,do outro a aplicação tecnicista de uma economia política voltada para a fabricação e multiplicação de 'consumidores', traduzindo cidadania enquanto um mero acesso ao 'mercado'.
Produzem-se, assim, novos níveis de consumo econômico (das classes 'c', 'd', etc.), ampliando o alcance das garras do grande capital. A inclusão social tornou-se, de fato, uma mera 'inclusão econômica'. As pessoas são motivadas pela grande mídia e pelos agentes governamentais a avaliar a sua qualidade de vida conforme o grau de acesso aos bens de consumo 'modernos'. A vida se transformou num grande "Big Brother", onde a competição, o investimento pessoal no 'capital humano e informacional', a lógica da eficiência técnica e econômica, a luta pela sobrevivência no mundo selvagem do capitalismo, tornou-se o único valor moral. Tudo vale apena, desde que vire 'renda'. Todos os sonhos e desejos são possíveis e realizáveis, desde que possuam um preço. Todas as qualidades podem virar um poderoso e atrativo fetiche nas mãos do grande irmão.
Em nome do acesso às novas tecnologias - que se multiplicam diariamente - tudo é válido. A regra do utilitarismo humano e tecnológico predomina em todos os setores.
"Corra! Você também pode se aprimorar, faça um curso de especialização técnica, invista no seu currículo, torne-se uma pessoa útil".
A regra da 'utilidade' como único critério de seleção de pessoas, valores e ideias predomina na infra-estrutura e na super-estrutura, fazendo com que as engrenagens do Grande Capital funcionem à todo vapor. A nossa sociedade é uma flecha progressiva, ou você se "moderniza" ou se torna 'arcaico'. Não sabemos muito bem para onde vamos - neste campo predominam controvérsias intermináveis - mas é certo que 'vamos com intensidade', rumamos em alta velocidade, colocando todas as 'resistências' abaixo, varrendo o caminho com máquinas, tratores e homens.
Enquanto os índices de popularidade da presidenta Dilma aumentam, os serviços públicos de saúde e segurança pública continuam péssimos. A infra-estrutura das grandes cidades está em crise. A reforma agrária anda estagnada há anos. Os movimentos sociais estão em alerta. Nada vai bem no campo ou na cidade, os recursos públicos são desviados e até mesmo os investimentos na recuperação de áreas atingidas por eventos naturais não têm sua execução fiscalizada. Veja a realidade cotidiana das nossas escolas, universidades e hospitais.
Mas, não se preocupe, a lógica utilitária prescreve a solução para todos os nossos problemas: se a economia vai bem, a sociedade vai bem, obrigado. Neste contexto totalitário, toda crítica social é percebida como 'conservadora': ora, o Brasil está crescendo, qual é o problema? Se você não quer avançar na mesma intensidade, vai acabar ficando pra trás... Só existe um único caminho, o caminho do 'progresso' e do 'desenvolvimento', o Brasil ainda há de se tornar uma "Nova Iorque Tropical". Para crescer precisamos de energia e se o preço a pagar por isso é a extinção de algumas centenas de índios e ribeirinhos e o extermínio de um patrimônio arqueológico, cultural e ambiental inestimável, que mal há nisso? Ao mesmo tempo que assistimos "ao vivo" a decadência da qualidade de vida nas grandes metrópoles - marcada pelo péssimo trânsito, os altos índices de criminalidade, as constantes tragédias ambientais e a poluição sonora e do ar - a retórica modernizante promove a assimetria ideológica entre a cidade e a roça, enaltecendo o meio de vida urbano e depreciando o modo de vida rural, operação mitológica cuja expressão literária maior é o nosso já conhecido "Jeca Tatu". O nosso caminho foi delineado de forma a promover exatamente o modo de vida que está em 'crise', demonstrando-se insustentável em médio e longo prazo.
Mas o debate e a discussão de ideias não é bem vinda no contexto do "Grande Partido". Não importa a qualidade ou conteúdo dos argumentos críticos, nada se contrapõe à justificativa eleitoreira de uma 'popularidade' alimentada por uma economia política que sabe muito bem dar as batatas aos vencedores.
Esquece-se, com isso, que a história da humanidade demonstra claramente que a 'popularidade' nunca foi um critério de 'justiça', qualidade 'ética' ou até mesmo 'intelectual' das ideias, planos econômicos ou de governo. Afinal, fenômenos políticos totalitários como o "nazismo", o 'fascismo", a 'intolerância religiosa ou ideológica", a homofobia, a 'ditadura militar' e outros governos de exceção - guardadas as devidas diferenças - foram sustentados pela produção de dados estatísticos favoráveis, marketing político e altos índices de aprovação junto à população em geral.
O fato é que toda forma de totalitarismo - até mesmo os mais 'populares' - são atentados contra a liberdade e a criatividade humana.
terça-feira, 9 de abril de 2013
Hans e o Devir-Rato
Por mais que Hans se esforçasse, não conseguia lembrar quando o 'distúrbio' teve início. O 'caso' representa uma anomalia rara na história da psicanálise. Apesar de homens e ratos conviverem há milhões de anos,existem poucos relatos sobre eventos como aquele.
A relação entre as duas espécies é milenar. Homens e ratos vivem lado a lado, amigavelmente ou não. Os ratos podem ser 'sacrificados' em nome da ciência ou combatidos como uma praga.
