quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Notícia sobre a Greve dos Docentes Federais

As negociações com o governo federal em torno da greve docente não têm avançado e a recente decisão dos representantes do MEC em fechar acordo com a PROIFES e encerrar as negociações de forma unilateral só agrava ainda mais a conjuntura atual. Como todos sabem, a PROIFES é um sindicato associado ao governo, com pouca representação na base docente. A proposta não foi aceita pelas demais centrais sindicais, que não tiveram suas demandas atendidas. Até quarta-feira (08/08), 57 assembleias de centrais sindicais regionais deliberaram pela continuidade do movimento grevista, apoiando a decisão da ANDES. Os mandatários de Dilma, no entanto, interrompem o processo de negociação e o ministro da educação determina o início do 2º semestre (sem propor solução para a recuperação das aulas do primeiro semestre).

Apesar do governo ter feito pequenas alterações na proposta inicial, retirando pontos polêmicos como a requisição de um mínimo de 12 h/a como critério para progressão na carreira e a reformulação do número de níveis para 13, conforme requisitado pela pauta grevista, ainda existe muita discordância com as entidades sindicais em torno da estrutura e dos critérios de progressão na carreira docente.

Conforme as novas regras previstas na proposta do governo, o ingresso na carreira docente passará a ocorrer na categoria de "Professor Auxiliar", independentemente do nível de formação (hoje, classe de ingresso para candidato com nível de graduação. Concursos para auxiliar deixaram de ser feitos há décadas, quando se passou a exigir o diploma de doutorado para ingresso na carreira). Com isso, candidatos com doutorado terão que finalizar os três anos de estágio docente para, só então, pedir "promoção por titulação" para a categoria de "Adjunto, nível 1". O que não está claro é se o ingressante com doutorado contará com um salário equivalente ou maior do que o salário atual de um professor adjunto durante o período de espera pelo critério extraordinário de progressão e se essa regra será garantida por meio de condicionantes. Outra questão diz respeito a forma como esse novo critério de progressão será aplicado na prática. As universidades federais poderão publicar editais para professor auxiliar I com exigência mínima de 'doutorado'? Ou todos os concursos para auxiliar terão que permitir candidatos com graduação, apesar de poderem aceitar a inscrição de mestres e doutores? Quais são as implicações práticas dessas novas regras? Como elas serão aplicadas e de que forma serão utilizadas pelas universidades na contratação de novos docentes?

Outra polêmica gira em torno dos percentuais de aumento apresentados - de forma diferencial para cada classe e nível - pelo governo. Esses percentuais não integram no cálculo a projeção de inflação para o período de três anos (2013-2015). Quando esse percentual é inserido no cálculo, verifica-se perda salarial para boa parte dos docentes. Isso significa que ao anunciar um aumento gradual de 45% nos próximos três anos, o governo de fato apresenta uma proposta que se quer consegue conter as perdas inflacionarias do respectivo período, quem dirá conceder um aumento real do valor nominal do salário docente. Não é preciso ser perito em matemática para entender que esse percentual não pode ser classificado como 'aumento', muito menos como 'política de valorização salarial'. Em um momento em que o movimento docente defende a importância da melhoria das condições de trabalho (o que inclui um aumento nominal do salário docente), o governo responde com um aumento irreal.  

A distribuição diferencial do percentual de aumento entre as classes e níveis não corresponde a nenhuma lógica coerente, explicitando desigualdades já existente na atual estrutura de classes e níveis. Não existe, conforme observado pelas centrais sindicais, relação proporcional entre regimes de trabalho, valorização da titulação e  consistência remuneratória na progressão entre níveis e classes, criando distorções salariais sem qualquer critério de fundo.

Outra questão polêmica é a insistência do governo em precarizar o salário nominal em detrimento da retribuição por titulação, entrando em contradição com as reivindicações do setor, que exigem a incorporação dos ganhos no salário nominal, patrimônio inalienável do servidor público. Por último, a atitude do governo de transferir para Grupos de Trabalho as questões mais controversas - em uma conjuntura anterior de desrespeito ao que foi debatido e definido pelos GTs formados anteriormente com função semelhante - contribui para criar insegurança entre os docentes em torno de pautas importantes para o movimento.

A postura autoritária do executivo frente aos movimentos grevistas que perpassam atualmente diferentes setores do governo federal tem resultado na promoção fictícia de um 'diálogo de surdos', acompanhado por uma manipulação midiática da opinião pública que conta com a conivência dos principais meios de comunicação, repassando para o corpo docente a responsabilidade pela interrupção das aulas, quando, de fato, a manutenção da greve pelas organizações sindicais reflete a postura intransigente assumida pelos representantes dos ministérios da educação e planejamento nas negociações. Um exemplo desta postura foi a forma como a notícia do aumento previsto na proposta inicial do governo (de 45%, em etapas anuais) foi comunicada pelos principais meios de comunicação sem qualquer reflexão crítica. Apesar de contarem com a assessoria de economistas e analistas financeiros, as reportagens não mencionaram as taxas de inflação para o período, camuflando o que se apresenta como uma clara diminuição relativa dos níveis salariais. Com isso, a sociedade brasileira assiste a uma intensificação deliberada e pontual de práticas de criminalização das sindicais e dos movimentos grevistas só equiparado aos períodos mais autoritários da política nacional.

