quarta-feira, 14 de novembro de 2012

1º Seminário Internacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais

Na próxima semana, entre os dias 19 e 21 de novembro, será realizado, em Uberlândia, o "1º Seminário Internacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais", uma atividade organizada pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Sociologia da Universidade Federal de Uberlândia. Na ocasião, esterei participando do evento como debatedor dos trabalhos apresentados no GT 3 - Educação, Políticas Públicas e Teoria Sociais. Segue abaixo a programação resumida e o link para o blog do evento.

19/11/2012

08-08:30
Credenciamento

09-12hrs - Mesa de Abertura: "Trabalho, Estado e Classes Sociais no Capitalismo Contemporâneo"
Profº Drº Nicolas Carrera (Universidade de Buenos Aires)
Profª Drª Virgina Fontes (UFF, FioCruz)
Mediadora: Profª Drª Patrícia Tropia (UFU)

13:30-14:30 - Apresentação de Pôsteres
14:30-18:30 - Grupos de Trabalho

20/11/2012

09-12hrs - Mesa Redonda: "O Trabalho de Campo e Etnografia"
Profº Drº Edmundo Antonio Peggion (PPGAS-UFSCAR)
Profº Drº Dagoberto José Fonseca (UNESP)
Mediador: Marcel Mano (UFU)

Idem

19:30-22hrs - Mesa Redonda: "Macumba: diversidades das religiosidades de matriz africana"
João Marcos Allen (UFU)
Marili Junqueira (UFU)
Jaqueline Talga
Vanesca Tomé Paulino
Representantes das religiosidades afro-brasileira do Triângulo Mineiro e Paranaíba

21/11/2012

09-12hrs - Mesa Redonda: "Sociabilidades, Identidades e Subjetividades"
Profº Drº João Carlos Zuin (UNESP)
Profª Drª Jacy Alves de Freitas (INHIS - UFU)
Mediadora: Profª Drª Eliane Ferreira (UFU)

Idem

19:30 - Festa de Encerramento do evento

A programação completa e outras informações podem ser conferidas no link abaixo.

http://sinppgcsufu.blogspot.com.br/p/programacao.html
 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Participação em Painel no 10º Congresso da Abrasco - Porto Alegre

Nesta semana, esterei de passagem pela saudosa capital dos casais, Porto Alegre, onde irei participar do painel "Concepções sobre saúde e adoecimento, sistema biomédico e políticas na área de saúde", organizado por Sílvia Guimarães (UnB), no âmbito do 10º Congresso da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

A atividade será realizada no dia 16 de novembro (sexta-feira), na sala 503 da Faculdade de Educação (FACED/UFRGS), e conta também com a presença das professoras Cristina Dias da Silva (UFJF), Rita de Cássia Neves (UFRN) e Paula Viana (Grupo Curumim).

Na ocasião, pretendo tecer reflexões sobre a interface entre políticas públicas na área de saúde e pesquisas na área da biomedicina que envolvem o chamado 'acesso' aos conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade. Farei isso a partir de uma etnografia da ciência realizada junto a uma pesquisa de farmacologia que visa a produção de fitoterápicos a partir de plantas medicinais e conhecimentos coletados em uma comunidade ribeirinha do Alto Amazonas. Essa iniciativa foi autorizada pelo governo brasileiro e se insere dentro da proposta de estabelecimento de um 'diálogo' entre a ciência e os saberes medicinais ribeirinhos.