As ciências ocidentais tecem inúmeras analogias entre o corpo do rato e o corpo humano. Doenças são testadas nesses animais tendo como referência esse pressuposto de homologia corporal. Apesar da diferença radical, ratos e homens possuem semelhanças genéticas e biológicas há muito exploradas pela medicina. Os ratos são mantidos em cativeiro, no laboratório, onde servem de cobaia 'viva' para experimentos de toda espécie. Coletivos de humanos se mobilizam em nome desses animais, instituições são mantidas com verbas governamentais e todo um campo de problematização jurídico-governamental se estabeleceu em torno dos 'direitos dos animais de laboratório', entre eles, os ratos e camundongos. Os comitês de ética fiscalizam e orientam procedimentos científicos por meio de protocolos. A relação entre homens e ratos no âmbito das pesquisas científicas é regulamentada por regras e valores humanistas, voltadas para o reconhecimento dos direitos do sujeito-rato. Os defensores dos animais seguem uma cartilha rigorosa de 'princípios' e 'orientações' e alguns pesquisadores se especializam em decifrar todos os artigos da nova "Constituição". A 'violência' entre uma espécie e outra é, assim, institucionalizada na ciência por códigos éticos que legitimam as práticas predadoras dos cientistas, tudo em nome da 'vida humana'.
Os ratos foram perseguidos durante milênios pelas cruzadas evangelizadoras. Simbolo da desgraça e da doença crônica, os ratos foram eleitos como o indicativo da peste e do pecado projetado sobre os homens maus. Os historiadores até hoje tem dificuldade em explicar os motivos que levaram a essa cruel demonização. O fato é que os ratos foram transformados, ao longo do tempo, em emissários e representantes das forças diabólicas, sendo combatidos como tal. Criou-se, assim, uma relação de homologia espiritual entre o espírito mau e o rato, assim como da praga e da desgraça coletiva com a invasão desses animais, considerados malignos e nefastos. A única analogia espiritual mais forte do que essa é aquela entre homens e morcegos...
A convivência entre ratos e homens nem sempre é pacífica. Mas o fato é que - conforme o 'senso comum' - homens e ratos têm vidas distintas, convivendo sem nunca se misturar. A fronteira entre as duas espécies é um marco para a 'humanidade' e apenas em situações extraordinárias foi superada, como é o caso dos famosos ratos-orelhas criados em laboratório, a partir da aplicação de técnicas de manipulação genética.
Mas, para o pobre Hans, a lembrança do momento exato em que teve início o lento processo de transformação simplesmente desapareceu. Nenhuma indicação de algo que pudesse ser minimamente denominado de realidade. Teria sido um sonho, ou talvez uma conversa? Ou, quem sabe, uma conversa em um sonho? A vida antes da internação na 'casa de saúde' era uma coleção de imagens borradas e imprecisas. Por mais que ele tentasse recordar, havia apenas a lembrança de uma invasão de ratos de consequências perturbadoras para o conjunto da humanidade. Aos poucos, todos se pareciam com ratos ou eram ratos disfarçados? Homens vestidos de ratos ou ratos vestidos de homens? Seriam todos vítimas de uma 'praga noturna'?
Por um instante a imagem de uma ratazana gigante lhe veio em mente, seguida de uma breve cena de um rato se deslocando em um assoalho de madeira vermelha. As suas unhas, já grandes, cintilam uma sinfonia desproporcional diante de um Hans tão pequeno e insignificante. A porta por onde entrara parece tão desproporcionalmente grande, assim como a sua sombra delineada na parede.
Outra imagem, desta vez da face do rato, de seu nariz nervoso. Os pelos do nariz formam um minusculo bigode que vibra.Os olhos são assustadores, como os olhos de um feiticeiro. Seus dentes, levemente postados pra frente, indicando uma possível agressão.
Lembrança-rato, mas os ratos nunca andam sozinhos. A arte do flautista de Hamlin, como todo bom ilusionista, consiste em saber conduzir o coletivo de animais pelas ruelas e estradas do desconhecido país, apresentá-los às autoridades, levá-los para as festas mais requintadas da elite local até o ponto de embriagá-los completamente, até o ponto de afogá-los no rio Weser e com isso por fim à invasão e ao perigo da epidemia.
Mas o que seria do flautista sem aquele 'Outro', o anômalo que habita a fronteira e que caminha exatamente no 'entre', esse ser que coloca os limites em questão, abrindo as membranas para movimentos de simbiose completa. Esse rato branco com olhos de um vermelho intenso, unhas gigantes, pelos espessos e cintilantes. Havia nele algo de humano, algo de perigosamente familiar. Talvez os olhos, ou melhor, o olhar de indagação. Como se ele e Hans compartilhassem um grande segredo.
Mas que segredo seria esse?Seria outro dialeto, de onde viria esse vocabulário de ruídos-palavras? É como se os ratos falassem a mesma língua, mas de forma completamente diferente. Havia, de fato, algo muito semelhante entre Hans e aqueles animais. E tudo estava inscrito de forma bastante contundente naquele rato branco. A sua brancura era tão terrivelmente perturbadora, algo do qual Hans não conseguia mais se libertar.
Uma tendência radical em transformar-se em 'Outro' ou outro alguém, expressa em um turbilhão de intensidades que invadiram o corpo do pobre Hans. Seria uma possessão, estaria Hans possuído? Quando, em que momento exato esse movimento de fuga teve início? Melhor, para onde a transformação o conduzia, quais regiões do ser a fuga lhe permitiu experimentar? Quais ritmos, disposições e afecções permitiram essa comunicação entre-bordas, abrindo uma abertura nas dobras do ser?
Hans lembra de ter comprado um rato, ou seria esse primeiro rato um habitante antigo da morada de seus avós, da velha fazenda. Ou seria um rato capturado ainda vivo, talvez o pobre animal serviu de cobaia para projetos científicos. Teria sido um rato preso em seu labirinto ou uma ratazana presa em uma ratoeira? Mas o rato nunca foi um indivíduo, sempre viveu em coletivos nômades...