Da mesma forma que ocorre no setor energético, a postura autoritária e prepotente do governo impede a discussão de fundo sobre a atual política nacional de ampliação e reformulação do ensino superior público, algo que inclui um conjunto de ações heterogêneas colocadas em ação nos últimos anos, como as políticas de cotas, a reserva de vagas para alunos provenientes do sistema público, o REUNI (ampliação de vagas, cursos e universidades), a reformulação da estrutura e dos critérios de progressão na carreira, a consolidação de regras produtivistas na avaliação docente e outras tantas medidas. Não cabe aqui discutir cada uma dessas medidas, algumas delas de caráter positivo como as políticas de cotas para negros, índios e alunos de escola pública. O projeto de ampliação da Universidade Pública é fundamental para a consolidação da democracia e para o avanço no combate às desigualdades sociais e econômicas. Mas é preciso ter cuidado para que esse projeto não resulte, em médio e longo prazo, no sucateamento 'brando' do ensino público, que além da gratuidade, também deve manter a sua qualidade como valor inabalável. É nesse sentido que é importante refletir e coordenar esse conjunto de medidas, buscando harmonizá-las em um projeto que tenha efeito positivo a médio e longo prazo.

Infelizmente, a greve não tem colaborado para criar um espaço de reflexão sobre o projeto educacional que queremos para o Brasil. Para fazer a diferença é preciso eleger a educação como um tema fundamental. Reduzir a crise do ensino superior à simples imposição de propostas 'para inglês ver' é desqualificar a educação enquanto patrimônio nacional.      

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Curso de Campo Kayapó - 2012

Entre os dias 17 e 31 de julho,participei como instrutor em um curso de campo na aldeia mebêngôkre (Kayapó) A'ukre, localizada na TI Kayapó, no sudeste do Pará. O curso "Conservação, Vida Social e Desenvolvimento entre o Povo Indígena Kayapó do Sudeste da Amazônia" é uma iniciativa da Associação Floresta Protegida, do departamento de antropologia da Universidade de Maryland, em parceria local com a Universidade de Brasília (mais informações no link ao lado, "Curso de Campo Kayapó"). O curso - que integra a grade curricular do departamento de antropologia da Universidade de Maryland - é oferecido para alunos de graduação norte-americanos e também contou, neste ano, com a participação de uma aluna da China e com o acompanhamento de um grupo de estagiários Canadenses.

Os alunos matriculados ganham créditos pelas atividades e a iniciativa serve como um instrumento sustentável de geração de renda para a comunidade, que recebe uma taxa "comunitária" de U$ 400,00 por aluno, além de recursos repassados para as famílias e pessoas que participam diretamente nas atividades. Neste ano, o curso gerou cerca de R$ 10 mil em recursos disponibilizados diretamente para a comunidade, que possui grande demanda por iniciativas de geração de renda. O custo médio final para cada estudante chega próximo a US$ 3,5 mil, incluindo despesas com deslocamento e estadia.

O alto custo do curso é um dos principais fatores que dificultam a concepção de uma iniciativa semelhante voltada inteiramente (ou em parte) para estudantes brasileiros sediados em universidades federais. Atualmente, dois estudantes da UnB participam do curso como 'alunos visitantes', custeados pela Universidade de Maryland. Estamos buscando ampliar essa participação, seja através da incorporação de novas universidades parceiras, seja através da concepções de novos cursos, com novos parceiros.

A proposta geral do curso consiste em fornecer aos alunos noções fundamentais sobre uma diversidade de temas e disciplinas nas áreas de etnografia, etnologia, biologia e ecologia, buscando aliar o conhecimento didático fornecido no âmbito de seminários e oficinas com a vivência concreta de uma série de atividades desenvolvidas em contexto, nos espaços de habitação da aldeia, das trilhas comunitárias, dos rios e das diferentes paisagens ecológicas que compõem o ambiente local, estimulando em cada participante uma experiência existencial inesquecível. O tópico sobre "Técnicas de Pesca", por exemplo, é ministrado durante uma "expedição" com pescadores pelos diferentes ambientes de pesca existentes na região do entorno da aldeia. Nesse contexto, os alunos apreendem através da observação e experimentação direta das atividades de pesca, na companhia de instrutores e guias mebêngôkre. O mesmo ocorre com outros temas etnológicos e ecológicos abordados durante o curso, que não são apenas ministrados de forma didática, mas experimentados pelos estudantes.

A convivência, por um lado,  entre alunos, instrutores e estagiários de diferentes nacionalidades e, por outro lado, entre estes e os guias, instrutores e famílias indígenas que participam diretamente nas atividades promovidas durante o período, resulta em uma experiência de vida que supera as fronteiras linguísticas e socioculturais, constituindo um espaço-tempo de experimentação direta com a alteridade.

Deslocamento até a aldeia A'ukre (TI Kayapó, Pará)

Saí de Uberlândia no dia 17 de julho, por volta das 6:00hrs, em um avião pequeno da TRIP que me levou até Belo Horizonte, onde esperei por algumas horas até o horário da conexão em direção à Marabá, onde fiquei de encontrar o restante do grupo. A viagem foi relativamente tranquila, com uma breve passagem pela Serra dos Carajás. A visão aérea da região permite evidenciar o avanço do desmatamento, principalmente, ao sul e sudeste do Pará. Da janela da aeronave, é possível ver com nitidez os campos abertos no meio da mata, agora cobertos por uma pastagem rala que alimenta milhares de animais bovinos. Esses campos formam nódulos interligados por estradas de terra, onde os caminhões transitam levando e trazendo pessoas e coisas  das cidades para o interior. Trata-se de uma rede sociotécnica em intensa expansão que forma uma espécie de 'arco do desmatamento', que percorre o sul do Pará, do leste ao oeste. A grandiosidade da mata amazônica, no entanto, ainda predomina na paisagem como um verdadeiro oceano verde que resiste as investidas das frentes desenvolvimentistas. Uma parte considerável do trecho ainda em estado de conservação se encontra no interior da TI Kayapó, o que exige múltiplos esforços de fiscalização e proteção contra o avanço predatório de madeireiros e mineradores. Uma parte desse trabalho tem sido realizado pela AFP, em parceria com a FUNAI e outros parceiros locais.    