A programação do evento é enorme e conta com a presença de especialistas de diversas áreas científicas, de órgãos governamentais e centros de pesquisa associados à temática da saúde pública. Para quem tiver interesse, a programação está disponível no link abaixo.

http://www.saudecoletiva2012.com.br/home.asp

domingo, 28 de outubro de 2012

O mensalão e a crise da democracia partidária

A vontade de domínio político totalitário resulta de uma mentalidade que vê na democracia apenas um 'instrumento' para a construção de uma 'sociedade-partido', no melhor estilo '1984', de G. Orwell. O "Grande Irmão' tem um plano para dominar o mundo, independentemente dos meios usados para a conquista de tal feito. Tudo vale, vale tudo: comprar o mandato popular de parlamentares; apoiar genocidas do agronegócio; abraçar os apoiadores da ditadura; destruir o meio de vida de índios e ribeirinhos; corromper funcionários públicos; desrespeitar a Constituição Brasileira. A lista de 'meios' usados para tal finalidade deixaria até Maquiavel constrangido. E a opera assume tons fantásticos, com cenas surrealistas, com verdinhas circulando em cuecas e malas pretas, com ministros atuando nos bastidores do poder, convertendo a máquina pública num exército de uma quadrilha oculta, que age nos bastidores do poder partidário, manipulando tendência e instituindo um modo perverso de governar. Para essa ala dominante do PT paulista, a democracia é sinônimo de luta pela hegemonia totalitária: maquiavelismo na veia com alguns toques gramscianos.

Mas o mensalão de José Dirceu e Cia coloca a própria democracia em crise. Lembro que, em 1989, havia uma expectativa popular em torno de uma 'limpeza ética do poder'. Após décadas de regime militar, a sociedade brasileira viu-se diante da tarefa de construir novamente um estado de direito e democrático. Vivíamos o período pós constituinte. O tema da ética e da reforma do estado tomou a pauta dos candidatos, em um debate político acirrado e repleto de afirmações demagogas. Acabou ganhando, com o apoio da Organização Tabajara (Rede Globo), o zé bonitinho do momento. Collor era o 'caçador de marajás', o homem que prometia 'limpar' a corrupção e o mal uso da máquina pública da história do país. Um messias prometendo redenção. Como sabemos hoje, tudo não passou de uma grande encenação pirotécnica, uma retórica superficial que acabou levando o alagoano ao poder. O discurso sobre a ética - na política real do dia a dia - é agenciado nas lutas diárias pelo poder. Tempos depois tivemos que acertar as contas com o destino. O movimento 'cara pintada' - ao buscar recuperar o tema da ética na política - expressou a decepção do povo brasileiro em uma ainda recente e jovem democracia.

Depois veio o período "FHC", eleito sob a bandeira de um 'Real Forte' e uma economia que apresentava tendências claras de recuperação. Com o controle da inflação, teve também início uma lenta e ampla reforma neoliberal do estado, através de uma transformação profunda dos mecanismos de exercício do governo. A tecnicização da política deu origem a uma governamentalidade neoliberal que ainda se mantem ativa e atuante até hoje. Os programas de privatização tucanos são uma grande 'caixa preta' de corrupção e descaso com o poder público. Para se manter no governo e governar, FHC estabeleceu relações fisiológicas com setores à direita do prisma político, como o antigo PFL (hoje DEM). Instituiu-se ali uma nova tecnologia de governo: um tecnicismo academicista (com forte viés economicista) apoiado em uma base política 'vampiresca'. Enquanto FHC reformava e tecnicizava de um lado, seus aliados se deliciavam com o mercado das privatizações do outro. Foi o período triste do Estado Mínimo, do descaso com a saúde e com a educação, de perseguição aos movimentos sociais. Não há dúvida de que o governo do PSDB enredou-se em sua própria malha de apoio, rendendo-se ao velho estilo fisiológico de fazer política performado pelos setores mais conservadores da política brasileira. Sem falar que foram oito longos anos sem aumento para diversos setores do funcionalismo público, oito anos de sucateamento do ensino público superior.  

Foi a partir desta conjuntura de decepção e amargura que o PT construiu o seu caminho em direção à presidência da república. Baluarte da ética no poder público, os petistas perseguiam os corruptores e corruptos diariamente, colocando-se como uma 'estrela' em um céu escuro e sinistro de corrupção e descaso com o bem público. As irregularidades associadas ao processo de privatização ocorrido no Governo FHC foram alvo da metralhadora giratória de figurinhas como José Genuíno e Dirceu. O PT da oposição era um forte porta-voz da mudança e da ética na política.