Em algum momento vieram os outros... E logo se multiplicaram, novas gerações surgiram, a população aumento com agressividade e em poucos meses havia toda uma civilização de ratos vivendo em sua casa, convivendo com Hans diariamente, comendo da sua comida e dormindo em sua cama. Porque ele não combateu os ratos, porque não declarou guerra aos invasores?
O fato é que a passividade custou-lhe caro. Afinal, para que o coletivo de ratos pudesse viver naquele pequeno apartamento de dois quartos e uma sala-cozinha foi necessário que os novos habitantes do local fossem exilados de sua própria terra. A esposa de Hans e suas duas filhas - Miriam e Jan - abandonaram o local após a chegada dos primeiros ratos. Não suportaram ver o lar transformado daquele jeito. Não suportavam ver Hans, outrora tão radiante, completamente transfigurado, vestido com roupas sujas, com barba por fazer e o corpo coberto de pelos, vivendo como um rato entre ratos. Aquela animalidade tornou-se, em algum momento, tão insuportavelmente humana a ponto de transpor as fronteiras entre as duas espécies, torná-las insignificantes. O resultado era um ser híbrido, nem rato nem homem, algo 'entre' os dois.
Hans continuou apático, servil, completamente dominado por uma ideia que apreendeu em pouco tempo a considerar 'natural': havia algo de 'rato' nele e em todos de sua espécie. Pequenos afetos, afecções, tendências e intensidades, que surgiam em contextos específicos, em situações inesperadas e, até certo ponto, incomuns. Havia a possibilidade iminente de composição radical entre homens e ratos. Cabia a ele elevar a enésima potência esses movimentos moleculares.
Não há dúvida, os homens podem ser ratos em situações especiais, 'ratiando' aqui e ali como um pequeno mamífero roedor, alimentado-se das sobras e dos restos de seus hospedeiros. O homem pode ser o mais temível dos ratos, alcançando a terrível façanha de ser mais rato do que os próprios ratos.
A metamorfose.de Hans foi voraz e em poucos meses estava completamente transformado. A primeira mudança foi no campo da alimentação. Surgiu como uma modesta obsessão por queijos, de todas as procedências e tipos.
Depois, a transformação intensificou-se ainda mais. Em algum momento a caça de pequenos insetos lhe pareceu tão apetitosa e atrativa que a força do hábito não foi suficiente para desconstruir ou retrair um estranho e inesperado desejo evidenciado por um salivar compulsivo. Depois vieram os grãos, como nozes, amendoins e amêndoas. Restos de comida, pães e arroz cru. Sementes de todos os tipos, bananas e outras frutas. Mas os ratos comem no chão. Para comer como um rato, Hans também teve que passar a viver como um, rastejando ao lado de seus comparsas.
Tudo mudou quando os ratos reconheceram Hans pela primeira vez como parte do bando. Naquele momento, ele sabia que havia cruzado uma fronteira importante. A partir dali ele jamais seria o mesmo. Retornar no interior da diferença, reportar-se a outras diferenças, sem nunca reproduzir o "Fundamento" ou à identidade do conceito.
Um devir-rato apoderou-se do pobre Hans, dando início a um intenso movimento de transformação, transfigurando completamente o seu corpo e face, a ponto de, no final, nem mesmo sua mãe, ex-esposa e filhas reconhecerem nele nada mais do que uma remota lembrança do que um dia foi ou pensou ser.
Em dias de visita como hoje, Hans tem a impressão de ser um rato em uma gaiola, um reflexo dos olhares surpresos dos visitantes, com seus silêncios intermináveis e seus gestos de nojo e atitudes de distanciamento. Ele havia se tornado um intocável, habitante solitário de um palácio de assoalho e teto branco, de paredes também brancas, onde todos os seres vivem como seres imaculados, com suas vestimentas de um branco extremo, da mesma brancura do velho Barth, o anômalo. Aquele que parecia um animal tão humano, talvez mais humano do que o próprio Hans e todos de sua espécie. O rato-líder, com seus olhos terrivelmente vermelhos e seu bigode demasiadamente humano, tão humano que fazia de todos os homens um mero reflexo.
Barth era o seu 'Moby-Dick', um rato-homem, o anômalo que não reconhece qualquer fronteira, que transpassa por transbordar todas as linhas. A janela, a abertura ou a dobra por onde tudo flui, transloca, transgride, transforma e transfere. O rato-hans havia se tornado uma ratazana.
[Em algum momento do século XIX, Hans L. A. D. foi personagem de um famoso caso estudado pelos mais renomados psicólogos da época. O rapaz, então com apenas 24 anos, acreditava ter se transformado em um rato, convivendo com os membros desta espécie em um galpão abandonado, em sua propriedade agrícola, em uma pequena cidade da Inglaterra. O evento foi denunciado pela esposa e a filha de Hans, que foi removido para um manicômio, onde viveu até cometer suicídio, em 1932. Conforme relatam os 'livros médicos', Hans morreu "como um rato, comunicando-se até os últimos minutos de vida como se fosse um desses animais". Seguiram-se outros tantos relatos sobre 'casos' semelhantes e a história da psicanálise revela uma simpatia constante pela potencial relação de simbiose ou oposição entre homens e ratos. A obsessão foi analisada em um clássico da psicanalise - "Homem dos ratos" - publicada, em 1909, por Freud, que analisa a obsessão de seu paciente por esses animais, representados como o símbolo de uma série de ambivalências anais projetadas no conflito inaugural com o pai. Esta história e outras semelhantes serviram de inspiração para a escrita deste pequeno ensaio, elaborado em diálogo com a noção de 'devir' de Deleuze e Guattari].