Cheguei em Marabá por volta do meio dia e encontrei Mayara, aluna da UnB, no aeroporto. Fomos encontrar o restante do grupo em um restaurante, onde almoçamos antes de continuar viagem até Tucumá. O trajeto Marabá-Tucuma está em condições deploráveis, com buracos imensos espalhados por toda parte, exigindo dos motoristas um cuidado redobrado. Levamos certa de 8 horas para percorrer um percurso de 400 km em um micro-ônibus. Chegamos em Tucuma por volta das 22hrs.

No outro dia de manha, a equipe fez uma reunião com os estudantes para apresentação do projeto, programação e exposição sobre a legislação indigenista atual e as diretrizes e regras de acesso ao conhecimento tradicional associado à biodiversidade (MP 2.186-16/2001).  Todos foram advertidos que a iniciativa visa unicamente a realização de atividades de ensino e de vivência extensionista. Os estudantes e instrutores foram informados sobre o compromisso, assumido pelo grupo frente aos órgãos governamentais, de não acessar conhecimentos associados à biodiversidade local, ponto com o qual todos concordaram sem qualquer objeção. Os estudantes também foram esclarecidos sobre os direitos autorais e procedimentos éticos associados aos direitos de imagem e receberam uma série de informações sobre o projeto. Ao final, um documento foi redigido e assinado por todos os integrantes do grupo, manifestando conhecimento sobre a legislação brasileira e o seu comprometimento em respeitá-la em todos os seus aspectos.

Por volta das 16hrs, eu, Kurt (estagiário canadense) e Tiago (instrutor mebêngôkre) partimos de avião para a aldeia A'Ukre, onde aguardamos até o dia seguinte pelo restante do grupo. A chegada na aldeia foi acompanhada por um grupo de crianças e mulheres que vieram nos receber na cabeceira da pista de terra. Também fomos recebidos por um dos caciques da aldeia e por Pat-i e Mecangô, instrutores mebêngôkre responsáveis por nos auxiliar com o curso.


Após montarmos nossas barracas na casa do projeto, fomos assistir um jogo de futebol no campo principal da aldeia, localizado ao lado da pista de pouso. Os mebêngôkre da aldeia A'Ukre, assim como seus parentes de outras aldeias kayapó da região, adoram jogar futebol, esporte que costumam praticar quase todos os dias, ao final da tarde. Eles participam todos os anos dos jogos municipais nas cidades de Tucuma e Redenção.



Atividades do Curso de Campo (2012)

Assim que os demais integrantes chegaram na A'Ukre, o coletivo inicial de estudantes foi dividido em dois grupos menores, sendo que o "grupo A" permaneceu na aldeia junto comigo, Laura, Phil e mais dois instrutores mebêngôkre e o "grupo B" foi de barco até a base de pesquisa Pinkaiti, acompanhados por Barbara, Pingo e um grupo de guias mebêngôkre.



No dia 24 de julho, o "grupo B" (acompanhados por dois estagiários canadenses) retornou para a aldeia e o "grupo A" (acompanhado pelo instrutor Phill) se deslocou até a base de pesquisa. Com isso, todos os estudantes tiveram a oportunidade de desfrutar da programação de atividades tanto na área de ecologia/biologia como na área de etnologia.

Segue abaixo a lista de atividades vivenciadas pelos alunos do curso durante o período de permanência na aldeia A'Ukre e na base de pesquisa Pikaiti.

Módulo de Etnologia Kayapó - Aldeia A'Ukre
Instrutores: Laura Zanotti, Diego Soares e Phill Nash
  • Tópico "Vivência na Roça e Agrobiodiversidade mebêngôkre": visita a roças mebêngôkre e debate com os alunos e guias indígenas sobre a diversidade de plantas e variedades cultivadas na roça ;
  • Tópico sobre mitos e histórias associadas às plantas cultivadas na roça;
  • Tópico "Vivência em Trilhas na Mata", caminhos comunitários utilizados na caça e na coleta de recursos diversos (realização de uma trilha de 28 km ou 12 horas até uma cachoeira);
  • Tópico "Paisagens da Aldeia": caminhada pela aldeia e oficina sobre ordenação sociocultural do espaço e a noção de "paisagens indígenas";
  • Oficina de Pintura Corporal seguida de seminário sobre "Gênero, pessoa e corporalidade entre os Mebêngôkre-Kayapó";
  • Tópico "Rituais e Vida Cerimonial": participação em danças e rituais que integram a vida cerimonial dos mebêngôhre da A'Ukre e discussão/debate com os estudantes sobre o tema;
  • Tópico "Educação Indígena": seminário/oficina com professores mebêngôkre da A'Ukre sobre a educação indígena na comunidade;
  • Tópico "Saúde Indígena": seminário/oficina com profissionais de saúde e agentes indígenas de saúde sobre o atendimento na aldeia;
  • Tópico "Vida e Cotidiano na Aldeia": realização de debates sobre relações sociais inter-familiares, entre famílias matriarcais (as "Casas"), relações geracionais e de gênero no cotidiano da aldeia;  
  • Tópico "Técnicas de Pesca": realização de 'expedições de pesca' e debate sobre técnicas e recursos pesqueiros com os guias/instrutores mebêngôkre.             











