terça-feira, 2 de agosto de 2011

Redes Sociotécnicas, Práticas de Conhecimento e Ontologias na Amazônia

O dia da defesa está se aproximando. Estou disponibilizando logo abaixo o sumário da tese para quem quiser se informar um pouco mais sobre a pesquisa. Em linhas gerais, a tese foi concebida a partir de uma interface entre a antropologia da ciência e a etnologia, tendo como tema o contexto histórico da regulamentação das pesquisas e iniciativas tecnológicas no campo da biodiversidade e dos conhecimentos tradicionais.

A proposta inicial foi abordar a forma como está ocorrendo o chamado "diálogo" entre as ciências ocidentais e os chamados "conhecimentos tradicionais" sob o novo contexto da regulamentação, marcado por uma problematização ética e política dessa relação. Após realizar um levantamento inicial no Conselho de Gestão do Patrimônio Genético - órgão do governo federal responsável por conceber e aplicar as novas diretrizes jurídicas nessa área - selecionei duas iniciativas para acompanhar em campo, ambas desenvolvidas na Amazônia. 

Uma dessas iniciativas foi abordada na primeira parte da tese. Trata-se de uma pesquisa realizada por uma rede de laboratórios de farmacologia da Universidade Federal do Amazonas, envolvendo a coleta de plantas medicinais e conhecimentos associados em uma comunidade ribeirinha, tendo como objetivo a concepção de fitoterápicos, medicamentos e outros produtos naturais. Trata-se da primeira iniciativa de bioprospecção envolvendo acesso à biodiversidade e aos chamados "conhecimentos tradicionais associados" autorizada pelo governo brasileiro. A escolha desse caso também se justifica pelo fato das pesquisas na área de produtos naturais ser um dos setores científicos mais diretamente envolvidos com a problemática da regulamentação. 

A outra iniciativa, abordada na segunda parte, envolve duas pesquisas realizadas pelo Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN): um projeto sobre agrobiodiversidade em São Gabriel da Cachoeira e arredores; e outro sobre "paisagens ecológicas" entre os índios Baniwa do rio Içana. Os dois projetos integram o "Programa Rio Negro" e estão associados a um conjunto de "pesquisas interculturais" e desenvolvimento sustentável em andamento na região noroeste da Amazônia. Essas iniciativas compartilham a proposta de uma "metodologia participativa" e envolvem a atuação de pesquisadores indígenas nas etapas de coleta e sistematização de dados. A escolha dessa iniciativa se justifica porque os projetos na área de desenvolvimento sustentável - envolvendo a parceria entre ONGs ambientalistas e organizações indígenas - constituem um setor de pesquisa bastante envolvido nos debates sobre regulamentação. 

Na tese, busco descrever as práticas de conhecimento dos cientistas e das comunidades; e a sua relação com os objetos dessas pesquisas: em linhas gerais, plantas, lugares e saberes associados. Tendo como referência uma abordagem ontológica das práticas de conhecimento - inspirada pelos trabalhos de autores como Heidegger, Merleau-Ponty, Ingold, Law, Latour e Mol - busco descrever a relação dos diferentes coletivos envolvidos nessas iniciativas com os objetos de conhecimento, buscando entender como essas múltiplas ontologias entram em relação nessas iniciativas através de uma série de práticas de tradução (entendida à luz da Teoria Ator-Rede).

Essa discussão das práticas de conhecimento também envolveu uma interlocução com a noção de habitus em Bourdieu e Mauss; assim como uma reflexão sobre o fenômeno histórico do objetivismo científico e a sua relação com modos de subjetivação no campo das ciências e dos conhecimentos tradicionais a partir de um diálogo com o trabalho de Ian Hacking, Daston e Galison. 


A descrição das práticas de conhecimento dos ribeirinhos e dos índios envolvidos nessas iniciativas levou a uma discussão sobre o perspectivismo e o multinaturalismo (Viveiros de Castro), iluminada pelas formas que esses coletivos agenciam a relação com os pesquisadores e com o discurso científico, dando origem a fenômenos como a feirinha de comercialização de produtos agrícolas e a farmácia ribeirinha. Também abordei a emergência da categoria de "pesquisadores indígenas" como uma forma de agenciamento e domesticação dos pesquisadores brancos e seus conhecimentos e instrumentos de pesquisa.    