A relação entre as duas espécies é milenar. Homens e ratos vivem lado a lado, amigavelmente ou não. Os ratos podem ser 'sacrificados' em nome da ciência ou combatidos como uma praga.
As ciências ocidentais tecem inúmeras analogias entre o corpo do rato e o corpo humano. Doenças são testadas nesses animais tendo como referência esse pressuposto de homologia corporal. Apesar da diferença radical, ratos e homens possuem semelhanças genéticas e biológicas há muito exploradas pela medicina. Os ratos são mantidos em cativeiro, no laboratório, onde servem de cobaia 'viva' para experimentos de toda espécie. Coletivos de humanos se mobilizam em nome desses animais, instituições são mantidas com verbas governamentais e todo um campo de problematização jurídico-governamental se estabeleceu em torno dos 'direitos dos animais de laboratório', entre eles, os ratos e camundongos. Os comitês de ética fiscalizam e orientam procedimentos científicos por meio de protocolos. A relação entre homens e ratos no âmbito das pesquisas científicas é regulamentada por regras e valores humanistas, voltadas para o reconhecimento dos direitos do sujeito-rato. Os defensores dos animais seguem uma cartilha rigorosa de 'princípios' e 'orientações' e alguns pesquisadores se especializam em decifrar todos os artigos da nova "Constituição". A 'violência' entre uma espécie e outra é, assim, institucionalizada na ciência por códigos éticos que legitimam as práticas predadoras dos cientistas, tudo em nome da 'vida humana'.
Os ratos foram perseguidos durante milênios pelas cruzadas evangelizadoras. Simbolo da desgraça e da doença crônica, os ratos foram eleitos como o indicativo da peste e do pecado projetado sobre os homens maus. Os historiadores até hoje tem dificuldade em explicar os motivos que levaram a essa cruel demonização. O fato é que os ratos foram transformados, ao longo do tempo, em emissários e representantes das forças diabólicas, sendo combatidos como tal. Criou-se, assim, uma relação de homologia espiritual entre o espírito mau e o rato, assim como da praga e da desgraça coletiva com a invasão desses animais, considerados malignos e nefastos. A única analogia espiritual mais forte do que essa é aquela entre homens e morcegos...
A convivência entre ratos e homens nem sempre é pacífica. Mas o fato é que - conforme o 'senso comum' - homens e ratos têm vidas distintas, convivendo sem nunca se misturar. A fronteira entre as duas espécies é um marco para a 'humanidade' e apenas em situações extraordinárias foi superada, como é o caso dos famosos ratos-orelhas criados em laboratório, a partir da aplicação de técnicas de manipulação genética.
Mas, para o pobre Hans, a lembrança do momento exato em que teve início o lento processo de transformação simplesmente desapareceu. Nenhuma indicação de algo que pudesse ser minimamente denominado de realidade. Teria sido um sonho, ou talvez uma conversa? Ou, quem sabe, uma conversa em um sonho? A vida antes da internação na 'casa de saúde' era uma coleção de imagens borradas e imprecisas. Por mais que ele tentasse recordar, havia apenas a lembrança de uma invasão de ratos de consequências perturbadoras para o conjunto da humanidade. Aos poucos, todos se pareciam com ratos ou eram ratos disfarçados? Homens vestidos de ratos ou ratos vestidos de homens? Seriam todos vítimas de uma 'praga noturna'?
Por um instante a imagem de uma ratazana gigante lhe veio em mente, seguida de uma breve cena de um rato se deslocando em um assoalho de madeira vermelha. As suas unhas, já grandes, cintilam uma sinfonia desproporcional diante de um Hans tão pequeno e insignificante. A porta por onde entrara parece tão desproporcionalmente grande, assim como a sua sombra delineada na parede.
Outra imagem, desta vez da face do rato, de seu nariz nervoso. Os pelos do nariz formam um minusculo bigode que vibra.Os olhos são assustadores, como os olhos de um feiticeiro. Seus dentes, levemente postados pra frente, indicando uma possível agressão.
Lembrança-rato, mas os ratos nunca andam sozinhos. A arte do flautista de Hamlin, como todo bom ilusionista, consiste em saber conduzir o coletivo de animais pelas ruelas e estradas do desconhecido país, apresentá-los às autoridades, levá-los para as festas mais requintadas da elite local até o ponto de embriagá-los completamente, até o ponto de afogá-los no rio Weser e com isso por fim à invasão e ao perigo da epidemia.
Mas que segredo seria esse?Seria outro dialeto, de onde viria esse vocabulário de ruídos-palavras? É como se os ratos falassem a mesma língua, mas de forma completamente diferente. Havia, de fato, algo muito semelhante entre Hans e aqueles animais. E tudo estava inscrito de forma bastante contundente naquele rato branco. A sua brancura era tão terrivelmente perturbadora, algo do qual Hans não conseguia mais se libertar.
Uma tendência radical em transformar-se em 'Outro' ou outro alguém, expressa em um turbilhão de intensidades que invadiram o corpo do pobre Hans. Seria uma possessão, estaria Hans possuído? Quando, em que momento exato esse movimento de fuga teve início? Melhor, para onde a transformação o conduzia, quais regiões do ser a fuga lhe permitiu experimentar? Quais ritmos, disposições e afecções permitiram essa comunicação entre-bordas, abrindo uma abertura nas dobras do ser?
Hans lembra de ter comprado um rato, ou seria esse primeiro rato um habitante antigo da morada de seus avós, da velha fazenda. Ou seria um rato capturado ainda vivo, talvez o pobre animal serviu de cobaia para projetos científicos. Teria sido um rato preso em seu labirinto ou uma ratazana presa em uma ratoeira? Mas o rato nunca foi um indivíduo, sempre viveu em coletivos nômades...