Módulo de Biologia/Ecologia - Base de Pesquisa Pikaiti
Instrutores: Adriano Jerozolimski e Barbara Zimmerman
  • Trilhas Ecológicas na área da base de pesquisa, com realização de seminários sobre temas associados à ecologia e ao desenvolvimento sustentável;
  • Sessões de Vídeo (Ex: "The Kayapó", T. Turner) acompanhadas por debate com guias mebêngôkre sobre o (s) tema (s) abordado no filme ou documentário;
  • Seminário sobre projetos e fontes de sustentabilidade e a sua viabilidade sociocultural e ecológica (Castanhas, Sementes de Cumaru, Artesanato, etc.);
  • Trilha até a Cachoeira e tópico sobre técnicas mebêngôkre de pesca e caça;
  • Trilhas e atividades de observação da vida animal noturna nas imediações da base de pesquisa e na cachoeira;
  • Seminários sobre projetos e atividades desenvolvidas pela Associação Floresta Protegida (AFP);      







No dia 29 de julho, os dois grupos de estudantes, estagiários e instrutores se reencontraram na aldeia A'Ukre para participar da programação final do curso. Após a realização de uma feira de troca e compra de artesanato envolvendo estudantes e a comunidade da A'Ukkre, os homens mebêngôkre realizaram uma dança na praça central  (com a participação de alguns estudantes e instrutores). Depois disso, foi realizado uma roda de avaliação da iniciativa por estudantes e membros da comunidade e uma reunião final entre lideranças indígenas e instrutores do curso.




No dia 30 de julho, o grupo retornou para Tucuma de avião. A tarde foi realizado um seminário com membros da FUNAI Regional, onde as atividades deste órgão público foram apresentadas e discutidas com os estudantes. A noite foi realizado um jantar de finalização do curso, que também contou com a participação de funcionários da FUNAI e colaboradores da AFP.

No dia 31 de julho, pegamos o ônibus de volta para Marabá por volta das 04:00 horas da manha, chegando nesta cidade ao meio-dia, onde eu e Mayara (aluna da UnB) retornamos de avião, respectivamente, para Uberlândia e Brasília. Os demais integrantes do grupo continuaram viagem terrestre até Belém, onde aguardaram entre dois e três dias para retornarem para os locais de origem.

Além de participar como instrutor nas atividades que integram a programação do curso de campo, tive a oportunidade de discutir e planejar com as lideranças mebêngôkre da aldeia A'Ukre o esboço inicial de um programa de pesquisa, ensino e extensão que pretendemos colocar em prática até o final de 2013, a partir de uma parceria institucional entre a UFU e a AFP. A iniciativa, que ainda se encontra em etapa inicial de elaboração, irá integrar projetos na área de inclusão digital, preservação do patrimônio cultural, educação escolar indígena e conhecimentos tradicionais.

Também tive a oportunidade de discutir questões associadas a implantação, em diferentes aldeias kayapós da região, do projeto "Pontos de Cultura Indígena" na TI Kayapó. O projeto prevê a instalação de centros de multimídia nas aldeias, fornecendo a infra-estrutura (computadores, câmeras de vídeo e fotografia, gravadores digitais, acesso à internet via satélite) e uma série diversificada de atividades de capacitação.  A iniciativa ainda depende da liberação dos recursos pelo governo e pela instituição executora. Existe uma expectativa que isso venha a ocorrer no próximo ano.  

Por último, é importante observar que foi discutido com os demais membros da equipe executora do curso a formalização de uma parceria com a Universidade Federal de Uberlândia em torno de uma segunda versão do mesmo curso de campo, possivelmente a partir do estabelecimento de uma parceria institucional com a AFP, a Universidade de Perdue e a Universidade de Maryland. Vamos buscar, no decorrer do próximo ano, viabilizar tal projeto do ponto de vista institucional e administrativo.  



segunda-feira, 16 de julho de 2012

Myth and Science - Lévi-Strauss

"A supernatural world thus exist again for humans. Thought physicists' calculations and experiments demonstrate its reality, these experiments take on meaning only when transcribed in mathematical language. In a layperson's eyes (that is, to almost the whole of humankind), this supernatural world offers the same properties as that of myths: everything in it happens differently than it would in the ordinary world, and more often upside down. For the man in the street, for all of us, this world remains out of reach, except through the means of ancient modes of thinking that the scientist consents to restore for our use (and sometimes, regrettably, for his own). In the least expected manner, the dialogue with science makes mythological thinking actual again."

Claude Lévi-Strauss  - The Story of Lynx    

sábado, 30 de junho de 2012

Lançamento do Livro "Redes Sociotécnicas na Amazônia" - 28ª RBA

Gostaria de convidar a todos para o lançamento do livro "Redes Sociotécnicas na Amazônia: tradução de saberes no campo da biodiversidade" (RJ: Edit. Multifoco, 2012), no âmbito da sessão de lançamento da 28ª Reunião Brasileira de Antropologia, a ser realizada na PUC, em São Paulo, entre os dias 02 e 05 de julho. Trata-se de uma versão reduzida e revisada da minha tese de doutorado em antropologia, defendida na Universidade de Brasília, em agosto de 2011. Segue abaixo uma breve apresentação do livro, que pode ser adquirido na:

Editora Multifoco: http://www.editoramultifoco.com.br/literatura-loja-detalhe.php?idLivro=903&idProduto=931

Editora Cultura: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=30182015&sid=1061682361499503092058911