Na tese, também desenvolvo algumas reflexões sobre a noção de "redes sociotécnicas" tendo como ponto de partida uma série de problematizações teóricas e metodológicas próprias dos estudos da ciência e da "Teoria Ator-Rede" ("Actor-Network Theory"). Essas reflexões são desenvolvidas a partir de um diálogo com noções cunhadas por Deleuze e Guattari na obra "Mil Platôs" - rizoma, sistemas arbóreos, devir, linhas de fuga e desterritorialização, espaço liso e estriado e ciências nômade e de Estado -, tendo como cenário as formas de ordenação e coordenação das redes colocadas em prática pelos diferentes coletivos que atuam nessas iniciativas.      

O tema da regulamentação foi retomado nos dois capítulos da terceira parte - que reúne as conclusões finais da tese - a partir de uma interlocução com a noção de governamentalidade em Foucault e outros estudos mais contemporâneos sobre as formas modernas de governo e a sua relação com o discurso científico. Neste trecho final, também desenvolvi uma reflexão sobre os principais instrumentos da regulamentação, como é o caso dos dispositivos de consentimento informado e repartição de benefícios, tendo como referência a forma como esses instrumentos foram agenciados nas duas iniciativas.        

Após a defesa, vou montar uma nova página aqui com informações mais detalhadas sobre o trabalho. Assim que a versão mais definitiva estiver pronta (pós-banca), pretendo disponibilizar o texto final no blog. A proposta é, caso possível, tentar publicar a tese em livro ainda em 2012. 

Só relembrando, a defesa está marcada para o dia 04 de agosto, as 14 horas, no Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília. A banca é presidida pela Profª. Marcela Coelho de Souza e composta pelos professores: Claudia Fonseca, Mauro W. B. de Almeida, Henyo Barreto Trindade Filho e Guilherme J. da Silva e Sá. Segue abaixo o sumário da tese.

REDES SOCIOTÉCNICAS, PRÁTICAS DE CONHECIMENTO E ONTOLOGIAS NA AMAZÔNIA: TRADUÇÃO DE SABERES NO CAMPO DA BIODIVERSIDADE
SUMÁRIO
PARTE I
CAPÍTULO I - BIOPROSPECÇÃO DE PLANTAS MEDICINAIS AMAZÔNICAS E A PRODUÇÃO DE FITOTERÁPICOS: FARMACOGNOSIA, REDE E ONTOLOGIA, 44
1. A Etnofarmacologia e o Projeto da Farmacognosia, 44
2. Identificação de espécies amazônicas como potenciais fitoterápicos, 49
    2.1. Por uma ciência amazônida, 51  
   2.2. Traduções e agenciamentos científicos: o processo de construção de um laboratório de plantas medicinais amazônidas, 54
3. Redes Sociotécnicas na Amazônia: farmacognosia, bioprospecção e fitoterápicos, 59
4. Plantas medicinais, conhecimentos tradicionais e fitoterápicos: pressupostos ontológicos, 68
    4.1. A planta medicinal, a farmacognosia e o ideal da multidisciplinaridade, 68
    4.2. O valor econômico e humanitário da biodiversidade e dos conhecimentos tradicionais e o risco de erosão, 71
    4.3. A cadeia produtiva de fitoterápicos: aproximação com a indústria e geração de renda, 74
5. Objetivismo científico e farmacognosia: o mundo-das-substâncias, 75
CAPÍTULO II - PRÁTICAS DE CONHECIMENTO NO LABORATÓRIO: DA PLANTA AO FITOTERÁPICO, 83
1. A coleta das plantas na Comunidade Nossa Senhora de Nazaré, 85
2. O levantamento etnofarmacológico: tradução e objetivação científica dos conhecimentos tradicionais associados às plantas medicinais, 88
3. As práticas científicas na bancada e o processo de transformação da planta em fitoterápico, 95
    3.1. O laboratório Planta-Piloto: secagem e processamento, 95  
    3.2. O laboratório de Fitoquímica: cromatografia, fracionamento e produção de extratos, 96
    3.3. O laboratório de Bioquímica: testes de bioatividade in vitro, 102
    3.4. O Biotério: testes de bioatividade in vivo, 107    
4. Formas de conhecimento no laboratório: práticas de ordenação, distribuição e objetivação científica, 110
     4.1. Reproduzindo o protocolo na bancada: temporalidade e conhecimento, 111
     4.2. Formas de Classificação: espacialidade e conhecimento, 116
  4.3. A relação dos pesquisadores com os actantes e o habitus laboratorial: objetivação científica formas de visualização dos dados e práticas de tradução, 120
CAPÍTULO III - HABITUS RIBEIRINHO, REDES COMUNITÁRIAS E PLANTAS MEDICINAIS, 127    
1. A Comunidade Nossa Senhora de Nazaré, 127
2. Ontologia e Plantas Medicinais: formas ribeirinhas de conhecer, falar e usar as plantas, 133
     2.1. O Mundo do Quintal: universo feminino e a poética do cuidado, 134 
     2.2. O Mundo da Mata: universo masculino e a poética da valentia, 141
     2.3. O Mundo do Curandeiro: hibridismo e a poética da tradução/transformação, 145
3. Redes Ribeirinhas e a Circulação de Plantas e Conhecimentos Medicinais, 149
4. Sazonalidade, Habitus Ribeirinho e Plantas Medicinais, 155
5. A "Farmacinha Ribeirinha": resiliência, tradução e agenciamento, 159