Em algum momento vieram os outros... E logo se multiplicaram, novas gerações surgiram, a população aumento com agressividade e em poucos meses havia toda uma civilização de ratos vivendo em sua casa, convivendo com Hans diariamente, comendo da sua comida e dormindo em sua cama. Porque ele não combateu os ratos, porque não declarou guerra aos invasores?
O fato é que a passividade custou-lhe caro. Afinal, para que o coletivo de ratos pudesse viver naquele pequeno apartamento de dois quartos e uma sala-cozinha foi necessário que os novos habitantes do local fossem exilados de sua própria terra. A esposa de Hans e suas duas filhas - Miriam e Jan - abandonaram o local após a chegada dos primeiros ratos. Não suportaram ver o lar transformado daquele jeito. Não suportavam ver Hans, outrora tão radiante, completamente transfigurado, vestido com roupas sujas, com barba por fazer e o corpo coberto de pelos, vivendo como um rato entre ratos. Aquela animalidade tornou-se, em algum momento, tão insuportavelmente humana a ponto de transpor as fronteiras entre as duas espécies, torná-las insignificantes. O resultado era um ser híbrido, nem rato nem homem, algo 'entre' os dois.
Hans continuou apático, servil, completamente dominado por uma ideia que apreendeu em pouco tempo a considerar 'natural': havia algo de 'rato' nele e em todos de sua espécie. Pequenos afetos, afecções, tendências e intensidades, que surgiam em contextos específicos, em situações inesperadas e, até certo ponto, incomuns. Havia a possibilidade iminente de composição radical entre homens e ratos. Cabia a ele elevar a enésima potência esses movimentos moleculares.
Não há dúvida, os homens podem ser ratos em situações especiais, 'ratiando' aqui e ali como um pequeno mamífero roedor, alimentado-se das sobras e dos restos de seus hospedeiros. O homem pode ser o mais temível dos ratos, alcançando a terrível façanha de ser mais rato do que os próprios ratos.
A metamorfose.de Hans foi voraz e em poucos meses estava completamente transformado. A primeira mudança foi no campo da alimentação. Surgiu como uma modesta obsessão por queijos, de todas as procedências e tipos.
Depois, a transformação intensificou-se ainda mais. Em algum momento a caça de pequenos insetos lhe pareceu tão apetitosa e atrativa que a força do hábito não foi suficiente para desconstruir ou retrair um estranho e inesperado desejo evidenciado por um salivar compulsivo. Depois vieram os grãos, como nozes, amendoins e amêndoas. Restos de comida, pães e arroz cru. Sementes de todos os tipos, bananas e outras frutas. Mas os ratos comem no chão. Para comer como um rato, Hans também teve que passar a viver como um, rastejando ao lado de seus comparsas.
Tudo mudou quando os ratos reconheceram Hans pela primeira vez como parte do bando. Naquele momento, ele sabia que havia cruzado uma fronteira importante. A partir dali ele jamais seria o mesmo. Retornar no interior da diferença, reportar-se a outras diferenças, sem nunca reproduzir o "Fundamento" ou à identidade do conceito.
Um devir-rato apoderou-se do pobre Hans, dando início a um intenso movimento de transformação, transfigurando completamente o seu corpo e face, a ponto de, no final, nem mesmo sua mãe, ex-esposa e filhas reconhecerem nele nada mais do que uma remota lembrança do que um dia foi ou pensou ser.
Em dias de visita como hoje, Hans tem a impressão de ser um rato em uma gaiola, um reflexo dos olhares surpresos dos visitantes, com seus silêncios intermináveis e seus gestos de nojo e atitudes de distanciamento. Ele havia se tornado um intocável, habitante solitário de um palácio de assoalho e teto branco, de paredes também brancas, onde todos os seres vivem como seres imaculados, com suas vestimentas de um branco extremo, da mesma brancura do velho Barth, o anômalo. Aquele que parecia um animal tão humano, talvez mais humano do que o próprio Hans e todos de sua espécie. O rato-líder, com seus olhos terrivelmente vermelhos e seu bigode demasiadamente humano, tão humano que fazia de todos os homens um mero reflexo. Barth era o seu 'Moby-Dick', um rato-homem, o anômalo que não reconhece qualquer fronteira, que transpassa por transbordar todas as linhas. A janela, a abertura ou a dobra por onde tudo flui, transloca, transgride, transforma e transfere. O rato-hans havia se tornado uma ratazana.
[Em algum momento do século XIX, Hans L. A. D. foi personagem de um famoso caso estudado pelos mais renomados psicólogos da época. O rapaz, então com apenas 24 anos, acreditava ter se transformado em um rato, convivendo com os membros desta espécie em um galpão abandonado, em sua propriedade agrícola, em uma pequena cidade da Inglaterra. O evento foi denunciado pela esposa e a filha de Hans, que foi removido para um manicômio, onde viveu até cometer suicídio, em 1932. Conforme relatam os 'livros médicos', Hans morreu "como um rato, comunicando-se até os últimos minutos de vida como se fosse um desses animais". Seguiram-se outros tantos relatos sobre 'casos' semelhantes e a história da psicanálise revela uma simpatia constante pela potencial relação de simbiose ou oposição entre homens e ratos. A obsessão foi analisada em um clássico da psicanalise - "Homem dos ratos" - publicada, em 1909, por Freud, que analisa a obsessão de seu paciente por esses animais, representados como o símbolo de uma série de ambivalências anais projetadas no conflito inaugural com o pai. Esta história e outras semelhantes serviram de inspiração para a escrita deste pequeno ensaio, elaborado em diálogo com a noção de 'devir' de Deleuze e Guattari].