 "Este livro resulta do projeto de colocar em relação duas áreas do conhecimento antropológico: os estudos da ciência e a etnologia de povos amazônicos. Trata-se de um estudo de antropologia simétrica voltado para a descrição etnográfica de redes sociotécnicas formadas em torno de iniciativas de 'desenvolvimento sustentável' envolvendo, de um lado, comunidades indígenas e tradicionais e, do outro, pesquisadores das áreas de ecologia, agronomia e farmacologia. ¨Tendo como referência a Teoria Ator-Rede, busca-se analisar a relação entre saberes no campo da biodiversidade a partir de uma abordagem ontológica das práticas de conhecimento agenciadas por cientistas, índios e ribeirinhos na concepção dos 'objetos' que circulam nas redes. Esse tema é analisado dentro do contexto histórico marcado pela regulamentação do acesso ao "patrimônio genético" e ao "conhecimentos tradicionais associados". Durante esse percurso, vamos refletir sobre uma série de temas correlatos, como os direitos intelectuais, as formas de repartição de benefícios, os processos de anuência prévia, os encontros e desencontros entre o naturalismo ocidental e o perspectivismo ameríndio, a emergência da categoria de pesquisadores indígenas, a tentativa de formação de uma farmacopeia ribeirinha e o estabelecimento de uma feira e de uma associação de agricultores indígenas" (Texto Contra-Capa).

"A relação de saberes no campo da biodiversidade faz parte da história de contato entre ocidentais, índios e ribeirinhos na Amazônia. Essa relação foi marcada pela violência e a desapropriação de conhecimentos, mas também deu origem a uma série de iniciativas de colaboração 'intercientífica'. Ao final do século XX, o acesso ao 'patrimônio genético' e aos 'conhecimentos tradicionais associados' passou a ser problematizado do ponto de vista ético e político, resultando em iniciativas de regulamentação jurídica, como é o caso da "Convenção sobre a Diversidade Biológica". Este livro busca analisar pesquisas pautadas pela proposta do 'diálogo' entre a ciência ocidental e outras formas de conhecimento não ocidentais sob o efeito da nova legislação, experiência que nos conduz a uma transposição do Grande Divisor 'Tradição/Modernidade' a partir de uma abordagem ontológica das práticas de conhecimento e tradução agenciadas por pesquisadores e comunidades em iniciativas de desenvolvimento sustentável em andamento na Amazônia" (texto orelha).

"Se existem múltiplas ontologias (mundos), o conflito ou acordo entre elas não depende do estabelecimento de um consenso sobre o que existe 'realmente'. O fundamental é indagar se os efeitos pragmáticos das ontologias de nossos 'parceiros' são bons ou ruins para as nossas atividades de habitação. O fato é que algumas ontologias produzem efeitos que não prejudicam a nossa existência e outras geram fenômenos nefastos em nossas vidas. O fundamental, do ponto de vista metodológico, é que não existe uma essência ou princípio universal que possa servir como base para pensarmos essas disputas. Não existe sujeito neutro, assim como não existe ontologia que não seja contingência histórica. O que resta, portanto, é tentarmos entender os efeitos de nossas ideias em nossas vidas e na vida das pessoas com quem nos relacionamos" (Trecho da Introdução).

"Este livro também pode ser entendido como um conjunto de instrumentos e ferramentas conceituais que podem ser agenciadas novamente a partir da tradução realizada pelo leitor, que vem salvar esses escritos da morte e do esquecimento, para colocá-los novamente em movimento, seja através da reformulação crítica ou da simples reprodução. Isso só é possível quando o livro é pensado enquanto uma caixa de armar, múltiplo, fragmentado, como um mosaico de linhas que apontam caminhos divergentes ou convergentes, mas que precisam ser percorridos pessoalmente pelo leitor, para que possam 'viver' novamente em outros contextos discursivos. Uma multiplicidade que não resulta em pluralidade, permitindo - através dos usos e abusos da leitura - a projeção de uma abertura na ordem do pensamento e da linguagem. Com isso, torna-se inútil qualquer tipo de 'mapa para a leitura', já que o mais importante reside na descoberta que se desdobra no percurso do que propriamente na projeção de um ponto final de chegada" (Trecho da Introdução).

"De um lado, nos vemos diante de questões propriamente analíticas. Como conciliar narrativamente na etnografia, com equilíbrio de proporções, pressupostos ontológicos de/e sistemas de conhecimento que, no mundo da vida, se encontram em relação de dominação / subordinação como soem serem os de pesquisadores em farmacognosia e de especialistas em plantas medicinais de comunidades ribeirinhas? Como seguir as operações de mediação, tradução, transformação e domesticação entre ontologias Baniwa e a ecologia das paisagens, por meio de um conjunto de dispositivos de sistematização e formas de agenciamento, nos marcos de uma pesquisa intercultural colaborativa, sem romantizar os conhecimentos nativos nem sobrevalorizar a capacidade de escuta e tradução dos parceiros não índios?

De outro, Diego se põe também o desafio de fazer o seu trabalho incidir em processos políticos contemporâneos. Como tornar o seu argumento e a sua etnografia de algum modo útil para a revisão do marco regulatório e institucional da proteção aos chamados "conhecimentos tradicionais associados" ao patrimônio genético? Que contribuição o trabalho pode oferecer para potencializar os esforços de pesquisas colaborativas interculturais com orientação simétrica?