Mas ainda faltava algo. A simples retórica da ética não era suficiente para convencer os patrões da mídia, os empresários, as indústrias, os bancários, enfim, todos os agentes formadores de opinião pública. Foi então que entrou em cena o 'maquiável brasileiro', costurando literalmente as parcerias que levaram Lula ao poder no início do século XXI. José Dirceu costurou uma complexa rede de apoio político, sendo que parte dessa rede manteve-se sempre nos bastidores, financiando a campanha milionária que levou Lula à presidência da República. Somente hoje, com a conclusão do julgamento do 'mensalão', podemos avaliar a profundidade e a densidade das associações políticas e econômicas que conduziram o primeiro presidente operário ao poder da república.

Mas a regra da política-partidária é básica: todo apoio será cobrado em dobro mais a frente. Foi assim que o núcleo político do PT paulista levou o primeiro governo Lula à enredar-se na sua própria rede, reproduzindo o mesmo erro de FHC. Sob a bandeira de um 'pragmatismo' vazio, nos bastidores da república, uma verdadeira máfia de corruptores e corruptos se formou na penumbra da noite, sob o manto pardo do poder republicano. Usando do dinheiro do contribuinte, os antigos porta-vozes da ética na política deram início a um audacioso plano para conquistar o Brasil e o mundo, tendo no comando José 'Cérebro' Dirceu e José 'Pink' Genuíno. Nesse caminho incerto, formou-se o núcleo de gestão fraudulenta.

Como um vírus que cresce e avança quando não encontra obstáculos ou quando consegue vencê-los sem maior resistência,  esse núcleo fraudulento e corrupto foi aos poucos construindo sua hegemonia no governo e no partido, com o expurgo dos honestos e o estabelecimento de novas parcerias utilitárias. De uma hora para outra, as antigas vítimas da metralhadora giratória petista passaram a pousar ao lado das lideranças do PT: reis da soja e do agronegócio, grileiros; empresários; José Sarney; Paulo Maluf; o inesquecível Roberto Jefferson, ACM e todos aqueles 'partidos-vampiros', que vivem sugando a máquina pública em benefício próprio. Nesse processo de busca de 'poder pelo poder', rasgou-se a Constituição Democrática e Cidadã e afundou-se a história do principal partido da recente democracia brasileira. Quando o voto de parlamentares e eleitores é transformado em uma 'mercadoria' de barganha ilícita, os valores democráticos entram em profunda crise institucional.

Surge deste contexto sinistro um herói pouco provável: um STF composto por juristas escolhidos à dedo por Lula, a direção nacional (paulista) do PT e seus ministros mais próximos. O 'feitiço' virou contra o 'feiticeiro'. O Castelo de Areia (Kafka) desmoronou-se por completo. O julgamento do mensalão revelou aos brasileiros e ao mundo esta face obscura e sinistra do 'novo PT' de José Dirceu e Cia. Nesse processo histórico, o partido foi transformado em uma empresa, introjectando a lógica nefasta do neoliberalismo, que transforma sonhos e pessoas em números, estatísticas e cálculos de 'custo e benefício'. Aprimoraram-se as tecnologias governamentais em busca de um controle totalitário e absoluto da população e do território: surge daí toda uma nova governamentalidade. A 'vida' humana e não humana é transformada pela lógica da economia política.

Quando o STF finalmente reconheceu, mapeou e identificou a malha de corrupção que perpassava os bastidores da república, a democracia já estava abalada em seus alicerces fundamentais. A mentalidade da hegemonia política inaugurada por Dirceu já havia conquistado adeptos por toda parte. A ética do vale tudo predominava por todos os corredores do Castelo. Assistimos à banalização da ideologia partidária em nome de uma política de alianças com resultados duvidosos. Nesse caminho, o projeto político emancipador - de caráter trabalhista - está se transformando em um projeto desenvolvimentista, que consegue reunir em um só programa de governo o pior da nossa história político-partidária: assistencialismo + desenvolvimentismo autoritário e totalitário. Vamos transformar o Brasil em uma grande 'Miami Tropical'.