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Tropas Federais Vs. Povo Munduruku
No sudoeste do Pará, os índios Munduruku e ribeirinhos da região lutam contra a construção da hidroelétrica Tapajós. Essa obra terá um impacto sobre o meio ambiente regional, colocando em risco recursos naturais essenciais para a reprodução do modo de vida dessas populações. Além de representar um risco factual para índios e ribeirinhos, a construção dessa hidroelétrica - projeto associado diretamente aos objetivos de 'desenvolvimento antropofágico' do governo federal - também vai colocar 'embaixo d'água' um patrimônio arqueológico de valor inestimável.
Esse processo de destruição é informado por estudos de 'impacto' que calculam uma série de estimativas sobre a magnitude dos danos causados ao meio ambiente local, que depois serão indenizados pelo Governo. Os pareceres técnicos são, portanto, um elemento fundamental para a liberação da obra. Trata-se de dispositivos jurídicos criados para 'viabilizar' institucionalmente ações que resultam em danos ambientais e sociais. Essa 'economia do dano' está associada a um pressuposto fundamental: a inevitabilidade do 'progresso' e do 'desenvolvimento'. A estimativa do impacto e os estudos que a caracterizam são etapas necessárias para legitimar juridicamente um processo mais amplo e complexo, com efeito desastroso na vida dos povos que vivem na região, mas cujos fundamentos e objetivos não são colocados em discussão com a sociedade brasileira.
A política energética do governo - e toda a rede formada em torno da sua viabilização, o que inclui o cartel de empreiteiras e seus representantes políticos no congresso nacional - não é discutida ou problematizada. O pressuposto que está por trás disso é que o 'desenvolvimento' (tal como pensado pelo Governo Dilma) é inevitável, cabendo apenas 'calcular' o 'preço do progresso', conforme título de reportagem da rede globo (ver outro post sobre esse tema).
Recentemente, em março de 2013, o governo federal enviou uma 'força nacional' para a região, composta por veículos de guerra e soldados, colocando em ação uma verdadeira operação de guerra para garantir a continuidade dos estudos dos técnicos do IBAMA.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Redes Sociais como o 'facebook' são rizomas ou árvores?
Após uma aula sobre a noção de 'rizoma' em Deleuze e Guattari, dois alunos conversam entre si no corredor:
A: O que você acha, as redes virtuais como o Facebook e o Orkut são rizomas ou árvores?".
D: Na minha opinião, são as duas coisas ao mesmo tempo.
A: Como assim?
D: No facebook, por exemplo, todos as pessoas conectadas estão distribuídas de forma rizomática, podendo, em princípio, conectar-se aleatoriamente umas com as outras. As informações são distribuídas para todos os amigos, ao mesmo tempo... Não existe uma ordenação da sua rede de amigos, eles estão todos lá, virtualmente conectáveis.
A: Bom, então você acha que as redes sociais são rizomáticas?
D: Potencialmente sim, mas praticamente não. Pois os usuários ordenam e coordenam suas redes de amigos a partir de modelos como a 'árvore familiar', o 'grupo de amigos preferidos', 'aqueles com quem eu me identifico', 'a turma da escola'. Sem falar na chamada 'economia do curtiu', onde você só demonstra apreço por ideias e informações postadas por seus familiares e amigos mais próximos. Isso ocorre porque algumas pessoas que usam o facebook possuem árvores em suas cabeças, apesar de seus neurônios trabalharem de forma rizomática.
A: Isso significa que as redes, em si, são sistemas rizomáticos, mas o uso que as pessoas fazem das redes pode ser mais ou menos arbóreo, mais ou menos horizontal.
D: Sim, estava pensando algo assim... Isso ocorre porque estamos diante de atores-redes, isso significa que as redes em si são objeto de ordenação e coordenação dos coletivos humanos e não humanos que fazem parte dela. Se, por um lado, enquanto processo imanente a topologia da rede tem uma forma rizomática, os atores buscam formatá-la conforme os modelos que utilizam como referência (parentesco, meritocracia, afinidades), conforme os exemplos de ordenação de redes que discutimos em aula, lembra.
A: Sim, então você está afirmando que as redes são hierárquicas?
D: Talvez, algumas delas certamente são mais hierárquicas do que outras, que podem ser mais horizontais... Não importa o quanto os atores trabalhem duro para manter as redes mais ou menos ordenadas conforme seus modelos genealógicos, hierárquicos ou meritocráticos, os rizomas continuam brotando a partir das raízes das árvores... Se eu só 'curto' aquilo que os meus amigos mais próximos e meus familiares postam, nada impede que eu seja influenciado (mesmo que inconscientemente) por postagens que são enviadas por amigos mais distantes... Mas isso não permite afirmar que as redes são sempre rizomáticas, pois existe uma tensão constante permeada pela ação consciente dos atores... Isso significa que o formato das redes, a topologia, resulta da ação de ordenação e coordenação dos atores. Mas essa ação nunca é totalitária, mas sempre parcial e relativa, produzindo novos eixos rizomáticos que parecem brotar por toda parte, não importa quanto os atores se esforcem por organizar os componentes da rede e coordená-los conforme modelos arbóreos... As redes estão em contante processo de transformação, oscilando constantemente entre o processo imanente e rizomático e o modelo arbóreo e hierárquico.