Foi nesse duplo registro que li o trabalho de Diego: como, simultaneamente, uma projeção epistemológica ousada e inovadora, e como uma tentativa de intervir em temas quentes e atuais. No primeiro registro, testemunhamos Diego navegar numa malha de fluxos e dispositivos (bioprospecção, farmacognosia, etnofarmacologia, laboratórios, protocolos de pesquisa, circuitos de troca, trilhas, transectos, exsicatas, coleções, fotografias, diários de campo, desenhos, mapas...) e num enxame de atividades e materiais (comunidades ribeirinhas e indígenas, fitoterápicos, plantas medicinais, sementes, manivas, biodiversidade, recursos genéticos, curandeiros, pesquisadores indígenas, roças, paisagens...) guiado por um mapa de conceitos (redes sociotécnicas, ontologias, rizomas) que não necessariamente leva aos mesmos lugares. No segundo registro, percebemos um Diego preocupado em intervir nos debates atuais sobre: propriedade intelectual; consentimento livre e informado; repartição de benefícios do acesso à biodiversidade e aos conhecimentos tradicionais associados; e com a formulação de acordos pragmáticos que enfrentem os dilemas do diálogo intercientífico, criando condições de convivência entre distintas ontologias. É nesse emaranhado de linhas (argumentativas, etnográficas e morais) que Diego e o seu trabalho se interconstituem." (Trecho do Prefácio - Henyio Trindade Barreto Filho).    

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Apresentação de Trabalho no GT 17 da 28ª Reunião Brasileira de Antropologia

Entre os dias 02 e 05 de julho, vou participar do GT nº 17 - "Como re-conhecer os impasses do desenvolvimento e do ambientalismo", coordenado por Marta Amoroso (USP) e Stelio Marras (USP) - no âmbito da 28ª Reunião Brasileira de Antropologia, a ser realizada na PUC, em São Paulo. Vou apresentar o trabalho "Redes Sociotécnicas, Práticas de Conhecimento e Ontologias na Amazônia", uma síntese de reflexões desenvolvidas com maior densidade no livro "Redes Sociotécnicas na Amazônia: tradução de saberes no campo da biodiversidade" (versão reduzida e revisada da minha tese de doutorado em antropologia), que também será lançado durante o evento (mais sobre isso em breve).

Segue abaixo o texto de divulgação e a programação completa do GT.

"Pretende-se reunir pesquisas dos mais variados contextos etnográficos que descrevam modos de composição do mundo, mas sem valer-se dos conceitos prematuramente formados de Natureza e Sociedade. A visada simétrica busca evitar tanto a projeção naturalista quanto a relativista nas descrições etnográficas. Os efeitos dessa antropologia simétrica apontam para a renovação do empreendimento comparativo, de maneira a transformar a imagem do ocidental e do não-ocidental, identidade e alteridade. Não se trata mais de partir dos pressupostos estáveis no mononaturalismo (e da sua contraface multiculturalista), mas sim de re-conhecer os fenômenos tal como são compostos ou coletados pelos grupos,  cujas diferenças matriciais não impedem intercâmbios e reapropriações cada vez mais crescentes, entretanto carentes de reflexões refinadas. A crítica antropológica à razão naturalista ocidental que opõe conceitualmente natureza e sociedade (Latour 1991; Descola 1996; Viveiros de Castro 1996) vem propor uma qualificação dos coletivos e suas redes que levem em conta os mais heterogêneos agentes: humanos, entidades, tecnologias. Buscando evidenciar os regimes de relação dos povos indígenas com o meio ambiente, com a sociedade e grupos envolventes, trata-se de uma proposta interdisciplinar que aproxima etnologia, biologia, ecologia política e science studies em busca de alternativas críticas que reflitam sobre o ambientalismo e os impasses do desenvolvimento da cena contemporânea".

Programação do GT 17/28º RBA

03 de julho, Terça-feira

1ª Sessão: Teorias Indígenas e Tradicionais
Local: Sala 43, 2º andar, Prédio Novo (PUC/SP)
Horário: 08-12hrs

Aldeias Guarani Mbya: questões sobre o 'tekoa' e as relações que o formam
Fabio Nogueira da Silva (USP)

Animais e outros seres criáveis: sobre a classificação de organismos vivos entre os Awá-Guajá
Uirá Garcia (UNICAMP)

Entre os yóopinais e a escola. Doenças e indiferenciação na escola Baniwa e Corripaco Pamáali
João Vianna (UFAM) e Luiza Garnelo (ILMD/FIOCRUZ)

Fundamentos orgânicos do saber
Joana Cabral de Oliveira (USP)

O lugar das relações: percepções e posições sobre o 'ambiente'
Priscila Matta (USP)

2ª Sessão: Ambientalismo e Desenvolvimento: controvérsias
Local: Sala 44, 2º andar, Prédio Novo (PUC/SP)
Horário: 08-12hrs

A construção da paisagem pelos Potiguara: do habitar cotidiano à ecologia política
Thiago Cardoso (EntreAmbientes) e Isabel Modercin (UEFS)

Componiendo territorios controvertidos: la instalación de una empresa minera em Wirikuta
Maria Lamberti (Colmex)

Entre as áreas do parque há um Caminho: reflexões sobre um conflito socioambiental em Vitória-ES
Márcio Faria de Freitas (UFES) e Celeste Ciccarone (UFES)

Traduções baniwa da natureza e do meio ambiente em projetos de piscicultura e manejo da pesca
Milena Estorniolo (USP)

Uso e conservação da biodiversidade - entre pressupostos científicos e estratégias de ação
Silva Junior (UNICAMP)

04 de julho, Quarta-Feira

3ª Sessão: Desafios de uma antropologia simétrica
Local: Sala 41, 2º andar, Prédio Novo (PUC/SP)
Horário: 08-12hrs

A onça e o gado: cartografia de uma controvérsia ambiental
Felipe Süssekind (UFRJ)

Natureza, meio ambiente e crise climática: elementos de lutas classificatórias e de distinção social
Gabriel Madureira (UFsCar)

Naturezas esfumaçadas: os Tembé e o mercado de crédito de carbono
Rodrigo Gomes Lobo (USP)

Redes Sociotécnicas, Práticas de Conhecimento e Ontologias na Amazônia
Diego Soares da Silveira (UFU)