Mas os idiotas não só perderam a modéstia, como também passaram a sofrer seriamente de 'bipolaridade'. De um lado, continuam atuando sob o manto trabalhista, colocando-se retoricamente ao lado dos trabalhadores e 'excluídos' da sociedade do grande capital; do outro, rasgam a constituição e convertem um projeto ideológico em um programa de consolidação de uma sociedade de consumo cujos pilares foram estabelecidos durante a Ditadura Militar. Surge o 'trator do PAC' atropelando tudo e todos que se colocam no seu caminho: ecossistemas, plantas,  animais, ribeirinhos, pescadores, comunidades tradicionais e indígenas. Vamos passar o Brasil à limpo, transformar este país em uma grande potência colonial. Nesse processo, toda forma de resistência do mundo da vida é domesticada por uma redução da discussão política  aos números e tabelas do planejamento contábil e empresarial: "O problema do neoliberalismo é, ao contrário, saber como se pode regular o exercício global do poder político com base nos princípios de uma economia de mercado" (Foucault, Nascimento da Biopolítica).

Ao lado dessa transfiguração interna da ideologia lulista promovida pelos seus assessores mais diretos, temos as políticas sociais de caráter 'reparatório', ora voltadas para a inserção dos setores mais pobres e miseráveis na sociedade de consumo, ora voltadas para a efetivação de um desenvolvimento predatório sustentado por um poderoso lobby político no congresso nacional. Enquanto a economia e os economistas vão muito bem obrigado, a política e a democracia vão mal. O esvaziamento do embate ideológico e político, a metamorfose constante de partidos e candidatos, tudo isso contribui para a falência do sistema partidário tal como o conhecemos hoje. A morosidade em realizar uma reforma política profunda agrava ainda mais o problema. Criou-se uma malha fina tecnicista que perpassa todos os campos de governamentalidade. O desenvolvimentismo se tornou a moda do momento e não existe espaço para o debate político.

Completa-se, aqui, o ciclo de transfiguração da consciência política operária surgida nos porões da ditadura, quando a vítima assume como sua a consciência dos seus algozes. Para entender esse processo com um todo, precisamos não só de uma teoria social, mas também de uma teoria psicanalítica.

 Os orquestradores desse genocídio da democracia justificam suas ações apontando para seus inimigos e dizendo: 'se eles também roubaram e continuam roubando, porque nós não podemos roubar?'. Ora, como diz um velho ditado popular, 'faz parte da natureza da cobra picar'. A corrupção ativa e passiva faz parte da essência da direita brasileira. O mensalão do PSDB não só era aguardado, como expressa a natureza deste partido. Nenhuma surpresa aí. Mas com o PT é diferente. O povo aguardava uma mudança de paradigmas na política brasileira. Ganhou em troca uma grande decepção e o desconto na compra da geladeira do ano. Vamos inflar o capitalismo e vender a democracia. Acabaram-se as utopias. Ao final da história (que é também o começo de uma tragédia coletiva), sobrou apenas uma malha extensa de corruptores e corruptos, que agem nos bastidores e contam com a cobertura política de um bando de avestruzes.

["Quando uma avestruz enterra sua cabeça na areia ao aproximar-se o perigo, muito provavelmente toma a rota mais feliz. Ela esconde o perigo, e então calmamente diz que não há perigo algum; e se sente de maneira perfeitamente segura de que não há perigo, por que haveria de levantar a cabeça para ver? Um homem pode passar a vida mantendo sistematicamente fora de vista tudo o que poderia causar uma mudança em suas opiniões" (Charles Peirce, Ilustrações da Lógica da Ciência).]