A: Mas, na minha opinião, a rede é muito mais 'processo' do que 'modelo'... Por mais que eu 'curta' apenas as mensagens dos meus amigos, por mais que eu busque apagar e deletar qualquer informação desconhecida ou que não está de acordo com minhas afinidades ideológicas, estéticas ou morais, acabo sendo influenciado por mensagens que chegam de longe, de um 'lugar' inesperado. Isso explica, por exemplo, o fenômenos do 'surto em rede', ou seja, quando uma informação ou mensagem passa a circular em diferentes 'nichos' como em um efeito de 'ressonância' ou 'simbiose', onde as pessoas repetem a 'frase' ou a 'informação' e fazem com que ela circule sem se preocupar com a autoria ou procedência. Da mesma forma, você sempre pode conhecer uma pessoa nova pela internet ou entrar em contato com uma informação que você não estava buscando, mas que serviu de referência importante para uma 'ideia' qualquer... Inconscientemente as ideias costumam ultrapassar as fronteiras impostas conscientemente pelos próprios atores... Por exemplo, uma informação qualquer chega até você e é registrada pela sua atenção, mas, enfim, você nem conhece a pessoa então, você deixa pra lá... Outro dia você acorda com aquela ideia fixa na cabeça e não sabe de onde veio... Onde mesmo você ouviu falar aquilo? Teria sido um sonho? Um filme? Bom, dizem que a ideia que deu origem ao próprio facebook teve um percurso semelhante... Uma conversa ocasional em uma fila deu origem ao esboço inicial de uma ideia que, ao ser aprimorada, virou um empreendimento bilionário.
D: Bom, nisso eu concordo plenamente... Como dizem DG, por mais que as pessoas pensem como se tivessem uma árvore na cabeça, o cérebro funciona como uma erva... Os saltos e sinapses neurológicas não seguem nenhum modelo ideal, mas trabalham sob a lógica do improviso criativo. Mesmo assim, não podemos deixar de lado o fato de que existe uma luta ou batalha em andamento entre o processo que não cansa de escapar e formar novos rizomas e o trabalho (sempre parcialmente ineficaz) dos atores, que passam boa parte da sua vida tentando ordenar e coordenar a sua relação com o mundo.
[...]
A: Essa conversa toda me deu uma fome...
D: Nem me fala, já faz alguns dias que eu estou com um desejo de comer um bom salmão grelhado...
A: Ah... Então você também recebeu?
D: O que?
A: Aquela receita maravilhosa de salmão que está circulando as redes sociais...
D: Sinceramente, nem tinha reparado... Estava pensando mais em fazer uma adaptação de uma receita familiar, da minha avó... Tenho pensado muito nela ultimamente, não sei porque.
[...]
A: Adoro Salmão... Podemos pegar um cinema depois, estou louco pra ver...
D: ...já sei, aquele filme novo... Django...
A: Como você adivinhou?
D: É só o que se fala nas redes sociais...
A: Nem tinha reparado... Mas quero ir naquele cinema perto de casa, pelo menos lá as pessoas não ficam falando durante a sessão...
A: O que você acha, as redes virtuais como o Facebook e o Orkut são rizomas ou árvores?".
D: Na minha opinião, são as duas coisas ao mesmo tempo.
A: Como assim?
D: No facebook, por exemplo, todos as pessoas conectadas estão distribuídas de forma rizomática, podendo, em princípio, conectar-se aleatoriamente umas com as outras. As informações são distribuídas para todos os amigos, ao mesmo tempo... Não existe uma ordenação da sua rede de amigos, eles estão todos lá, virtualmente conectáveis.
A: Bom, então você acha que as redes sociais são rizomáticas?
D: Potencialmente sim, mas praticamente não. Pois os usuários ordenam e coordenam suas redes de amigos a partir de modelos como a 'árvore familiar', o 'grupo de amigos preferidos', 'aqueles com quem eu me identifico', 'a turma da escola'. Sem falar na chamada 'economia do curtiu', onde você só demonstra apreço por ideias e informações postadas por seus familiares e amigos mais próximos. Isso ocorre porque algumas pessoas que usam o facebook possuem árvores em suas cabeças, apesar de seus neurônios trabalharem de forma rizomática.
A: Isso significa que as redes, em si, são sistemas rizomáticos, mas o uso que as pessoas fazem das redes pode ser mais ou menos arbóreo, mais ou menos horizontal.
D: Sim, estava pensando algo assim... Isso ocorre porque estamos diante de atores-redes, isso significa que as redes em si são objeto de ordenação e coordenação dos coletivos humanos e não humanos que fazem parte dela. Se, por um lado, enquanto processo imanente a topologia da rede tem uma forma rizomática, os atores buscam formatá-la conforme os modelos que utilizam como referência (parentesco, meritocracia, afinidades), conforme os exemplos de ordenação de redes que discutimos em aula, lembra.
A: Sim, então você está afirmando que as redes são hierárquicas?
D: Talvez, algumas delas certamente são mais hierárquicas do que outras, que podem ser mais horizontais... Não importa o quanto os atores trabalhem duro para manter as redes mais ou menos ordenadas conforme seus modelos genealógicos, hierárquicos ou meritocráticos, os rizomas continuam brotando a partir das raízes das árvores... Se eu só 'curto' aquilo que os meus amigos mais próximos e meus familiares postam, nada impede que eu seja influenciado (mesmo que inconscientemente) por postagens que são enviadas por amigos mais distantes... Mas isso não permite afirmar que as redes são sempre rizomáticas, pois existe uma tensão constante permeada pela ação consciente dos atores... Isso significa que o formato das redes, a topologia, resulta da ação de ordenação e coordenação dos atores. Mas essa ação nunca é totalitária, mas sempre parcial e relativa, produzindo novos eixos rizomáticos que parecem brotar por toda parte, não importa quanto os atores se esforcem por organizar os componentes da rede e coordená-los conforme modelos arbóreos... As redes estão em contante processo de transformação, oscilando constantemente entre o processo imanente e rizomático e o modelo arbóreo e hierárquico.