PARTE II
CAPÍTULO IV - AGROBIODIVERSIDADE, PAISAGENS E PESQUISA INTERCULTURAL NO ALTO RIO NEGRO: SOCIOAMBIENTALISMO, REDE E ONTOLOGIA, 168
1. O Socioambientalismo e o diálogo entre conhecimentos científicos e tradicionais no final do século XX, 168
2. O Instituto Socioambiental, o Programa Rio Negro e a Rede ISA/FOIRN, 173
3. Agrobiodiversidade e inventário de Paisagens Baniwa: pressupostos ontológicos, 181
     3.1. Mandioca, Agrobiodiversidade, Urbanização, Redes Sociais e Risco de Erosão, 184
     3.2. Trilhas, Conhecimentos e Paisagens Baniwa, 193
CAPÍTULO V - PRÁTICAS DE REGISTRO DA SOCIOBIODIVERSIDADE: A TRADUÇÃO/TRANSFORMAÇÃO DOS CONHECIMENTOS TRADICIONAIS EM DADOS CIENTÍFICOS, 199
1. As Expedições de Campo e os Aparelhos de Registro da Sociobiodiversidade, 200
     1.1. Entrevistas, Questionários e Cadernos de Anotação, 202
     1.2. Transectos, Coleções e Fotografias, 207
2. Os Aparelhos de Sistematização e Visualização da Sociobiodiversidade, 210
      2.1. Cartografia, 212
      2.2. Softwares, Banco de Dados e Diagramas, 215
3. Os "Pesquisadores Indígenas": formação, tradução e mediação cultural, 221
      3.1. As atividades de formação em técnicas de pesquisa: a produção do diálogo intercultural, 223
      3.2. Da pesquisa 'sobre' os índios para a pesquisa 'dos' índios, 226
4. Ontologias e Temporalidades: ciências e engajamento político-comunitário, 227
5. O Mapeamento do Mundo: a ciência enquanto máquina de tradução, 232
CAPÍTULO VI - ONTOLOGIAS AMERÍNDIAS E PRÁTICAS DE CONHECIMENTO NO ALTO RIO NEGRO, 237
1. Percorrendo as trilhas comunitárias, 240
2. O Mundo da Roça, 244
    2.1. A Origem das Manivas e o Mundo dos Ancestrais, 244
    2.2. Práticas de Conhecimento na Roça, 247
3. A história da pimenta, 251
4. Ontologias Ameríndias no Alto Rio Negro: múltiplos corpos-mundos, 255
CAPÍTULO VII - AGENCIAMENTOS INDÍGENAS DA PESQUISA "AGR-ARN": A FORMAÇÃO DA FEIRA E DA ASSOCIAÇÃO CULTURAL DOS AGRICULTORES INDÍGENAS "DIRETO DA ROÇA", 263
1. A Feira "Direto da Roça", 267
2. A maloca em dia de festa, 270
3. Associativismo, demandas políticas e valores comunitários, 275
    3.1. Assembléias e demandas da Associação, 279
    3.2. Valores Comunitários e a "chefia da maloca", 283
4. Devir-índio e Devir-Branco no Contexto Urbano: entre a festa, a feira e o associativismo, 285
CAPÍTULO VIII - OS "PESQUISADORES INDÍGENAS": DOMESTICANDO OS CONHECIMENTOS E A TECNOLOGIA DO BRANCO, 290
1. Pesquisadores Indígenas no Alto Rio Negro: diferentes trajetórias e gerações, 292
    1.1. Primeira geração: de liderança indígena a pesquisador, 293
    1.2. A geração intermediária: de pesquisador à liderança comunitária, 296
    1.3. A terceira geração e a institucionalização da pesquisa nas escolas indígenas, 299
2. Formas de Agenciamento da Pesquisa (pelos pesquisadores nativos), 301
     2.1. A Pesquisa Indígena enquanto saber-fazer, 301
     2.2. A Pesquisa Indígena enquanto domesticação da alteridade, 304
3. Os Conhecimentos e as mercadorias do branco nas Ontologias Indígenas do Alto Rio Negro: alteridade, risco e domesticação, 308