Vitória nas urnas, mas derrota na ética, na ideologia e na política. Com isso, nós, brasileiros, perdemos todos. Vivemos em uma conjuntura onde tudo parece se igualar, onde só temos a possibilidade de escolher entre o 'mesmo' e o "mesmo', entre o ruim e o menos pior, entre uma cesta básica e um pontapé no traseiro, entre a bolsa-família e um tapinha nas costas. Triste fim da democracia e da utopia: o projeto de emancipação e libertação da classe trabalhadora foi transfigurado em um programa de transformação de cidadãos em consumidores.

O que dizer numa situação como essa se não: 'aos vencedores as batatas'!
                                           

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Vida e Materialismo Histórico em Marx e Engels

"Com relação aos alemães, que não dispõem de quaisquer premissas, devemos lembrar a existência de uma primeira premissa de toda a existência humana e, portanto, de toda a História, ou seja, a premissa de que os homens têm de estar em condições de viver para poderem fazer História. Para viver é preciso, sobretudo, comer, beber, vestir-se, ter uma habitação etc. O primeiro fato histórico é, portanto, a produção dos meios para a satisfação dessas necessidades, a produção da própria vida material, e a verdade é que este é um fato histórico, uma condição fundamental de toda a História, que ainda hoje, tal como há milhares de anos, tem de ser realizado dia a dia, hora a hora, para, ao menos, manter os homens vivos. Mesmo quando a realidade se reduz a um simples bastão, como como São Bruno, essa mesma realidade pressupõe a atividade da produção deste bastão. Assim a primeira coisa a fazer em qualquer concepção da História é observar este fato fundamental em todo o seu significado e em toda a sua dimensão, e atribuir-lhe a importância que lhe é devida.

(...) A produção da vida, tanto da própria, no trabalho, como da alheia, na procriação, surge imediatamente como uma dupla relação: por um lado como relação natural, por outro como relação social, no sentido em que aqui se entende a cooperação de vários indivíduos não importando em que circunstância, maneira e com que objetivos. Disto resulta que um determinado modo de produção ou estágio de desenvolvimento industrial esteja sempre ligado a um determinado modo de cooperação, ou fase social, e este modo de cooperação é ele próprio uma 'força produtiva'; e que a quantidade das forças produtivas acessíveis aos homens condiciona o estado da sociedade e, portanto, a 'História da Humanidade' tem de ser estudada e tratada em conexão com a história da indústria e da troca.

Somente agora, depois de termos examinado quatro momentos, quatro facetas das relações históricas primordiais, verificamos que o homem também tem 'consciência'. Mas não se trata de uma consciência que seja de antemão consciência 'pura'. Sempre pesou sobre o 'espírito' a maldição de estar preso à matéria, a qual aqui se manifesta sob a forma de camadas de ar em movimento, de sons, em outras palavras: sob a forma de linguagem. A linguagem é tão velha como a consciência, a linguagem é a consciência real prática que existe também para outros homens e que, portanto, só assim existe também para mim, e a linguagem só nasce, como a consciência, da necessidade, da carência de contato com outros homens. Onde existe uma relação, ela existe para mim.

(...) A consciência da necessidade de manter relações com os outros indivíduos marca o começo da consciência do homem de que vive, de fato, em sociedade. Este começo é tão animal quanto a própria vida social desta fase, é mera consciência gregária e, neste aspecto, o homem se distingue aqui do carneiro apenas pelo fato de a sua consciência substituir o instinto ou de o seu instinto ser consciente".

Referência: MARX, K. e ENGELS, F. A Ideologia Alemã: teses sobre Feuerbach (Relações Históricas Primordiais).