Uma análise das representações contemporâneas de natureza na categoria Produto Orgânico
Camila Moreira (UNICAMP)

05 de julho, Quinta-Feira

4ª Sessão: Teorias Indígenas e Tradicionais II
Local: Sala 37, 2º andar, Prédio Novo (PUC/SP)
Horário: 08-12hrs

O terceiro saber: a sinergia entre conhecimento científico e saberes tradicionais
Nelissa Peralta (IDSM) e Deborah Lima (UFMG)

O território em movimento na vila de pescadores da Barra de Ararapira, Ilha do Superagüi (PR)
Juliana Bazzo

Osikirip: explorações Karitiana em torno do "louco", do "especial"
Íris Araújo (USP)

Percepções do ambiente em um quilombo: o conceito de natureza de Mel da Pedreira, Amapá
Angela Steward (IDSM)

Pessoa, hichis e animais para os Chiquitano no Brasil
Verone Cristina da Silva (USP)

Os resumos e trabalhos completos podem ser encontrados no link:
http://sistemasmart.tempsite.ws/rba/

sexta-feira, 22 de junho de 2012

A Rio+20 e a Cúpula dos Povos

Em 1992, quando foi realizado a "Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento", conhecida popularmente como "Eco-92", as noções de 'desenvolvimento sustentável' e 'crise climática', apesar de estarem sob debate desde a década de 1970, eram conhecidas por um seleto grupo de 'especialistas' e 'ativistas' ligados ao movimento ambientalista. Na época, ainda havia uma série de controvérsias científicas em torno da magnitude e das razões do aquecimento global, gerando incerteza e ao mesmo tempo constituindo um espaço de agenciamento governamental dos saberes dos cientistas na luta política e nas batalhas diplomáticas. Apesar das dificuldades, no entanto, foram firmados documentos internacionais importantes, como a Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB) e a Agenda 21, abordando assuntos como a regulamentação do acesso ao patrimônio genético e aos conhecimentos tradicionais, mudança climática, recursos hídricos e segurança alimentar.

Duas décadas depois, o cenário político internacional mudou consideravelmente e a temática do 'desenvolvimento sustentável' se tornou popular entre amplos setores da sociedade civil, dando origem a uma rede de extensão global que envolve um conjunto heterogêneo de organizações civis e governamentais mobilizadas em torno de uma diversidade de projetos e iniciativas. A ideia de 'crise ambiental' foi disseminada amplamente pelos meios de comunicação, através de uma abordagem sensacionalista das catástrofes climáticas. A 'economia verde', por outro lado, foi transformada no novo eldorado do capitalismo internacional com a organização de todo um mercado em torno dessa nova modalidade econômica. Essas 'caixas-pretas' são constantemente abertas, reformuladas, desconstruídas, reformuladas e fechadas novamente, voltando logo depois a reproduzir o mesmo movimento de tradução. Enquanto as controvérsias circulam, elas também se transformam. Independentemente do posicionamento político diante das disputas, havia certa expectativa mais ou menos compartilhada que o evento resultaria na fabricação de novos dispositivos governamentais.  

Mas o resultado das discussões entre diplomatas, burocratas e líderes governamentais, ficou aquém do esperado. O documento é vago, não trata de questões polêmicas e transfere para o futuro o estabelecimento de acordos mais contundentes em torno de compromissos políticos efetivos com o 'desenvolvimento sustentável'. Mais preocupados em calcular com precisão o 'valor econômico' da biodiversidade, os governos buscam mercantilizar e contabilizar o meio ambiente como uma fonte de lucro e não de vida. Com isso, a Rio+20 tornou-se uma espécie de 'mega-show pirotécnico', com muito alarde mas sem efetivar nada de concreto. Preocupados em calcular o preço final da destruição em massa, a definição de 'quem vai pagar a conta' acabou assumindo uma prioridade diante do estabelecimento de metas e compromissos em torno de iniciativas governamentais com efeito prático na vida das pessoas. Nesse processo, a vida é mercantilizada e esquadrinhada na forma de tabelas, gráficos, índices estatísticos e cálculos de contabilidade. Toda uma 'economia do risco' e da 'probabilidade' surge daí, com sua conversão de pessoas em números e de sonhos em possibilidades matemáticas. Masentre a teoria e a prática existe todo um oceano a ser navegado, entre o mapa e a vida existe todo um 'mundo' a ser desdobrado... Como nos diz Bateson, 'o mapa não é o território'...

Salva-se, como sempre, o evento paralelo, organizado por diferentes setores da sociedade civil, que buscam pressionar os governantes a assumir a sua responsabilidade diante da crise ambiental. A 'Cúpula dos Povos' reflete a angústia da sociedade diante do imobilismo dos representantes políticos. Pena que esse movimento de crítica à mercantilização da vida humana e não humana não consiga romper com os muros do Rio Centro. Entre os governos reunidos nas salas climatizadas e o povo que ocupa as ruas da cidade, organizando-se em coletivos mobilizados em torno do valor da vida, existe uma distância quase intransponível entre dois mundos (ou ontologias) completamente diferentes: de um lado, o 'mundo da vida'; do outro, o 'mundo da economia política'. A linguagem conceitual utilizada pelos burocratas - baseada na noção de 'população' como um objeto governamental e na lógica da soberania política e da competição internacional - não corresponde a linguagem dos povos, voltada para a manutenção dos meios fundamentais para a continuidade da vida na terra. Entre esses dois universos conceituais, existe todo um caminho repleto de obstáculos a ser percorrido e a tarefa exige esforços de ambas as partes. 