PARTE III
(CONSIDERAÇÕES FINAIS)
CAPÍTULO IX - PRÁTICAS DE CONHECIMENTO, ONTOLOGIAS E TEMPORALIDADES: ACORDOS PRAGMÁTICOS E OS DILEMAS DO "DIÁLOGO", 318
1. Múltiplas Práticas de Conhecimento, Múltiplos Mundos, 318
2. Ontologias e Temporalidades, 325
3. Múltiplas formas de pensar/viver o "diálogo" entre conhecimentos na prática, 337
4. Propriedade intelectual, Consentimento Informado e Repartição de Benefícios, 341
5. Acordos pragmáticos: convivência ou conflito de ontologias, 352
CAPÍTULO X - REDES SOCIOTÉCNICAS NA AMAZÔNIA: MÚLTIPLAS ONTOLOGIAS-TOPOLOGIAS, 359
1. Rizomas e Árvores, 359
2. Ciências Nômades e Ciências de Estado, 368
3. Ontologias e Topologias, 374
4. Alfândegas: governamentalidade, regulamentação e ontologia, 387
REFERÊNCIAS BIBIOGRÁFICAS, 399
APÊNDICES, 425
ANEXOS, 464

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Ciência na Vida: antropologia da ciência em perspectiva


Para quem está ligado na antropologia da ciência, vale apena conferir o evento abaixo, que será realizado na UFRGS, em Porto Alegre, a partir do dia 10 de agosto.

"Ciências na vida: a antropologia da ciência em perspectiva"
Local: Auditório do ILEA, Campus do Vale - UFRGS, Porto Alegre/RS 

Programação

10 de agosto 
18-20:30hrs - MESA 01
Antropologia e Ciência no Brasil: a construção de um campo
Sérgio Carrara (UERJ)
Guilherme da Silva e Sá (UnB)
Claudia Fonseca (UFRGS)

11 de agosto 
09-12hrs - MESA 02
Produção de conhecimento e suas articulações heterogêneas
Rogério Azize (CLAM/UERJ)
Fabíola Rohden (UFRGS)
Daniela Mânica (UFRJ)
Daniela Knauth (UFRGS)

13:30-17:30 - MESA 03
Globalização, direito e regulação
Ondina Fachel Leal (UFRGS)
Adriana Petryna (University of Pennsylvania)
João Biehl (Princeton University)

12 de agosto
09-12hrs - MESA 04
Medicalização e gerenciamento dos corpos
Ilana Löwy (CERMES-França)
Lilian Chazan (CLAM/UERJ)
Martha Ramírez (UEL)
Paula Sandrine Machado (UFRGS)

13:30-17:30hrs - MESA 05
Genética e novos modos de ver e intervir da ciência
Marklo Monteiro (UNICAMP)
Helena Machado (Universidade do Minho, Portugal)
Sahra Gibbon (University College of London)
Michel Kant (University of Manchester) 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Espelho Mágico - Mario Quintana

DA OBSERVAÇÃO

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...

DO ESTILO

Fere de leve a frase... E esquece... Nada
Convém que se repita...
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.

DAS BELAS FRASES

Frases felizes... Frases encantadas...
Ó festa dos ouvidos!
Sempre há tolices muito bem ornadas...
Como há pacóvios bem vestidos.