Imagem: Cássio Loredano (Editora Boitempo)            

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O Cego e a bengala - Merleau-Ponty



"Na verdade, todo hábito é ao mesmo tempo motor e perceptivo, porque, como dissemos, reside, entre a percepção explícita e o movimento efetivo, nesta função fundamental que delimita ao mesmo tempo nosso campo de visão e nosso campo de ação. A exploração dos objetos com uma bengala, que há pouco apresentávamos como um exemplo de hábito motor, também é um exemplo de hábito perceptivo. Quando a bengala se torna um instrumento familiar, o mundo dos objetos táteis recua e não mais começa na epiderme da mão, mas na extremidade da bengala. É-se tentado a dizer que, através das sensações produzidas pela pressão da bengala na mão, o cego constrói a bengala e suas diferentes posições, depois que estas, por sua vez, medeiam um objeto à segunda potência, o objeto externo. A percepção seria sempre uma leitura dos mesmos dados sensíveis, ela apenas se faria cada vez mais rapidamente, a partir de signos cada vez mais claros. Mas o hábito não consiste em interpretar as pressões da bengala na mão como signos de certas posições da bengala, e estas como signos de um objeto exterior, já que ele nos dispensa de fazê-lo. As pressões na mão e a bengala não são mais dados, a bengala não é mais um objeto que o cego perceberia, mas um instrumento com o qual ele percebe. A bengala é um apêndice do corpo, uma extensão da síntese corporal".

Referência: MERLEAU-PONTY, M. 2011. Fenomenologia da Percepção (Capítulo IV). São Paulo: Martins Fontes.   

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Metrologia e Formatação em Serres

"Enfim, como navegar sem instrumentos para medir os ângulos, sem regras de cálculo, sem um modelo astronômico, sem compasso nem portulano, sem um mapa que indique o traçado exato do espaço a percorrer? Por meio da generalização dessa métrica, essas máquinas e referências contribuem para um verdadeiro controle das operações.

Essa padronização de pesos e medidas, de sinais e atos, torna possíveis as trocas mundializadas entre o que então se chamava de terra habitada. No espaço desse tempo, nenhuma economia de tal envergadura teria sido capaz de se organizar nem funcionar sem esses números, sem essas operações, não apenas sem as medidas que eles permitem ou pressupõem, mas, sobretudo, sem essa metrologia generalizada. A economia é resultante dela, pelo menos na mesma medida em que a condiciona. Em resumo, sua novidade pressupõe, ou acompanha, no mesmo momento e nos mesmos lugares, a emergência da ciência moderna: em países mercantilistas como a Itália e Flandres, pátrias de Girolamo Cardano (1501-1576) e Simon Stevin (1548-1620), respectivamente. Não que eu acredite, repito, que a economia tenha determinado as descobertas científicas, mas o reagrupamento de um conjunto de técnicas do mesmo gênero, um gênero ao qual procuro dar um nome, condiciona as trocas complexas do comércio realizado em torno do Mediterrâneo na época do Renascimento, assim como a emergência da ciência que herdamos.

(...) A esse gênero de coisas dou o nome de formato: a contabilidade formata as trocas, assim como, nos dias de hoje, computador formata e globaliza nossas informações; denominemos, pois, formatação a padronização do conjunto dessas medidas científicas, práticas, culturais e até mesmo artísticas, nos casos das partituras musicais destinadas aos corais e nas pinturas dos mestres. Uso o exemplo da contabilidade porque a palavra procede o que, em latim anglicizado, designa nossas máquinas: ao agrupar contábil e mensurável, ambas produzem inumeráveis configurações, pressupõem elementos, séries, repetições, homogeneidades, medidas e acordos que dizem respeito a vários domínios que, naturalmente, pensamos não terem nenhuma relação entre si.

(...) O formato diz respeito a homens e coisas, à natureza e à cultura... assim como ao acontecimento, que é seu oposto. Se alguém adivinhar rapidamente o poder que o acontecimento propicia, poderá também perceber seus inconvenientes. Preservar a uniformidade do mensurável certamente permite a eficácia, uma vez que elimina qualquer acidente, mas exclui o acontecimento e impede a novidade.