A: Mas, na minha opinião, a rede é muito mais 'processo' do que 'modelo'... Por mais que eu 'curta' apenas as mensagens dos meus amigos, por mais que eu busque apagar e deletar qualquer informação desconhecida ou que não está de acordo com minhas afinidades ideológicas, estéticas ou morais, acabo sendo influenciado por mensagens que chegam de longe, de um 'lugar' inesperado. Isso explica, por exemplo, o fenômenos do 'surto em rede', ou seja, quando uma informação ou mensagem passa a circular em diferentes 'nichos' como em um efeito de 'ressonância' ou 'simbiose', onde as pessoas repetem a 'frase' ou a 'informação' e fazem com que ela circule sem se preocupar com a autoria ou procedência. Da mesma forma, você sempre pode conhecer uma pessoa nova pela internet ou entrar em contato com uma informação que você não estava buscando, mas que serviu de referência importante para uma 'ideia' qualquer... Inconscientemente as ideias costumam ultrapassar as fronteiras impostas conscientemente pelos próprios atores... Por exemplo, uma informação qualquer chega até você e é registrada pela sua atenção, mas, enfim, você nem conhece a pessoa então, você deixa pra lá... Outro dia você acorda com aquela ideia fixa na cabeça e não sabe de onde veio... Onde mesmo você ouviu falar aquilo? Teria sido um sonho? Um filme? Bom, dizem que a ideia que deu origem ao próprio facebook teve um percurso semelhante... Uma conversa ocasional em uma fila deu origem ao esboço inicial de uma ideia que, ao ser aprimorada, virou um empreendimento bilionário.
D: Bom, nisso eu concordo plenamente... Como dizem DG, por mais que as pessoas pensem como se tivessem uma árvore na cabeça, o cérebro funciona como uma erva... Os saltos e sinapses neurológicas não seguem nenhum modelo ideal, mas trabalham sob a lógica do improviso criativo. Mesmo assim, não podemos deixar de lado o fato de que existe uma luta ou batalha em andamento entre o processo que não cansa de escapar e formar novos rizomas e o trabalho (sempre parcialmente ineficaz) dos atores, que passam boa parte da sua vida tentando ordenar e coordenar a sua relação com o mundo.
[...]
A: Essa conversa toda me deu uma fome...
D: Nem me fala, já faz alguns dias que eu estou com um desejo de comer um bom salmão grelhado...
A: Ah... Então você também recebeu?
D: O que?
A: Aquela receita maravilhosa de salmão que está circulando as redes sociais...
D: Sinceramente, nem tinha reparado... Estava pensando mais em fazer uma adaptação de uma receita familiar, da minha avó... Tenho pensado muito nela ultimamente, não sei porque.
[...]
A: Adoro Salmão... Podemos pegar um cinema depois, estou louco pra ver...
D: ...já sei, aquele filme novo... Django...
A: Como você adivinhou?
D: É só o que se fala nas redes sociais...
A: Nem tinha reparado... Mas quero ir naquele cinema perto de casa, pelo menos lá as pessoas não ficam falando durante a sessão...
sábado, 9 de março de 2013
Devir-Lembrança: devaneio
É bom sentar na praia, ouvir os pássaros, o movimento das cachoeiras, sentir a brisa do ar, acompanhar o brilho da luz solar e seu efeito na composição de um mundo de cores e tonalidades. Depois, na volta para casa, sentar para ouvir histórias e treinar a sensibilidade. Silenciar o pensamento por alguns instantes, deixar-se conduzir pelas intensidades: movimentos, sons dispersos (será preciso segui-los para encontrar o sentido?)
Vivenciar um devir-planta na degustação de um vinho. Imaginar como é a vida nos campos e vinhedos, envolver-se totalmente em uma lembrança enigmática de um avô que um dia ensinou os netos a lidar com as plantas e, principalmente, com as uvas, esses seres selvagens de personalidade instável.
Escutar uma sinfonia e viver o ritmo e a harmonia dos sons e dos contra-sons. [Lembrei de uma frase e achei estranho o fato dela soar como um ritornelo, genuíno mas sempre diferente].
Os bons prazeres da vida são modestos, mínimos em forma e enésimos em potência e vitalidade.
A felicidade é a duração de uma infinidade no breve período de um devaneio.
[É tão bom escrever sabendo que as palavras se perdem como os amantes diante de um nascer do sol deslumbrante, sem se preocupar em capitalizar a escrita e o pensamento como os empresários capitalizam os músculos e tendões dos trabalhadores. Escrevo por necessidade, da mesma forma que me alimento quando estou com fome...].
Vivenciar um devir-planta na degustação de um vinho. Imaginar como é a vida nos campos e vinhedos, envolver-se totalmente em uma lembrança enigmática de um avô que um dia ensinou os netos a lidar com as plantas e, principalmente, com as uvas, esses seres selvagens de personalidade instável.
Escutar uma sinfonia e viver o ritmo e a harmonia dos sons e dos contra-sons. [Lembrei de uma frase e achei estranho o fato dela soar como um ritornelo, genuíno mas sempre diferente].
Os bons prazeres da vida são modestos, mínimos em forma e enésimos em potência e vitalidade.
A felicidade é a duração de uma infinidade no breve período de um devaneio.
[É tão bom escrever sabendo que as palavras se perdem como os amantes diante de um nascer do sol deslumbrante, sem se preocupar em capitalizar a escrita e o pensamento como os empresários capitalizam os músculos e tendões dos trabalhadores. Escrevo por necessidade, da mesma forma que me alimento quando estou com fome...].
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