DO CUIDADO DA FORMA

Teu verso, barro vil,
No teu casto retiro, amolga, enrija, pule...
Vê depois como brilha, entre os mais, o imbecil,
Arredondado e liso como um bule!

DOS MUNDOS

Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo...
Decerto não gostou lá muito do que via...
E foi logo inventando o outro mundo.

DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que triste os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

DO SABOR DAS COISAS

Por mais raro que seja, ou mais antigo,
Só um vinho é deveras excelente:
Aquele que tu bebes calmamente
Com o teu mais velho e silencioso amigo.

Mario Quintana é simplesmente sensacional! Sem a menor dúvida, um dos melhores poetas da língua portuguesa. Pela sabedoria de saber-fazer uma poesia mundana, voltada para o estranhamento poético dos pequenos eventos cotidianos, que são transformados pelo olhar sensível e pelo ritmo sutil de uma poesia pequena, minuciosa, cotidiana.

E dizer que Mario teve sua candidatura negada pela Academia de Letras. Mais tarde, ao final da vida, quando já era um poeta consagrado nos circuítos nacionais e internacionais, a Academia enviou-lhe um convite, o qual foi recusado. Se os doutores podiam viver sem sua poesia, certamente, ela também poderia entrar para a história sem o peso de uma instituição que tão generosamente integrou políticos habituados na terrível arte de enganar e roubar o povo brasileiro.

É porque, de fato, o poeta sabe mais sobre a linguagem do que o melhor dos especialistas em linguística. É porque a linguagem não é algo passível de ser abstraída como um jogo matemático, mas algo que evoca o mundo da existência, apontando para o exercício cotidiano de habitação e convivência com as entidades que valorizamos e que requerem nossa atenção e cuidado. Como diria Heidegger, para apreender a essência da linguagem (seja ela qual for), não pergunte aos matemáticos da linguística, mas aos poetas, esses sim sabem experimentá-la na prática!        

    

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Tese entregue, Banca marcada para 04 de agosto


Entreguei ontem a versão da tese para a banca, composta pelos professores Claudia Fonseca, Mauro Almeida, Henyo T Barreto Filho e Guilherme da Silva e Sá. A defesa está marcada para o dia 04 de agosto, as 14hrs, no Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília.

O título do trabalho é:

Redes Sociotécnicas, Práticas de Conhecimento e Ontologias na Amazônia: tradução de saberes no campo da biodiversidade.

Orientadora: Marcela Coelho de Souza
Co-Orientador: Paul E. Little

Trata-se de uma etnografia em rede, constituindo-se como uma tentativa de estabelecer uma interface entre a antropologia da ciência e a etnologia, tendo como cenário etnográfico duas iniciativas de pesquisas na área de biodiversidade e conhecimentos tradicionais, ambas envolvendo o encontro entre cientistas, índios e ribeirinhos e a proposta do estabelecimento de um “diálogo de saberes”. Os dois projetos foram autorizados pelo Conselho de Gestão do Patrimônio Genético e estão inseridos no contexto histórico de problematização do acesso aos recursos genéticos e aos chamados "conhecimentos tradicionais associados". 

A discussão mais geral envolve uma abordagem ontológica das formas de conhecimento científicas, indígenas e ribeirinhas, com enfase na maneira como esses diferentes coletivos conhecem os objetos que circulam nessas iniciativas e pensam a relação entre saberes no campo da biodiversidade. As palavras-chave mais importantes são: ontologia; práticas de conhecimento; tradução; redes sociotécnicas; objetivismo científico; perspectivismo; governamentalide; modos de objetivação e subjetivação.      

A primeira parte da tese é sobre um projeto na área de plantas medicinais e fitoterápicos envolvendo uma equipe de farmacêuticos de uma universidade federal do Amazonas e uma comunidade ribeirinha do Alto Amazonas. Busquei seguir todo o ciclo de produção científica que tem início com a coleta das plantas na comunidade até a sua transformação em extratos e produtos naturais. Também busquei contrapor essa forma científica (e farmacêutica) de conhecer e transformar as plantas medicinais e a maneira como os ribeirinhos conhecem as plantas na comunidade.   