(...) Quem nunca obedeceu a um horário rígido, previsto com muita antecedência, tanto para o ano como para as horas, matinas, tércias, sextas, laudes, vésperas e completas, quem não saiu de sua cela ao soar dos sinos, não se debruçou sobre o birô para estudar, quem não foi ao refeitório, sempre em fila e, com frequência, em silêncio... O claustro, o pátio do colégio, a fábrica ou o escritório, o estádio ou a prisão... criam um lugar no espaço, contam o tempo, determinam de que maneira preencher os dias e a sequencia das horas, seus monges, internos, marinheiros e equipes vestem uniformes... em resumo, eles formatam o tempo, o espaço e as ações das crianças e dos adultos. Esse programa variou pouco desde a Idade Média até a manha de ontem.

(...) Sem o formato, no qual as formas dizem respeito tanto ao artesão como à sua obra, não há produção. Como é que um atleta alcança o estado que ele designa como 'estar em forma'? Por meio de um treinamento que exige que ele siga uma regra e que se torne um monge; o mesmo acontece com o escritor. Trata-se de uma condição necessária que assegura, pelo menos, um trabalho bem-feito, uma corrida honrosa, um lugar medíocre entre os profissionais. Para a genialidade, porém, ninguém encontrou ainda as condições suficientes. A classificação das ciências e disciplinas, dos artigos e teses, das notas de rodapé, do índice e da bibliografia, a citação conscienciosa e humilde por ocasião do debate... são exigências universitárias que disciplinam a pesquisa e o pensamento. Conforme-se à força coercitiva da formatação... Obedeça ao formato-pai que, invisível e ausente, reina sobre o saber absoluto.

Se seu desejo, porém, é inventar, arrisque-se, livre-se do formato. Faça isso, mesmo que tenha de morrer, transforme-se em filho. As grandes obras conjugam formato e invenção, disciplina de ferro e liberdade: pai e filho."

Referência: SERRES, M. 2008. Ramos (Formato-Pai). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.    

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Objetos Fractais em Mandelbrot

"Ao longo deste ensaio, objetos fractais naturais muito diversos, alguns dos quais, como a Terra, o céu e o oceano, nos são bastante familiares, são estudados com a ajuda de uma grande família de objetos geométricos, até agora considerados exotéricos e perfeitamente inúteis. Pretendo mostrar, pelo contrário, que estes objetos, pela sua simplicidade, diversidade e extraordinária extensão das suas novas aplicações, merecem ser rapidamente integrados na geometria elementar. Apesar do seu estudo fazer parte de campos científicos diferentes, entre os quais a geomorfologia, a astronomia e a teoria da turbulência, os objetos naturais em questão têm em comum uma forma irregular ou interrompida. Para os estudar, concebi, aperfeiçoei e utilizei extensivamente uma nova geometria da natureza.

A noção que lhe serve de fio condutor será designada por um de dois neologismos equivalentes, 'objeto fractal' ou 'fractal', termos que formei, pela necessidade que me surgiu com este livro, a partir do adjetivo latino fractus, que significa 'irregular' ou 'quebrado'.

Será necessário definir uma figura fractal de modo rigoroso, para em seguida dizer que um objeto real é fractal por se assemelhar à figura geométrica que constitui o modelo? Considerando que um tal formalismo seria prematuro, adotei um método muito diferente: um método baseado numa caracterização aberta e intuitiva, onde os avanços se efetuam por retoques sucessivos.

O subtítulo sublinha que o meu objetivo inicial consiste em descrever, a partir do exterior, a forma de diversos objetos. Logo que esta primeira fase seja bem sucedida, a prioridade transita de imediato da descrição para a explicação: da geometria para a dinâmica, a física e por aí adiante.

O subtítulo indica ainda que, para conseguir a irregularidade fractal, coloco em discussão as construções em que predomina o acaso.

Por fim, o subtítulo explicita que uma das características principais de todo objeto fractal é a sua dimensão fractal, que será representada por D. Esta é uma medida do grau de irregularidade e de fragmentação. Um fato muito importante: ao contrário dos números dimensionais correntes, a dimensão fractal pode muito bem ser uma fração simples, como 1/2 ou 5/3, ou mesmo um número irracional, como log 4/log 3 = 1,2618... Assim, é conveniente dizer, a respeito de certas curvas planas muito irregulares, que a sua dimensão fractal se situa entre 1 e 2, a respeito de certas superfícies muito enrugadas e cheias de pregas, que a sua dimensão fractal está entre 2 e 3 e, enfim, definir conjuntos de pontos sobre uma linha cuja dimensão fractal está entre 0 e 1.