E as 'vozes subalternas', para usar uma expressão cunhada por Foucault, estão disseminadas por toda parte, ocupando espaços inusitados, convertendo o sentimento de angústia em um grito de luta, que ressoa também nos gabinetes governamentais. O povo nas ruas exige atitude, compromisso e ação concreta dos representantes políticos, que insistem em colocar a contabilidade acima de todos os demais saberes. O que vemos claramente a partir desse 'evento crítico' é a explicitação de uma crise da democracia ocidental, marcada por uma falência dos dispositivos de 'representatividade', a partir do estabelecimento de uma distância entre o que determina a vontade popular e o que estabelece a decisão dos governantes. Enquanto os países desenvolvidos e em desenvolvimento investem bilhões na busca de uma solução para a crise financeira internacional, transferindo grande parte de suas economias para os bancos e fundos financeiros, recusam-se a fazer o mesmo em relação ao meio ambiente e a vida.  


Talvez estejamos próximos de repetir na vida a cena retratada no livro de Saramago, "Ensaio sobre a Lucidez", quando os cidadãos resolvem, inesperadamente, dar um basta no 'circo democrático' votando em branco nas eleições. 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Senado aprova criação de 20 mil cargos para professor de nível superior

No último dia 30 de maio, o plenário do Senado aprovou o projeto de lei nº 36 de 2012, que prevê a criação de 20 mil cargos de professor de nível superior. A notícia foi bem recebida pelos professores, pois está associada a uma das principais demandas do atual movimento grevista, que luta também pela melhoria das condições de trabalho e infra-estrutura universitária, principalmente, diante da política de expansão das vagas e cursos nas universidades federais. A maior parte desses cargos visam o preenchimento de vagas em cursos e universidades recém criadas no âmbito do REUNI. Resta agora observar de perto como essas vagas serão distribuídas...

O projeto agora deve ser aprovado pela presidenta, que enfrenta uma greve docente em nível nacional.      

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O Salário dos Docentes das Universidades Federais

Em um contexto de greve dos docentes das universidades federais é importante refletirmos sobre a situação salarial dos professores, tendo em vista que esta é uma das demandas do movimento grevista. Atualmente, o salário de um professor de início de carreira com graduação (categoria 'auxiliar'), com regime de dedicação exclusiva (DE), correspondente ao menor nível salarial da categoria, é de R$ 2.762,36. Já um professor de início de carreira com doutorado (categoria 'adjunto'), com DE, é de R$ 7.333,67. E por fim, o maior nível remuneratório, corresponde ao professor com doutorado (DE), nível associado IV, chega a R$ 11.755,05. Esses valores são referentes ao vencimento básico + GEMAS + Retribuição por Titulação (RT).

Para termos uma ideia aproximada do quanto esses salários estão defasados, basta compararmos esse valor com o salário de alguns cargos federais:

Oficial de Inteligência da ABIN: R$ 12.960,86 (nível remuneratório inicial) - R$ 18.400,00 (final)
Defensor Público da União / Procurador Federal: R$ 14.970,60 (inicial) - 19.451,00 (final)
Auditor da Receita Federal: Idem.
Diplomata: R$ 12.962,12 - R$ 18.478,45
Pesquisador/Analista do Ministério da Ciência e Tecnologia: R$ 8.146,87 - R$ 12.786,32
Advogado do Senado: R$ 23.826,57 (inicial)
Analista / Técnico do Legislativo: R$ 18.440,64 (inicial)
Auxiliar Legislativo: R$ 10.241,36
Juízes Federais: R$ 22.911,74 (nível inicial)
Deputado Federal: R$ 26.763,13 (inicial) + R$ 60.000,00 (Verba Adicional)
Deputado Estadual: R$ 12.500,00 (inicial) + Verba Adicional
Presidente da República: R$ 26.700,00

Como podemos ver na listagem acima, o salário atual dos professores das universidades federais está bem abaixo da média salarial de outros cargos federais, com destaque especial para os cargos de auxiliar legislativo e oficial da ABIN (pois ambos exigem o nível de graduação para ingresso na carreira) e para analista do MCT (com nível de doutorado, mas com remuneração bem superior aos professores com mesmo nível educacional). Essa disparidade salarial reflete o espaço secundário que a educação sempre recebeu na agenda política do governo federal. Tendo em vista que um professor com nível de doutorado investe no mínimo 12 anos em formação acadêmica (graduação + mestrado + doutorado), na maior parte das vezes contando com auxílio do governo federal (bolsas etc.), o seu salário inicial não deveria estar abaixo do salário de um analista do legislativo (com nível de graduação).

Além do mais, não podemos deixar de avaliar a importância da função associada ao cargo, pois um docente de nível superior é responsável pela formação de milhares de pessoas durante a sua carreira. E olha que estamos falando do salário dos professores de 3º grau... Pois os professores de nível básico e médio recebem um salário mais miserável ainda.

Mas a maior indignação surge quando vemos o quanto o governo federal gasta por mês com cada senador:

Salário: R$ 26.723,13
Auxílio Moradia: R$ 3.750,00
Verba Indenizatória + Passagens: R$ 21.000,00 (inicial), podendo chegar a R$ R$ 44 mil.
Verba de Gabinete: R$ 80 mil

TOTAL: R$ 131.473,13 (X 81 = R$ 10 milhões por mês, sem falar nos senadores aposentados...)

Mesmo diante de gastos tão altos, o senado aprovou recentemente um aumento do salário dos senadores em nada menos do que 61,8%! Por outro lado, a demanda dos professores por um aumento de 14% no vencimento básico é tratada pelo governo federal como 'incoerente' diante do contexto de crise financeira internacional... Estamos diante da velha história: 'dois pesos, duas medidas'...  

Como diria o Professor Raimundo, 'enquanto isso, o nosso salário ó'....

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