A segunda parte é sobre duas pesquisas na área de desenvolvimento sustentável envolvendo pesquisadores do Instituto Socioambiental e organizações e povos indígenas do Alto Rio Negro. Busquei descrever o ciclo de produção científica que tem início com a coleta de dados nas comunidades indígenas e finaliza com a sistematização desses dados nos escritórios do ISA. Também busquei contrapor a forma como índios e pesquisadores abordam os dois objetos dessas iniciativas: a agrobiodiversidade e as "paisagens florestais".  

Na terceira e última parte busco tecer associações entre esses dois universos, tendo como cenário histórico mais amplo o processo de regulamentação do acesso ao “patrimônio genético” e aos “conhecimentos tradicionais associados”.  O tema de destaque nesta parte é a problematização política e ética das relações de saberes na área de biodiversidade, envolvendo temas como "repartição de benefícios", "consentimento prévio e informado" e "propriedade intelectual" (entre outros).    

 Ainda volto a escrever sobre a tese no blog, em uma postagem específica de divulgação. Por ora, só queria mesmo comunicar o término da escrita e a entrega da tese para a banca. Agora fica faltando a etapa final e derradeira: a defesa!   
   
Nem acredito que finalizei tudo em tempo. Os últimos cinco anos foram de dedicação exclusiva ao doutorado. Lembro como se fosse hoje quando cheguei à Brasília, em março de 2007, sem conhecer a cidade e estranhando muito a arquitetura urbana da capital. Tive a sorte de contar com a recepção e o acolhimento de amigos e colegas, que tornaram a minha estadia nesta cidade e na UnB muito agradável. A tese é o resultado do apoio e parceria de inúmeras pessoas que estiveram ao meu lado nos últimos cinco anos. Gostaria de agradecer em especial aos colegas, funcionários e professores do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UnB, com quem tive a oportunidade de conviver nos últimos cinco anos; aos pesquisadores do ISA e da UFAM; e aos ribeirinhos de N. S. de Nazaré e às lideranças e agricultores indígenas de São Gabriel da Cachoeira (ARN). 

Tendo finalizado a escrita da tese, aos poucos pretendo retomar o projeto do blog. Acredito, no entanto, que isso só irá ocorrer com mais intensidade a partir de agosto, após o rito final. Até lá ainda estarei envolvido com a preparação para a defesa.    

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Organismo + Ambiente - Gregory Bateson

"A unidade fundamental da sobrevivência é organismo+ambiente e não organismo Vs. ambiente. Quando percebemos isso, as nossas noções de adaptação e propósito mudam radicalmente" - Gregory Bateson, Steps to an Ecology of Mind (1972)






FOTOS: São Gabriel da Cachoeira, Alto Rio Negro (AM) - Brasil 

terça-feira, 31 de maio de 2011

Índio - Caetano Veloso

Na vida, nossas convicções, crenças e  idéias são valores inestimáveis que ninguém, por mais poderoso que seja, poderá destruir ou silenciar. É aquilo que levamos com nós, ao nosso lado, logo a frente, como um horizonte que se abre para que possamos efetivar nossos projetos e sonhos. É assim que plantamos as pequenas sementes que dão frutos valiosos e duráveis. Afinal, conforma já disse muito melhor Eduardo Galeano, para que serve a utopia se não para nos mostrar um caminho, um horizonte para onde podemos apontar nossos passos e orientar nossa vontade.    


sábado, 28 de maio de 2011

Cidadãos da Mata - Baianos e os novos Caetanos

Está é direto do túnel do tempo. Uma fase nem tanto conhecida de Chico Anysio (o cabeludo do lado direito). Em defesa dos nossos cidadãos da mata! 

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Não deixe o samba morrer - Alcione




Não deixe o samba morrer
Não deixe o samba acabar
O morro foi feito de samba
De Samba, prá gente sambar...



Quando eu não puder
Pisar mais na avenida
Quando as minhas pernas
Não puderem agüentar
Levar meu corpo
Junto com meu samba
O meu anel de bamba
Entrego a quem mereça usar...(2x)

Eu vou ficar
No meio do povo, espiando
Minha escola
Perdendo ou ganhando
Mais um carnaval
Antes de me despedir
Deixo ao sambista mais novo
O meu pedido final...

Antes de me despedir
Deixo ao sambista mais novo
O meu pedido final...

Não deixe o samba morrer
Não deixe o samba acabar
O morro foi feito de samba
De Samba, prá gente sambar...(2x)
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