(...) A geometria fractal é caracterizada por duas escolhas: a escolha de problemas no seio do caos da natureza, uma vez que descrever todo caos seria uma ambição sem esperança e sem interesse, e a escolha de ferramentas no seio das matemáticas, pois procurar aplicações das matemáticas pelo simples fato de serem belas acabou sempre por causar dissabores.

Depois de progressivamente amadurecidas, estas duas escolhas criaram algo de novo: entre o domínio do caos desregulado e a ordem excessiva de Euclides existe agora a nova zona da ordem fractal."

A geometria fractal foi criada, em 1975, pelo matemático francês nascido na Polônia, Benoit Mandelbrot. Em linhas gerais, um fractal é um objeto geométrico que pode ser divido em partes, cada uma da qual semelhante ao original. Essas figuras de forma irregular e fragmentada são encontradas na natureza ou podem ser produzidas artificialmente através de um algoritmo matemático.



Referência: MANDELBROT, B. 1998. Objetos Fractais (Introdução). Lisboa: Editora Gradiva.      

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A noção de "transformação" em Lévi-Strauss

"A de 'transformação' tem um espaço capital em suas análises de o Pensamento Selvagem como igualmente será o caso em Mitológicas. A quem o senhor tomou de empréstimo? Aos lógicos?"

"Nem aos lógicos nem aos linguistas. Veio-me de uma obra que para mim desempenhou um papel decisivo, e que li durante a guerra, nos Estados Unidos: On Growth and Form, em dois volumes, de D'arcy Wentworth Thompson, publicada pela primeira vez em 1917. O autor, naturalista escocês, interpretava como transformações as diferenças visíveis entre as espécies e órgãos animais ou vegetais no seio de um mesmo gênero. Isso foi uma iluminação, tanto que logo iria perceber que esta maneira de ver inscrevia-se numa longa tradição: antes de Thompson, havia a botânica de Goethe, e antes de Goethe, Albert Dürer, com seu Traité de la proportion du cosps humain.

Ora, a noção de transformação é inerente à análise estrutural. Diria, até, que todos os erros, todos os abusos cometidos, sobre ou com a noção de estrutura, provêm do fato de seus autores não compreenderem que é impossível concebê-la separada da noção de transformação. A estrutura não se reduz ao sistema: conjunto composto de elementos e de relações que os unem. Para que se possa falar de estrutura, é necessário que entre os elementos surjam relações invariantes, de tal forma que se possa passar de um conjunto a outro por meio de uma transformação.

Um outro itinerário, que os historiadores das ideias saberiam traçar melhor, introduziu a noção de transformação em linguística, talvez também a partir de Goethe, por intermédio de Guillaume de Humboldt e Baudoin de Courtenay. Quando se tenta dar conta da diversidade, seja qual for o domínio considerado, das diferentes maneiras pelas quais os elementos podem ser combinados, impõe-se o recurso à noção de transformação.

Se invoco um único princípio, o intercâmbio das mulheres entre os subgrupos da sociedade, para ficar a par de todas as regras de casamento, é necessário que essas regras, diferentes conforme a época e o lugar, se reduzam a estados de uma mesma transformação. O mesmo acontece quando o linguista prepara o repertório de fenômenos que o aparelho vocal consegue articular, e destaca as limitações a que cada língua deve curvar-se para retirar desse fundo comum os elementos de seu sistema fonológico particular. A própria noção de fenômeno implica que as propriedades divergentes dos sons, tal como a fonética os registra, constituam-se em transformações opcionais ou contextuais de uma realidade invariante, num nível mais profundo."

Referência: LÉVI-STRAUSS, C. e ERIBON, D. 2005. De perto e de longe. São Paulo: Cosac Naify.            
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